Quatro Amigos
2 Segunda parte
Notas iniciais
— Raul, porra, responde! Terra chamando Raul, terra chamando Raul! Continua assim que te interno por coma, japonês! — O rapaz que estava distraído com seus próprios pensamentos, olhou para Martin como uma expressão levemente confusa. — Está em que mundo? Estou te perguntando da faculdade.
— Que que tem?
Martin o olhou como se este se tratasse de uma espécie de alienígena.
— É época de provas na sua facul, não é? Você nem parece em pânico, ‘tá normalzão, estou estranhando.
Douglas riu e fez um comentário debochado que ninguém ouviu.
— É porque estou normal mesmo, pô. É o primeiro ano da facul, não pega nada — respondeu e tomou o resto do refrigerante do copo.
— Quê?! A merda da sua faculdade é difícil, como assim não "pega nada", meu? Você é o bichão mesmo, hein? — Carlos falou e riu sozinho.
Raul deu de ombros, sem mais nada para completar. Os amigos sempre falavam sobre aquele assunto com exagero e não suportaria que viessem com acusações de que seu excelente desempenho acadêmico tinha a ver com o fato de ser estrangeiro e ainda por cima asiático, o que era um prato cheio para deboches desde que pisara nesse país.
— Espero também ter essa confiança nas provas do vestibular — Douglas que disse, num murmúrio desanimado, os ombros caídos.
Martin teve uma reação mais melodramática, afundou a cabeça sobre a mochila na mesa e ficou assim por vários segundos. Os meninos se entreolharam e sorriram.
— Não sei como pode, você só tem dezoito anos, japa! — Martin lamentava-se erguendo um pouco o rosto, sua voz estava rouca e olhou para Raul como se o acusasse de um crime terrível. — Está concluindo o segundo semestre da faculdade e agindo como se as provas fossem receita de coxinha! — Depois de alguns segundos, ajeitou-se na cadeira, mas ainda parecia chateado. A luz do poste iluminava a pele negra e os olhos castanhos, que cintilavam intensamente. — E eu que ‘tô naquele curso todo dia, dez horas por dia? Porra...
— Já há dois anos, já... — Carlinhos ajudou na fossa do amigo, esforçando-se para não rir da cara que o outro fez, com pouco sucesso. Douglas o olhou com desaprovação, mas Carlos não deu bola.
— Sim... Dois anos daquela porra! Eu sou muito merda mesmo, esse ano eu vou me ferrar mais uma vez, ‘tou vendo. Vocês vão ver também. Meus pais vão me vender em forma de espetinho nesses quiosques se eu bombar de novo no vestibular! Anota isso aí, não é brincadeira.
— Mas se você é ruim em tudo como está dizendo, quem garante que vai ser bom logo em fazer profecias? Se fosse, já teria ganhado na Mega há muito tempo! — Douglas falou mais relaxado, esticou o braço e escolheu um pirulito.
— Só sei que nada sei — Raul filosofou bem-humorado. — Concordo com o Dog, se você está dizendo que não sabe de nada é porque está sabendo de coisas demais, hein? — E deu uma risada curta.
Estavam querendo suavizar o clima no ambiente.
Carlos também riu, mas como um idiota, conseguindo se engasgar e quase cuspindo o refrigerante.
Martin olhou os três amigos e sorriu benevolente.
— Eu sou tão gol contra assim?
— Você gosta de drama, cuzão. Fazer a prova é simples, senta a bunda e gabarita. Não há outro jeito — Carlos disse zoando, porque nunca tinha feito vestibular e muito menos ido bem nas provas da escola que estudava. Seu rosto tinha perdido a rigidez de alguns minutos.
— Eu só sei desse jeito — Raul concordou com sinceridade e Martin riu alto desta vez, seu maxilar estalando. Em seguida o japonês deu um sorriso de lado, satisfeito com o sucesso da brincadeira. Não que ele quisesse dar munição para as implicâncias a seu respeito, mas naquele momento não se importou. Estava entre amigo e precisava relaxar às vezes também. Afinal ele não era um robô e sim um garoto de 18 anos.
Douglas entendia perfeitamente a aflição do amigo mais velho pois também não conseguia ser tão confiante a respeito do vestibular, aquela prova significava muito para ele e para o futuro de sua família, era uma questão de sobrevivência, porém, não quis compartilhar e assim acabar somando suas preocupações com as do amigo, que estava sofrendo tanta pressão dos pais controladores. Douglas não carregava a pressão de ter que ser o melhor, mas carregava a pressão de não deixar sua família passar fome, o resultado dessa prova poderia decidir isso.
Ao invés de relevar seus problemas, optou por tentar confortar seu amigo, dizendo:
— Cara, é medicina — falou com aquele tom calmo que todos já estavam acostumados, suas próximas palavras soando como um abraço: — Você não pode exigir que vai passar de primeira, é completamente irracional pensar assim, até para você. Ano passado sua nota foi excelente e você está estudando tanto, então relaxa, esse é o seu ano.
Martin olhou para Douglas e sorriu, o olhar doce em sincero agradecimento.
— É, meu chapa, vai tomando refri e segue o fluxo — Carlinhos completou, todo besta, tinha esquecido os próprios problemas pensando nos dilemas dos amigos. Gostava daqueles caras principalmente por isso, porque naturalmente eles o faziam sentir-se um garoto completamente normal, sem segredos ou preocupações.
Os três olharam para Carlinhos com as mais variadas expressões.
— Fácil para você falar, né pivete? Seu vestibular está longe ainda — Douglas rebateu e virou o rosto para olhar o mar escuro e com ondas tão violentas que os sons eram escutados de longe. A noite tornava a paisagem um deserto infinito e melancólico.
— ’Tá aí, Carlinhos, o Douglas tem razão, você nem deveria estar dando palpite nessa conversa, seu quinta-série — Martin concordou e tentou bagunçar os cabelos loiros e lisos do garoto, que se esquivou no automático.
Raul, com sua minuciosa perspicácia, olhou para Douglas por alguns segundos, olhos frios cravados no rosto branco-bronzeado do outro, tentando desvendar o que ele parecia querer esconder.
— E você, Dog, está preocupado com o vestibular? É a sua primeira vez, né?
Martin e Carlos que haviam começado uma briga com empurrões tentando derrubar um ao outro da cadeira, pararam para prestar atenção na resposta de Douglas.
Este, por sua vez, engoliu em seco e só fez um gesto seguido de um grunhido com a boca, que usava para negar alguma coisa. Raul sabia bem que ele também usava aquele gesto para dispensar um assunto desagradável sem dar na vista. De todo modo, não insistiu, Douglas tinha bom-senso e maturidade para decidir a melhor hora para falar algo que realmente o incomodasse.
— Mas, afinal, qual é o curso que você está querendo prestar mesmo? — Foi Carlos quem perguntou, com genuína dúvida. Pegou a garrafa de refrigerante e encheu todos os copos outra vez.
Douglas olhou para o menino mais novo do outro lado da mesa, pequeno e loiro, magricela e com olhos azuis enormes e brilhantes demais, parecia uma criança intrometida.
Estava na cara para ele que aquela era uma ótima oportunidade para rever o assunto de minutos atrás.
— Seu humor melhorou, hã? Será que agora vai dizer o que aconteceu com você hoje para ter chegado aqui com aquela cara azeda? Eu vi você chutando aquela lixeira, Carlos, isso não foi legal. Você sujou toda a calçada, parece que não tem consciência, são trabalhadores que vão limpar o lixo depois, você só está piorando o trabalho deles. Isso não vai resolver os seus problemas.
Carlinhos fechou-se, encolheu os ombros e teve total percepção das dores espalhadas por seu corpo, quase tinha se esquecido disso. Quase.
— Me erra, véio... Não me venha com discurso bosta a essa hora, foi a lixeira mas podia ter sido sua cara — respondeu zangado outra vez, o humor chegando ao declínio total em segundos. Apesar das palavras extremamente agressivas, a imagem do adolescente de braços cruzados, com banca de durão e beicinho nos lábios, fazia com que ninguém conseguisse levar suas ameaças a sério. Ele poderia ameaçar matar o presidente e continuaria sendo fofo.
Martin não resistiu, esticou o braço e bagunçou de novo aquele cabelo loiro macio. Carlos fez mais beiço, protestando que não queria ser tocado, mas acabou dando um pequeno sorriso com o gesto amistoso do outro.
Martin às vezes lembrava suas irmãs mais velhas, nunca perdendo uma oportunidade para despentear seus cabelos e apertar suas bochechas. Por um instante, desejou que elas pudessem morar perto dele mais uma vez e assim talvez criasse coragem para contar o que estava acontecendo na escola a alguém. O fato é que naquele ritmo não poderia esconder por muito mais tempo. Tem um limite para o que se dá para esconder das pessoas.
— São suas notas, é? Está preocupado em repetir de ano? — Martin questionou. O loiro percebeu que suas cadeiras estavam próximas o suficiente para que o outro o tocasse sem dificuldades, e por isso também era possível sentir o perfume que exalava do seu corpo forte e de suas roupas caras, tinha que ser um perfume muito bom para ter ficado nele o dia todo. A mão de Martin em seu ombro tornou difícil ser rude, os amigos estavam mesmo preocupados contigo.
Sua expressão o entregou.
Douglas foi o primeiro a falar alguma coisa:
— Mas não tem como recuperar as notas ainda? As aulas não acabaram, pede trabalhos, sei lá. Você deve ser o carinha mais inteligente daquela escola, qualquer professor vai querer te ajudar — Quando ele terminou, Carlos suspirou muito triste.
— Não sei não. Está difícil acompanhar.
— Meu, você resolve provas do terceiro ano. Ajudou meu primo naquele trabalho da faculdade dele, como pode ser difícil acompanhar provas de ensino fundamental? Não te entendo, Carlinhos — Martin disse.
Aquelas palavras tiveram bastante peso sobre o garoto, porém, não foi para Martin que Carlos olhou, automaticamente seu olhar foi para Raul, que estava quieto demais do outro lado da mesa, com aqueles olhos terrivelmente analíticos sobre si. Dentre todos, era de Raul que o loirinho tinha que se esforçar mais para esconder seus problemas. O menino parecia que lia a mente das pessoas, ou coisa do tipo.
Carlos desviou os olhos para o chão e deu de ombros, levemente envergonhado.
— Esse ano a escola está difícil, são muitas coisas novas, as pessoas... Acho que o problema sou eu, nem ela.
— Que papo furado de fim de namoro é esse? Isso não é desculpa, vai atrás do prejuízo e faz logo, antes que seja tarde demais. Converse com os professores, tem que ter um jeito — Douglas aconselhou pragmático, reclamar de alguma coisa sem antes tentar todas as soluções possíveis não fazia parte de sua realidade. Choramingos são privilégios.
— Por que a escola está difícil este ano? O que está te atrapalhando neste ano que não estava no outro? — Raul fez as perguntas que achou mais sensatas, novamente prestando atenção nas micro-expressões de Carlos.
O loiro revirou os olhos. Ele queria muito poder contar a verdade, mas não dava, era humilhante demais.
Ao invés disso, se inclinou mais sobre a mesa e encarou Raul, imitando-o com a mesma expressão avaliadora, olhos azuis fixos nos negros do oriental, até que aquilo ficasse demasiado estranho e Raul risse, desviando o olhar. O clima pareceu melhorar.
— Todo mundo tem problemas — Carlos simplesmente finalizou o assunto com uma frase aleatória e encostou as costas na cadeira de metal, os braços cruzados atrás da cabeça, por fora, aparentando ser o garoto mais despreocupado do mundo, por dentro, estava engolindo uma expressão de dor. Tinham batido-lhe demais dessa vez. — Você deveria arranjar uma namorada, Raul, já que gosta tanto de cuidar dos outros. Quem sabe assim ela te ensina a rir mais.
Aquilo tinha sido uma alfinetada? Será que Carlos estava querendo dizer que não gostava da atenção que estava recebendo do asiático? Bom, Raul sempre pensou que ele gostasse disso, por ser o mais novo, o mais indefeso...
— Eu não preciso de namorada — Raul respondeu de imediato, perdendo-se dos próprios pensamentos, sem concluir o raciocínio.
— Você nunca namorou, cuzão, como sabe se precisa ou não? Você é um cara travado, cheio de manias e paranoias, uma namorada vai te ajudar a resolver isso. Foder uma garota vai abrir seus horizontes.
O grandão ao lado de Carlos arregalou um pouco os olhos ao ouvir aquelas palavras despudoradas vindas dos lábios de um rostinho tão inocente. Aquilo não estava certo! Carlinhos era só uma criança! Onde essa geração vai parar?
— O que você sabe de foder garotas, quinta-série? — continuou chamando-o por esse apelido apenas para infantilizá-lo mais — Desde quando você sabe o que é isso, hã? Que tipo de desenho você tem assistido na sua casa?
— Se foder, Martin, eu já transei!
— Mentira — Douglas falou rindo, sem conseguir controlar. Carlinhos o olhou raivoso e Martin quis bagunçar seus cabelos outra vez, de tão fofa que achava sua expressão. — Você não tem cara de quem já transou — o adolescente completou, argumentando por implicância. Não dava mesmo para saber se era verdade ou não, porque em todos os anos juntos, foram pouquíssimas as vezes que Carlinhos contara algo que acontecera em sua vida.
No geral, nenhum deles sabia muito da sua vida pessoal, nem onde morava, nem conheciam outros amigos dele, apenas sabiam que Carlos era muito inteligente, quase um gênio autodidata em certos assuntos, como computação e matemática, e de resto, sabiam que ele tinha duas irmãs mais velhas, das quais só falara uma única vez, deixando escapar que elas estavam de mudança. E só, foi a única coisa e a única vez. Não dava mesmo para saber se Carlinhos era virgem ou não, mas pela forma como se mostrava tímido perto de garotas nas festas, Douglas achava que essa história de já ter transado era uma baita lorota do baixinho.
— Nem idade — Raul sussurrou, mas ninguém ouviu. Carlos só tinha 14 anos, não era certo pressionar alguém tão jovem a passar por um momento tão importante, como a perca da virgindade. Era preciso mais maturidade e isso Carlos estava longe de ter.
A mesa era quadrada, Douglas e Carlos estavam sentados exatamente de frente um para o outro, enquanto Raul estava do lado de Douglas e, no lado oposto da mesa, Martin sentado ao lado de Carlos.
— Quê?! Eu tenho cara de virgem? 'Tá falando isso só porque você que é virgem e não sabe reconhecer a cara de quem não seja — disse o mais novo, na tentativa de defender-se.
Martin pensou naquilo e riu.
— Mas ele disse que você tem cara de virgem e, segundo suas palavras, ele é muito bem capacitado para reconhecer outro virgem, né? — Questionou. Raul riu de forma contida da brincadeira e Douglas apenas olhou irônico para ambos, não achando a menor graça na insinuação de que ainda fosse inexperiente.
Todos ali sabiam que Douglas mesmo com 17 anos era o mais conquistador do grupo, até mesmo mais que o popular do Martin. Ele era o típico malandro bom de papo, que independente se estivesse em companhia dos amigos ou estivesse sozinho, tinha lábia e charme suficientes para conquistar garotas incríveis e, neste ponto era agraciado pelo destino, porque normalmente ficava com as garotas mais legais do lugar, que muitas vezes tornavam-se suas amigas.
Ao contrário de Martin, que só saia com garotas com roupas de grife e muita maquiagem, que iam e vinham o tempo todo como carros transitando na marginal de São Paulo em horário de pico, mas que, inevitavelmente, nunca fixavam nenhuma relação séria depois. Martin só se interessava por garotas que duravam uma única noite, seus encontros eram o que Raul costumava chamar de reflexo enganoso, já que se olhasse bem de perto e por tempo suficiente perceberia que ali não havia qualquer tipo de conteúdo, somente beleza superficial.
Entretanto, para salvar a reputação do grupo, havia Douglas, com suas garotas interessantes, que contavam piadas e misturavam-se com a galera, alegrando a noite e sendo especiais, além de lindas.
Carlinhos dispensou aquela provocação grunhindo um ou dois palavrões, como um velho rabugento no corpo de um bebê. Fofo demais.
— Estar solteiro não significa ser virgem, Carlinhos — Douglas chamou assim para irritar, pronunciando seu apelido num tom manhoso. Por alguma razão, Carlos só deixava Martin chamá-lo no diminutivo, talvez porque pelo tamanho gigantesco de Martin, chamar o loiro no diminutivo era mais do que justificável. Os dois perto um do outro pareciam quase uma ilusão de ótica, tão desproporcional que ficava.
— Chora não, virginho. Um dia você também vai encontrar uma mulher para você. — Martin falou debochado para o menor.
— Uma que aguente seu mal-humor — Douglas completou, divertindo-se.
— Vai ser uma santa — Martin e Douglas estavam revezando na zoação.
— Ou uma diaba. — Depois de dizer isso ambos caíram na gargalhada.
Raul franziu o cenho, já cansado daquele papo.
— Toda essa conversa do divã da testosterona... Já cansou, gente. Tipo, eu sou virgem, e daí? Não sei porque todos acham que um homem tem que nascer sabendo tudo sobre sexo. Papo chato. — Para Raul falar aquilo deveria estar muito incomodado mesmo, mas não era mentira então ele não se preocupava em compartilhar. Era um assunto que ele tinha resolvido dentro de si há muito tempo e, depois disso, parou de ver como um bicho de sete cabeças.
Martin tossiu meio sem jeito.
— Ninguém está te julgando, cara, foi mal se pareceu isso. Tudo bem ser virgem, nós só estávamos brincando. Somos idiotas, você sabe — ele falou e Douglas assentiu concordando, Carlos pareceu sem saber o que fazer, principalmente com Raul olhando diretamente para ele. Quer um pirulito? Pensou em dizer, mas deixou quieto.
— Eu sei, mas acontece que o Carlos tem só quatorze anos, vocês ficam zoando o garoto por ser virgem, como se fosse algo terrível. Na idade dele vocês também eram, e daí? Qual o problema? Sexo muda o caráter de alguém por acaso ou muda quem a pessoa é? Claro que não! O menino prefere até mentir para agradar vocês e vocês nem se tocam — Ele não estava criticando nem nada, era só algo que estava pensando desde o começo daquele assunto e achou importante compartilhar, porque de fato os amigos não tinham percebido. Era algo que ele precisava levar as claras para não voltar a acontecer. Queria que Carlos soubesse que seria aceito de qualquer jeito por eles.
— Eu não sou virgem! — Carlos insistiu com teimosia, mas ninguém deu bola para sua expressão injustiçada.
— Eu sou. — Raul o olhou — Qual o problema?
— Nenhum, véio. — O loiro ficou mais sem jeito ainda. Raul estava magoado com ele ou algo assim? — Você faz o que quiser da sua vida, o problema é seu, porra.
***
(Alguns anos depois)
— Já que estamos sendo sinceros, me respoda: se você pudesse, o que você diria para o seu eu no passado?
— Aaah... Caraca, sei lá! Hahaha Acho que eu pediria desculpas para ele por ter sentido tanto medo por tanto tempo e permitido que isso me anulasse. É, eu sei, isso é meio pesado, mas você me conheceu e sabe de tudo. Eu vivi em prol dos outros, esqueci do que eu queria fazer da minha vida e adiei meus sonhos, não acreditei em mim mesmo, mas eu estava muito assustado com tudo e era difícil lutar contra. Mesmo assim, se eu pudesse eu me desculparia por isso, mas não pela covardia em si, porque se hoje eu sou o que sou foi porque eu aprendi com os meus erros. Eu só me arrependo de não ter me amado mais, de ter sido tão... cruel e exigente comigo mesmo. E você, o que diria para o seu eu no passado?
— Olha, calma, fiquei um pouco sem palavras com você, deixa eu me recuperar... Bom... Eu não sei, eu realmente não sei o que diria. Aquele menino que eu fui... nossa. Pensando bem, acho que eu o abraçaria, sabe? Um abraço bem forte e carinhoso. Agora eu percebo que ele precisava muito disso. E também diria para ele que tudo vai ficar bem, para ele não perder as esperanças e que, se possível, prestar mais atenção ao redor. Quer dizer, você sempre esteve lá, perto de mim, sendo meu amigo, meu protetor. Como é que eu posso ter demorado tanto tempo para te ver?
— Ah, mas você viu! Você só não sabia que era eu.
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