Quase Perfeito

2 Capítulo 2 - o peso do amor.


Destruo a porta utilizando a habilidade que a minha profissão exige. A fumaça ali presente domina cada centímetro do apartamento cor púrpura, não consigo enxergar qualquer forma ali. Procuro de forma desesperada a origem do fogo, para apartar-lo, mas todas as minhas tentativas foram em vão.

Então avisto uma mulher que evidentemente estava acima do peso, usando apenas uma camiseta curta e um short florido que a fez parecer ter a maior bunda do universo. Desmaiada no chão como se não se importasse com o fogo, não pensei duas vezes e fui socorrer-la. Tenho uma força acima da média, levanto a moça com facilidade e inicio uma ligação desesperada para o meu batalhão. Se não fosse trágico teria rido do momento em que me pus no telefone “um bombeiro ligar para o corpo de bombeiro.”

Enquanto espero a chegada dos companheiros de profissão, levo a mulher desacordada para o meu apartamento. Meu apartamento sempre fora bagunçado e demorei alguns minutos até achar meu kit de socorros (nesse momento me arrependi por ser tão desleixado) que pela primeira vez se fez útil desde que o tinha comprado.

- Onde estou? — disse desperta, porém um pouco zonza.

- Oi, moramos no mesmo prédio, acabo de salva-la — digo timidamente enquanto observo toda sua circunferência.

- Como assim? — Pergunta de forma desesperada

- Seu apartamento pegou fogo.

- Quê? Fogo? Como? — Tropeçando nas palavras de tanto nervosismo.

- Não consegui achar a origem, mas sorte sua de eu estar por perto.

- Não consigo entender.

Não tinha reparado como seu rosto era agradável, apesar de bastante redondo provido dos seus 30 kg a mais. Ela é bastante bela, tinha olhos verdes vivo que me lembram o gramado do jardim do orfanato, que tanto ateie fogo quando pequeno. Tem cabelos loiros ondulados que lhe caiem perfeitamente, e uma boca rosada que prende toda a minha atenção enquanto ela fala, mas alguma coisa nela me atrai muito mais que qualquer detalhe físico, alguma coisa que não sei explicar.

- Acho que agora entender isso é o menor dos seus problemas. Você morava sozinha?

- Sim e esse seu “morava” me destrói, não sobrou nada do meu apartamento?

- Acredito que se sobrou, não está habitável.

- Como sabe tanto?

- Trabalho com isso.

- Trabalha com atear fogo na casa dos outros?

- Que me dera, sou bombeiro. — Quem me dera mesmo, seria unir o útil ao agradável, fazer o que você gosta e receber por isso.

- Tão jovem. – disse incrédula

- Não tanto quanto parece.

- Aceita alguma coisa?

- Gostaria de algo doce.

Perfeito, era só isso que eu tinha.

Ofereço uma barra de Diamante negro a qual ela devora de bom grado, realmente via uma sutileza naquela mulher que nunca tinha reparado antes em nenhuma outra antes.

- Por que você não vem morar comigo por enquanto?- pergunto sem perceber

- Como assim? Não te conheço- evidentemente assustada.

- Não faz mal, vivo sozinho desde que moro aqui. Seria bom ter alguma companhia- minto.

- Não, isso não me parece certo. — diz enquanto pisca um milhão de vezes

- Você não tem para onde ir, pense como se aqui fosse uma pensão.

- Mas...

- Você não tem nada a perder. Interrompo-a.

- Ok, mas se nós vamos concordar com essa loucura precisamos definir algumas coisas.

- Por exemplo?

- Quero um quarto para mim. Não quero ficar dividindo minha cama com um adolescente na puberdade. — disse entre risos

- Não sou um adolescente, já disse. Pode ficar com o meu quarto, passo pouco tempo nele.- digo timidamente

- Então quer dizer que sai muito? – me questiona como seus olhos maravilhosos

- Nunca disse isso, só não gosto de dormir.

- O resto nós podemos definir com o tempo então, mas por enquanto só preciso de uma boa noite de sono.

- Entendo, pode ir tenho que levar o fujão para passear.

- Fujão? — perecendo estar surpresa

- Meu cachorro.

- Detesto cachorros — diz com certo tom de arrogância

- Vadia... – sussurro

- Do que me chamou? — Pergunta demonstrando autoridade.

- Disse que sabia. – minto descaradamente novamente.

- Como sabia?

- Mora sozinha, se gostasse de animais teria um para lhe fazer companhia.

- Faz sentido.

Ufa! Não entendo por que queria tanto a presença dessa mulher em minha casa, mas fazia de tudo para agradar-la, apesar de já termos algumas diferenças no inicio, sinto que por traz de toda aquela soberba ela também estava feliz em me ter por perto.

- Vou dormir agora.

- Ok, boa noite.

- Boa noite e obrigado por ter salvado a minha vida.

- Sempre que precisar.

- Mas espera, tenho mais uma exigência.

- Sim? — essa mulher vai acabar comigo

- Gostaria de saber seu nome.

- Carlos e o seu?

- Maria.

Seu nome não faz sentido. É um nome comum, coisa que não condiz com sua personalidade e aparência. Maria era totalmente fora dos padrões, desbocada e grossa, mas acho que era o meu tipo de mulher, se eu tivesse um tipo. Céus o que eu tenho na cabeça?

Passo a madrugada pensando na mulher que tinha socorrido e que agora dorme em cima dos meus lençóis surrados. Não sei direito o que me atraia nela, não era bonita, não tinha nada de atlético nos seus 98 quilos e cheira como uma senhora aposentada, não consigo resistir ao impulso de olhar aqueles lábios, queria tocar-los e nunca mais soltar. Nessa madrugada a observo dormindo pela primeira vez, seu ronco me lembrava antigas canções, me acalmam e até a forma em que ela baba meu travesseiro parecia ser gracioso, sabia naquele instante que estava perdidamente apaixonado por ela.