¿Que nos está pasando?

10 Por que está aqui?


Notas iniciais
Oi, meninas. Desculpa a demora :( Boa leitura.

Maio/2012

Maio chegara e trouxera consigo uma notícia não muito boa para German. Era 3 de Maio, uma quinta-feira, quando German saíra para caminhar por Puerto Madero. Ele estacionara o carro em qualquer lugar e saíra caminhando. Segurava o paletó com o dedo e o repousara no ombro. Duas coisas não saíam de sua cabeça de jeito nenhum: todo o problema com seu pai e a história com Angeles. Se é que eles tinham uma história.

Sua cabeça estava em outro lugar quando ele parou próximo a um restaurante e avistou Angeles sentada de frente para um homem que ele não conseguira ver quem era, pois ele estava de costas. Angeles sorria e conversava alegremente com o homem. German sentira um incômodo no peito e um leve tremor nas mãos.

Ele engoliu em seco e escondeu-se atrás de uma árvore quando os vira se levantar. No momento em que pôde ver o rosto do homem, seu sangue subiu de uma forma inexplicável. Esperou que ambos saíssem do restaurante e foi ao encontro deles. German parou de frente para eles e encarou, a ambos, seriamente. Angeles ficou séria e o homem, Nicolas Galan, abriu um sorriso sarcástico.

– Olá, Castillo – German olhou-o. Angeles franziu o cenho – Como está?

– Vocês se conhecem? – Ela interveio. Nicolas olhou-a e sorriu.

– Sim. Estudamos juntos na faculdade. Só que, em algum momento, eu fui parar na polícia – Nicolas olhou para German – Ironias do destino! – German respirou profundamente e encarou Angeles.

– Podemos conversar? – Angeles estranhou e Nicolas ficou sério. Ele virou-se para ela.

– Bom, meu anjo, eu vou deixá-los a sós – Fingiu-se de coitado – Amanhã nos vemos.

– Não – Angeles sorriu sem mostrar os dentes – O que ele tem pra me dizer, tenho certeza que pode me dizer na sua frente – Ela encarou German, o qual engoliu em seco.

– Precisa ser a sós.

– Então, amanhã conversamos – Ela virou-se para ir embora, mas German segurou seu braço e lançou-a um olhar aflito.

– Precisa ser agora – Ele respirava fundo – Por favor – Soltou o braço dela.

– Por que não a deixa em paz, Castillo? – German encarou Nicolas – Não vê que ela está cansada?

– O que você está pretendendo? – German aproximou-se dele – Qual é o seu plano? – Angeles franziu o cenho – Você vai acabar com ela de que jeito?

– Está ficando louco, Castillo!

– Do que ele está falando, Nico? – Angeles interveio.

– Eu também não estou entendendo, meu anjo – Nicolas disse cinicamente. German estreitou os olhos e empurrou-o.

– Não está entendendo? – E segurou-o pelo colarinho – O que você quer com ela?

– Eu não sei do que está falando – Nicolás sorriu sem mostrar os dentes – Mas isto está me parecendo ciúmes, Castillo – German pressionou os dentes e desferiu-lhe um soco na maçã esquerda do rosto.

– German – Angeles falou alterada e segurou o braço de Nicolas – Seu idiota, vai embora – German continuou segurando-o pelo colarinho. Estava cego de raiva.

– Não me interessa o que você e os vermes que trabalham com você pretendem, mas fica sabendo que, antes de atingirem ela, terão que passar por mim e eu juro, pela minha vida, que eu vou fazer um inferno na vida de vocês – German disse furiosamente entredentes e soltou-o.

– Do que está falando, idiota? – Angeles perguntou e German olhou-a seriamente.

– Eu vou deixá-los a sós. Espero você no carro, anjo! – Nicolas partiu. German esperou que ele se afastasse e encarou Angeles.

– Você sabia que ele já foi chefe do Conti? – German perguntou calmamente e Angeles assentiu.

– Ele já me contou tudo o que eu precisava saber.

– Ah é? Ele já contou o que pretende fazer com você se não largar o caso? – German perguntou rispidamente. Angeles revirou os olhos e balançou a cabeça.

– Por que está querendo estragar a minha vida de novo? – Ela bufou – Nos deixe em paz, ok? – Angeles virou-se e German franziu o cenho.

– Espera – Ele murmurou e ela o olhou profundamente – Deixá-los em paz? – Angeles assentiu – Por quê? Estão juntos?

– Sim, German – Angeles murmurou. German engoliu em seco.

– Não me diga que se apaixonou por ele!? – Falou baixo. Angeles encolheu os ombros.

– O que há de errado nisto? – German sentiu seu corpo estremecer e suspirou pesadamente.

– Você vai sofrer – Angeles soltou um riso anasalado.

– Como se você se importasse – Ele respirou fundo.

– Ele está te usando para me atingir – Ela balançou a cabeça.

– Pelo menos, ele tem me feito feliz – Angeles murmurou e German sentiu uma dor no peito.

– Ele está iludindo você, Saramego – Ele engoliu em seco – No fim, a sua dor será maior.

– Não seja cínico, idiota – Angeles falou alterada – Tudo o que você soube fazer desde que nos conhecemos foi me fazer sofrer. Não diga que ele fará o mesmo, porque ele não fará. Ele não é um homem horrível, amargo e insensível igual a você – German franziu o cenho. Parecia que tinham enfiado uma faca em seu peito. Mas ele não demonstrou em nenhum momento o que havia dentro de si.

– É claro que ele não fará o mesmo – Ele passou a gritar – Porque tudo o que eu tentei fazer desde que nos conhecemos foi manter você longe de mim por não querer que você sofresse, já o que ele quer é te manter perto e te iludir cada vez mais pra, no final, acabar com você – Ele parou de falar, respirou fundo algumas vezes, acalmou-se e continuou calmamente: – Sabe qual é a pior maneira de acabar com uma pessoa? – Angeles permaneceu quieta – É fazendo-a se apaixonar por você. Você a tem em suas mãos e pode destruí-la do jeito que quiser – German respirou fundo e fechou os olhos.

– Foi o que aconteceu com você? – Angeles murmurou e German olhou-a – Você se apaixonou e ela acabou com você?

– Não interessa o que aconteceu comigo – German murmurou e Angeles assentiu.

– Tudo bem então – Ela suspirou – Eu não me meto na sua vida e você não se mete na minha, tudo bem? – Angeles virou-se e partiu.

German ficou olhando-a partir. Sentiu uma vontade desesperada de correr atrás dela e protegê-la, cuidá-la, confortá-la e tentar de tudo para que ela ficasse longe daquele homem. Mas não o fez. Estava enfraquecido e diria coisas que teima para aceitar e se empenha em negar. Estava abalado, talvez por saber que havia outro homem na vida dela ou por realmente estar com medo de que pudesse acontecer algo com ela ou apenas por conta das palavras ditas por ela.

German sabia exatamente o tipo de homem que era. Sabia que Angeles tinha toda razão quando disse que ele é horrível, amargo e insensível. Ele se empenhou muito para que ela o odiasse e quisesse, por fim, ficar longe dele. Mas ele não imaginou que aquilo doeria tanto dentro de si.

**

Dia seguinte

Angeles saiu do elevador que dava direto para a recepção do escritório pensativa. German dissera coisas que não a deixara pregar os olhos a noite inteira. Quando ela entrou na sala de vidro encontrou um clima estranho, de como se tivesse acontecido alguma coisa. Alguns diziam coisas horríveis, do tipo: “se ele morrer, será um bem para a humanidade”, outros estavam apenas estranhos, e Jackeline estava com uma cara de preocupada. Francesca, uma das amigas que fizera no escritório, aproximou-se de Angeles, fez uma cara de pesar e colocou as mãos nos braços dela.

– Eu sei que você gosta dele, então fique bem, ok? – E abraçou-a. Angeles franziu o cenho. Francesca afastou-se e voltou para a mesa. Angeles caminhou até sua mesa, ao lado da mesa de Jackeline e virou-se para a amiga.

– O que aconteceu, Jackie? – Jackeline olhou-a seriamente e não soube o que dizer e nem como dizer, apenas continuou quieta – Por que estão todos estranhos? Por que você está estranha? O que está acontecendo? – Jackeline suspirou e desviou o olhar.

– Angie, eu... Eu não sei como dizer... – Angeles ficou apreensiva.

– Então, diga de uma vez, Jackeline – Jackeline olhou-a.

– O Castillo sofreu um acidente e corre risco de morte – Angeles engoliu em seco e ficou por alguns segundos olhando para a amiga. Em seguida, arqueou uma sobrancelha.

– É uma brincadeira? – Angeles levantou-se – Se for, é de muito mau gosto, Jackie – E saiu da sala.

Angeles caminhou apressadamente até o terraço. Encostou-se na borda e fechou os olhos. Suas mãos tremiam, sua respiração estava acelerada e algumas lágrimas escapavam dos seus olhos, embora ela tentasse evitar. Quase meia hora depois, Jackeline apareceu e parou ao lado dela. Angeles enxugou o rosto, mas seus olhos permaneciam molhados. Sua expressão estava séria.

– Eu não brincaria com isto – Jackeline murmurou. Angeles respirou fundo e assentiu.

– Como ele está? – Perguntou baixo.

– Ele está na UTI – Angeles sentiu, subitamente, uma dor no peito e desviou o olhar – Parece que ele sofreu uma perfuração no pulmão e uma lesão forte na cabeça.

– Como foi isso? – Sua voz saiu falhada.

– Ele bebeu muito ontem – Angeles suspirou pesadamente e encarou a amiga – Ele estava correndo com o carro. Algumas pessoas disseram que o carro capotou várias vezes. Por pouco ele não foi arremess... – Ela fechou os olhos.

– Eu já entendi, Jackie – Interrompeu-a.

– Desculpa – Jackeline sussurrou.

Angeles encarou-a e tentou enxugar os olhos. Depois, passou a observar a vista à sua frente.

– Algumas pessoas parece que ficaram contentes com isso – Murmurou vagamente – Idiotas!

Angeles não queria deixar sua dor transparecer. Na mente dela, isto não poderia acontecer. Mas a verdade é que a sensação que tinha é que toda sua força fora roubada sem dó nem piedade. Ela sentia uma queimação nos olhos. Queria chorar e gritar, mas não podia externar a angústia que estava sentindo.

– O Pablo e o Matias estão lá com ele?

– Sim – Angeles assentiu – Como eles estão?

– O Matias está abatido, mas está bem, e o Pablo... Ele está péssimo – Jackeline suspirou e desviou o olhar – O Castillo pode ser o que for, mas é como se fosse o irmão mais velho deles – Angeles respirou fundo. Jackeline olhou-a – Angie... Eu vou para o hospital. Quer ir? – Angeles olhou-a.

– Acho que não é uma boa ideia – Sussurrou.

– Tudo bem – Jackeline respirou fundo – Angie – Jackeline colocou a mão no queixo de Angeles – Vai ficar tudo bem!

**

Anoitecera. Angeles decidira ir ao hospital. Ficar em casa seria pior. Ela prometeu a si mesma que guardaria a dor que estava sentindo, mas, assim que entrou no hospital e sentiu aquele clima frio e mórbido do lugar, deixou que uma única lágrima escorresse pelo seu rosto. Ela começou a caminhar em direção à sala de espera.

– Angie!? – Miguel disse ao ver Angeles se aproximando da sala.

Ele estava voltando da lanchonete, pois fora pegar algo para Violetta comer. Angeles olhou-a e sorriu sem mostrar os dentes. Os olhos dela estavam vermelhos.

– Olá, senhor Miguel – Murmurou. Cumprimentou-o e acompanhou-o até a sala – Como o senhor está? – Sua voz estava triste. Ele encolheu os ombros e bufou.

– Meu único filho pode ir embora antes de mim – Os olhos dele marearam – Como eu lido com isto? – Angeles engoliu em seco.

Os dois entraram na sala de espera. Violetta correu ao encontro de Angeles assim que a avistou e abraçou a cintura dela o mais forte que pôde. Começou a chorar desesperadamente. Angeles passou a acariciar a cabeça da garota. Margarida aproximou-se também e cumprimentou, carinhosamente Angeles, que a olhou seriamente e suspirou.

– Como ele está? – Margarida olhou rapidamente para Violetta.

– Ele vai ficar bem.

Angeles pressionou os dentes e desviou o olhar. Ela não botou fé no que dona Margarida disse, pois sabia que ela preferira não dizer a verdade por conta da Violetta. Angeles olhou para a garota.

– Vilu – Violetta olhou-a e soltou-a. Angeles abaixou-se e começou a acariciar o rosto dela – Eu sei o que você está sentindo – Sussurrou – É horrível... Mas vai passar, pequena.

– E se ele morrer? – Violetta balbuciou. Angeles estava tentando, ao máximo, afastar essa possibilidade, mas, ao mesmo tempo, sabia que ela existia.

– O tio German é forte, não é? – Violetta confirmou – Ele não é como um herói para você?

– Sim.

– Então... Heróis não morrem – Violetta abaixou o olhar e Angeles enxugou suas lágrimas – Em breve, você vai poder abraçá-lo.

A garota olhou-a e assentiu. Angeles depositou um beijo suave na testa dela e levantou-se. Olhou para o sofá que ficava de frente para a porta e lá estava Pablo, que olhava seriamente para o chão, e Jackeline. Depois, olhou para o sofá que ficava na lateral da sala e avistou Matias, que estava com os cotovelos apoiados nos joelhos e fitava vagamente o chão.

– Eu vou falar com o Matias – Murmurou e aproximou-se dele.

Matias olhou-a e sorriu sem mostrar os dentes. Angeles sentou-se ao lado dele e colocou a mão direita em suas costas.

– Como você está?

– Estou bem, eu acho – Matias soltou um riso anasalado e desviou o olhar – Dá pra acreditar no que está acontecendo?

– Não – Angeles murmurou e abaixou a cabeça – Eu pensei que esse tipo de coisa nunca pudesse acontecer com ele – Os dois se encararam.

– Eu também pensei – Matias disse baixo – Mas aí eu lembrei que o German é humano – Ele balançou a cabeça e desviou o olhar. Parecia que estava reprovando a si mesmo – O German é humano – Seu olhar estava vago – Ele ainda sente... Ama... Sofre – Matias bufou e olhou rapidamente para Angeles – Mas ele não se permite sentir – Matias respirou fundo e encarou-a – O German é um homem bom, Angie – Matias abaixou a cabeça – Um dia você verá isto – Angeles engoliu em seco. “Eu sinto isto”, pensou.

– O que você acha que vai acontecer? – Ela sussurrou e Matias olhou-a.

– Eu não sei, mas... Eu sempre acreditei que se uma pessoa foi infeliz a sua vida inteira, ao menos, no fim, ela teria algum pingo de felicidade – Angeles abaixou a cabeça – Eu sei que é infantilidade minha acreditar em finais felizes, mas a vida seria muito injusta com ele se acabasse agora. Ele não merece isto – Angeles encarou-o com os olhos molhados – Você também não merece – Angeles desviou o olhar.

– Eu quero acreditar que ele vai ficar bem – Ela o encarou.

– Eu também, Angie – Ela assentiu e olhou ao redor.

– O Pablo está inconsolável, né? – Angeles olhou-o. Matias olhou para o amigo rapidamente.

– Os dois são muito apegados. O German sempre cuidou dele como se fosse um irmão – Matias suspirou e olhou para o chão – Na verdade, o German sempre cuidou de nós dois como se fôssemos seus irmãos. Ele ainda é assim. Ele faz de tudo para cuidar de alguém que ele ama – Matias olhou-a – Não é? – Angeles entreabriu a boca e não soube o que responder. Ela piscou os olhos lentamente.

– Eu não sei, Matias – Ela disse baixo.

– Sabe, sim. Você não vê, mas tudo o que ele vem tentando fazer é cuidar de você – Angeles abaixou a cabeça e fechou os olhos – Angie...

– Matias... – Olhou-o com os olhos bem molhados – Não... Sério... Esse assunto não vai nos levar a lugar algum – Matias respirou fundo.

– Você que sabe, Angie.

Neste momento, um médico entrou na sala. Matias, Angeles, Pablo e Margarida aproximaram-se dele.

– Como ele está? – O médico suspirou pesadamente.

– Ele teve uma parada cardiorrespiratória – Os quatro ficaram sem reação – Nós conseguimos realizar o procedimento com rapidez e a situação dele está, aparentemente, estável agora.

– Aparentemente? – Angeles perguntou com uma voz falhada e o doutor assentiu.

– A parada aconteceu porque o ritmo cardíaco dele estava muito rápido e isto aconteceu por estresse emocional. Ele dizia algumas coisas e parecia ter algum tipo de sonho ruim.

– Isto quer dizer que pode acontecer de novo – Pablo murmurou.

– Sim – Pablo colocou a mão na testa e Matias segurou o ombro dele – Há uma coisa boa nisto. Se ele disse coisas que o incomodam ou esboçou um medo, seja lá o que for, significa que a atividade cerebral dele está intacta. Quer dizer, nós pensamos que, no mínimo, ele perderia a memória por conta da lesão que sofreu – Angeles suspirou e abaixou a cabeça.

– Quando ele vai acordar? – Matias perguntou.

– Eu não sei dizer. Eu não vou mentir, ele ainda corre um risco muito grande de morte. Ele está voltando para a UTI agora e deve ficar lá pelos próximos dias, sob observação.

– Tudo bem. Obrigado – Matias disse, por fim, e o médico se retirou.

Pablo voltou para o seu lugar e abraçou Jackeline. Margarida encarou Matias e suspirou, depois ambos olharam para Angeles.

– Angie... – Margarida chamou-a e Angeles olhou-a. Os olhos dela estavam vermelhos e encharcados. Margarida abraçou-a – Ele vai ficar bem – Murmurou. Angeles não aguentou e começou a chorar silenciosamente – Vamos até a lanchonete?

**

– Está melhor? – Margarida perguntou após Angeles tomar um copo de água com açúcar. Angeles enxugou o rosto e assentiu – Quer um conselho, Angie? – Angeles permaneceu quieta – Não tente reprimir o que está sentindo, porque é pior – Angeles abaixou a cabeça.

– Eu só... Não queria que a Violetta me visse assim – Disse calmamente e encarou dona Margarida – Sabe, dona Margô? Eu não ia vir – Desviou o olhar – A última pessoa que o Castillo gostaria que estivesse aqui sou eu – Olhou-a de novo – Mas aí eu pensei que talvez vocês precisassem de mim, um apoio, não sei. Aí eu cheguei aqui e encontrei a Violetta – Angeles suspirou – Eu não queria que ela estivesse passando por isto, dona Margô – Margarida assentiu.

– Eu também não, Angie – Margarida encolheu os ombros – A Violetta só tem o German e o Miguel e ninguém sabe sobre a família dela – Angeles franziu o cenho.

– Como assim? – Margarida suspirou.

– A Vilu foi abandonada na porta da casa do Miguel. Há dez anos. Era um bebê ainda – Angeles horrorizou-se – Miguel adotou-a como neta, mas sempre disse a verdade para ela. Violetta cresceu sabendo que foi abandonada pela própria mãe.

– Que bruxa abandonaria uma criança?

– Existe gente horrível no mundo, Angie – Margarida desviou o olhar – O German tinha acabado de passar pela maior decepção da vida dele e a Elena...

– Mãe dele?

– É. Ela tinha acabado de morrer – Margarida olhou-a – Foi uma época difícil, Angie. Tudo aconteceu ao mesmo tempo.

– Deve ter sido horrível para ele.

– Foi. E ainda é – Margarida respirou fundo – Quando você souber da história toda, as coisas vão fazer mais sentido.

**

German saiu da UTI apenas uma semana depois do acidente e foi levado para o quarto. Era uma sexta-feira e estava fazendo um belíssimo dia fora do hospital. Os médicos realizaram alguns testes, exames, etc, ao que ele não apresentara qualquer sequela. German estava, aparentemente, bem. Ninguém imaginaria que, por bem pouco, ele não perdera a vida.

Ao anoitecer, o médico permitiu que entrassem algumas pessoas no quarto. Pablo e Matias foram os primeiros. Pablo entrou ansioso e parou ao lado direito de German. Matias entrou calma e receosamente, como se sua presença ali não fosse necessária, e parou um pouco atrás de Pablo. German olhou-os seriamente.

– Você está bem? – Pablo perguntou receosamente.

– Eu pareço bem? – German respondeu rispidamente. Pablo e Matias se entreolharam rapidamente.

– Parece que está ótimo – Matias interveio seriamente – Continua o mesmo idiota de antes.

– O que você esperava? – German murmurou – Que eu acordasse e tentasse mudar a minha vida só porque eu sofri um acidente? – Matias balançou a cabeça.

porque você sofreu um acidente? Você quase morreu! – German desviou o olhar.

– Se eu quase morri, o problema é só meu – Ele disse baixo. Matias bufou e cruzou os braços.

– Não – Pablo disse – Essa bolha que você criou em volta de você não existe. O que afeta você, nos afeta também – German olhou-o.

– Não deveria afetar – Pablo encolheu os ombros.

– Nós somos seus amigos, o que você queria? – Ele disse e suspirou – A semana foi difícil. Nós, realmente, ficamos com medo de perder você. E não somos os únicos. O senhor Miguel, a Violetta, a dona Margô estiveram a semana inteira aí – German desviou o olhar e Pablo continuou com certa cautela: – A Angie também – German pressionou os dentes.

– O que ela veio fazer aqui? – Ele murmurou – Eu não a quero aqui.

– Ela sofreu tanto quanto nós, German – Matias interveio e German o olhou.

– Não me interessa – Ele disse baixo.

– Você não está nem aí para ela, né? – Matias perguntou e encolheu os ombros – Afinal, a única coisa que você pretende é brincar com ela e machucá-la – German franziu, suavemente, o cenho e desviou o olhar.

– Eu só quero que ela fique longe de mim – Ele murmurou.

– Por quê?

– Porque sim – Ele respondeu seriamente e olhou para Matias. Pablo olhou para os dois e suspirou.

– Eu e a Jackie decidimos adiar o noivado – Pablo mudou de assunto e German olhou-o – Até você se recuperar.

– Não era necessário.

– Claro que era – Pablo sorriu – Você não vai conseguir fugir, German – German suspirou e olhou para o teto.

Os três ficaram quietos.

– Você nos deu um susto – Pablo cortou o silêncio – Ficamos preocupados.

– Não tinha porque ficarem preocupados – German falou sem vida. Matias balançou a cabeça e deu alguns passos pelo quarto. Depois, parou ao pé da cama de German.

– Você bebeu no dia do acidente, não bebeu? – Matias perguntou firme.

– Não interessa – German respondeu da mesma forma.

– Você é um babaca, German. Como alguém pega o carro depois de beber? E eu tenho certeza que você bebeu – Matias falava rispidamente – Você queria morrer, não é? Dá próxima vez, avisa antes, assim nós nos preparamos – German pressionou os dentes.

– Me deixa em paz – Ele murmurou – Eu não sou obrigado a escutar um sermão vindo de você. Eu sei do que eu faço, eu sei das consequências dos meus atos e não preciso de nenhum moleque me dizendo o que é certo ou errado – Matias soltou um riso anasalado.

– Eu não sei porque eu ainda insisto.

– Eu também não sei – German disse naturalmente – Eu lembro muito bem de você ter dito que desistiu – Matias balançou a cabeça e saiu do quarto.

– Você não deveria ter sido tão duro com ele, German – Pablo disse calmamente.

– Ele precisa saber qual é o lugar dele.

– Ele é seu melhor amigo – German respirou fundo e desviou o olhar. Pablo encolheu os ombros – O Matias tentou segurar a barra o tempo inteiro, mas eu sabia que, no fundo, ele não estava, nem um pouco, bem – German olhou-o – As coisas que ele disse agora, não foram ditas por mal. Ele só está preocupado com você – Pablo balançou a cabeça e caminhou até a porta. Parou e encarou German – Você sabe muito bem que ele jamais desistiria de você ou de mim – Sorriu sem mostrar os dentes e, antes de sair, disse: – Ninguém desiste de um irmão.

**

Angeles entrou no quarto quando o horário de visitas já havia acabado. Ela sabia que não poderia estar ali e que não deveria também. Ela fechou a porta do quarto com cuidado e virou-se. Encontrou um German abalado fisicamente e seus olhos, subitamente, marearam. Ele estava com um curativo no lado direito da cabeça, seu braço esquerdo estava engessado e seu rosto possuía algumas escoriações. Ao aproximar-se, ela notou marcas da medicação intravenosa no braço direito dele.

German dormia, mas ele não parecia estar tranquilo, não como na noite em que dormiram juntos. Parecia que mil coisas passavam pela cabeça dele. Angeles sentou-se no canto da cama e segurou a mão dele. Estava fria. Ela passou a acariciá-la. Olhava seriamente para ele enquanto permitia que algumas lágrimas escorressem por seu rosto.

– German – Ela o chamou com um sussurro. Ele continuou dormindo. Ela engoliu em seco e levou a outra mão ao rosto dele. Neste momento, os olhos dele se abriram lentamente.

– O que está fazendo? – German murmurou. Angeles parou de acariciá-lo e suspirou.

– Nada.

– O seu namorado sabe que está aqui? – German perguntou seriamente.

– Ele não é meu namorado e, sim, ele sabe que eu estou aqui. Mas quer saber? Eu nem deveria estar aqui – Angeles tentou afastar-se, mas German apertou a mão dela, fazendo-a ficar.

– Por que está aqui?

– Porque eu quero – Disse seriamente. Respirou fundo e abaixou, rapidamente, a cabeça. Sussurrou: – Porque eu preciso – German pressionou os dentes. Angeles abaixou a cabeça – Eu sei que eu não deveria estar aqui, que a última pessoa que você gostaria de ver sou eu e que as coisas entre nós estão piores do que nunca – Ela o olhou com os olhos molhados e encolheu os ombros – Mas eu senti uma necessidade de ver que você está bem e de estar aqui quando você acordasse – E abaixou a cabeça de novo.

Os dois ficaram quietos.

– É melhor você ir embora – German sussurrou. Angeles encarou-o.

– E se eu quiser ficar? – Ela perguntou baixo.

– Não importa o que você quer – Ele murmurou. Angeles permitiu que algumas lágrimas escorressem. German fechou os olhos para não vê-la chorar.

– Você quer mesmo que eu vá? – German engoliu em seco e olhou-a.

– Também não importa o que eu quero – Angeles balançou a cabeça e fechou os olhos. Mais algumas lágrimas escorreram. German esticou o braço direito e enxugou as lágrimas dela com o polegar, fazendo-a olhá-lo.

– O que você quer importa sim – Ela sussurrou – Ao menos, para mim.

– Não parece, Saramego – Ele disse baixo e ela franziu o cenho – Eu queria que você largasse o caso e você continuou – Ela revirou os olhos.

– Não vamos falar sobre isto.

– Tudo bem – German continuou calmamente – Eu queria que você se afastasse de mim e tudo o que você faz é se aproximar.

– Eu tentei, German – Ela disse baixo – Eu estou tentando, mas... – Ela o olhou. Os olhos encharcados – A vida caminha de um jeito que me faz ficar perto de você – Ele engoliu em seco – Às vezes, é porque eu acho que você precisa de carinho, de um abraço. E, às vezes, é só porque eu me sinto segura ao seu lado – Ele desviou o olhar – Você faz eu me sentir bem e mal ao mesmo tempo – Ele fechou os olhos.

– Por que está dizendo estas coisas?

– Porque é a verdade – Ele a olhou.

– Pare enquanto ainda há tempo – Ele sussurrou.

– Por quê? – Ela sussurrou e German respirou fundo.

– Porque no fim é você quem vai sofrer.

– Eu posso lidar com isto – German negou lentamente com a cabeça.

– Ninguém pode – Sussurrou.

– Como você pode ter tanta certeza de que eu vou sofrer?

– Como você consegue não ter essa certeza? – Angeles respirou fundo e German desviou o olhar – Eu não preciso lembrá-la das coisas que eu já fiz ou falei para você, não é? – Angeles deixou mais uma lágrima escorrer e German olhou-a – Aquele momento no baile – Angeles suspirou – Os dias na cabana – Ela fechou os olhos – Aquela noite.

– A nossa noite...

– Que foi um erro – Ela o olhou – Tudo foi um erro.

– Por quê?

– Porque, em todas as vezes, eu te machuquei – Angeles abaixou a cabeça e iniciou um choro silencioso.

– Se foi um erro, – Balbuciou – por que eu não consigo esquecer aquela noite? – German respirou fundo e sentiu uma palpitação no peito.

– Porque você não encontrou um homem que a fizesse esquecer – German murmurou e Angeles olhou-o – Mas eu sei que você vai encontrar – Ele engoliu em seco – Você precisa encontrar – Ela balançou a cabeça e fechou os olhos – Você precisa de alguém que te faça feliz, que cuide de você e que te ame da forma como você merece – Ela o olhou – Eu não sou esse homem e nem o Nicolas é esse homem – Angeles balançou a cabeça e levantou-se, mas German apertou sua mão novamente – Angie... – Ele fechou os olhos com força – Saramego – Olhou-a profundamente, fez uma pausa e murmurou: – Eu não quero mais te machucar. Eu não quero ser o homem que destruiu seus sonhos, acabou com suas esperanças e te fez fria por dentro. Eu não me perdoaria por isto – Angeles sentou-se novamente. Ainda chorava. German acariciava sua mão. Ele suspirou e sussurrou: – Você é jovem. É pura. E é linda. Por dentro e por fora. Se apaixone por alguém que não a destrua por dentro – Angeles assentiu.

– É melhor eu ir – Ela balbuciou. Fungou e enxugou o rosto. Ficou olhando-o por alguns minutos. Em seguida, encostou os dedos indicador e médio na própria boca e levou-os lentamente até a boca de German. Ele sentiu seu coração partir – Até mais – Angeles sussurrou e partiu em seguida.

German fechou os olhos com força e sentiu vontade de socar a própria cabeça. Ele a fizera sofrer e sentia-se mal por isto, mas também sabia que fora necessário, porque, na cabeça dele, Angeles precisava passar por isto para ser feliz um dia. A questão é: é possível ser feliz sem estar com a pessoa que ama?

Notas finais
E aí?