Que o Espírito de Ionia Guie os Seus Passos

1 Que o Espírito de Ionia Guie os Seus Passos


Notas iniciais
A história foi inspirada em um trailer de Honor of Kings.

A névoa baixava sobre a floresta ancestral de Ionia, envolta no sussurro dos mortos que ainda se agarravam ao mundo dos vivos.

Diante de uma árvore de folhas carmesim, entre as raízes manchadas de sangue, estava um espírito, composto por uma massa de energia oscilante, moldada vagamente na silhueta de um humano. Chamas frias, em tons azuis, violeta e prata pálida dançavam suavemente ao longo de seu contorno. Não havia olhos em seu rosto, apenas duas fendas luminosas, translúcidas, observando algo que só fantasmas poderiam ver... uma memória? Ou seria arrependimento?

Por dias, aquela alma vagava inquieta, teimando em permanecer, perturbando o equilíbrio entre os mundos. A sua presença despertou algo que estava adormecido na escuridão.

As sombras nas árvores começaram a se mover, escorrendo densas pelos troncos, infiltrando-se na terra úmida, retorcendo e tomando a forma de um guerreiro, o Vulto Flamejante, Zed. O corpo dele parecia ter sido esculpido pela própria noite. Seus olhos azuis observavam a alma com a frieza de quem já viu muitos mortos, e causou muitos mais. Zed avançou sem ruído, dissolvendo-se nas sombras, reaparecendo atrás do alvo, expondo as lâminas afiadas deslizando lentamente pelas manoplas. Um único golpe, e tudo terminaria.

O espírito não reagiu. Talvez não pudesse. Talvez soubesse que o fim se aproximava.

Ao longe, um silvo, a princípio sutil, cresceu com urgência.

Zed girou ágil e controlado, bloqueando o ataque da esfera mágica com as lâminas, emitindo um estalo metálico, causado pela breve explosão de faíscas arcanas.

Foi então que o ar vibrou, de forma estranha.

As pétalas das flores adormecidas sobre a terra, foram arrastadas por uma força invisível, se erguendo no ar, girando rapidamente entre si, criando um grande redemoinho, trazendo de seu interior o Espírito da Liberdade, Syndra.

- Observando todos os aspectos do mundo dos mortais, lidando com os mortos cujo espíritos vagam presos a um passado que já não existe... – a voz dela ecoou persuasiva, envolvente, quase hipnótica. Os olhos fixos em Zed, desceram até a alma oscilante. – Esse habitante morreu, mas ele permanece no mundo dos mortais porque queria se despedir do amor de sua vida. – explicou, caminhando com passos lentos. – Um sentimento tão forte como esse, não se corta com uma lâmina. Somente quem criou o vínculo pode rompê-lo.

Syndra sorriu, enigmática, parando a poucos passos de Zed, o suficiente para que ele sentisse a pressão do seu poder contido.

- Vulto Flamejante, é realmente necessário levá-lo tão cedo?

Antes que Zed pudesse articular a sua resposta fria e impessoal, Syndra deslizou o braço por dentro da manga do kimono e retirou um colar simples, um fio de prata com uma pedra azul pendurada. Ela lançou o colar no ar, envolvendo o objeto em uma esfera de energia, a enviando para o outro lado.

O espírito, quieto, como uma estátua esquecida pelo tempo, despertou do sono profundo. Seus traços de cores frias foram preenchidos por um brilho fugaz, quente e vívido. Completamente hipnotizado, ele se virou sem hesitação, seguindo o objeto, deixando rastros cinzas de luz se desvanecendo.

Zed deu um passo à frente, e o ar ao seu redor brilhou, materializando diversas borboletas arcanas, flutuando a centímetros do seu rosto, o impedindo de avançar. Surpreso, ele recuou, afastando as borboletas como se fossem moscas inconvenientes.

- Não precisa ter pressa. – Syndra apareceu flutuando graciosamente ao lado de Zed. – Ele só está com saudade de alguém.

Quando enfim as borboletas se dissiparam em uma cortina de poeira luminosa, Zed percebeu que já era tarde. A alma tinha desaparecido entre as árvores da floresta. Portanto, ele relaxou levemente a postura, mas não guardou as lâminas.

- O que está fazendo aqui? – perguntou Zed. – O seu templo fica do outro lado da ilha.

- Coincidência. Estava apenas caminhando... E senti uma perturbação no ar. Imaginei que fosse você, como sempre, obstruindo o caminho com essas sombras inquietas.

- Não acredito em coincidências. – olhou desconfiado para ela. – Você não faz algo por acaso.

- Que paranoico. – Syndra ergueu uma sobrancelha, fingindo estar surpresa. – Acho que você precisa descansar um pouco. Os espíritos estão te deixando tenso demais.

- Volte para o seu templo, Syndra. Não deveria estar aqui. – Zed virou as costas, seguindo adiante. – Aquele espírito não merece redenção.

- A sua percepção é tão limitada. Acredita estar vendo o todo, quando na verdade, só está vendo uma fração.

- Eu sei bem quem ele era. – parou, voltando a sua atenção para Syndra. – Um guerreiro, um rebelde, que fugiu da guerra e traiu as ordens do seu mestre.

- Não pode culpá-lo por ter medo da morte.

- É meu dever...

- Destruí-lo? – ela o interrompeu.

Zed riu, baixo, sem humor. As suas sombras se agitaram, rastejando rapidamente pelo chão, avançando em Syndra, ondulando ameaçadoras ao redor dela.

- Você interferiu.

- Não. Eu o libertei da sua raiva.

Syndra desceu ao solo, suave como uma folha. A postura impecável. O queixo ligeiramente erguido. O olhar tingido de desprezo, observando a sombra roçar em seu ombro a energia fria e viscosa. Ela exalou pela boca um breve sopro, desfazendo a sombra em partículas escuras de névoa.

- O equilíbrio exige que até os mortos aceitem sua partida. – disse Zed, recitando um juramento antigo.

- E o equilíbrio exige compaixão também. – o tom de voz dela se tornou mais incisivo. – Você esqueceu o que é isso, ou só decidiu ignorar?

O silencio entre eles foi preenchido pelo som suave das folhas caindo.

Zed não respondeu de imediato. A pergunta deu origem a uma sensação desconfortável em seu peito, semelhante a brasas sob cinzas. Mas por fora, a expressão em seu rosto permaneceu estoica, rígida. Porque compaixão era uma fraqueza, um luxo que custava caro em tempos de guerra, traição e sacrifícios. Aquilo não servia mais para ele.

- Adeus. – murmurou, seco.

Desinteressado em prolongar a conversa, ele recolheu as sombras, envolveu o seu corpo em um manto de escuridão e desapareceu.

Syndra cruzou os braços, os olhos cerrados em frustração, encarando o vazio que Zed deixou.

- Covarde...

Algo no silencio dele a incomodava. Zed era irritantemente indiferente, obstinado em recusar qualquer emoção. Há muito tempo, a dor tinha consumido a alma dele. E tudo o que restou foram apenas sombras carregadas de ódio. Ele fedia a tragédia. Mesmo assim, Syndra hesitava em odiá-lo por completo. Afinal, até a tempestade um dia se acalma.

Uma brisa suave espalhou o perfume doce das flores ionianas. Sinos distantes tilintaram num som cadente, anunciando a chegada do Espírito da Salvação. Dos arbustos, emergiu a raposa de pelagem alva, se aproximando com pequenos saltos. Um brilho efêmero envolveu o seu corpo, e a forma animal começou a se alongar e mudar para a figura feminina de Ahri, alta, elegante e graciosa.

- O que vamos fazer? – perguntou Ahri, os olhos azuis brilhando de preocupação. – Se ele não se despedir daquela garota, vai acabar se transformando em um azakana.

- Se acalme, Ahri. – disse Syndra, mais suave que o habitual. – Vai ficar tudo bem. Ele está seguro por enquanto.

Ahri começou a andar de um lado para o outro, tensa, balançando as nove caudas.

- Eu cuidei daquela alma por dias, sabia? Foi tão difícil guiá-lo até aqui. E no primeiro momento em que me afasto... Argh! – grunhiu, irritada, os pelos se eriçando. – Aquele vulto ranzinza aparece e decide se intrometer.

- Você sabe como ele é. Apenas surge das sombras e decide que é tarde demais. – Syndra revirou os olhos, gesticulando a mão, cansada das tradições amargas de Zed.

- Mas aquele espírito não é um demônio. – Ahri parou, as orelhas se inclinando levemente para trás. – Ele estava quase pronto para partir. Só precisava se despedir. Não é justo terminar assim.

As palavras de Ahri cutucaram algo que Syndra se recusava a encarar. Lidar diretamente com Zed era sempre desgastante. Ele silenciava esperanças, cortava laços, apagava histórias antes que pudessem ser concluídas.

Syndra olhou para Ahri, respirou fundo e suspirou.

- Venha. Rápido. – disse, estendendo a mão, puxando Ahri pelo pulso. – Nós vamos encontrar aquele espírito antes que Zed o destrua.


No coração da floresta, a luz fria da lua iluminava uma casa simples perto de um lago. Sentada na grama, estava uma mulher de cabelos escuros, soltos, moldando o rosto pálido marcado pela tristeza. Os seus olhos marejados, refletiam na água a dor da perda.

Uma brisa suave soprou entre as árvores, sacudindo as pétalas das flores. A superfície da água, tranquila, ficou levemente agitada. Pequenas ondulações se espalharam, distorcendo o reflexo da lua e o contorno do rosto da mulher. Um arrepio percorreu pelo corpo dela. Pressentindo que não estava mais sozinha, se virou devagar, encontrando duas mulheres, belas, imponentes e, inquietantes.

Antes que qualquer palavra pudesse ser dita, um som estranho veio de dentro da mata. Um zumbido mágico, seguido do ruído de galhos quebrando. O negrume da floresta foi cortado pela luz da esfera de energia arcana que flutuava rapidamente, sendo perseguida por um espírito correndo desajeitado, atingindo ferozmente tudo ao seu redor.

Assustada, a mulher se ergueu, instintivamente se encolhendo atrás de Ahri, atraída pelo calor da presença dela.

A esfera desacelerou, repousando nas mãos de Syndra, se desfazendo em partículas luminosas, deixando apenas o colar intacto. O espírito parou a poucos metros dela, sua forma instável tremulando.

- Ele queria te ver. – Syndra se virou para a mulher, pendurando o colar no pescoço dela. – Vai lá...

A mulher olhou para baixo, reconhecendo o colar que ganhou dias atrás, porém, sem saber em que momento o tinha perdido. De qualquer forma, ela entendeu o que tudo aquilo significava. Embora hesitante, ela se aproximou, as mãos trêmulas tocando a massa de energia.

Uma luz dourada, quente e pulsante revestiu o espírito, ativando memórias esquecidas dentro dele. O calor do toque humano. O perfume familiar dela. Aos poucos, a forma instável ganhou contornos definidos, se moldando no homem que ela amava.

- Agora eles vão se despedir sem arrependimentos. – a voz de Ahri se perdeu em um suspiro emocionado.

Ahri não conseguia conter a ternura em seus olhos, vendo o casal, enfim, tocar as mãos. Ela havia guiado tantos corações perdidos, testemunhado confissões tímidas, reencontros e despedidas, e ainda assim, não deixava de se comover.

Nos lábios de Syndra, um sorriso gentil se formava, involuntário, denunciando o quanto se sentia realizada por conseguir libertar mais uma alma do sofrimento.

As estrelas acima brilhavam intensas, celebrando o momento. O céu silencioso, de repente se partiu com o estrondo ensurdecedor do trovão. Um raio azul desceu rapidamente, atingindo o centro do pequeno jardim. O impacto foi brutal. A terra explodiu em fragmentos, a relva foi arrancada do chão, e as árvores se encurvaram diante da força do vento. No centro da cratera, entre sombras ondulantes e brasas espectrais, Zed surgiu virando o rosto devagar, o olhar firme, carregado de séculos de disciplina, encaravam diretamente Syndra, emitindo o aviso do prenuncio da morte.

O sorriso de Syndra se apagou. Igual a chama de uma vela extinta por um sopro gelado. Seus olhos se arregalaram ao perceber Zed saltando com as lâminas afiadas em direção ao casal assustado.

- Espera! – Syndra gritou, desesperada, se movendo estendendo a mão. – Eles precisam se despedir!

A velocidade de Zed era implacável! O corpo moldado por convicção e raiva.

Não havia mais tempo.

O coração de Syndra apertou. Derrotada, ela fechou os olhos, incapaz de ver a tragédia.

O som do golpe, que todos esperavam aflitos, não veio.

Zed parou. Ou quase. No último instante, ele desviou as lâminas, passando rente ao espírito. Ele pousou firme ao lado do casal. Ficou ali, parado, o corpo tenso, como se algo invisível o impedisse de continuar. A respiração dele era silenciosa, mas pesada. As palavras de Syndra ecoavam em sua mente, trazendo rostos esquecidos e vozes apagadas, de um passado que ele jurou ter enterrado.

Em vida, ele não conseguiu se despedir dos seus aliados. O tempo não tinha dado a ele essa chance. Ele dizia a si mesmo, que tudo foi necessário. Que seus sacrifícios, e o que ele impôs aos outros, eram o preço do equilíbrio.

O silencio, pesado, perdurou por um longo minuto.

Até que Zed recuou. Um passo. Depois outro. A tensão em seus ombros se esvaiu. Ele abaixou as lâminas, suspenso entre a certeza e a dúvida. Levantou o rosto, procurando por Syndra. Seus olhos, agora um pouco mais brandos, observavam intensamente ela. Zed respirou fundo e, balançou a cabeça, assentindo que Syndra prosseguisse com o ritual.

Syndra suspirou, soltando todo o ar preso em seus pulmões, ao mesmo tempo em que Ahri exalou suave e audível, compartilhando a mesma sensação de alívio.

O casal se olhou, buscando um no outro as palavras que não conseguiam dizer. Delicadamente, o homem acariciou o rosto da mulher, gravando em sua memória cada traço dela. Eles se abraçaram, escondendo as lágrimas. Um último adeus silencioso.

E, finalmente, chegou a hora.

- É a sua vez. – Ahri sorriu para Syndra. – Nos leva de volta para casa.

Syndra fechou os olhos, sentindo a energia pulsar ao seu redor. O vento chamava o seu nome. Ecos além do passado. As vozes de seus ancestrais que haviam partido, mas que jamais a abandonaram. Ela permitiu que eles guiassem os seus passos pela terra, deslizando para a frente, depois, um salto curto de um lado para o outro, e uma curva fluída, erguendo os braços com firmeza e elegância, movendo as mãos no ar com precisão, coreografando uma dança sagrada entre as esferas que a orbitavam.

O poder adormecido dentro dela despertou em proporções extraordinárias, regendo uma sinfonia celestial ao dar vida a floresta.

O jardim, onde antes havia somente cinzas e destruição, ganhou um brilho tênue. Delicados galhos emergiram do solo, retorcendo, se entrelaçando, formando um arco com flores delicadas, que desabrochavam conforme uma luz violeta preenchia o interior da moldura. Símbolos arcanos, escritos em uma língua antiga, flutuavam dentro da luz, como folhas levadas pela brisa. E então, o portal se abriu repleto de energia estelar, rasgando o fino véu entre o mundo e o reino espiritual.

Sob a luz pálida da lua, com um último movimento, Syndra parou abrindo os braços em uma reverência, revelando para o espírito o caminho até o portal, traçado por uma corrente de água cristalina, serena e rasa. Pequenas flores brancas boiavam sobre a superfície, suaves, vibrantes, entre alguns brotos de lótus ainda fechadas, aguardando o momento certo para florescer.

Graciosamente, Ahri correu adiante, seu corpo cintilando enquanto se transformava em uma raposa prateada, ondulando as nove caldas no ar etéreo. Ela abençoou a travessia. Por onde passava, as lótus se abriam, espalhando borboletas arcanas pela clareira. Parou em frente ao portal, pronta para guiar o espírito até o outro lado.

O espírito, com um sorriso encantador nos lábios, olhou pela última vez para a mulher que amava, e sem hesitação, ele seguiu a raposa.

Assim que eles atravessaram o portal, o arco feito de galhos começou a se fechar, pétala por pétala, folha por folha, tudo se desfez em partículas brilhantes de essência mágica, voando em direção as estrelas no céu.

Zed permanecia parado, o rosto virado para o céu, assistindo as fagulhas mágicas subirem. As lâminas estavam recolhidas. As sombras abaixo dos seus pés, extremamente quietas. Sua própria alma, em constante batalha, sufocada pelo fardo da culpa e pelas decisões que acreditava ser irrevogáveis. Por um instante, ele desejou ter também aquele tipo de fim. Pacífico. Redentor.

Um calor sutil rompeu o ar frio ao seu lado. Mas ele não se virou. Não precisava. A presença de Syndra era inconfundível.

Syndra observou Zed por um tempo, esperando que ele dissesse algo. Só que claro, ele não disse. Portanto, ela apenas dividiu o silencio com ele. Havia menos rigidez naquele silencio, menos frieza.

Quando os seus olhos finalmente se encontraram, perceberam que ansiavam pelo mesmo momento. Zed esperava que Syndra dissesse algo. Enquanto Syndra esperava que Zed estivesse, enfim, disposto a ouvir.

- As pessoas... precisam se despedir. – disse ela, a voz baixa, firme. – Todas as noites, os humanos recolhem as suas lagrimas e rezam para que estejam aqui, amanhã. É por isso que nós iluminamos o caminho.

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