Quatorze Années
1 De volta as origens
Notas iniciais
Haviam caixas da mudança por todos os lados. Mudar de um país para outro não é nada fácil, especialmente quando se tem uma fortuna investida em móveis. Eu não poderia deixar tudo para trás.
Meu nome é Francisca e vou contar pra vocês um pouco de minha história. Engravidei aos 16 anos. Achei que tinha mandado minha vida toda para o saco. Estava completamente enganada. Fiquei perdida, então meus pais me mandaram para casa de minha tia-avó, Luíza, na França para que eu pudesse ter minha bebê sem que ninguém soubesse. Eu não contei para o pai dela, especialmente porque quando descobri estar grávida, nós não estávamos mais juntos e ele já namorava outra garota. Melissa nasceu e continuamos morando com tia Luíza. Terminei o colégio numa das melhores instituições de ensino de Paris e quando completei 18 anos, segui os passos de Tia Luíza e consegui um estagio remunerado na Cintre, uma renomada revista de moda europeia, onde me destaquei entre os outros estagiários e consegui bolsa integral para a faculdade de moda. Tia Luíza a cada dia mais se apegava a Melissa, afinal, ela era sozinha, nunca se casara ou tivera filhos e netos, eu e Melissa éramos o mais próximo que ela já tivera disso. Finalmente formada na faculdade, continuei trabalhando para a revista e trabalhando em um grande projeto conjunto com minha Tia, que já tinha um grande império da moda e seu nome era conhecido por todo o país. Meu primeiro desfile em parceria com minha tia foi um grande sucesso, em pouco tempo comecei a modelar para muitas partes do mundo. Tudo caminhava perfeitamente bem quando a morte de tia Luíza pegou a todos de surpresa. Então eu estava perdida mais uma vez. Estava há tanto tempo longe de meus pais, que mal nos falávamos, a frieza com que eles se dirigiam a mim acabou por nos afastar quando senti todo o afeto e amor de minha tia... Eu tinha uma filha para criar e não tinha a mínima ideia de como cumprir meu papel sem o apoio e amor de minha tia. Meu mundo desmoronou de uma vez. Então eu conheci Pietro e tudo voltou a fazer sentido. Ele cuidava de Melissa como pai. Cuidava de mim.
Usei parte da grande fortuna que herdei de minha tia e investi em minha própria marca de roupas. Em um ano, a empresa já havia crescido consideravelmente. Então eu estava grávida mais uma vez. Os meses se passaram, eu tive uma hemorragia... Eu o perdi. Junto dele Pietro também me deixou e fiquei sozinha mais uma vez. Desta vez fortalecida e independente, sem cabeça para avida pessoal, decidi expandir meus negócios. Mudei a sede da empresa para o Brasil, meu país Natal e deixei a da França como filial.
Encontrei uma grande casa em um condomínio perto de onde eu morava antes de meus 16 anos e concluí a mudança. Seria bom para mim e para Melissa, que já completava seus 14 anos.
Cá estou eu. Em meio às centenas de caixas, prontas para serem abertas, com uma adolescente de 14 anos reclamando das horas que gastaria organizando a mudança.
— Mas mãe, tem umas mil caixas nessa casa! A gente nunca vai terminar isso! – Melissa reclamava enquanto guardava taças, copos, panelas e utensílios pela cozinha.
— Se você continuar reclamando não vamos mesmo! – A repreendi. – Vamos só terminar de organizar a cozinha, já que é o único cômodo que a equipe conseguiu montar hoje. Amanhã a equipe de mudanças virá para montar alguns móveis e carregar os pesados pela casa, então você já vai poder arrumar seu quarto. Faremos um cômodo por dia.
— Esta louca? Essa casa é enorme! Se fizermos um cômodo por dia, não vamos terminar até meus 18 anos! – Ela fechou as portas dos armários enquanto guardava a última taça empacotada.
— Tudo bem... Você venceu! Amanhã eu contrato alguém para cuidar da casa e nos ajudar com a mudança. – Me dei por vencida enquanto fazia sinal de rendição.
— Finalmente! –Ela riu. – Temos alguma coisa pra comer? Estou com fome.
Abri a geladeira, que ainda se encontrava desligada.
— É, acho que nem cereal... – Eu ri e ela me acompanhou. – Vamos tomar um banho e nos arrumar. Vou levar você pra comer a melhor porção de provolone do mundo e se dermos sorte, ainda pegamos uma musica ao vivo! – Falei enquanto caminhava com Melissa para fora da cozinha.
— Vai me levar pra onde? – Ela perguntou curiosa.
— Para um barzinho que eu costumava frequentar com meus amigos quando era mais nova. – Expliquei enquanto caminhávamos pelas escadas.
— E você já teve amigos?! – Dei um tapinha fraco em seu braço pelo sarcasmo em sua voz.
— Já! Você vai acabar conhecendo-os uma hora ou outra. Essa cidade não é grande, vamos acabar topando com eles qualquer hora. – Flashes de lembranças me levaram a minha adolescência... Ao pai de Melissa, tão parecida com ela.
— É né mãe, tanta cidade grande e você nos trouxe justo para o interior de São Paulo! Porque não Rio de Janeiro? – Ela parou em seu quarto, com a porta entreaberta.
— Porque as condições daqui são mil vezes mais favoráveis para a empresa. Estaremos perto de seus avos, você vai estudar no colégio onde eu estudei e vai fazer bons amigos! – Expliquei. – Se quiser, posso te mandar para o Rio no final do ano quando entrar em férias.
— Mãe... Você odeia vovó e vovô e eu não quero viajar sozinha pro Rio! Quero que você vá comigo! – Melissa e eu sempre fomos muito claras uma com a outra, por isso, sempre nos demos muito bem, além de uma relação mãe e filha, somos amigas também.
— Odeio, mas vai ser bom pra você ter contato com eles, são sua única família viva e depois discutimos sobre o Rio de Janeiro... – Tentei por fim àquela conversa.
— Talvez não fossem minha única família se você contasse pra mim quem é o meu pai e contasse pra ele sobre a minha existência! – A palavra pai era a mais difícil entre nossos vocabulários.
— Vai pro banho, Melissa! Agora! – Usei meu melhor tom de autoritarismo que conquistei em 14 anos na experiência de ser mãe.
- Você sempre foge quando eu falo dele! – E entrou resmungando em seu quarto.
Revirei meus olhos por impulso e me repreendi mentalmente por isso. Você não é mais adolescente, Francisca... Deve ser o ar desse lugar... Só pode!
Entrei em meu quarto ainda lotado de caixas e fui direto para o banheiro, atrás de um chuveiro quente.
Notas finais
Beijinhos ;*
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