Que Droga, Cas!
10 Sorrisos e Lágrimas
Notas iniciais
Havia um frio típico de inverno, não havia neve ainda, mas era questão de dias para começar a cair à chuva branca, que muitas crianças esperam avidas por todo o país. A lua estava no topo do céu, brilhando como nunca havia brilhado antes. Dando um contraste incrível a paisagem noturna. Até parecia que ela o único ponto quente naquela imensidão gélida.
Para complementar a paisagem, ouvia-se gritos dentro de um pequeno quarto de um motel. Um motel barato e nada luxuoso. Paredes descascadas, chão repleto de rachaduras e a pintura já fora algum dia bonita e viva em seu tom verde. Mas as camas, pelo menos, ainda eram limpas e com lençóis novos. Os gritos em questão, não combinavam com o local. A menos, é claro, que a pessoa que estivesse depois daquela porta, fosse chegada a algo mais bruto e violento.
Castiel estava amarrado a uma cadeira aos pés da cama onde não havia sequer deitado. As cordas, minutos antes, foram embebidas em óleo santo, uma ameaça a Castiel, que qualquer truque dele, só bastaria um isqueiro e pronto. Anjo frito bem crocante.
Podia ver hematomas em todo o corpo de Castiel, braços, pernas e abdômen não foram poupados dos murros e chutes. Seu rosto estava banhado no próprio sangue que não só escorria do nariz, como dos imensos arranhões em sua pele. Seu olho esquerdo estava roxo e inchado, como se por baixo da pele, tivessem implantado uma bola de tênis.
Mas Castiel aguentava firme. Não desmaiara nenhuma vez, apesar da dor alucinante que ele sentia a cada chute ou estocada da Faca dos Anjos que recebia na mão – Não era fatal, mas ainda doía muito e sua graça ajudava a afirmar isso. Por mais que quisesse que isso acabasse, desejava de toda a ‘alma’ que Dean não conseguisse encontra-lo e tentar salva-lo. Pois se o agressor conseguira fazer isso com um dos anjos mais fortes de Deus, o que ele poderia fazer com um mero mortal? Castiel desejava que ele estivesse ao lado oposto de sua localização. Se ele estivesse ao Norte, Dean deveria estar ao Sul. Mas no fundo de sua consciência, ele sabia que não era isso que estaria acontecendo. Provavelmente Dean está atrás dele nesse exato momento, e temendo as habilidades de localizar pessoas que o loiro tinha, deveria estar bem próximo do motel.
Ao cessar de chutes que estava recebendo há poucos segundos, viu o outro anjo indo até a direção da cama e sentar-se nela. A principio pensou que o outro anjo estivesse cansado ou acabara por se machucar de tanto que batera nele. Nos segundos que se passaram enquanto o outro anjo mexia em alguma coisa na bolsa que trazia consigo, Castiel pode absorver as informações que o quarto tinha. Havia uma cama de casal, com lençóis brancos e travesseiros acompanhando, a cabeceira era simples e marrom. Digno de um motel simples. Havia também um quadro que repousava na parede onde a cama ficava. O quadro trazia um casal de mãos dadas caminhando na praia, ao cair do sol. Dando para ver só a silhueta negra do casal, que deixava pegadas na areia molhada. Ao lado da cama via-se um pequeno móvel marrom, porém de tom diferente da cama, onde um abajur estava acesso, mas só ele iluminava o quarto. A luz principal do quarto estava apagada, dificultando Castiel de ver o que havia do outro lado do quarto além da janela fechada com as cortinas.
Castiel tentou pronunciar algumas palavras, mas como havia muitos ferimentos em sua face, ficou difícil e dolorido de se fazer. Porem, o outro anjo ao ver que Castiel tinha algumas palavras a dizer, foi até ele e tocou-o com os dois dedos, livrando seu rosto de todos os machucados. Mas mantendo-o preso a cadeira e com os outros machucados.
— Por que você está fazendo isso? Pensei que o Céu finalmente estivesse em paz!
— E está. Mas EU não estou em paz. Não estou em paz com você, Castiel. — Com o rosto limpo outra vez, pode expressar uma cara de confusão. Fazia anos que ele não se metia em algum assunto do Céu. Aliás, a ultima ida dele lá, foi pacifica e rápida.
— O que eu provavelmente fiz para despertar essa fúria em você, Naomi? — ela lançou um olhar sarcástico e ao mesmo tempo amedrontador.
— Você simplesmente se aliou a aquele macaco pelado! Como se chama mesmo? — ela sabia muito bem o nome. — Ah sim, Dean Winchester. — Ela estava se divertindo com aquela conversa. Seus olhos brilhavam de puro prazer.
— E o que isso tem a ver? Por que me amarrar e me espancar? Só por que eu amo mais aquele homem do que ao Céu? — o olhar de Naomi mudou drasticamente ao ouvir aquelas palavras. Se tinha um por que dela estar ali, era por Castiel ter preferido um humano ao Céu. E agora ouvir aquilo? Naomi o olhou com escarnio antes de responder.
— Como ousa dizer isso Castiel? Como preferiu amar aquilo? O que ele tem a lhe oferecer? — Castiel sabia que a resposta dessa pergunta iria lhe causar mais raiva ainda. E preparou a garganta para garantir que ela ouvisse.
— Amor, uma família de verdade. E o que o Céu me ofereceu? Dor, medo, limites... Quer que eu faça uma lista? — Agora Naomi não se aguentou. Pegou a Faca dos Anjos e proferiu um golpe na perna direita do anjo. Ele urrou de dor. Mas no fundo se sentia muito bem por ter deixado Naomi mais nervosa ainda. Depois de 3 anos vivendo com Dean, como pessoas normais, conseguiu absorver uma característica muito útil no dia-a-dia humano. Sarcasmo. Ele se sentia muito bem ao usa-lo. Como uma criança que adora usar a roupa nova para baixo e para cima.
— Se ele é tudo isso, por que ele não está aqui te ajudando? — Ela conseguiu dizer depois de se acalmar.
— Por que um anjo filho da puta me amarrou e está me mantendo sob algum tipo de feitiço. Isso serve, não serve? — Mais um golpe na perna direita. Parecia que ele estava furando um pernil antes de tempera-lo.
— Não deveria falar assim que com está prestes a mudar o rumo da sua vida. Ops me esqueci, ''vida humana''.
— Uma vida humana minha, vale mais que a sua vidinha medíocre no Céu. Eu já tive uma, e sei que é medíocre mesmo. — o antigo ar de prazer que Naomi trazia, fora substituído com um comportamento inquieto e nervoso. Como se de uma hora para outra, ficara sem tempo para aquilo.
— Acho que está na hora de você implorar.
— Isso não vai acontecer.
— Ultima chance Castiel. O Céu ou ele.
— Você já sabe muito bem a resposta.
— E na hora certa.
A porta do quarto do motel se abriu com um estrondo. O homem fez menção de ir correndo ver se Castiel ainda respirava, mas ao ver Naomi apontando a arma dos anjos bem na direção do peito de Castiel, parou de súbito e disse:
— Quem é você? Um anjo?
— Para um macaco pelado você não é tão burro.
— Solte-o. Antes que se arrependa.
— Você não está em condições de nada aqui. — Naomi abaixou a faca e pegou o objeto que fora procurar em sua bolsa. Um isqueiro. Dean de principio não soube o porquê que ela largou uma arma mortal e pegou um objeto qualquer, mas depois fez a ligação entre ele, à corda e o anjo.
— Um passo e você verá seu querido anjo queimar vivo.
— O que você quer? Por que fez isso com ele?
— Não quero ficar prolongando essa conversa mais que o necessário. Então, irei direto ao ponto: Ele preferiu você a nós, sua verdadeira família.
— Família que tenta te matar não é muito boa não...
— Quieto! — parecia que ela estava maquinando algo em sua cabeça. Um plano inesperado, novo e melhor do que o antigo. — Não morrerá hoje Winchester. Mas irá ter preferido — Um ultimo sorriso em seu rosto antes de enfiar a Faca dos Anjos no peito de Castiel. Tirando-a rapidamente, para ele ter uma morte mais lenta e agonizante de se ver. E vendo o medo estampado no rosto do Winchester, sumiu, deixando os dois sozinhos ali.
Dean correu em direção ao anjo que agora buscava ar para seus pulmões. Desamarrou-o rapidamente e o segurou no colo, encostando-se A e na parede atrás de si.
— Dean, me prometa. Não vá atrás dela. — disse ele respirando com dificuldade. Dean o olhou por um segundo, já com os olhos cheios de lágrimas, antes de responder.
— Promete, sim... Claro.
— Sabe, eu amei passar esses últimos anos com você Dean. — Sorria da maneira mais calma que conseguia.
— Por que está me dizendo isso Cas? — sorrisos e lágrimas se misturavam no rosto de Dean.
— Não vou poder mais te dizer...
—Talvez se corrermos...
— Dean...
— Eu sei... Eu sei... Só não quero te perder Cas.
—E você não irá. Basta você olhar aqui dentro, humano. — Dean acompanhou a mão do anjo, até ela pousar no lado esquerdo do seu peito. E sorriu ao ver aquilo. Voltou o olhar ao anjo bem a tempo de vê-lo dar seu ultimo suspiro. Dean, que agora não lutava em deixar suas lágrimas caírem, depositou um beijo na testa de Castiel. No meio das lágrimas que corriam em seu rosto, Dean repassou os anos que conhecia Castiel. Desde sua primeira visita ao humano há sete anos até seus últimos meses com ele.
Viviam em paz na casa de Dean. Castiel arrumara um emprego temporário como garçom no restaurante onde Dean trabalhava, pois como chef ele não se saíra muito bem. Dean lembrou de como Castiel adorava as tardes de domingo, onde se sentava na varanda e ficava olhando o sol se pôr por completo. Às vezes Dean o acompanhava, e juntos ficavam de mãos dadas até o último raio de sol atingi-los. Se fosse há alguns anos atrás, Dean iria rir de quem fizesse isso, mas depois de tudo o que passou para poder ficar ao lado de Castiel, aquilo já não era mais engraçado ou estupidamente meloso. Dean se lembrou de como foi a primeira vez deles. A cena fora mais fofa do que erótica. Dean também se lembrou de como Castiel ficava vermelho quando Dean o lembrava desse dia.
Ao sair da chuva de lembranças que despencava em sua mente, Dean soube que nunca mais iria ouvir a voz profunda do anjo. Nunca mais iria olhar para aqueles olhos cheios de vida, pois agora eles estavam desfocados e contemplavam o nada. Nunca mais teria Castiel.
Ele se foi para sempre.
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