Que Venha Outro Dia
2 Apenas um é suficiente.
Notas iniciais
Eu não era o tipo de garota que sonhava em ter um namorado ou coisa parecida, não conseguia sentir o que as outras garotas diziam sentir, não me lembro de ter gostado de nenhum garoto, resumindo, era complicado minha “relação” com o garoto problema.
– Obrigado Erin, vamos para a sala. – Só podia dizer essas palavras e pensei mesmo se um obrigado era certo, bom..De qualquer forma, discutiria com ele no caminho para sala de aula.
Até então o grupo de alunos baderneiros que estavam em volta na hora da briga já tinham se dispersado aos poucos, só restavam alguns e o Rick, o outro que estava brigando.
Rick era mais do tipo popular, com boa reputação, mauricinho mimado pelos pais, tinha o mundo aos seus pés e não gostava de lutar, pelo menos ele não, mas os amigos dele não eram desse jeito então toda briga em que ele se metia, o outro saía machucado na maioria das vezes por causa dos amiguinhos do Rick.
– O que estão esperando? Querem que o conselho mande uma notificação para os pais de cada um? Eu posso falar o nome de todos que ainda estão aqui! – Foi suficiente para o resto do pessoal sair por completo, menos Rick e o Erin, que estava me esperando.
– Algum problema “representante”? – Era o tom sarcástico de Rick que mais me deixava irritada.
– Rick, eu diria para você se dirigir para enfermaria parece que Erin deixou um ótimo presente em você. – Estava zombando do olho vermelho e dos outros machucados espalhados pelo corpo de Rick, eu sentia raiva daquela atitude dele.
Eu não apoiava a briga, muito menos Erin, e também não me interessava pelos motivos.
– Sem problemas, estava mesmo a fim de matar aula. – Ele deu uma risada irônica —
Eu percebi que o olhar de Erin e Rick estava se encarando então me apressei para puxa-lo e voltar para sala.
– Vamos Erin, você precisa escutar umas boas de mim.
– Tá Sofie. – Ele tinha um sorriso descarado no rosto que também me irritava.
Fomos andando até a sala e quando olhei para ele vi sua testa sangrando, estava sangrando muito pouco e isso era patético.
– Não acredito que o mauricinho conseguiu te fazer sangrar. – Eu ri.
– Do que esta falando? – Ele não tinha percebido ainda então não deveria estar doendo eu imaginei.
– Vem cá. – Eu fui levando ele para perto do banheiro.
– Aonde quiser. – Ele ria e eu achava ainda mais engraçado ele não entender nada.
Entrei no banheiro feminino peguei um pedaço de papel molhado e passei na testa dele.
– Ai, o que está fazendo? – Eu confesso que apertei bem forte o machucado.
– Olha aqui seu fracote, sua testa estava sangrando. – Ficava ainda mais patético com aquele olhar de desapontamento que ele fez.
Em seguida, fomos para a sala, o professor apenas me chamou de lado e perguntou o que havia acontecido, expliquei a história toda e pedi para que ele desse um recado ao conselho estudantil, Rima não parava quieta na cadeira e eu mandei um sinal de tudo bem para ela, ela se acalmou um pouco.
No mesmo dia, o meu recado foi dado e as notificações que eu pedi ao conselho já estavam sendo entregues aos pais do Rick e do Erin.
Sentei no meu lugar e pensei sobre os comentários que fariam a meu respeito, não que eu ligasse para essas questões, não tinha muitos amigos ou quase nenhum, não me importava com essas coisas mas Rima era alguém importante para mim, apenas ela era suficiente, com certeza. Ela tinha um cabelo ruivo e longo que dava inveja, sempre preso de lado. Ela era um pouco mais alta que eu, porém qualquer pessoa era “um pouco mais alta que eu”.
O último sino tocou e fui embora com Rima, fazíamos o mesmo caminho, porém a minha casa era um pouco mais longe da dela, só algumas quadras. Ela estava inquieta demais, eu tinha de perguntar o porquê.
– Rima, algo aconteceu?
– Nada demais Sô.
– Como assim? Já te disse que ficou tudo bem, não precisa se preocupar. – Eu a conhecia desde os 9 anos de idade, conhecia aquele olhar dela.
– Mas, se tivesse acontecido? Imagina se o Erin se machuca?
Outro motivo para que eu não me aproximasse de Erin: – Rima gostava dele.
– Ele não se machucaria por causa do Rick, você sabe como Erin é. Ele é um brutamonte que só sabe usar a força, não tem nem como imaginar ele apanhando do Rick.
Eu sorri e ela começou a rir, era lindo o sorriso dela mas era triste que o Erin não reparasse nela.
– O Erin não se machucaria por causa daquele mauricinho, não é? – ela ria e andava.
– Com certeza não...
– Ah Sô, tem umas papeladas que eu me esqueci de te entregar hoje. – Abrindo sua bolsa, ela tirou alguns papeis e um envelope estranho cheio de detalhes. – Toma aqui.
– É sobre o que?
– Só sei que esses papeis são alguns formulários que “a representante da sala 2º B, Sofie Hitcher Finn deve preencher” e o envelope é do próprio diretor – Ela deu muita risada depois de falar o meu nome completo. .
– Por que essa ênfase em “Representante da sala, Sofie Hitcher Finn” hein? – Imitei a voz que ela fez para pronunciar a frase mas não soava tão bem assim.
– Você deveria estar orgulhosa pelo conselho lembrar o teu nome, eles falam bem até demais sobre você.
– E isso é algo bom?
– Claro que é, os professores confiam ainda mais, se você for e falar “– Professor, mataram a Rima no caminho para casa.” Eu acho que eles nem vão ir confirmar, já vão ligar para os meus pais desejando os seus pêsames.
– Fica quieta Rima, idiota! – Eu não me aguentava de tanto rir.
Eu já ia abrir o envelope mas fui interrompida.
– NÃO! – Ela puxou o envelope da minha mão.
– Que foi? Tá louca? – Estranhei a atitude dela —
– Nossa, foi por pouco... O diretor disse que é para você abrir só no final do próximo bimestre e para não perder esse envelope por tudo que é mais sagrado nesse mundo todo!
– Ata, ele disse mesmo “por tudo que é mais sagrado nesse mundo todo!”? – Eu ria por que era a cara dela exagerar em tudo.
– Não, mas ele disse “- Avise-a que ela não pode perder este envelope, é algo muito importante e de alto valor para ela.” – Ela tentou fazer a mesma voz que o diretor mas o máximo que ela conseguiu foi falar igual um idoso e o diretor não era tão velho assim.
– Olha só, parabéns Rima, estou orgulhosa!
– O que? Por quê? – Ela me olhou desconfiada e desentendida.
– Você conseguiu gravar uma frase inteirinha, um grande progresso não acha?
– Ai cala boca Sô. – Estufando suas bochechas ela continuou andando.
Já estávamos na frente da casa dela e eu ria enquanto ela continuava com as bochechas estufadas e reclamava.
– Entra logo e faz a tarefa de história tá?
– Poxa representante, deixa essa passar... É muito longa!
– Tchau Rima... – Eu sai caminhando e acenando de costas para ela.
– Ah Sô, tchauzinho. – Ela resmungou.
Fui caminhando mais um pouco até a minha casa, esperando poder sair daquele mundo caótico que eu detestava.
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