Quatro caras e Alex

2 Quatro caras, Alex e questão de costume


Notas iniciais
Olá, queridos! Mais um capítulo saindo do forninho (de uma onda de inspiração). Espero que gostem.

— Então, Alex... — iniciou Will, espreitando os olhos a espera do primeiro erro da moça para colocá-la dali para fora e aproveitar o que restava de seu pacífico sábado sozinho. — Qual é o seu nome completo?

— Alexandra Dallas. — ela respondeu, normalmente.

Como seu nome não indicava descendência de uma família de mafiosos russos ou algo do tipo, ele continuou, ainda a encarando fixamente.

— Idade?

— Vinte e cinco anos.

Droga, ela tinha praticamente a idade de seu irmão mais novo. Recusá-la por ser nova ou velha demais havia acabado de ser riscado da lista mental de Will. Além do mais, a tática de colocá-la sentada de frente para ele e os outros três homens apenas para intimidá-la parecia não estar funcionando também, pois ela mantinha aquele irritante ar natural e descontraído.

— Com o que você trabalha? — ele insistiu.

"Por favor, seja algo bem broxante." pensou, esperançoso.

— Eu trabalho no Clube 20, como o que chamam de cigarette girl.

— Espera. — pela primeira vez, Rayan havia parado de mastigar sua maçã para se pronunciar. Parecia surpreso. — Você trabalha naquele clube noturno famoso que toca aquelas músicas antigas, naquela roupinha pequena, distribuindo charutos?

Ótimo, alguém mais estava percebendo como aquela ideia de deixá-la morar com eles era ridícula. Além do mais, ela nem deveria ganhar o suficiente para se sustentar e ainda pagar parte do aluguel.

— Não é o melhor emprego do mundo, mas as gorjetas são bem generosas. — Alex respondeu, dando de ombros. — E também tem doces e bebidas nas bandejas, além de charutos.

Droga, ela ganhava bem e provavelmente entendia de bebidas. Will sentiu-se perdendo aquele jogo quando viu Rayan sorrir, fazendo seus olhos asiáticos quase se fecharem.

— Que bacana. — ele disse, voltando a morder sua maçã infinita.

Traidor.

— Você tem algum animal de estimação? Ou vários, talvez? — perguntou Will, lembrando-se que nenhum dos caras era fã de animais. Sabia até que um deles era alérgico, mas não se lembrava quem.

— Não, nenhum.

Agora era tudo ou nada. Ele havia guardado uma carta na manga esperando não precisar usá-la, mas Alex estava o forçando a fazer isso.

— Alex... — ele disse, apoiando os cotovelos nos joelhos para se aproximar dela. Suspirou. — Você corta a unha do pé na mesa de jantar?

Mesmo recebendo as piores caras de nojo dos outros três, ele manteve-se firme e acusador. Quando Billy estava prestes a encerrar aquela situação, a moça imitou a posição de Will, deixando os dois ainda mais próximos.

— Não. — ela respondeu, num tom pesado. Logo depois, não se contendo, começou a gargalhar e acabou por arrancar risadas dos outros, com exceção de um catatônico Will.

— Quando você pode se mudar? — perguntou Carter, recuperando o fôlego depois de rir alto da cara do amigo.

— Quando vocês deixarem. — disse a mulher, sorridente.

— Vou pegar uma cópia da chave para você.

Carter já estava a caminho das escadas quando Will percebeu o que estava acontecendo.

— Espera aí! Você já tinha tudo planejado! — ele exclamou se levantando e indo atrás do amigo, que parou no terceiro degrau para encará-lo.

— Você acha mesmo que eu ia trazê-la até aqui antes de entrevistá-la? — perguntou, como se fosse óbvio. — Além do mais, eu precisava saber se ela aguentaria o tormento mental que é viver com William Graham.

— Você me paga. — ameaçou. De repente, lembrou-se de algo e correu de volta para a sala. — Não tem mais espaço na garagem. — disse, apontando para Alex.

— Eu não tenho um carro. — retrucou, despreocupada.

Durante um minuto inteiro, Will a encarou e todos na sala fizeram silêncio.

— Mas que droga! — exclamou e subiu as escadas, pisando firme.

De repente, os três rapazes explodiram em risadas. Carter sacudiu a cabeça enquanto subia as escadas para buscar a chave da mais nova moradora do sobrado 401.

— Nós vencemos. — indagou Billy, trocando um soquinho com Rayan. Os dois se jogaram no sofá.

— Está tudo bem com ele? — perguntou Alex, olhando na direção das escadas para se referir a Will.

— Você se acostuma, com o tempo. — respondeu o irmão mais novo do ranzinza, tirando de baixo da almofada do sofá o controle que ele havia escondido apenas para irritar Will. — Com bastante tempo.

***

Domingo, o pior dia da semana. Não, aquela não era uma verdade universal no sobrado 401. Provavelmente para os três caras apagados no andar de cima — espera, todos eles haviam voltado para casa? — mas não para Billy. Ele bebia, sim, mas não como os amigos ou, principalmente, como o irmão. Não que ele não gostasse, pelo contrário, apreciava uma boa cerveja gelada, mas preferia se lembrar do que havia acontecido na noite anterior. E na última, mais especificamente, havia conseguido o número de uma garota.

Ele deveria ter ido para a casa dela quando ela sugeriu? Por Deus, como era péssimo com as mulheres. Não, ele não deveria, e não ligaria também, pois outra coisa que apreciava era sua capacidade de escapar de uma situação antes que ela ficasse feia. Então, como qualquer homem maduro de vinte e seis anos de idade faria, amassou o pequeno pedaço de papel em sua mão até transformá-lo em uma bolinha e o lançou na direção da lixeira da pia da cozinha — sentiu-se orgulhoso quando acertou em cheio. Ele estava pegando emprestado uma das garrafas da água importada de Rayan (elas realmente tinham um gosto melhor) da geladeira quando ouviu um barulho. Prestando atenção, o barulho era, na verdade, uma voz.

Alguém estava cantando? Mas raramente ouvia-se música naquela casa, quem dirá alguém... Calma, a música não é a única coisa nova, pensou Billy, seguindo em direção a ex-dispensa. Bateu duas vezes na porta, mas algo lá dentro parecia ser interessante demais para a nova moradora prestar atenção no barulho tímido. Então, vencido pela curiosidade e esperando que seu ato não gerasse uma situação extremamente constrangedora, o rapaz girou a maçaneta de alumínio e abriu a porta bem devagar. Ao colocar a cabeça para dentro do cômodo, ele teve que se segurar para não rir. Alex usava um shorts rosa soltinho, um moletom cinza e cantarolava Pumped up Kicks juntamente ao seu celular, jogado em cima de uma confusa pilha de roupas sobre a cama, enquanto lutava para aparafusar um pedaço de ferro em outro. O que diabos ela estava tentando montar?

— Bom dia. — ele disse, num tom calmo para não assustá-la.

Bem, foi uma tentativa em vão. Alex se virou de supetão, fazendo com que seu rabo de cavalo batesse em seu próprio rosto e soltou um grito de susto que acabou por sair na melodia da música. No meio da confusão, acabou pisando em um prego e, por estar descalça, a dor foi sentida duas vezes pior. Billy correu para dentro do quarto para lhe socorrer e a ajudou a se sentar na cama, sobre sua pilha de roupas e seu celular.

— Desculpe-me, eu não queria lhe assustar e... — ele iniciou, sentando-a na cama. Ainda de pé, se auto interrompeu quando viu um pequeno filete de sangue no chão. — Meu Deus, está sangrando.

— Tudo bem. — ela disse, sem ao menos olhar para o próprio pé.

Droga, ele também era péssimo com sangue.

— Não se mexa, vou pegar alguma coisa para colocar ai. — ordenou.

Saiu correndo do quarto apenas para se encontrar parado na cozinha se perguntando como estancar um sangramento. De repente, seus olhos pousaram no rolo de papel toalha sobre a pia e ele rapidamente arrancou três folhas do mesmo. Voltando para o quarto, ele se sentou ao lado de Alex — que não havia se mexido até então — e gentilmente colocou o pé machucado dela sobre sua coxa, fazendo-a se virar na cama. Apesar de um corte pequeno, uma linha de sangue escorria pelo seu peito do pé, o que o fez perder completamente a pouca cor que tinha no rosto.

— Sério, me desculpe. — ele disse, empurrando as folhas de papel sobre o corte.

— Tudo bem, é só... — ela suspirou pesadamente. — Essa arara de roupas é realmente difícil de montar. — admitiu, frustrada. — E esse monte de papel está me fazendo cócegas bem doloridas.

— Ah, desculpe. De novo. — afastou o amontoado de papéis do corte. Um silêncio momentâneo atingiu os dois e Billy o encarou como uma deixa para consertar suas burradas. — Aqui, deixe-me ajudá-la com isso. — ele esticou a mão para alcançar a ferramenta que ela havia lançado sobre a cama no meio da confusão, mas se viu preso ali com os aterrorizantes papéis sujos de sangue. — Você...

— Eu seguro. — ela completou o pensamento dele, rindo da sua falta de jeito. Pegou os papéis, os ajeitou melhor e limpou o pé. — Você pode ver para mim se tem algum esparadrapo dentro daquela caixa? — perguntou, apontando para uma caixa de papelão fora de seu alcance.

Enquanto Billy procurava por um pequeno rolo de esparadrapo em meio a uma tremenda bagunça, Alex se lembrou que estava sentada em cima de seu telefone e teve que procurá-lo em uma posição um pouco embaraçosa. Ainda bem que ele estava tendo trabalho com aquela caixa.

— Achei. — ele disse no mesmo momento que ela conseguiu alcançar o telefone e pausar a música.

Ela pegou o objeto e rapidamente cortou um pedaço do curativo e o colou sobre o corte — tinha prática, já que durante toda sua vida tivera que cuidar dos próprios machucados, que não foram poucos.

— Sabe, — Billy comentou enquanto a assistia terminar o curativo com habilidade. — você canta muito bem.

Ela abriu um sorriso que parecia prestes a rasgar seu rosto e deixá-la como o Coringa.

— Obrigada. Desde pequena sonho em ser cantora profissional. — admitiu, jogando o rolo de esparadrapo em meio as roupas. — Por isso aceitei o trabalho no Clube 20. De vez em quando a dona dá uma chance para cantores amadores se apresentarem lá.

— Espero que tenha sorte. — ele disse tímido, mexendo em seus pequenos cachos rebeldes.

— Garota, parece que um furacão passou por aqui. — a voz sacana atraiu a atenção dos dois. Recostado no batente da porta, a expressão de Rayan mudou quando ele percebeu o amigo com uma chave de fenda em uma das mãos e papéis sujos de sangue no chão do quarto. — O que foi que você fez, cara? Eu achava que era o Will o irmão com tendências psicopatas.

— O que? — perguntou, confuso. Foi então que percebeu o que aquela cena realmente parecia. — Não!

— Foi um acidente. — explicou Alex. — Eu sou o furacão.

— Ah, então ta bom. — Rayan deu de ombros e mordeu sua maçã. Sim, ele gostava e muito daquela bendita fruta. —Mas eu ainda acho o Will meio psicopata. Vocês já reparam que ele tem o mesmo nome que o cara do Hannibal?

— Rayan, cala a boca e me ajude a montar isso aqui. — ordenou Billy, torcendo que o irmão não estivesse por perto para ouvir aquela observação. Pelo silêncio, não estava.

— Jamais. — respondeu, convicto. — O corpo é o ganha pão de um modelo, caro Billy. Não posso correr um risco de sofrer um acidente desses. — concluiu, apontando para o pé de Alex. De repente, franziu o cenho e correu o dedo para outro ponto no chão do quarto. — Hey, aquela ali é a minha água importada?

Droga, na correria Billy havia lançado a garrafa longe e se esquecera de procurar a maldita depois. Engoliu o seco, porque sabia como Rayan ficava como pegavam/usavam algo que ele intitulava exclusivamente dele.

— Ah, é sua? — indagou Alex, num tom desentendido. — Desculpe, eu não sabia.

De repente, Billy se via perguntando se aquela mulher era maluca ou a sua mais nova heroína.

— Bem, agora já sabe. — deu dois passos para dentro do quarto para pegar a garrafa, mas parou ao pensar que alguém provavelmente já havia colocado a boca ali. — Pode ficar com esta, mas nunca mais mexa na água de um homem, Alex.

— Claro. — concordou, balançando a cabeça como uma criança.

Quando Rayan saiu do quarto, ainda espreitando os olhos para ela, Alex e Billy explodiram em gargalhadas.

— Eu vou me acostumar com isso também? — perguntou ela.

Ainda rindo, ele respondeu:

— Talvez não.

Notas finais
Críticas? Elogios? Sugestões?