Quase quinta-feira

1 Enquanto é quarta.


O som dos carros soava como o das ondas do mar pela janela entreaberta, e o silêncio dos dois ecoava alto do lado de dentro do apartamento.

Ela, sentada na beira da cama, não tentava esconder sua nudez na camiseta transparente dele. Ele, no batente da porta, tragava seu cigarro lentamente, e se perguntava se a nudez do corpo era o máximo que poderiam alcançar.

Eles se conhecem há meses. Se veem toda quarta-feira, entre oito da noite e o amanhecer. Um combinado silencioso.

— Esse é um dos meus lugares favoritos no mundo… — ela diz, baixinho.

— Acho que é o meu também.

Embora não soubessem exatamente ao que se referiam, a vista do décimo segundo andar era, sim, de tirar o fôlego. O céu de Brasília não é incrível somente ao entardecer, onde longas faixas rosa, laranja e azul se estendem pelo infinito — é também intensa à noite, onde a escuridão selvagem se mistura com as pequenas luzes amarelas da cidadezinha pacata por quilômetros e quilômetros…

Ela cruza as pernas e lança, com os olhos perdidos no chão de madeira:

— Se eu ficasse na quinta... você ainda me olharia assim?

Ele engasga com a fumaça, pego de surpresa pela pergunta, e não resiste ao movimento quase involuntário de lançar a bituca doze lances abaixo.

— Porque você quer ficar? — ele pergunta, com receio de como a mensagem atravessou o quarto.

Ela dá de ombros. Mas é mentira. Ela sabe.

— Acho que somos mais que o meio do meio do nada… — ele abre a boca para falar, mas ela é mais rápida — e quarta já não me basta.

O rapaz caminha lentamente até a janela. Ela o observa atentamente — a mandíbula bem desenhada, agora tensa. Sua pele preta, seus lábios grossos e bem desenhados, seu corpo esguio… seus olhos castanhos, intensos.

— A gente é bonito na quarta. — sua voz longe, contemplativa.

—E feio na quinta? — Ela se levanta para acompanhá-lo, e abraça suas costas nuas.

— Humanos. Defeituosos…

Ela beija as costas negras, suavemente, e logo se permite o repouso.

Um momento se passa.

— Então você tem medo de mim? — a voz dela, quase um sussurro, parece ecoar no ambiente desproporcionalmente.

Ele se vira, e a envolve em seus braços. Ela respira fundo — ele tem cheiro de casa. O rapaz a beija com ternura em seu pescoço e diz, com uma voz rouca e crua, em seu ouvido, fazendo-a arrepiar.

— Eu tenho medo do que você faz comigo. Da minha vontade de quebrar as regras… medo de quem sou quando estou com você.

— E quem é você? — Ela sussurra, enquanto toca sua barba espessa, recém aparada, e que parece tão dela.

— Alguém que quer que você fique.

— Então eu fico. — Ela se desvencilha calmamente e vai até a cama, onde se deita.

É difícil não admirar essa mulher — sua presença inteira acende nele algo primitivo. A bunda gostosa quando ela se vira, os seios fartos quando se deita. Seu cheiro, seu gosto…

— Se eu disser que você pode ficar… pode ser que você vá embora.

Ela o fita, e logo percebe seus olhos ardentes se transformarem em algo diferente. Tristeza? Arrependimento? Medo de não saber amar? Difícil saber.

— E se eu for?

— Então espero a próxima quarta-feira, e torço pra você aparecer.

Ela ri, sem humor.

— Torce?

— Bom, vai que você cansa. — Ele hesita, então se aproxima da cama e deita ao seu lado. É difícil estar com essa mulher, e não beijá-la, explorá-la. Mas ele se contém. É ela que se aproxima e, num movimento rápido, passa as pernas pelos quadris dele, ficando por cima, o envolvendo. Ele sobe as mãos firmes por suas pernas, e a observa mais um pouco. Seus seios soltos pela camisa, a vontade dele de tocá-los, encerrar o diálogo a fazendo gritar seu nome.

Como me cansar de você? ela queria dizer. Falta coragem. Ao invés disso, entrelaça os dedos nos cachos densos do rapaz.

— Não cansa viver só a parte boa da história? Só uma parte da coisa toda? — ele pergunta.

— É que a parte boa vale à pena demais. — ela sorri de canto e movimenta os quadris, lento e provocante, sentindo o desejo dele crescer entre as pernas quase que de imediato.

Ele arfa.

— Mas eu quero você toda.

— Você já me tem toda. — ela desce os dedos pelo abdômen dele, ainda mostrando que tem o diabo nos quadris, até o botão de sua calça que de repente é tão reluzente.

— Não. Não só assim… — ele para os movimentos dela com um toque suave em sua mão, e ajeita a postura para se sentar na beira da cama, onde pode olhar pela janela. É mais fácil se achar quando não se tem o olhar dela para se perder. — Digo, assim também, claro. Mas… às vezes penso em como seria acordar com você pela manhã, te ver escovar os dentes, trocar de roupa, ou o tom da sua voz quando você precisar gritar comigo na hora da raiva…

— Então você é mais doido do que eu pensava. — ela sorri, desafiante.

— E você, mais covarde do que eu pensava.

O silêncio se estende, e ela sente um calafrio subir pela espinha.

— Você não pode estar falando sério.

O olhar dele é firme, endurecido e… cansado, talvez. Rapidamente, ele checa as horas em seu relógio de pulso.

— São onze e meia. Você deveria ir.

— Rafael… — a voz sai, mas ela não sabe o que dizer.

— Júlia.

E dói demais ouvir o nome dela dessa forma — seca, impaciente. Triste.

Ela cede e se levanta, indo em direção às roupas no chão. Sem pressa ela se veste, tentando organizar os pensamentos acelerados.

— Desculpa se eu…

— Não. Você não fez nada de errado. — a resposta vem rápida demais.

Silêncio. Ela respira fundo, e engole seco. O ar parece mais pesado agora.

Ela caminha até a porta e não consegue evitar o relógio de parede: onze e quarenta.

— Eu… posso te ver na próxima quarta?

Ele hesita, mas não mente.

— Talvez.

Ela acena com a cabeça, sem conseguir sorrir, e pega a bolsa, ajustando a alça no ombro. Antes de sair, lança um último olhar sobre o quarto — e sobre ele.

Mas ele não olha de volta.

O som da porta se fechando é mais alto do que deveria.

Notas finais
Capa gerada por IA. Texto autoral.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!