Finalmente havia chego o dia em que eu voltaria para o Brasil. Eu veria meu pai e minha irmã depois de dois anos afastados por conta de meu intercâmbio na Itália. Eu amei o lugar pois tem muita história e cultura. Mas não via a hora de voltar para casa. Estava no quarto do hotel, terminando de arrumar minhas malas e checando tudo para ver se não esquecia de nada.

- Não queria que você fosse embora! – disse Martina, minha colega de quarto.

- Eu também não queria ir embora desse lugar incrível. Mas, minha vida e minha família me esperam no Brasil! – eu disse.

Conheci Martina assim que pisei na Itália, nos tornamos melhores amigas e era difícil para eu me despedir dela.

- Bom, chegou a hora! – eu dizia enquanto a abraçava no aeroporto de Milão.

- Sentirei sua falta, Karina! Já sabe onde moro. Mantenha contato, viu? – ela dizia a cada lágrima que caia pelo seu rosto. Chorei muito também, não só por ter que deixar a Itália para trás, que me recebeu de braços abertos, mas também, porque logo veria minha família novamente.

Depois de longas 14 horas de voo da Itália para o Rio, finalmente eu estava em minha terra natal, meu país. Assim que saí da sala que as pessoas ficam depois do voo, meu pai e minha irmã esperavam ansiosos pela minha volta ao Brasil.

Assim que passei pela porta e os vi, lágrimas escorriam pelo meu rosto e ao mesmo tempo me senti jogando as malas de mão no chão e indo ao encontro dos dois no qual dei um forte abraço. Eu não estava acreditando que era mesmo meu pai e minha irmã que estavam ali.

- Filha, que saudade! – dizia meu pai com lágrimas nos olhos.

- Também senti muito sua falta, pai! – eu dizia sorrindo, porém chorando ao mesmo tempo. E olha que eu não era de chorar.

-Ka, nem acredito que você voltou! Agora vou ter alguém para conversar sobre garotos! – disse Bianca, sorrindo e me abraçando.

Do aeroporto até o nosso bairro, Marechal Hermes, era uns 30 minutos de carro. Nem parecia que eu havia saído do país por dois anos, pois tudo continuava do mesmo jeito que eu me lembrava desde o dia da minha ida a Itália. Eu estava com saudades das aulas de Muai Thai do meu pai, das aulas de dança da Ribalta, saudade das pessoas, saudade de tudo.

No dia seguinte, eu já havia acordado quando meu pai e Bianca desceram para tomar café. Eu ia iniciar minhas aulas de dança na Ribalta, o que todos acharam estranho pois antes de eu ir para a Itália, eu praticava Muai Thai na academia do meu pai, andava com roupas largas e de menino, meu cabelo era curto. Mas depois que voltei da Itália, aprendi a me vestir como se veste uma mulher. Vestidos, saias, sapatilhas, cabelo comprido e maquiagem, coisa que eu nunca usava. Naquela manhã, eu usava um collant preto, meia calça preta, um short jeans e sapatilhas. Arrumei meu cabelo em um coque frouxo. Esperei Bianca terminar o café para podermos irmos juntas à Ribalta. Tudo bem que era em frente a nossa casa, mas, como era meu primeiro dia, eu não estava acostumada.

Quando saímos, vários olhos se voltaram para nós duas, ou melhor, para mim. Pois as pessoas estavam acostumadas a olhar para mim como a lutadora bruta que batia em todo mundo. Agora, aquela lutadora bruta se tornou uma adolescente como outra qualquer, com sonhos, desejos, e tudo o que há de feminino nesse mundo.

Paramos em frente à Ribalta e respirei fundo antes de entrar. Eu estava nervosa por conta das borboletas no meu estomago. Subimos para a aula. A primeira aula daquele dia, seria aula de dança da prof. Lucrécia. Assim que entrei na sala, Jade, a queridinha da turma, veio logo em nossa direção.

- Ei lutadora, acho que a sua aula é no andar de baixo! – disse ela.

Eu dei um sorriso para ela e sei que ela não gostou.

- Não Jade, a minha aula agora é aqui em cima. Eu não faço mais Muai Thai.

- E porque o motivo de desistir de ser uma sapa-hétero? – disse ela dando um sorriso esnobe.

- Você me chamou de que? Olha aqui Jade, eu mudei graças à minha viagem à Itália, na qual fiz intercâmbio por dois anos. Isso responde a sua pergunta?

Eu sabia que Jade odiava se dar por vencida. Como ela não tinha mais nada para falar comigo, pedi licença e fui se juntar aos meus amigos, que na qual eu sentia falta.

Depois da aula, combinei de dar uma passada na academia do meu pai, mas antes eu precisava de um banho porque eu estava toda suja e precisava aparecer com roupa decente na academia. Fui com Bianca para casa e nos arrumamos para ir a academia.

- Ka, quando você for para a academia, pode me esperar? Tem umas coisas para resolver na administração. – disse Bianca.

- Claro Bi, te espero na praça. – eu disse concordando e saindo do quarto a caminho da sala.

Desci e fui para a praça. Era bom as pessoas me olharem como menina. Eu estava com meu cabelo em uma trança frouxa, uma blusa curta lindíssima que comprei em uma liquidação em uma loja na Itália, um short jeans e meu vans verde-água. Senti um olhar mais aproximado de minha pessoa, e quando olhei para frente, havia um garoto. Ele ficou ali parado na minha frente sem dizer nada.

- Perdeu alguma coisa aqui? – perguntei calmamente.

Ele me olhava nos olhos mas não falava nada. Parecia que estava em outro planeta mentalmente. Até que ele voltou a si e disse:

- Hã ... nada. Sou Pedro. E você?

- Oi Pedro, eu sou a Karina.

- Você é esquentadinha assim mesmo? – ele perguntou.

- Você me chamou de que? – eu perguntei. Já não bastava a Jade e agora ele. Não consegui me segurar.

- Esquentadinha! – disse ele.

- Você quer morrer, moleque? – eu disse já começando a bater nele.

- Ai, para. Assim eu me apaixono! – disse ele rindo.

De repente, outra voz interveio sobre nós.

- E ai, Pedro. Apresenta sua namorada para o seu melhor amigo! – disse o garoto me olhando de cima a baixo.

- Ele não é meu namorado! Aliás, quem é você? – eu perguntei irritada.

- Entendi! Vamos, Pedro! A gente tem aula de canto com a minha mãe. – disse o garoto.

- Esse é meu amigo, João!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.