Notas iniciais
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Hey.
Se alguém ler... seria muito bom.

Me pergunto se ela se cansou de mim. Tudo mudou há uns dois meses atrás. Ela passou a chegar tarde em casa, as vezes ficava fora por uns dois ou mais dias. Dizia que estava visitando a mãe, coisa que, após se repetir tanto, nem acredito mais. Mesmo que eu tente levar tudo em consideração porque acredito nela, ainda desconfio que esteja mentindo para mim.

Certa vez, ela me ligou tarde da noite e disse “Amor, hoje não voltarei para casa” algo estava diferente. Um sentimento estranho tomou conta do meu coração e um medo terrível. A voz dela denunciava que tinha algo errado, mas o que? Por que ela não me diz... não confia em mim? Com esses pensamentos me preparei para dormir, amanhã teria que acordar cedo para trabalhar, mas tudo estava tão confuso que fiquei algumas horas pensando na vida. Eu a amo, tanto que larguei tudo por ela, família, dinheiro... minha vida, eu cedi a ela.

Não tínhamos segredos.

Ouvi o barulho da porta sendo aberta e então passos discretos, sabia que era ela, fingi que dormia. Ela subiu na cama e se aproximou de mim. Deu um beijo delicado nos meus lábios e sussurrou, um sussurro repleto de tristeza “Por favor, me perdoe”. Senti uma de suas lágrimas pingar na minha bochecha.

Tive vontade de abraça-la e falar que está tudo bem, que não precisa pedir perdão, mas me contive teria que saber sobre o que se tratava. Amanhã iria resolver tudo isso, mesmo que fosse de um jeito infantil. Tentaria ameaçar ela de um jeito ou de outro para que pudesse me contar o que se passa e depender de mim.

Não queria ser um inútil. Eu não era um inútil.

Quando ela enfim adormeceu me virei a abracei e dormi logo depois. Incrível como encontro paz quando ela está ao meu lado. Precisei de horas para conseguir dormi, mas poucos segundos com ela aqui... já fez a diferença.

Pela manhã já estava decidido. Ela acordou e percebeu que eu a olhava falou um “Bom dia” e tentou me beijar, virei o rosto negando o afeto e então respondi com uma fingida raiva um “ Temos que conversar”.

Me levantei da cama para começar a me arrumar e explicar a situação para ela enquanto procurava por um camisa para trabalhar, passar uma impressão de que não me importava mais. “Você tem estado estranha comigo nesses últimos meses e eu não estou suportando mais...” Falei enquanto abotoava a camisa e me virei para ela. “ Por isso, eu estou pensando em divorcio” Me doeu dizer aquilo.

Ela me olhou surpresa por um instante, então botou a mão na franja colocando para trás, sempre fazia isso quando pensava, e deu um sorriso triste.

“Sim... Podemos fazer isso. Você não merece ficar preso a quem não ama mais”. Sua voz tremida e seu olhar me diziam o contrário, mas suas palavras querendo ou não me chocaram. Uma lágrima solitária percorreu por sua face.

Mesmo que com toda força eu quisesse manter o papel de quem não se importa, eu jamais conseguiria após ver aquela expressão em seu rosto. Me aproximei dela, ajoelhei na cama e fiquei de frente a frente com ela, passei o dedo em suas bochechas para limpar o vestígio que a gota de lágrima deixara.

“Por favor, me perdoe. Eu só queria... não sei. Foi uma ideia idiota, sinto muito”. Afirmei terrivelmente arrependido. “ Só quero saber o que se passa? O que me escondes? Por que não confias em mim? Tenho tantas perguntas, mas não tive capacidade de faze-las, cheguei ao meu limite. Eu te amo. Muito, mais que tudo nesse mundo. Não importa o que sejas que estas a me esconder ainda te amarei. Então, por favor me conte. ”. Supliquei olhando intensamente em seus olhos.

Ela passou as mãos em meus cabelos e sorriu.

“Era disso que eu tinha medo. ” Sua mão desceu para minha face. “ Não encontrava coragem para te contar o que está acontecendo, não queria te preocupar, sabia que ia ficar abalado... Só queria que não tivesse acontecido com nós. Eu... eu não sei o que fazer. ” Quando terminou essa frase me deu um abraço forte. Retribui e deixei que se recuperasse para então me contar. Ela sussurrou perto do meu ouvido “estou doente”

Eu não entendi para que tanto alvoroço por causa disso.

“Só irmos ao hospital, eu vou com você se não quiser ir só” Me ofereci.

“Não desse jeito. Niel ”. Ela se desvencilhou do abraço. “ Estou... com câncer”

Sem perceber, depois dessa frase, eu estava chorando. Não, eu não podia. Tinha que ser forte por ela. Enxuguei eu mesmo as lágrimas e sussurrei quase sem voz para conseguir falar num tom normal “M-mas... tem cura, né? Né? ”

Ela simplesmente me encarou e disse “não sei”

Meu mundo acabou. Não me tinha mais chão. Eu não sou capaz de cura-la. Não sou Deus!

Agora, foi a minha vez de abraça-la em busca de consolo. E sussurrava mais para mim do que para ela “vai ficar tudo bem” repetidas vezes.

Alguns meses se passaram depois da revelação dela, decidimos lutar juntos contra essa doença. Ela começou a fazer a quimioterapia, seu cabelo passou a cair, não me importei ainda continuava linda. O que me matava por dentro era ver ela sofrer com os efeitos colaterais da quimio. Tentava ser o mais forte possível, não chorei em sua frente desde aquele episódio. Mas a cada ida de emergência ao hospital, chorava tanto que parecia que quem estava morrendo era eu. Eu sei que ela percebia meus olhos inchados e avermelhados, mas não comentava, algo que eu agradeci muito. Na presença dela eu ria e sorria, fazia piadas e brincava, coisa que jamais fora forçado. Graças a Deus. Tirando, é claro, o dia em que ela foi para última cirurgia a que decidiria se ela iria continuar viva ou morrer na operação.

Eu disse a ela “ Eu te amo muito, muito mesmo. Mais que tudo nesse mundo. Anne, você é forte sei que vai sair dessa. Vamos finalmente criar nossa família, ter nossos dois filhos Alex e Mariana, compraremos uma casa com um quintal grande para as crianças brincarem. Seremos felizes a cada dia, brincando, brigando, sorrindo e também chorando quando nossos filhos partirem de casa. Mas mesmo assim, teremos um ao outro.” E dou um beijo nela, talvez esse seja o último.

“Não chore” ela sussurrou fraca e foi aí que percebi que eu chorava, quebrei a promessa que fiz a mim mesmo. “ Eu também te amo muito, muito mesmo. Obrigada por estar ao meu lado, sempre me dando forças e sendo forte quando eu não conseguia. Lhe devo a minha vida. ” Ela sorriu, um sorriso que eu nunca tinha visto antes, e com lágrimas nos olhos, mas sabia que tinha sido feliz.

Ela foi levada para a sala de cirurgia e... nunca mais retornou.

Sim, esse foi o pior dia da minha vida, o dia em que eu desejei muito ser eu no lugar dela. Se ela não está mais comigo por que eu deveria continuar a viver? Queria me matar e tirar essa dor horrível do meu coração.

No funeral dela sua irmã entregou-me uma carta destinada a mim, uma carta de Anne.

Nesta carta dizia:

“Essa carta é para o caso de que eu não consiga lutar até o final. Daniel, se isso acontecer, não tire a sua própria vida, viva por mim, por você. Eu lutei muito para viver então você não pode desistir facilmente da sua vida, jamais! (...)”. Não falarei o resto da carta porque só eu poderei saber o que tem escrito nela. Palavras que mudaram minhas escolhas e vida.

Notas finais
Oi, oi.

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Você chegou ao fim do livro. Parabéns!