Notas iniciais
Confesso que não me empenhei muito nesse capítulo, pois estou me empenhando mais no próximo, pra deixá-lo perfeito pra vcs, rs. Desculpem a demora, meninas :(

– Bom dia, senhor Gonzales – Angeles disse simpaticamente para o porteiro ao entrar no edifício em que ficava o escritório.

– Bom dia, senhorita Angeles. Está tudo bem? – Angeles sorriu sem mostrar os dentes.

– Está sim – E continuou caminhando até o elevador.

A porta abriu-se e ela entrou. Encostou em um canto e fechou os olhos. E, mais uma vez, lembrou-se do beijo no baile. Ela abriu os olhos no momento em que a porta do elevador se abriu. Colocou os pés para fora e Esmeralda lançou-a um olhar furioso. Angeles franziu o cenho, respirou fundo e virou à direita, em direção à sala de vidro. Entrou e todos simplesmente se calaram e olharam-na. Ela estranhou, caminhou até a própria mesa e sentou-se em frente ao computador.

– Ei – Chamou Jackeline, que se encontrava na mesa ao lado. Jackeline olhou-a – Por que todos se calaram quando eu entrei?

– Não sei, Angie. Deve ser por causa do baile – Respondeu e voltou a observar a tela do computador.

– Tá... Mas o que eles tem a ver com isto? – Jackeline encolheu os ombros.

– Eles devem ter ficado surpreendidos com aquele beijaço, ué – Angeles suspirou e olhou para a tela do computador. Jackeline olhou para a amiga e franziu o cenho – Hoje você não deveria ter ido direto para a sala do Castillo? – Angeles olhou-a e negou.

– Por que eu iria pra lá hoje? – Jackeline encolheu os ombros.

– Porque hoje é dia de vocês preencherem os relatórios do mês.

– Mas não estamos no fim do mês.

– Mas o recesso inicia quarta-feira e depois só voltamos no ano que vem – Jackeline suspirou – A Esmeralda deveria ter te avisado – Angeles bufou.

– Não conte com isso, essa mulher me odeia e eu nem sei porque – Jackeline voltou a observar o computador.

– É ciúmes de você com o Castillo – Murmurou.

– Não diga besteira – Levantou-se – Eu vou ver se é hoje que tenho que ficar na sala dele.

**

Angeles parou na recepção e apoiou-se no balcão. Esmeralda ignorou-a.

– DiPietro – Angeles chamou-a –, pode me dizer se o senhor Castillo está na sala dele?

– Uhum – Esmeralda resmungou sem olhá-la e Angeles arqueou uma sobrancelha.

– Ele está ocupado? – Esmeralda encarou-a.

– Para quê quer saber? Você acha que mudou alguma coisa entre vocês só porque o...

– Não – German disse duramente. Angeles, com o cenho franzido, e Esmeralda olharam-no. Ele estava parado na porta de vidro que dava para a sala de espera onde ficavam a sala dele, de Pablo e de Matias. Ele caminhou lentamente até Angeles e murmurou secamente: – É bom que você esteja indo para minha sala, Saramego – Angeles engoliu em seco.

– Eu estava – Angeles murmurou, passou por ele e direcionou-se à sala de German.

German acompanhou-a, seriamente, com os olhos, suspirou e encarou Esmeralda.

– Nem pense em tocar nesse assunto de novo, entendeu? – Disse friamente e Esmeralda apenas assentiu.

German virou-se e caminhou até sua sala. Entrou, contornou a mesa e sentou-se. Angeles sentou-se também.

– Desculpa o atraso, é que eu...

– Você não tem importância alguma nesse escritório e, por isso, não tem o direito de chegar atrasada quando bem entender – German interrompeu-a com rispidez. Angeles franziu o cenho.

– Eu sei – Angeles suspirou – Desculpa – German respirou fundo, abriu uma gaveta, pegou uma pilha de papéis e repousou-a na mesa – Cast... – German encarou-a duramente – Senhor Castillo, o-o que a DiPietro q-quis dizer com algo ter mudado entre eu e... – Angeles tomou coragem – Entre eu e o senhor? – German ficou tenso e passou a respirar profundamente. Ele desviou o olhar, pegou o primeiro relatório e começou a preencher.

– Nada, Saramego – Ele respondeu, estranhamente, calmo – Ela não quis dizer nada e no tempo que está aqui já deveria ter aprendido a não dar importância ao que as pessoas daqui dizem.

– Mas... – German encarou-a e deu um fraco soco na mesa.

– Mas nada, Saramego – Falou um pouco alterado e Angeles assustou-se – Faça o que tem que fazer calada – Angeles assentiu. Ela pegou um relatório e começou a preenchê-lo. German engoliu em seco e voltou a preencher o relatório.

**

– Senhor – Angeles chamou-o com a voz um pouco falhada.

Eram já 20h, fim de expediente. Os dois passaram a tarde inteira, presos, naquela sala sem nem dirigirem a palavra ou olharem um para o outro. Mas não se pode negar que ambos estavam incomodados por ficarem juntos. German mais ainda pois ele sabia quem beijara no baile, ele sabia toda a verdade e se, por um lado, ele não se importava com Angeles e não ligava para a decepção que ela teria ao descobrir a verdade (porque ele sabia exatamente como ela ficaria), por outro lado, ele não queria que ela soubesse que o homem que beijara no baile era ele. Por alguma razão, ele não queria que ela descobrisse.

German encarou-a. Angeles estava pálida e, visivelmente, cansada.

– E-Eu já posso ir? – Ela perguntou fracamente e German assentiu, sem tirar os olhos dela.

Ele queria saber o que ela tinha, porque estava daquele jeito. Ele estava se segurando para não perguntar se estava tudo bem e se ela precisava de ajuda.

Angeles levantou-se e cambaleou, ao que German se levantou rapidamente. Angeles olhou-o e respirou fundo.

– Está tudo bem – Murmurou.

Ela virou-se e deu o primeiro passo, cambaleando novamente. Sua visão estava turva e suas pernas fracas. German contornou a mesa discretamente e segurou-a pela cintura assim que percebeu que ela ia cair. Angeles fechava e abria os olhos lentamente.

– Eu estou bem – Sussurrou.

German suspirou profundamente, levou-a ao sofá e sentou-a. Ele inclinou o corpo e colocou a mão direita no rosto dela.

– Você não está bem – Disse baixo e Angeles olhou-o.

– Estou sim – Ela retrucou calmamente, fechou os olhos e encostou a cabeça no encosto do sofá – Só estou cansada – German suspirou.

– Deita um pouco – Angeles deitou e German abaixou-se ao lado dela – O que você está sentindo? – German perguntou baixo e calmamente. Ela fechou os olhos e engoliu em seco.

– Dor de cabeça, tontura, fraqueza – Murmurou lentamente.

– Você tem se alimentado direito? – Angeles encarou-o.

– S-Sim – German arqueou uma sobrancelha.

– Não minta para mim – Angeles suspirou.

– Não – German bufou, balançou a cabeça e levantou-se.

– Eu vou buscar alguma coisa pra você comer – Falou seriamente e saiu da sala.

German voltou meia hora depois com um pacote de biscoitos e um copo de água com açúcar. Angeles sentou-se e German entregou o pacote de biscoito. Sentou-se ao lado dela e respirou fundo. Angeles pegou um biscoito e levou-o à boca.

– Pode me dar a água? – German encarou-a e entregou-a o copo. Angeles tomou toda a água em pouco tempo. German encarava-a seriamente. Ela entregou o copo vazio a ele, que se levantou e repousou o copo na mesa. Depois ele se virou para ela e colocou as mãos nos bolsos – Obrigada, senhor – Angeles murmurou e encostou a cabeça no sofá – Eu preciso ir embora – Angeles falou baixo.

– Você não vai embora agora – German falou seriamente e Angeles olhou-o.

– Mas...

– Mas nada – Ele retrucou secamente. Em seguida, deu a volta em sua mesa, sentou-se na cadeira e voltou a preencher os relatórios – Você pode deitar se quiser, mas você não vai embora agora.

Angeles respirou fundo e deitou-se novamente. Se sentisse que estava bem, certamente levantaria e iria embora, mas não sentia isto. Encolheu-se no sofá e fechou os olhos. Depois de quase uma hora, German olhou-a e parou de preencher os relatórios. Reparou no semblante sereno de Angeles e levantou-se. Caminhou até ela, parou ao seu lado e abaixou-se. Observou cada traço do rosto de Angeles e ergueu uma das mãos para acariciá-la, mas acabou desistindo no meio do caminho pois percebeu a merda que estava fazendo.

– Saramego – German chamou-a.

– Hm? – Angeles resmungou sem abrir os olhos.

– Eu preciso levá-la embora – Angeles abriu os olhos lentamente.

– Eu... – Sentou-se devagar – Eu posso pegar um táxi, senhor Castillo.

Angeles levantou-se rapidamente, ao que German também o fez, e ambos ficaram bem próximos um do outro. Prenderam-se em uma troca de olhares. Um conjunto de coisas fizeram Angeles lembrar-se, subitamente, do momento mais intenso de sua vida. A baixa iluminação da sala de German fê-la lembrar o baile, a aproximação do corpo de German ao seu fê-la lembrar o misterioso homem da festa mas, acima de tudo, o perfume de German, o olhar penetrante, a boca, fizeram-na lembrar-se daquele momento. Como se tivesse acordado de um sonho, como se parecesse ter caído em si, ficou estranhamente séria e seus olhos encheram-se de água.

– Eu não acredito – Murmurou. A essa altura, German já respirava profundamente de nervoso – Foi você? – Ela sussurrou.

– Eu o quê? – German retrucou com todo o cinismo que conseguiu reunir dentro de si. Angeles fechou os olhos e deixou que algumas lágrimas escorressem.

– Por que me beijou no baile? – Perguntou calmamente e encarou-o.

– Eu não beijei você no baile – Ele respondeu secamente – Eu nem sei do que está falando.

– Está me dizendo que todas as pessoas do escritório viram aquele maldito beijo, menos você? – Angeles fechou os olhos e balançou a cabeça – Agora faz sentido.

– O que te faz pensar que fui eu? – German murmurou e Angeles encarou-o – Você teria me reconhecido, não?

– Eu não sei porquê eu não te reconheci. Mas foi você. Eu sei que foi – German balançou a cabeça.

– Olhe para mim, Saramego, você acha mesmo que eu beijaria você na frente de todo mundo? – German estreitou os olhos – Você? Não se superestime, garota. Eu teria vergonha de fazer isto – German suspirou e desviou o olhar – Convenhamos – Olhou-a novamente – Eu não a beijaria nem se estivéssemos sozinhos. Eu jamais faria isto – Angeles balançou a cabeça e fechou os olhos.

– Eu te odeio – Ela pressionou os olhos com força para impedir que mais lágrimas escorressem. Em seguida, encarou-o com os olhos encharcados.

– Não é o que parece – German murmurou seco e sem vida alguma na fala.

Ele sabia que estava conseguindo atingi-la, sabia que estava a machucando. Ora, a intenção era exatamente esta, fazê-la odiá-lo acima de tudo, mas... German sentia uma dor enorme ao fazê-lo. Ele não sabia o porquê de sentir isto, e nem queria saber, e mesmo que soubesse, se empenharia ao máximo para negá-lo.

– Entenda uma coisa, Saramego: eu seleciono bem as mulheres com quem eu vou me relacionar e você não está à altura destas mulheres. Você é uma garota ingênua e fraca. Tira da sua cabeça a ideia de que fui eu quem beijou você naquele maldito baile, porque não foi – German respirou fundo – Eu não beijo qualquer uma – Angeles franziu o cenho.

Por fim, ela abaixou a cabeça e iniciou um choro silencioso. Em seguida, saiu apressadamente da sala de German. German escutou o barulho da porta batendo e fechou os olhos. Abriu-os novamente e respirou fundo. Caminhou até sua cadeira e sentou-se. Virou-se para a janela de escritório, que ia do teto ao chão, e passou a fitar a vista a sua frente. Ele estava olhando, mas não estava vendo. O que estava vendo, dentro de sua cabeça, eram os olhos de Angeles de encontro aos seus no momento do baile. Era apenas isto que conseguia ver.

**

Angeles entrou no elevador e deparou-se com uma senhora simpática, pequena e rechonchuda, de cabelos bem brancos e olhos bem azuis. Tentou disfarçar sua cara de choro e encostou-se em um canto do elevador.

– Boa noite – Cumprimentou.

– Boa noite. Você precisa de ajuda, filha? – Angeles olhou-a e sorriu sem mostrar os dentes. Negou com a cabeça.

– Obrigada – Murmurou. Angeles enxugou o próprio rosto e olhou para a frente.

– Você trabalha com os meninos? – Angeles encarou-a e franziu o cenho.

– Que meninos? – A senhora sorriu.

– Desculpe, é que quando eu os conheci, eles eram bem jovens. Eu me refiro ao Matias, Pablo e German – Angeles assentiu e a senhora arqueou as sobrancelhas – Você não parece gostar muito – Angeles sorriu sem mostrar os dentes.

– Não é isto. Eu gosto. O Matias e o Pablo são uns amores, são bons amigos – Angeles desviou o olhar.

– E o German? – Angeles encarou-a e respirou fundo. “É a pior pessoa que eu já conheci na minha vida, eu odeio esse homem”, pensou. Desviou o olhar.

– É um ótimo advogado – A senhora assentiu.

– Eu imagino que você tenha conhecido o pior lado do German – Angeles respirou fundo.

A porta do elevador abriu-se e Angeles, antes de sair, reparou nas mãos da senhora, com várias sacolas pequenas de lixo.

– A senhora quer uma ajuda?

– Por favor, filha – Angeles sorriu sem mostrar os dentes e pegou boa parte das sacolas.

Ambas direcionaram-se à sala onde jogavam-se os lixos.

– Qual é o seu nome? – A senhora perguntou simpaticamente.

– Angeles Saramego. E o seu?

– Margarida Fierres. Mas para você é Margô – Angeles sorriu.

As duas entraram na sala e colocaram os lixos no devido lugar. Em seguida, saíram e caminharam até o elevador.

– Pois então, Angeles...

– Para a senhora é Angie – Angeles interrompeu simpaticamente, ao que Margarida sorriu.

– Pois então, Angie, quer tomar um chá, um café ou apenas jogar conversa fora? Você me parece meio triste – Angeles sorriu sem mostrar os dentes.

– Talvez seja uma boa ideia.

**

Ambas subiram até o décimo quinto andar do edifício comercial. Pelo menos, até então, Angeles pensava que era só comercial. Caminharam até a última porta do corredor e Margarida abriu a porta para que entrassem.

– Vou fazer um café, Angie. Fique à vontade – Margarida dirigiu-se à cozinha.

Era um apartamento pequeno e aconchegante. A primeira coisa que Angeles reparou foi em um aparador com algumas fotografias, encostado na parede esquerda à porta. Se tinha uma coisa que Angeles adorava era a fotografia. Depois, olhou ao redor e notou um piano em um canto da sala, próximo à janela. Mas logo voltou a olhar para o aparador. Analisou foto por foto. Deteve-se na foto em que estavam três rapazes muito bonitos um ao lado do outro.

O primeiro rapaz, aparentemente alto e loiro, vestia calça jeans e camisa social. Ele sorria largamente, segurava uma garrafa de champagne com uma das mãos, o outro braço apoiava nos ombros do amigo, e olhava para a foto. O rapaz do meio, o mais baixo deles e moreno, vestia uma beca e usava um capelo. Ele olhava para o loiro divertidamente e parecia dizer alguma coisa. E, por último, o mais charmoso dos três, o qual vestia terno e gravata. Moreno também. Ele olhava para o loiro e possuía um sorriso vivo no rosto. Também apoiava um dos braços nos ombros do outro.

Angeles pegou a foto e aproximou-a para vê-la melhor. Franziu o cenho e ficou em choque ao ver aquele German sorridente junto com Pablo e Matias. Caminhou até o sofá, sentou-se, apoiou os cotovelos nos joelhos e a cabeça em uma das mãos. Seus olhos encheram-se de água, ela só não sabia se porque lembrou da forma como ele a tratara ou por ficar enternecida ao vê-lo daquele jeito na foto. As lágrimas começaram a escorrer por seu rosto e ela passou o polegar delicadamente por cima do rosto de German.

– Eu te odeio tanto – Sussurrou.

Angeles continuou fitando a foto e chorando silenciosamente, até Margarida voltar com uma caneca.

– Está tudo bem, anjo? – Angeles olhou-a e enxugou o rosto rapidamente. Repousou a foto no sofá e pegou a caneca.

– Sim, dona Margô. Não se preocupe.

Dona Margô sentou-se ao lado dela e passou a mão carinhosamente no braço de Angeles. Depois olhou para a foto no sofá e pegou-a. Abriu um sorriso nostálgico ao vê-la.

– Formatura do Pablo, eu que tirei a foto. Estavam mais unidos do que nunca. Sempre foram assim, sabia? – Margarida olhou-a – Sempre foram muito amigos, quase como irmãos, e sempre planejaram trabalhar juntos – Dona Margô olhou para a foto – Eles eram tão determinados e eram tão – respirou fundo – sonhadores – Angeles olhou para o chão.

– Até o senhor Castillo? – Murmurou distraída. Margô sorriu consternada e olhou-a.

– Principalmente, o German – Angeles olhou-a. Dona Margô suspirou e ficou séria – O German tinha um prazer enorme em ajudar quem realmente precisava e, muitas das vezes, ele nem cobrava os honorários – Angeles olhou fixamente para o chão. Margarida respirou fundo, olhou para o chão e abriu um sorriso melancólico – O Matias era o mais extrovertido e brincalhão – Angeles sorriu sem mostrar os dentes – O Pablo era o mais carinhoso e o mais sentimental, sempre chegava e me dava um abraço apertado – Dona Margô encolheu os ombros – Os dois são assim até hoje. Já o German... – Respirou fundo – O German era o mais atencioso dos três – Angeles olhou-a seriamente e dona Margô encarou-a – Era aquele que sempre se preocupava com todo mundo, que sempre cuidava dos outros – Angeles abaixou rapidamente a cabeça e voltou a olhar para a senhora – O German sempre teve uma personalidade forte, sempre foi o mais racional dos três e sempre foi sério e centrado, mas quando você o conhecia, – Dona Margô sorriu distraída – percebia o quão amável ele podia ser – Os olhos de Angeles mais uma vez se encheram de água – O German era bom, era humilde e era gentil. Com todas as pessoas.

– Em que momento ele ficou assim? – Angeles soltou enquanto enxugava o rosto e dona Margô olhou-a.

– Assim como, Angie? – Perguntou calmamente, mesmo já sabendo a resposta. Angeles abaixou rapidamente a cabeça, depois voltou a olhá-la.

– Frio e insensível – Murmurou.

– Angie, eu não a encontrei no elevador daquele jeito por causa dele, não é? – Angeles não segurou o choro e Dona Margô abraçou-a – Não fique assim, menina – Murmurou calmamente e acariciou a cabeça de Angeles – O que ele fez? – Angeles afastou-se um pouco, enxugou o rosto e encarou-a.

– Ele tem uma capacidade enorme para acabar comigo apenas com coisas que ele diz – Apoiou os cotovelos nos joelhos e olhou para dona Margô – Desculpe, dona Margô. Eu não deveria falar dele, eu já percebi que a senhora tem um carinho grande por ele – Dona Margô respirou fundo.

– Sim, eu gosto do German como se ele fosse meu filho, Angie. Mas eu não fecho os olhos para o que ele se tornou, eu não fico presa à imagem do antigo German, ainda que esta ideia seja tentadora – Dona Margô abaixou rapidamente a cabeça e voltou a olhá-la – Há dez anos, German passou por uma decepção muito grande. A maior da vida dele – Dona Margô suspirou e murmurou cabisbaixa: – e ele nunca superou – Margarida encolheu os ombros – Depois disto, ele nunca mais foi o mesmo, a cada ano ficava pior.

– Há quanto tempo a senhora não o vê?

– Tem um mês, eu acho. Ele geralmente vem uma ou duas vezes por mês. Ele nunca deixou de me visitar – Margarida suspirou.

– Dona Margô – Angeles desviou o olhar – Você acha que ele... Que ele um dia possa mudar? – Margarida encolheu os ombros.

– Quem é que sabe, Angie? – Margarida fitou o chão – O German precisa de amor, precisa de carinho, de atenção, de alguém que cuide dele. Mas ele não se permite ter isso – Angeles abaixou a cabeça – Tudo por medo de sofrer.

– Será? – As duas encararam-se – Será que todos os anos que passaram não o deixaram tão insensível a ponto de não conseguir sentir mais nada? – Angeles falou com certo rancor. Depois, fechou os olhos com força e balançou a cabeça – Desculpa – Olhou para Margarida – Desculpa, dona Margô. A senhora está sendo um amor comigo e tem o senhor Castillo como um filho, eu não deveria falar o que eu penso e o que eu sinto a respeito dele – Margarida pegou a mão de Angeles carinhosamente.

– Diga, Angie – Angeles suspirou – Não se preocupe. Coloque para fora tudo o que sente – Angeles desviou o olhar.

– Eu não o suporto – Os olhos de Angeles encheram de água novamente – Eu... Cada vez que ele chega perto, cada vez que ele me trata mal, eu sinto vontade de... Eu não sei, eu sinto um ódio enorme – Ela encarou Margarida – E, para piorar, eu beijei um homem no baile de máscaras do escritório – Margarida franziu o cenho – Foi o melhor beijo da minha vida, mas eu não reconheci o homem que eu beijei e hoje eu tive a impressão de que o homem do baile era ele.

– Tem certeza, Angie?

– Não. Agora não. Mas na hora eu tinha certeza. Só que depois começamos a discutir e ele disse que jamais me beijaria – Angeles abaixou a cabeça.

– Por isso estava chorando quando te encontrei? – Angeles encolheu os ombros.

– Ele me disse mais algumas coisas – Ela olhou para Margarida – Mas não importa mais– Angeles suspirou – É melhor eu ir, dona Margô. Já está tarde – Ela levantou-se.

– Como você vai, Angie?

– Eu vou pegar um táxi.

– Tudo bem, meu anjo. Fique bem – Angeles sorriu.

– Eu vou ficar.

Notas finais
Espero que tenham gostado!