Quatro Patas
9 A espera vigilante
Notas iniciais
Os olhos de um ser humano são capazes de distinguir uma gama quase infinita de cores e texturas. Como os olhos de Miguel.
Os olhos de um cachorro têm apenas 10% dessa capacidade. Como os olhos de Billy. Mas mesmo sem enxergar tantos tons como nós humanos, o vira-lata percebe uma coisa: quando está com o seu rei menino, brincando, recebendo e dando carinho, ou simplesmente olhando para ele do seu jeito pidão, o mundo se torna totalmente cor de rosa.
O cãozinho sabe disso não porque conhece ou entende a metáfora, mas porque a sente através da felicidade sem tamanho que experimenta toda vez que está na companhia de Miguel.
E ele continua sendo agraciado com essa sensação maravilhosa nos dias que se seguem à sua primeira visita ao hospital. Porque Billy vê o menino mais vezes depois daquela tarde.
Os cuidados são redobrados para que a zooterapia siga de acordo com as diretrizes do hospital. Entretanto, infelizmente ela precisa ser interrompida quando o anjo misterioso por fim surge no horizonte, trazendo um novo coração para Miguel. O menino então é isolado para cuidados especiais que irão anteceder a delicada cirurgia.
Miguel não tem qualquer contato com o melhor amigo durante os sete primeiros dias que passa entubado na UTI após o transplante. O risco de infecção é demasiado grande e mesmo a visita dos pais exige higiene redobrada.
Billy, quando sentiu o mundo cor de rosa verter-se bruscamente para um apático cinza tão logo foi separado do seu dono, não abandonou o hospital. Mesmo com as inúmeras tentativas dos pais de Miguel em obrigá-lo a entrar no carro e assim levá-lo para casa, mesmo com os vários seguranças que tentam capturá-lo sem sucesso pelo jardim do hospital. Billy se mostra mais rápido e engenhoso do que todos eles juntos. Corre e escorrega por entre as mãos, movido por uma teimosa lealdade.
Mesmo que não veja o seu menino, o animal sente a presença dele ali. Capta o seu cheiro mesmo que esteja camuflado por medicamentos e roupas esterilizadas. O fato é que Billy não quer arredar as patas do local, pois está fora de cogitação deixar o seu amado menino para trás. E ao vencer todos pelo cansaço, acaba ganhando uma casinha para esperar por seu dono do lado de fora do prédio, perto de uma guarita.
Quem passa pela calçada, a qualquer hora do dia ou da noite, pode notar o vira-lata em constante vigília. Às vezes, Billy fica inquieto e ergue a cabeça na direção de um andar específico do hospital. Exatamente onde fica a UTI. As orelhas mexem apurando o som, o focinho fareja o ar. A espera vigilante segue sem qualquer certeza, mas ele continua ali como o bom amigo de quatro patas que é.
Os pais de Miguel se revezam para levar ração, água e carinho ao longo das semanas seguintes ao cãozinho, sempre aparecendo com semblantes tensos, preocupados e ainda assim cheios de esperança pela recuperação do filho. Semelhante à esperança sofrida que pode ser vista nos olhos de Billy todos os dias.
Depois de quatro longas semanas, o olhar do cachorro muda. Ansioso, ele vê o homem e a mulher caminhando na direção dele essa manhã. E com uma alegria que mal cabe no seu corpo peludo, percebe que eles não vieram sozinhos.
Miguel anda devagar e amparado pelos pais. Mesmo com uma máscara cobrindo metade do seu rosto, é possível ver um sorriso em seus olhos. Um sorriso que se alarga e fica mais radiante quando Billy — balançando o rabo numa velocidade nunca antes vista — corre até ele.
Juntos de novo, entre braços trêmulos e patas desengonçadas, em meio a muitos afagos e sorrisos dos dois lados — sim, porque cachorros também são capazes de sorrir —, o menino rei e seu fiel escudeiro veem o cinza se dissipar.
Nesse momento, o mundo simplesmente fica cor de rosa outra vez. Maravilhosamente rosa.
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