Quatro caras e Alex
6 Quatro caras, Alex e o encontro
Notas iniciais
— Olha, eu adoro Friends, mas no máximo me vejo como uma mistura estranha da Monica com a Phoebe.
Alex reforçava seu ponto de vista enquanto dava um impulso para se sentar sobre uma das máquinas de lavar, mesmo que, colado na parede dos fundos da lavanderia, houvesse um aviso dizendo que isso era proibido por ser prejudicial às lavadoras. Ela provavelmente não havia visto, pensou Billy, porque era longe do feitio de Alex dar uma de rebelde ou algo do tipo — ou, talvez aquela calça com uma cintura absurdamente alta estivesse bloqueando o oxigênio de chegar ao seu cérebro.
Meu Deus, ele estava passando tempo demais com Will.
— Alex, todo mundo se identifica com algum personagem. — argumentou ele de volta, separando suas roupas brancas das outras em uma cesta a parte. — Essa é a intenção de qualquer roteirista.
— Sim, eu sei. — ela cruzou as pernas, copiando uma estatueta do Buda. — Eu só estou dizendo que, diferente da maioria das pessoas, eu não consigo me enxergar em apenas um.
Por um momento, Billy a encarou. Em seguida, balançou a cabeça positivamente.
— Você seria setenta por cento Phoebe.
— Sessenta. — divergiu, rindo.
Além dos dois e da senhora extremamente baixa e também silenciosa algumas máquinas a frente deles, a lavanderia estava vazia, o que apenas reforçou o argumento de Billy que aquele era o dia ideal da semana para lavar roupas. Como ela estava começando a acumular roupas sujas — o que, por sua vez, a deixava agoniada — ficou mais do que feliz em aceitar seu convite implícito para ser sua companhia. Claro que, nada daquilo seria necessário, se os rapazes soubessem dividir uma máquina de lavar em casa ao invés de todos quererem usá-la ao mesmo tempo, sobrecarregando-a e, consequentemente, queimando toda bendita lavadora que já haviam comprado (até finalmente desistirem e optarem pelas lavanderias).
Enquanto suas roupas batiam na máquina ao lado da qual ela estava sentada — espera, será que seu peso poderia prejudicar a máquina? —e Billy procurava moedas pelos bolsos do seu jeans, o sino da porta roubou sua atenção. Pela mesma, uma pequena ruiva natural lutava com sua grande sacola de roupas para entrar sem mais tropeços. Quando pensou em ajudá-la, Alex foi passada para trás num piscar de olhos por seu amigo de lavanderia.
— Deixe-me ajudá-la. — ele disse, pegando jeitosamente a sacola das mãos da moça.
Em troca, ela agradeceu com um sorriso e ajeitou os óculos relativamente grandes para o seu rosto.
— Obrigada. Pode deixar aqui mesmo. — a moça apontou para a máquina mais próxima.
Billy, que já podia enxergar as veias de seu pulso saltando, escorregou a sacola até o chão e a soltou. Durante o processo, porém, esquecera de observar que estava depositando a sacola justamente sobre o pé enfaixado da moça, que soltou um pequeno grunhido de dor.
— Meu Deus, me desculpe. — ele pediu, desesperado, enquanto erguia a sacola e a arremessava para o lado.
Era como se Alex estivesse tendo um flashback, e isso, por mais constrangedor que fosse para o amigo, a fez rir. Tentando salvar a moça de sessão de desculpas de cinco minutos que estava por vir, ela saltou da máquina e correu até a situação.
— Billy, as suas roupas estão prestes a desmanchar. — aquela fora a primeira coisa que viera em sua mente.
— O que? — ele perguntou, sem entender nada.
— Venha comigo. — disse, o puxando.
Quando voltaram para mais perto de suas respectivas máquinas, ela o encarou.
— Eu nunca pensei que fosse consegui dizer isso para alguém, mas, querido, você é um desastre. — ela disse, enfatizando a última palavra. — Como isso é possível?
— Você acha que eu sei? — indagou. — Toda vez que eu... Bem, começo a pensar demais em uma mulher, esse tipo de coisa acontece.
— Espera um minuto. — ela ergueu um dedo acusador na direção dele. — O que você estava pensando quando me fez rasgar o pé num prego?
Por um segundo, ele fez uma careta, a encarando.
— Isso são águas passadas. — respondeu, desconversando.
Ela semicerrou os olhos para encará-lo.
— Tudo bem.
De repente, sua expressão mudou totalmente para uma que Billy já havia visto antes.
— Não, nem pense nisso. — ele disse, balançando a cabeça rapidamente. — Se tem uma coisa que eu não preciso nessa vida, essa coisa é ajuda para passar vergonha.
— Confie em mim. — retrucou, lançando-lhe um sorriso que parecia ainda maior quando ela fazia tranças como a que usava.
— Esse é exatamente o problema.
Ignorando-o, ela se virou e foi em direção a sua xará de pé machucado por um Billy desajeitado, exibindo um sorriso acolhedor e as duas começaram a conversar.
Ele se encontrava surtando depois de cinco minutos. Completamente alheio às suas roupas, que ainda estavam esperando em cestos para serem lavadas, ele batia o pé direito em um ritmo apressado e disfarçava fazendo qualquer coisas que não envolvesse olhar na direção das duas mulheres que conversavam animadamente a alguns pouquíssimos metros dele. Depois de mais algum tempo torturante, Alex estava de volta com um pequeno pedaço de papel em mãos.
— Aqui estão nome e telefone da moça, e o local onde vocês vão se encontrar esse final de semana. — anunciou orgulhosa, entregando-lhe o papel.
— O... que? — perguntou, sem saber como reagir.
— Isso mesmo. Você tem um encontro essa semana.
— O que?! — desta vez, ele sabia como reagir: surtar mais um pouco parecia o adequado.
— Acalme-se, Billy. — ela disse, segurando seu braço. — Eu vou lhe ajudar e ensinar tudo que você precisa saber.
— Alex, você realmente acha que conseguirá fazer qualquer coisa por mim que meu irmão já não tenha tentado ao longo de vinte e seis anos? Ou qualquer outro dos caras?
— Bem, há uma pequena diferença entre mim e os caras. — ela se aproximou, baixando o tom de voz. — Eu penso com a cabeça de cima.
— Isso provavelmente acontece porque você não tem uma em baixo. — retrucou.
— Nunca se sabe. — ela disse, automaticamente o fazendo imaginar certas coisas que projetaram uma careta de repulsa no rosto dele. — Enfim, o foco aqui é o seu encontro. Você vai conseguir, acredite em mim.
Ele estava tão ferrado.
***
Billy fitou seu relógio de pulso mais uma vez e rapidamente contabilizou a meia hora que estava sentado ali, no centro de um restaurante, sozinho. Grande porcentagem dos olhares que recebia era de pena e, a outra e pior porcentagem, era o famoso "ela não vem, amigo".Realmente, aquela era uma péssima situação para ser tão bom com os números. Frustrado e cansado de esperar, ele se levantou, pronto para ir embora, e agradeceu mentalmente por não ter pedido nada além de uma água — que era de graça —, assim não teria de pagar uma conta de um jantar que nem havia tido. Assim que se virou na direção da porta, trombou em alguém consideravelmente menor do que ele.
Pediu ao bom Pai que não fosse uma garçonete.
— Desculpe. — ele disse, finalmente fitando a pessoa.
Era ela.
— Não, eu que peço desculpas. — ela disse, ajeitando os óculos. Quando o fitou, suas bochechas ruborizaram de constrangimento. — Duas vezes, na verdade. Sinto muitíssimo por fazê-lo esperar, mas meu carro quebrou no meio da caminho e... — ela fez uma pausa para respirar e só então percebeu que ele estava com um casaco em mãos. — Você estava de saída?
Ele a fitou, sem saber o que responder. Julie usava um vestido roxo de manguinhas, uma sapatilha preta e uma bolsa de mão da mesma cor. O cabelo ruivo formava alguns cachos e seu óculos era um pouco grande demais para seu pequeno rosto.
Droga, ela estava tão bonita e tão meiga.
— Não. — ele disse, finalmente. — Eu... pensei ter ouvido o alarme do meu carro tocar e estava indo checar.
Ela lhe respondeu com um murmúrio de compreensão e um pequeno sorriso.
— Provavelmente era o carro de outra pessoa. — isso, ou ele tinha acabado de ser falsamente roubado em sua falsa história. — Sente-se.
Billy puxou a cadeira para que ela se sentasse e só depois se sentou. Entregou um menu a ela e em seguida abriu um para si mesmo, fingindo que não havia decorado os nomes de todos os pratos na última meia hora que passara com a cara enfiada no menu.
"Seja sempre cavalheiro." — ele se lembrou de um dos ensinamentos de Alex.
— Então... — "pergunte sobre ela", dizia Alex em sua cabeça. — Conte-me mais sobre você.
— Sobre mim? — indagou, arregalando os olhos. — Ah, não tem muito o que contar.
A moça encolheu os ombros e um silêncio constrangedor se instaurou sobre os dois. Droga, qual era a próxima deixa?
— Tenho certeza que tem. — retrucou Billy, tentando manter a conversa ativa. Pense, pense. — Com o que você trabalha?
— Crianças. — ela respondeu, desviando os olhos do menu. — Sou professora de alfabetização.
— Que bacana. — ele sorriu. — Você deve ter muita paciência.
— Sim, eu tenho.
Pois bem, a piada claramente não havia funcionado.
— E você, com o que trabalha?
— Números. — ele respondeu, tentando não parecer um nerd entediante. — Trabalho em uma companhia e, no tempo livre, cuido das finanças da loja da minha família.
"No tempo livre? Jura? Toda garota adora um cara que trabalha no seu tempo livre, quando, na verdade, poderia estar gastando-o com ela."
— Loja? — se ela não estava empolgada, certamente fingia muito bem. — De que?
Ele hesitou durante um segundo.
— Gravatas. — respondeu, cautelosamente observando sua reação.
— Que coincidência! Eu tenho um amigo que vai casar em algumas semanas e está a procura de um smoking. — ah, ele sabia onde aquilo ia dar. — Posso indicar sua loja para ele.
Billy se via, mais uma vez, tendo de explicar a ideia maluca de sua família ainda mais louca.
— Na verdade, nós só vendemos as gravatas mesmo. — disse, limpando a garganta. — É uma longa história.
— Bem, se por acidente ele comprar um smoking sem a gravata, eu farei a indicação. — depois de uma risadinha, ela o fitou, sem graça. — Desculpe, foi uma péssima piada.
— Imagina, eu já estou mais do que acostumado com essas. — ele sorriu como forma de demonstrar que realmente não tinha ligado.
Meu Deus, ele queria conversar. Ele queria saber mais sobre ela, de onde vinha, sobre sua família e as coisas mais corriqueiras sobre as quais se conversam num primeiro encontro — mas as palavras simplesmente não saiam e, caso o fizessem, não acontecia como ele queria. Os dois passaram por alguns momentos embaraçosos até que a comida finalmente chegasse e, nesse meio tempo, Billy repassava cada conselho que havia recebido na semana que se passara de Alex, desde as coisas que ele normalmente faria até àquelas que o assustavam só de pensar.
Ele estava tão ferrado.
As coisas melhoraram um pouco no meio jantar, mas isso foi só até ele se engasgar com qualquer maldita coisa venenosa que estivesse em seu prato.
— Você está bem? — perguntou Julie, se levantando e contornando a mesa, logo em seguida dando seguidos tapas nas costas de Billy.
Cara, ela batia forte. — ele pensou enquanto ficava cada vez mais vermelho e sem ar. Magicamente, pessoas começaram a se amontoar ao redor deles.
— Você é o primeiro encontro que eu realmente gostei, em meses. — ela dizia, atropelando as palavras, enquanto continuava a bater nas costas dele. — Por favor, não morra!
Sem sucesso, ele continuava a tossir feito um fumante moribundo. Era isso, ele morreria sem ao menos ter a chance de dizer a Julie que, apesar de tudo, também havia gostado dela.
— Eu cuido disso! — exclamou um homem, se aproximando.
Não, não era um homem. Era o mamute de A Era do Gelo.
Julie abriu espaço para ele e, quando menos esperava, Billy foi facilmente erguido por Manny, o mamute, e o mesmo começou a realizar a manobra de Heimlich nele. Ótimo, ao invés de morrer engasgado, morreria esmagado. Com sorte, sairia nas capas dos jornais do dia seguinte.
Foi quando, subitamente, ele se viu cuspindo o que estava preso em sua garganta — que ninguém nunca soube o que realmente era, apesar de se parecer muito com uma bola de pelos —, e ele se viu aliviado em poder respirar novamente.
Isso, claro, até perceber que havia cuspido diretamente no vestido de Julie. Enquanto Manny o colocava sentado de volta em sua cadeira, ele tentava reunir fôlego o suficiente para agradecer e se desculpar ao mesmo tempo. Nunca desejou tanto ter sido um atleta em seus tempos de escola.
— Graças a Deus! — Julie correu até ele e o envolveu em seus braços.
Ah, aquilo seria tão romântico se a parte cuspida do vestido dela não estivesse encostando em seu pescoço.
— Você está bem, rapaz? — perguntou o homem que o salvara.
Ainda sem fôlego — maldito sedentarismo —, ele acenou positivamente com a cabeça.
— Obrigada, senhor. — agradeceu Julie, por ele.
Quando as pessoas começaram a se dispersar, voltando para seus respectivos lugares, Billy finalmente sentiu que conseguiria falar.
— Desculpe. — ele soava como um travesti, mas, pelo menos, soava. — Eu estraguei o encontro.
— Não é sua culpa ter se engasgado com... — ela fitou seu próprio vestido sujo. — O que quer que seja isso.
— Não, eu o fiz bem antes de engasgar. — respirou fundo. — Eu sou um desastre.
Ela o fitou, com uma expressão neutra. De repente, parecia aliviada o suficiente ao ponto de começar a rir.
— Desculpe-me. — disse, recuperando o fôlego como se fosse ela quem tivesse acabado de engasgar. — É que isso é ótimo! Quero dizer, eu pensei que você fosse um daqueles caras perfeitos, que sabem de tudo e procuram pela mulher perfeita.
Isso deveria fazê-lo se sentir melhor?
— A verdade é que eu sou um desastre tão grande quanto você. — admitiu, sorrindo. — Com todo respeito, claro. — emendou rapidamente. — E é exatamente isso que me faz querer dar uma segunda chance para... nós.
Aquilo sim havia feito se sentir melhor, mesmo que um pouco confuso e ainda levemente sem ar. Ele sorriu.
— Sim, sim. — ele disse, se levantando. Quando suas pernas vacilaram e ele precisou se agarrar a Julie para não cair, emendou: — Mas, por favor, podemos fazer isso o mais longe possível deste restaurante?
— Você tirou as palavras da minhas boca.
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