Quatro Bruxos - Hogwarts, Uma História
6 Capítulo 5 - Mal de Família
Notas iniciais
Aquele nunca foi um lugar muito organizado. Um casebre minúsculo por fora, e magicamente gigante por dentro, assemelhava-se a um casarão imperial, porém sujo e mal dividido. Um constante zunido agudo ecoava os paredões de pedra, advindos das inúmeras serpentes que ali viviam. Elas iam e voltavam, algumas delas viviam com aquela família há anos, e outras tinham até nome. Lemurya, Elka, Kandria, Olavo, Abbadon, Yalinka... Serpentes das mais diversas origens, que se encantaram ao ouvir o som da voz de Vibeke Slytherin, doce ao sibilar a linguagem que elas compreendiam.
Salazar, assim como sua mãe, também encantava as cobras. E agora, mais do que nunca, ele precisava delas. Havia uma em especial que o deixava instigado. “Não é uma cobra, é um monstro.”, o garoto dizia a si mesmo a respeito do filhote de Basilisco, que já devia ter uns dez anos quando o encontrou. Aquele buraco escuro e luxuoso onde Salazar morava, que já era frio antes, se tornou ainda mais gélido depois da morte de Soren, há duas semanas. O cetro, também chamado por alguns bruxos de ‘varinha’, foi pego a tempo. “Eu já estou morto.”, foi a última frase do bruxo, antes de jogar o artefato mágico ao filho, que correu até os pulmões falharem. Caiu no gramado, levantou, e continuou correndo. Quando tinha começado a chover, e sentiu que pararam de persegui-lo, apenas gritou. Um grito seco, sem lágrimas. Soren não mais existia. Soren se tornou uma lembrança recente.
O dia amanheceu com um sol radiante. Deitado na cama, o garoto órfão de apenas quinze anos, soltou um palavrão dinamarquês. Ainda não havia se acostumado a acordar com aquele silêncio, quando antes quem o acordava era seu pai, lhe dando um tapa na nuca, com um sorriso estampado, perguntando que parte do porco ele iria querer comer no café da manhã. Agora que morava sozinho, naquele imenso e imundo palácio viking, deveria cuidar de sua vida. Conhecia poucos bruxos na Bretanha, e os que conhecia, em sua maioria, tinham medo de se mostrar. Depois da morte de Becrux, a família Black resolveu ter mais cautela. E algumas outras famílias de bruxos, tão tradicionais quanto, deixaram o país.
Já fazia vinte minutos que ele percorria a floresta, rumo ao centro. Precisava comprar suprimentos, pois em sua casa o cheiro de morte devido às vísceras de animais que costumava comer, estava sumindo. Agora precisava comprar arroz, feijão, milho, trigo, e todo tipo de grão que pudesse encontrar. Não que estivesse enjoado de comer ao modo viking, carnívoro e brutal. Mas até Soren Slytherin não poderia negar que grãos são muito gostosos. “Se combinados a um coração de cervo.”, ele diria.
O centro comercial da pequena cidade estava mais movimentado do que nunca. Logo que Salazar apareceu à vista de todos, já foi possível constatar os olhares indignados. Vestindo botas de couro distinto, colete de pele de urso, as mãos sujas de sangue seco, cabelos negros e escorridos encostando a cintura, com olhos profundos e tão claros que pareciam indicar alguma doença, o garoto não escondia sua origem bárbara.
Assim que adentrou o que parecia ser uma mercearia, foi surpreendido por um jovem soldado.
– Vejo que não pertence a esta terra. Sabe falar o meu idioma?
– Sei falar o seu idioma porco. – Salazar comprimiu os olhos, tornando-os ainda mais frios.
– Quanta grosseria! Pela simbologia no seu colete, e pelo pingente de osso humano que você tem no pescoço, posso dizer que você é dinamarquês, da tribo Annarr. – disse o soldado ruivo, convencido de que estava certo.
– Sou dinamarquês sim. Mas não pertenço a tribos, caro soldado. Nasci superior a qualquer tribo ou sociedade, independente do país ou região deste mundo gigantesco. Agora me diga, como sabe que sou um viking?
O soldado riu, intrigado com a ferocidade e ao mesmo tempo ingenuidade do garoto que devia ser no máximo uns três anos mais jovem do que ele, embora aparentasse o contrário se visto rapidamente.
– Olhe só para você. Parece que acabou de sair de um campo de guerra. Quem, se não os vikings, usam ossos como efeites? Recomendo que seja mais civilizado, dinamarquês. Aqui na Bretanha o Rei pune os mau comportados.
– Quem você pensa que é para recomendar alguma coisa? – Salazar se enfureceu, chegando a encostar sua mão na varinha.
– Sou Godric Gryffindor, soldado da milícia particular do Rei. Minha ultima missão supostamente fracassou, o que me levou a ser “exonerado do cargo” por alguns dias. Ah, e ainda por cima, sou herdeiro dessa mercearia. Moro aqui. E você é quem? Guardião dos ursos ferozes?
Salazar começou a pegar alguns grãos e colocar dentro de um saco, fazendo-se indiferente a provocação.
– Sou Salazar Slytherin, filho de Soren Slytherin, que durante muitos anos foi soberano de Arhus, na Dinamarca. Se vim parar nessas terras britânicas, foi para fugir de um ataque covarde, que nos traria morte certa, a mim e a toda minha família. Apenas meu pai e eu conseguimos vir para cá. Mas vocês britânicos o mataram, e agora sou o único Slytherin vivo de que se tem conhecimento em todo o mundo.
Godric arregalou os olhos, impressionado com o discurso imediato.
– Você disse Soren Slytherin, o bruxo que foi morto há poucos dias?!
– Sim. Era o meu pai.
Godric bufou furioso. A cada semana que passava descobria um bruxo que não fazia o mínimo de esforço para esconder sua identidade. Logo, o esforço que vinha fazendo desde que decidira servir ao Rei parecia inútil. Enquanto protegia uns, fazendo de tudo para escondê-los, outros se entregavam de mão beijada.
– Agora que soube disso, vai me matar, soldado? – Salazar perguntou, quase como um desafio.
– Preciso que venha comigo, Salazar. Eu posso lhe ajudar. – Godric mudara totalmente o tom de voz. Agora soava uma voz preocupada, mansa, disposta a ajudar.
– Pra me jogar na fogueira assim como fizeram com o corpo do meu pai? Sinto muito, mas não mancharei a honra dele cometendo o mesmo erro.
Salazar pegou o saco de grãos de arroz. Godric tentava convencê-lo a ir para outro lugar o mais discretamente possível, mas Salazar continuava enchendo outros sacos com grãos diferentes. Parecia não se importar com os demais clientes o encarando, achando que ele fosse roubar tudo aquilo.
– Eu tenho dinheiro, não se preocupem. – Salazar jogou várias moedas de ouro em cima do balcão. Moedas de ouro maciço cravadas por esmeraldas, que poderiam não só pagar os grãos que queria levar, mas como a mercearia toda.
Salazar saiu do local, guardando o que acabara de comprar dentro do colete.
– Um bárbaro! Um bárbaro acaba de sair da mercearia! – gritou uma voz rouca e masculina. Vinha de um soldado militar qualquer, na tentativa de avisar seus companheiros. – Peguem-no!
Salazar sempre esteve preparado para o tipo de situação que agora ocorria. Seria perseguido por alguns soldados, depois os mataria, como era de costume. Portanto, continuou caminhando, seguindo seu rumo a floresta novamente. Godric se desesperou. Utilizando magia, conseguiu confundir o grupo de soldados que corria em direção a Salazar por alguns segundos. O garoto continuava andando tranquilamente, como se não importasse o fato de que poderia ser preso a qualquer instante. Godric impediu uma flecha de acertar o bruxo mais jovem pelas costas, e mesmo assim o garoto não olhou para trás.
Quando os dois bruxos, mais os soldados, já estavam floresta adentro, fora da vista dos demais civis, Salazar cessou os passos. Godric, escondido atrás de uma moita apenas pensou “É agora que pegam ele, e eu terei que entrar em cena.”.
– Pare aí, bárbaro! – disse um dos soldados. – Esvazie os bolsos!
Salazar, apesar de ser o mais jovem dentre todos ali presentes, aparentava ter no mínimo cinco anos a mais do que realmente tinha. Seu olhar pesado expressava uma maldade escondida, bem calculada. E sua altura de quase um metro e noventa, lhe acrescia ainda mais o feitio intimidador. Quando um dos soldados ia atirar outra flecha contra o garoto, ele sentiu algo que o fez parar. Uma dor cruciante passou por sua espinha e foi subindo até chegar à nuca. O homem soltou inúmeros gritos, para os espanto dos outros dois soldados.
– Pare! – Godric saiu detrás do arbusto. – Pare, você vai matá-lo!
A dor causada no soldado foi suficiente para ele desmaiar, uma tira de sangue escorria por uma de suas narinas. Salazar apontou o palmo aberto ao outro homem que o ameaçava, e magicamente o arremessou contra um rochedo. O último homem tentou fugir. Enquanto corria, avistou Godric e implorou por ajuda.
– Gryffindor, ele é um bruxo! – o soldado, a quem Godric conhecia desde criança, chamado Antony, se ajoelhou a seu pés. – Ajude-me!
Em questão de um instante, a mesma flecha que antes estava entre as munições do outro soldado, atravessou o peito de Antony começando pelas costas. Não demorou muito até que uma cortina sangrenta escorresse entre os lábios do recém atingido, e manchasse a farda real. Godric o segurou, tentando de alguma forma ajudá-lo, embora soubesse que o golpe foi certeiro no coração.
– Você está errado, Salazar! Magia não é feita para isso! – gritou Godric, percebendo que a morte já havia chegado em seus três companheiros da cavalaria. – Sou bruxo, e também já sofri o que você sofreu! Deixe-me te ajudar!
Salazar, gesticulando a mão esquerda, arrancou a flecha do peito de Antony. Apontando ela a Godric, ameaçou furar-lhe o rosto.
– Minha magia não é como a sua. – Salazar cessou o movimento da flecha, rindo de sua própria piedade. – Não se preocupe, eu não mataria alguém com sangue mágico. Siga seu caminho.
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