Quase Sem Querer

1 Capítulo Único


Na primeira vez em que nos vimos, eu estava sentado em um banco da faculdade, à sombra de uma árvore, olhando fixamente para aquele papel em minhas mãos.

Estava tão absorto que nem notei você chegando.

Sinceramente, não sei quanto tempo você ficou sentada ao meu lado, observando-me e, possivelmente, descobrindo-me naqueles instantes.

Tão típico de você...

Descobrir quando nem ao menos conhece ainda. É tão comum em você essa inversão da ordem natural das coisas. Antes mesmo de conhecer, você já sabe. De alguma forma, você enxerga antes que alguém precise lhe apresentar. Mera formalidade. Você sempre sabe, sempre antes de todos os outros.

Você me sabia melhor do que eu mesmo, já naquela época, já naqueles instantes. Antes mesmo de trocarmos uma primeira palavra.

Por isso, sentou-se ao meu lado naquele banco. Você enxergou em mim o que eu ainda não era capaz de ver.

Quando finalmente dei pela sua presença, eu me senti bastante incomodado. Não gosto que invadam meu espaço. Aliás, não teria permitido essa proximidade, se não estivesse tão perdido em pensamentos profundos.

- Com licença. – pedi que você se levantasse, com a voz seca, para que eu pudesse retirar o casaco que eu havia jogado ao meu lado no banco. Um tanto folgado, eu sei. Mas também, uma excelente forma de impedir que se sentem tão perto. Praticamente ocupava o banco inteiro. Pouco me importava com o que pensassem ao me verem assim, tão espaçoso.

E eu lá me preocupo com o que pensam?

Mas você ousou. Sentou-se, mesmo assim. Acabou se sentando sobre parte do meu casaco, que estava ali, jogado, cumprindo sua tarefa de ocupar e afastar.

Gosto de manter os outros afastados.

O isolamento sempre me fez bem.

- Desculpe-me. – você respondeu, com um sorriso – Não tinha percebido que havia sentado sobre seu casaco.

Eu apenas levantei uma sobrancelha. Como assim, “não tinha percebido”? Por acaso, era uma dessas pessoas que não notam o mundo ao redor? Acabei soltando um suspiro de reprovação, que não me preocupei em ocultar. Aproveitei-me do fato de que você se ergueu o bastante, para que eu pudesse puxar meu casaco de volta, e então me levantei do banco.

Estava levando a alça da minha pasta ao ombro direito, quando você se manifestou:

- Está saindo apenas porque eu me sentei aqui?

Muito direta. Espantei-me de leve. Mas apenas de leve:

- Sim. – sei ser mais direto ainda.

- Bom, não precisava sair. Você podia ter me pedido para ir embora.

- Não seria muito educado da minha parte.

- Sério? – riu incrédula. Você já tinha percebido que eu não era alguém muito preocupado em ser educado – Esse é o seu argumento?

Franzi o cenho, enquanto olhava em sua direção. Quem era essa garota? De onde ela tinha surgido e de onde ela havia tirado qualquer ideia de que podia falar comigo, assim, como se me conhecesse o mínimo que fosse?

- É o meu argumento, sim. E como não devo satisfações a ninguém... – planejava finalizar essa conversa desnecessária desse jeito. Dei-lhe as costas e comecei a caminhar. Contudo, para minha surpresa, alguns passos depois, notei que você estava uma vez mais ao meu lado.

Se queria me irritar, eu não deixaria que conseguisse. Resolvi ignorar sua presença. Retirei o papel que havia enfiado no bolso da minha calça, e voltei a prestar atenção apenas a ele.

- Pelo visto, isso ainda vai tirar o seu sono, não é?

Eu parei de caminhar e você parou ao meu lado. Virei-me para encará-la e seu sorrisinho me parecia uma provocação explícita:

- Você gosta de se intrometer onde não foi chamada?

E então você deu de ombros, com uma expressão indecifrável no rosto.

- Eu estou ocupado agora, está bem? Se puder me deixar em paz, eu agradeço. – embora as palavras parecessem educadas, meu tom era notavelmente agressivo.

- Não sou eu que estou tirando sua paz. É esse papel aí na sua mão. – você apontou, sentindo-se à vontade demais. Eu devia estar passando sinais muito errados, não era possível...

- Esse papel aqui não é qualquer coisa. – zanguei-me com seu jeito leviano de se referir àquilo que poderia definir um grande passo da minha vida.

- É um papel que contém as disciplinas do seu curso.

- É. – limitei-me em responder.

- É só escolher. – você insistiu, enquanto eu voltava a caminhar.

- Claro. – bufei, nervoso, percebendo que você voltava a me seguir.

- Então, qual a dificuldade?

- Escuta, dá pra parar de fazer... – acabei elevando meu tom de voz, como raramente faço – Dá pra parar de fazer isso que está fazendo?

- O que eu estou fazendo?

- Enchendo minha paciência! Que saco, garota! E eu nem te conheço!

- Lia.

- O quê? – olhei confuso para você. Você; sempre me desconcertando...

- Meu nome. É Lia. Agora você me conhece.

Eu ri, debochado.

- Saber seu nome não significa conhecer você.

- Concordo. Mas, por algum motivo, as pessoas acreditam que é a partir de um nome que se começa a conhecer alguém. Bom, algumas acreditam que é até mesmo o bastante... Já percebeu? Tem gente que, só por conhecer alguém de nome, se ouve falar do indivíduo, já atesta: “Ah, eu conheço...” – e então você riu, divertida com seu próprio comentário.

- Pois eu acho que nunca se pode conhecer alguém de verdade.

- Eu penso o contrário. – sua voz continuava em tom suave, apesar de todos os meus comentários atravessados – Acho que podemos conhecer uma pessoa a partir de um primeiro contato.

- Se realmente pensa assim, é muito ingênua...

- Talvez. Mas eu possuo bons instintos. Minha intuição não falha. Eu consigo conhecer alguém à primeira vista.

- Que seja. Olha, eu estou atrasado. – começo a apressar meus passos. Mais uma tentativa de me desvencilhar da sua presença.

- Não, você não está. É só mais uma desculpa sua para fugir de mim. Aliás, bastante clichê, diga-se de passagem.

Eu paro a dois passos. Volto meu olhar impaciente para você. Como consegue ser tão irritante?

- Está bem, já entendi. Você está querendo alguma coisa e não vai parar de me encher a paciência até conseguir o que quer. Então, fale de uma vez. O que você quer de mim?

- Quero conversar.

- Não nos conhecemos o bastante para isso. Mas, dane-se. – soltei um suspiro zangado – Sobre o que quer falar?

- Sobre você.

- Eu não falo sobre mim. Próximo tópico?

- Sobre esse papel.

- Não estou a fim de falar sobre isso com você. Próximo assunto?

- Sobre sua dificuldade de escolha.

- Você não tem nada a ver com isso. O que mais?

- Sua dificuldade de se abrir.

- Agora é você quem está sendo clichê. O que vai dizer agora? Que eu sou uma pessoa triste e fechada, que mesmo rodeada pela multidão, sente-se solitária? E que, por isso, por não ter em quem confiar, estou com dificuldades em escolher as matérias do meu curso? Ah, faça-me o favor... Seja um pouco mais criativa!

- Sabe... em se tratando de sentimentos, é meio difícil não ser um pouco clichê. Afinal, os sentimentos não mudam. Mudam-se as histórias, mas o que se sente, bem... o sentimento não muda muito de uma pessoa para outra. Quero dizer, cada um conhece sua dor e seu prazer como únicos, mas a dor e o prazer são universais. Estamos todos sujeitos a eles.

- Deixa eu adivinhar... Você faz Psicologia?

- Não. Jornalismo.

- Hum. – cruzo os braços e a fico encarando.

- Você faz Administração.

Abro um pouco mais meus olhos, denotando alguma surpresa. Como tinha descoberto?

- Eu li no seu papel.

Ah, claro. Óbvio. Sinto-me um pouco tolo pela surpresa demonstrada e então balanço a cabeça, de leve:

- Podemos terminar por aqui? Acho que já conversamos o suficiente, não?

- Sentimentos são universais. – você continua falando e ignorando minha expressão de enfado – Eu sou boa em percebê-los. Conheço uma pessoa a partir do que ela sente. E você sente dúvidas...

- Nossa. Como você é perspicaz. – eu não poderia ter sido mais irônico.

- Você se sente perdido... encurralado...

- Como é que eu vim parar nessa sessão de autoajuda? – ri nervoso, enquanto enfiava as mãos nos bolsos das calças e olhava para os lados.

- Por que você sente que precisa tanto corresponder às expectativas dos outros? A vida é sua, sabe?

E, súbito assim, ela me atingiu. Palavras certeiras demais.

Claro, ainda podiam parecer palavras aleatórias, que ela ia dizendo a esmo, até acertar alguma coisa.

Minha raiva, no entanto, foi perceber que ela tinha acertado, mesmo que sem querer.

Ou quase sem querer.

- Você tem essa pose de que é autossuficiente, de que não precisa provar nada para ninguém, mas essa não é bem a verdade, não é mesmo? – continuou dizendo, sem parecer surpreender-se por estar tão certa no que dizia. E minhas feições pareciam comprovar a certeza de cada uma daquelas palavras.

Desviei meus olhos. Senti um mal-estar momentâneo. Eu não gosto de deixar transparecer certos sentimentos, especialmente aqueles que tornam as pessoas vulneráveis.

- Eu até compreendo. É um peso muito grande. O mundo inteiro parece exigir demais da gente. Ainda mais nessa fase da nossa vida, quando parece que estamos diante das grandes escolhas que podem definir nosso futuro.

Baixei um pouco o rosto. Odiava admitir, mas ela estava me atingindo. De alguma forma, ela tinha encontrado uma brecha em mim.

- O único problema é que essa visão da vida é muito errada. Bom, talvez, não errada... Mas precipitada, com toda a certeza. Por que precisamos tomar decisões assim, tão forçadamente? As pessoas se veem tão obrigadas a tomar decisões nos momentos considerados corretos que, obviamente, terminam por se sentir confusas e perdidas. E nem teria como ser diferente. Quando temos de tomar uma decisão fora do momento certo, não há como se sentir realmente seguro dessa decisão. As escolhas em nossas vidas têm de ser tomadas dentro do tempo adequado...

- Da maneira como você fala, parece muito fácil. Mas as coisas não funcionam assim. A vida não é assim. – eu cortei o seu discurso, de forma ríspida – Se pudéssemos tomar decisões apenas quando quiséssemos, seria maravilhoso. Se tudo pudesse acontecer dentro do nosso tempo, seria perfeito. O problema, garota...

- Lia.

- ...O quê?

- Eu tenho nome. E quero que me chame de Lia, não de garota.

- O problema, Lia... – enfatizei seu nome, em tom bastante sarcástico — ... é que, no mundo real, as decisões têm de ser tomadas a todo momento. O mundo é um lugar cruel e somente os mais bem preparados sobrevivem. Apenas aqueles que sabem fazer boas escolhas na hora em que elas se fazem necessárias, vencem. Esse é o jogo da vida. Os espertos vencem. Os outros perdem.

- A vida é um jogo para você?

- É um jogo para todos.

- Para mim, não.

- Independente de você querer ou não, a vida é um jogo e você está dentro dele. E, se você se recusa a jogar conforme as regras, já está destinada a ser uma perdedora.

- Como posso perder algo se não investi coisa alguma nesse jogo? Entenda...

Nesse instante, você simplesmente interrompeu o que dizia e me olhou interrogativa. Devolvi a interrogação com meus próprios olhos, sem entender o que você queria de mim agora.

- Seu nome? Qual é?

- Miguel. – sua indagação surgiu em um tom tão natural, que respondi sem pensar muito no porquê de fazê-lo.

- Entenda, Miguel... A vida até pode ser vista como um jogo, se você faz tanta questão de enxergá-la assim. Porém, lembre-se de um detalhe importante. Se a vida é um jogo, você é o dono desse jogo, já que a vida é sua. E você é quem deve ditar as regras nela.

- Olha, Lia...

- Eu não estou dizendo que deva se deixar levar, simplesmente. – você ergueu um dedo, impedindo-me de dizer qualquer coisa, enquanto continuava seu raciocínio – Não defendo uma atitude apática diante da vida. Quando digo que devemos tomar decisões no momento adequado, eu não quis dizer que era para você ficar aguardando o momento ideal.

- É agora que você vai me dizer aquelas frases de autoajuda, falando que quem sabe faz a hora e não espera acontecer? – ironizei, tentando manter uma posição resistente que, embora me fosse difícil admitir, estava se enfraquecendo.

- Esse verso é do Geraldo Vandré e é muito mais do que uma frase de autoajuda. De todo modo, é isso mesmo que tenho a lhe dizer. O momento ideal é a gente quem faz, sim. Ou, em outras palavras... Quando você tiver de tomar uma decisão difícil, simplifique as coisas. Em vez de pensar demais no que essa decisão vai acarretar no futuro, se ela vai trazer benefícios ou problemas, se ela vai trazer contentamento ou frustração... Em vez de fazer sua escolha baseando-se em um tempo que não seja agora... Simplifique. Tome sua decisão pensando no que você sente no momento. Se a decisão está sendo tomada no presente, é no presente que você tem de focar.

- Isso é ser inconsequente.

- Isso é ser realista. Por que as pessoas se enganam tanto, pensando que controlam o futuro?

- Não é questão de controlar o futuro. É questão de planejar. De tentar evitar problemas. Isso é ser precavido. E precaução não faz mal a ninguém.

- Concordo. A não ser que você comece a ser tão precavido, que se esqueça de viver.

- Como você é exagerada.

- Sou? Não acho... Eu tenho uma filosofia de vida, Miguel. – com que familiaridade meu nome já era pronunciado por aquela boca risonha. Mesmo em meio a uma conversa que parecia tensa, o sorriso singelo não deixava sua face – Acredito que a vida foi feita para viver. Muitos buscam racionalizá-la em excesso, criando planos, metas, precavendo-se de tanto quanto podem que, ao fim de tudo, esquecem-se do mais importante. De viver, propriamente...

- Palavras muito bonitas. Mas são palavras repetidas. Já cansei de ouvir esse tipo de discurso, que, sinceramente, mais me parece uma justificativa de pessoas desorganizadas que, por não saberem controlar a própria vida, querem criticar aqueles que conseguem. E me parece que você se encaixa nesse grupo, então, se quer um conselho... – eu comecei a inverter a situação, querendo passar de aconselhado a conselheiro. Você, obviamente, sempre tão dona da situação, não me permitiu.

- Obrigada, mas dispenso. Não sou eu quem está confusa e perdida agora. Olha, Miguel... – houve um suspiro delicado da sua parte e eu finalmente notei, em seu tom de voz, algo de despedida, de quem se prepara para finalizar uma conversa – Pensar no futuro não é ruim, eu concordo. Só não permita que sua vida seja regida por uma época que ainda não chegou. Você não sabe quem vai ser quando o futuro chegar. A vida flui e nós fluímos com ela. Somos sempre outros, quando o futuro chega. Por isso, é tão difícil tomar decisões da maneira como está fazendo. Você fica tentando adivinhar se estará satisfeito com um resultado que não sabe qual será, sendo que sequer sabe quem vai ser quando isso acontecer.

Eu quis dizer muitas coisas nesse momento. Uma infinidade delas, mas não consegui formular uma palavra. E você então completou o que queria dizer:

- Gaste menos energia olhando para esse papel e comece a olhar mais para dentro de si mesmo. A decisão já existe e está aí dentro. – você apontou em direção ao meu peito e sorriu de leve – Agora, eu preciso ir. Foi legal conversar com você, Miguel! Tchau!

Tão abrupta quanto a forma como apareceu diante de mim, foi a sua saída. Simplesmente, em um gesto cotidiano demais, você se afastou e sumiu do meu campo de visão antes que eu pudesse reagir. Não tive chance de dizer ou fazer qualquer coisa, de modo que fiquei ali, parado, calado e sentindo como suas palavras causavam uma revolução involuntária dentro de mim.

******

Dois dias depois daquele encontro, eu me vi procurando por ela.

Desde aquela conversa, que ainda me parecia tão surreal, eu não tinha conseguido ficar tranquilo. Na verdade, acredito que tranquilidade nunca foi uma marca minha, mas, ao menos, acho que eu não tinha consciência disso.

Entretanto, depois da Lia, eu não podia mais ignorar certos fatos. Ela não me permitia. Dentro de mim, a voz dela parecia surgir de algum estranho recôndito e me obrigava a encarar, a ver, a enfrentar fatos sobre mim que eu não queria. Mas não podia mais fugir. Ela não me deixava.

Aquelas palavras ecoavam dentro de mim, forçando-me a me encarar quem eu era. Ela exigia que eu me descobrisse.

Eu me recordo de que, na noite daquele dia, do dia em que a vi pela primeira vez, eu olhei para o meu próprio reflexo no espelho, em busca não sei do quê.

Minha imagem era tão insípida, tão vazia, tão assombrosamente desumana, que eu me senti repugnante. Eu não consegui me ver ali, não sabia quem eu era de fato. Odiei a mim mesmo, odiei aquela imagem, odiei aquele espelho. Em um golpe surdo, eu cravei meu punho contra o meu reflexo, partindo-o em mil pedaços. Como resultado, vi o vidro espalhado pelo chão do quarto e sangue escorrendo em minha mão, devido ao corte causado pelo soco irracional que eu desferi contra o espelho.

Fiz um curativo às pressas, sem me preocupar demais com aquele ferimento. Minha mente dava voltas. Eu precisava regressar a quem eu era. Precisava me reencontrar comigo mesmo, ter as minhas certezas de volta.

Não consegui dormir. Alguns fantasmas me impediram de descansar a mente, e eu fiquei basicamente a noite inteira me revirando na cama. No dia seguinte, eu estava tão mal, que resolvi não comparecer às aulas do dia. Acho que estava tentando fugir de mim mesmo, ao me esconder do mundo. É claro que eu não me dava conta disso naquele período.

O dia passado naquele estado não me fez bem. Trancar-me no meu quarto não foi de grande serventia para coisa alguma, já que eu continuava me sentindo mal. O cara com quem divido um apartamento até bateu na minha porta, querendo saber se eu estava bem. Não era do meu feitio deixar de ir às aulas.

Mas eu não estava. E a culpa era dela.

Não era capaz de compreender como ela tinha conseguido. Por que ela havia mexido tanto comigo? Em que ferida ela havia tocado, para que eu me sentisse daquela forma?

Isso era o pior. Ela tinha encontrado em mim uma vulnerabilidade que nem eu mesmo conhecia. Eu mesmo não sabia onde estava o problema. Como poderia consertá-lo então?

Foi por isso que eu quis encontrá-la novamente. Se eu me acertasse com ela, se eu pudesse confrontá-la e dizer a ela as minhas verdades, então talvez tudo pudesse ser diferente. Talvez, por ela ter me pego de surpresa, eu não tivesse conseguido dizer o que achava de tudo aquilo, apropriadamente. Mas agora eu tinha processado devidamente aquelas informações. Agora, eu sabia o que dizer. E precisava dizer; precisava dizer para ela. Era como se isso pudesse fazer com que aquelas sensações que me desnorteavam agora desaparecessem.

Não devia ser tão difícil encontrá-la. Eu sabia que ela estava no curso de Jornalismo. Assim, no outro dia, fui até o departamento do curso e perguntei por ela. Contudo, por conhecer apenas o seu primeiro nome, não consegui nada, até porque os funcionários que me atenderam não demonstraram qualquer interesse em conceder informações pessoais e confidenciais de uma aluna a um desconhecido.

Resolvi então perambular pelo local em que as aulas do curso de Jornalismo costumavam acontecer. Uma hora, ela iria aparecer.

Entretanto, não foi tão fácil como imaginei. Havia muita gente, eram muitas salas... E eu não conseguia simplesmente ficar parado. Estava angustiado, por não estar frequentando as minhas próprias aulas desde aquele encontro. E andava de um lado para o outro; sempre pensando que, quando me afastava de um ponto, era lá que ela deveria estar.

No final do dia, quando já estava escurecendo, finalmente a vi.

Lá estava ela.

Andando naturalmente, com os cabelos castanhos presos em um displicente rabo-de-cavalo.

Caminhava ao lado de algumas amigas, conversando sobre algum assunto interessante e divertido, pois parecia entretida e ria bastante.

Fiquei indignado. Como ela podia estar tão bem? Largava uma bomba em cima de mim, e depois ia viver sua própria vida como se nada houvesse acontecido?

Revoltante.

Andei a passos largos e decididos até ela. Meus olhos deviam transmitir certa agressividade, porque as colegas dela logo me notaram e pararam, um pouco assustadas. Ela, no entanto, foi a última a me ver. Primeiro, olhou para as amigas, buscando compreender por que elas tinham aquela expressão nos rostos. Depois, procurando com os olhos claros pelo que as havia deixado naquele estado, ela me viu.

Quando isso enfim aconteceu, eu já estava próximo. Parei a uma curta distância dela:

- Lia. – encarei-a, cruzando os braços, em uma posição que denotava minha raiva latente.

- Miguel. – ela me respondeu, com um sorriso. As amigas pareceram um pouco perdidas, a julgar pelo contraste de nossos cumprimentos – Meninas, vocês podem ir seguindo na frente. Depois eu alcanço vocês. – ela disse, com naturalidade, sem tirar os olhos de mim.

- Mas... Lia... – uma das garotas começou a falar, porém logo sentiu meu olhar queimando sobre ela, de modo que se calou.

- Não se preocupem, meninas. – Lia acrescentou, com a voz tranquila – Esse aqui é o Miguel. Eu o conheço. – nessa última frase, havia tanto nas entrelinhas, que o incômodo que eu sentia diante dessa garota cresceu – Vão indo, daqui a pouco eu encontro vocês.

As colegas dela se entreolharam por um momento, mas acabaram acedendo. Seguiram timidamente, desconfiadas, e, enquanto se afastavam devagar, olhavam para trás. Não me importei; voltei a encarar Lia fixamente e comecei a falar:

- Sabe por que eu vim aqui?

- Não. – ela respondeu tão serenamente, que me senti um pouco perdido. Mas logo recobrei meus motivos de estar ali e prossegui, no mesmo tom hostil.

- Eu vim aqui porque você precisa saber de algumas coisas. – iniciei meu discurso que, de certa forma, havia preparado. Ela apenas se apegou mais aos livros que segurava e manteve um olhar calmo na minha direção – Naquela vez, em que veio falar comigo... Você não tinha o direito... Sabe? Quero dizer; quem você pensa que é para falar com alguém que não conhece? E antes que diga qualquer outra coisa, que fique claro: Você não me conhece! Como pode? Nunca nos vimos antes! Eu não sei quem você é! Não nos conhecemos, então você não pode falar comigo como se soubesse quem eu sou! Você não sabe quem eu sou, não tem como saber! – o discurso que eu tinha planejado já havia sumido do mapa. Eu não sabia ao certo o que estava dizendo. Apenas deixava que as palavras saíssem, porque sentia que essas palavras precisavam vir à tona.

- Se eu não sabia do que estava falando, então as coisas que eu disse não deveriam incomodá-lo tanto.

- Pare com isso! Não tente começar com esse joguinho de quem parece saber mais do que se vê! Você não me conhece, garota! Não sabe quem eu sou, pelo que já passei... Então pare de fazer julgamentos!

- Por que está tão irritado comigo?

- E por que não estaria? Você me diz um monte de coisas que deixaram minha cabeça cansada de dar tantas voltas! Você me deixou pensando tanta bobagem que, no final, me atrapalhou demais! Nesses últimos dois dias, eu não tenho conseguido fazer nada! É nesse estado que você me deixou! Eu já tinha tanto sobre o que pensar e agora, não consigo me concentrar no que realmente interessa! Está satisfeita? Era isso que queria?

- Bom, depende. – ela falou, de forma amena, enquanto prendia atrás da orelha alguns fios rebeldes que insistiam em cair sobre os olhos – Essa confusão em que está vem ajudando você a descobrir algo sobre si mesmo? Porque, se estiver, então estou bem satisfeita.

- Eu... – comecei a falar, zangado. Entretanto, não pude continuar. Havia algo de certo sobre o que ela dizia, que me desconcertou – Por que fez isso? – resolvi mudar de assunto – Por que veio falar comigo? Por que se intrometeu? Por que disse aquelas coisas?

- Porque você precisava ouvir.

- Não! Eu não precisava!

- Eu vi nos seus olhos...

- Ah, por favor! Não pode estar falando sério!

- Você estava tão angustiado, analisando aquele pedaço de papel, parecendo devorar as palavras que lia, como se assim, pudesse descobrir a resposta que buscava por trás delas... Eu não poderia deixar de fazer algo...

- Você se acha uma espécie de heroína, salvadora de casos que considera perdidos, ou algo do gênero? Porque eu preciso lhe dizer: é muita pretensão da sua parte!

- Não me acho nada disso, Miguel. E, se quer saber, eu nunca agi assim antes. Com você, foi a primeira vez, está bem?

- Me senti especial agora. – mais uma vez, usei meu tom sarcástico, como forma de autoproteção. Enfiei as mãos nos bolsos do meu casaco, na tentativa de ficar menos agitado – Posso saber a que devo essa honra de ter atraído para mim sua bondade e generosidade?

Nesse momento, um clarão iluminou o céu e, pouco depois, ouvimos uma trovoada estrondosa. O vento estava mais forte e agitava ainda mais os fios rebeldes, que se desprendiam do seu rabo-de-cavalo.

- Ao contrário do que deva estar pensando, eu não sou do tipo intrometida. – ela se agarrou um pouco mais aos livros. Talvez fosse o vento frio, que era agora mais intenso – Eu pensei bastante antes de ir falar com você. Acho que fiquei uns dez minutos observando antes de finalmente me sentar naquele banco.

- Pois devia ter pensado mais uns cinco minutos. Aí, eu já teria ido embora.

- Duvido. – ela foi categórica – Você estava perdido demais em pensamentos para se dar conta do tempo. E estava... desesperado. Qualquer um que olhasse para você notaria isso. Você batia insistentemente o pé direito no chão, tenso. E, por mais de uma vez, passou a mão pelo rosto, pelos cabelos, pela nuca... Atitudes de desespero, mas o que mais me chamou a atenção foi o seu olhar. Tão... vazio.

- Você devia mesmo fazer Psicologia. Essa sua análise barata foi...

- E eu já vi esse olhar antes. – ela não me deu tempo de continuar – Não poderia simplesmente ignorá-lo. Seus olhos... seu estado de confusão, de desespero... Você estava clamando por uma mão amiga. Sua alma estava em pedaços. Eu soube assim que o vi. Sim, sempre fui muito boa para entender os outros, muito perceptiva, muito sensível. Mas foi a primeira vez que eu decidi ir a fundo. Quis conversar, mostrar o que eu enxergava. Eu precisei tentar. Por causa dos seus olhos... E eu vi. Você não aguenta mais. Por que querem exigir tanto de você? Por que não deixam que seja livre? Você sabe que pode, que quer... Mas não consegue! É incapaz de se desvencilhar das cobranças. Você finge não se importar, quer demonstrar que não precisa de ninguém, na vã esperança de que não precisem de você também. Contudo, lá no fundo, você sabe... sempre soube. Isso é impossível. Você nunca conseguirá se isolar completamente. O mundo que o rodeia obriga que você entre no compasso e gire junto com ele. Quase não há tempo para respirar! Você tenta, você busca por ar, mas se sente sufocar a todo momento! Você só queria sentir que estava no comando... E agora, você apenas descobre quanto tempo da sua vida está perdendo, tentando ser quem não é! Pior ainda; você nem sabe quem é! Não teve tempo de se descobrir! Ou melhor, algum dia, você já soube! Em algum momento da sua vida, você foi fiel a si mesmo, mas isso já se perdeu! A inocência é perdida na infância... Crescemos e a vida passa a ser um grande desperdício! Um desperdício de tudo! Desperdício de felicidade, desperdício de momentos inesquecíveis, desperdício de tudo que dá sentido à vida... Quando percebemos, somos um desperdício de nós mesmos...

Uma chuva violenta tinha começado a cair, repentinamente. E nós dois estávamos lá, parados, imóveis. Possivelmente, nem sentíamos as grossas gotas de águas que se chocavam contra nossos corpos. Ela falava, ininterruptamente. Eu apenas ouvia. O que mais podia fazer? Da boca dela, daquela boca rosada e trêmula – era o frio, era a chuva, era o desespero? – jorravam palavras que me descobriam. Eu me reconhecia nela, em cada tom angustiado, em cada acento de sofrimento, em cada batimento descompassado de seu coração.

Porque, sim. Eu sentia meu coração bater no mesmo ritmo que o dela.

Éramos dois iguais.

Não era apenas eu ali.

Ela era também.

Ela era... Assim como eu.

- Eu não posso... – agora, em sua voz, havia uma fraqueza, um tom de cansaço. Não era cansaço pelo discurso emotivo; era o cansaço de uma vida, fazendo-se sentir de uma única vez – Eu não posso mais continuar assim. – os olhos claros tinham-se desviado de mim já há algum tempo. Desde que começara a despejar todas aquelas palavras sobre mim, seu olhar voltou-se para dentro de si mesma. Não era a mim que ela via... – Eu estou cansada.

- Eu também. – foi só o que consegui dizer. Eu olhava para ela, sem encontrar palavras. Queria dizer muito, queria dizer tanto... Mas não havia mais o que falar. Ela já havia dito tudo. Seriam as mesmas palavras; palavras repetidas.

O rosto dela se iluminou ante minha resposta. Voltou a olhar para mim e eu vi a face molhada. Não era a chuva. Eram lágrimas.

Eu não saberia dizer se eram muitas ou poucas. A chuva transtornava e confundia.

- Ei... – um súbito sorriso nela – Você está chorando?

Levei a mão ao meu próprio rosto, por reflexo. E respondi rápido:

- Não; é a chuva...

Então, eu sorri. Acho que sorri. Não estou acostumado a isso. Mas acredito que a água daquela chuva torrencial lavava minha alma. Eu me sentia mais leve. Eu olhava para ela e me sentia diferente.

E diferente... era bom.

- Está chovendo forte, não é?

- É. – eu ri de leve e olhei para o céu. Havia ainda algumas nuvens muito escuras, todavia já era possível perceber que elas se dispersavam – Mas o céu vai abrir daqui a pouco.

- Acho que vai fazer uma noite bonita.

- Parece que sim. Talvez até estrelada.

- Eu gosto de noites estreladas. As estrelas me lembram do infinito que nos rodeia.

- Você gosta da sensação do infinito? – perguntei, já sabendo a resposta. Infinito era liberdade. Era claro que ela amava essa sensação.

Eu queria amar essa sensação também.

- Eu gosto das possibilidades que o infinito nos traz. – ela disse, fitando-me com um olhar tão significativo que mais palavras ali seriam excessivas.

A chuva agora caía fina. Era quase uma carícia.

- Quer tomar um café? – nesse instante, eu tive certeza do meu sorriso. Até porque, eu sorria com os olhos também.

Ela olhou para si, depois para mim. Estávamos ensopados.

- É, um café. Podemos começar com um café. – ela riu, encantadora – Depois... cuidamos do resto.

Começamos a caminhar, lado a lado, debaixo de uma bonita noite que despontava, quando eu disse, com o olhar perdido em lugar algum, em um tom baixo, quase como se falasse comigo mesmo:

- Palavras repetidas...

- O quê? – você indagou, talvez por não ter me ouvido, talvez por não ter entendido o que eu quis dizer.

- Há muitas palavras que poderiam ser ditas agora. Eu até gostaria de dizê-las. Mas seriam somente palavras repetidas e eu...

- Não precisa. – e, com a mesma naturalidade daquele dia, quando se sentou ao meu lado no banco, descobrindo-me subitamente assim, ela levou sua mão à minha, entrelaçando seus dedos nos meus – Eu sei que você sabe, quase sem querer, que eu quero o mesmo que você...

******

Quase Sem Querer (Legião Urbana)

Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso,
Só que agora é diferente:
Sou tão tranquilo e tão contente.

Quantas chances desperdicei,
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.

Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira,
Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber tudo.

Já não me preocupo se eu não sei por que.
Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê
E eu sei que você sabe, quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.

Tão correto e tão bonito
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos!
Sei que, às vezes, uso
Palavras repetidas,
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Me disseram que você
Estava chorando
E foi então que eu percebi
Como lhe quero tanto.

Já não me preocupo se eu não sei por que.
Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê
E eu sei que você sabe, quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!