Quatro Patas

9 A espera vigilante


Notas iniciais
Oi, gente :-) Quero começar agradecendo por todos os comentários que recebi até aqui e um cheiro para Lelexc que maratonou tudinho ontem e me deixou desmaiada com tantos feedbacks *--------* Vou responder todo mundo ao longo da semana porque tô meio corrida hahahaha Rodada 9 - Tema: Músicas francesas. Dentre as três opções dadas, escolhi a "La vie en rose" da diva Édith Piaf (ela é muito pensamento do dia da BandNews FM, socorro!) Obviamente, tentei encaixar a essência (o mundo cor de rosa que enxergamos quando estamos juntos de quem amamos) no relacionamento de amizade da história. Boa leitura, chuchus!

Os olhos de um ser humano são capazes de distinguir uma gama quase infinita de cores e texturas. Como os olhos de Miguel.

Os olhos de um cachorro têm apenas 10% dessa capacidade. Como os olhos de Billy. Mas mesmo sem enxergar tantos tons como nós humanos, o vira-lata percebe uma coisa: quando está com o seu rei menino, brincando, recebendo e dando carinho, ou simplesmente olhando para ele do seu jeito pidão, o mundo se torna totalmente cor de rosa.

O cãozinho sabe disso não porque conhece ou entende a metáfora, mas porque a sente através da felicidade sem tamanho que experimenta toda vez que está na companhia de Miguel.

E ele continua sendo agraciado com essa sensação maravilhosa nos dias que se seguem à sua primeira visita ao hospital. Porque Billy vê o menino mais vezes depois daquela tarde.

Os cuidados são redobrados para que a zooterapia siga de acordo com as diretrizes do hospital. Entretanto, infelizmente ela precisa ser interrompida quando o anjo misterioso por fim surge no horizonte, trazendo um novo coração para Miguel. O menino então é isolado para cuidados especiais que irão anteceder a delicada cirurgia.

Miguel não tem qualquer contato com o melhor amigo durante os sete primeiros dias que passa entubado na UTI após o transplante. O risco de infecção é demasiado grande e mesmo a visita dos pais exige higiene redobrada.

Billy, quando sentiu o mundo cor de rosa verter-se bruscamente para um apático cinza tão logo foi separado do seu dono, não abandonou o hospital. Mesmo com as inúmeras tentativas dos pais de Miguel em obrigá-lo a entrar no carro e assim levá-lo para casa, mesmo com os vários seguranças que tentam capturá-lo sem sucesso pelo jardim do hospital. Billy se mostra mais rápido e engenhoso do que todos eles juntos. Corre e escorrega por entre as mãos, movido por uma teimosa lealdade.

Mesmo que não veja o seu menino, o animal sente a presença dele ali. Capta o seu cheiro mesmo que esteja camuflado por medicamentos e roupas esterilizadas. O fato é que Billy não quer arredar as patas do local, pois está fora de cogitação deixar o seu amado menino para trás. E ao vencer todos pelo cansaço, acaba ganhando uma casinha para esperar por seu dono do lado de fora do prédio, perto de uma guarita.

Quem passa pela calçada, a qualquer hora do dia ou da noite, pode notar o vira-lata em constante vigília. Às vezes, Billy fica inquieto e ergue a cabeça na direção de um andar específico do hospital. Exatamente onde fica a UTI. As orelhas mexem apurando o som, o focinho fareja o ar. A espera vigilante segue sem qualquer certeza, mas ele continua ali como o bom amigo de quatro patas que é.

Os pais de Miguel se revezam para levar ração, água e carinho ao longo das semanas seguintes ao cãozinho, sempre aparecendo com semblantes tensos, preocupados e ainda assim cheios de esperança pela recuperação do filho. Semelhante à esperança sofrida que pode ser vista nos olhos de Billy todos os dias.

Depois de quatro longas semanas, o olhar do cachorro muda. Ansioso, ele vê o homem e a mulher caminhando na direção dele essa manhã. E com uma alegria que mal cabe no seu corpo peludo, percebe que eles não vieram sozinhos.

Miguel anda devagar e amparado pelos pais. Mesmo com uma máscara cobrindo metade do seu rosto, é possível ver um sorriso em seus olhos. Um sorriso que se alarga e fica mais radiante quando Billy — balançando o rabo numa velocidade nunca antes vista — corre até ele.

Juntos de novo, entre braços trêmulos e patas desengonçadas, em meio a muitos afagos e sorrisos dos dois lados — sim, porque cachorros também são capazes de sorrir —, o menino rei e seu fiel escudeiro veem o cinza se dissipar.

Nesse momento, o mundo simplesmente fica cor de rosa outra vez. Maravilhosamente rosa.

Notas finais
Que fofo, né? Parece até um final feliz :v Tô brincando, gente... (Será que tô?) O fato é que tem o último capítulo ainda e desde o começo eu imaginei o desfecho de duas formas. Entonces, não fiquem tão animados muaaaaaaaahhhh Não sei se ficou claro, mas Miguelzinho recebeu alta ♥ Claro que às vezes transplantes causam rejeição, então não fiquem tão animados '-' Confesso que meus olhos marejaram enquanto eu escrevia esse e o capítulo anterior. Espero que eu não vire uma manteiga derretida porque ainda quero fazer minhas maldades nas fics da vida (?) Beijos de luz e inté o the end!