Quasar
28 Um buraco negro perigoso
Notas iniciais
Dentro do táxi, Erick está girando os dedões entre si nervoso.
— Quer me dizer algo?
— Não.
— E por que está nervoso?
— Estas coisas acontecendo com você! Você é minha amiga Quasar. — Ele pega na minha mão. — Eu só quero o seu bem, e se eu fosse escolher entre os meus dois chefes, eu escolheria Tim.
Aquelas palavras fizeram-me lembrar do meu querido amigo e do modo de como o deixei tão desconsolado.
— Eu sei que Dylan é um pedaço de mau caminho e quem é que não iria enlouquecer naqueles braços, mas Tim, ele te ama e todos sabem disso, desde quando você foi trabalhar pela primeira vez. Antes de você chegar ele chegou na nossa sala e disse "Irei apresentar a nova colunista, tratem ela bem, vocês irão gostar dela". Percebemos que ele fala de você diferente, com um brilho no olhar. Nunca é tarde para recomeçar, não estou falando para você abandonar tudo e correr para ele, até porque você está grávida de um homem que você ama, mas realmente é ele que você ama de verdade? Às vezes achamos que aquilo intenso é amor, mas às vezes não é. Tim faria tudo para ter você, porém ele não força você porque ele te ama de verdade.
— Eu te confesso que minha vida está uma bagunça e eu literalmente não sei o que fazer. Dylan já pisou na bola algumas vezes e depois do que aconteceu hoje eu não sei mais o que pensar dele, se ele realmente me ama ou tudo isso foi apenas atração.
Erick deu-me um abraço e começou a acariciar minha cabeça.
— Tudo isso é questão de tempo.
Chegamos na minha antiga casa já reformada, sem nenhuma marca de tiro, apenas com o cheiro de mofo por estar muito tempo fechada.
— Quanto tempo você não vinha aqui? Nossa e este cheiro?
— É o cheiro de liberdade, é o cheiro de não estar sendo dependente de ninguém, de não estar de um lado para o outro.
— Você não quer mesmo que eu fique com você hoje?
— Não precisa se preocupar, preciso de um tempo sozinha.
— Está bem, eu vou embora então, tenho algumas coisas para resolver.
Ele me deu um beijo na bochecha e se foi. Não deu tempo de pegar o meu gatinho, sinto tanta falta dele. Aquela casa vazia, sem muitos móveis, sem vida, apenas eu e meu filho ou filha. Pela primeira vez parei e alisei a minha barriga, eu comecei a conversar com meu filho, pela primeira vez eu sentir um sentimento diferente por aquele ser que estava crescendo em meu ventre, posso dizer que sentir a primeira pontinha do amor de mãe.
Posso ter tomado uma decisão por desespero e por não estar preparada para esta etapa da minha vida, mas mesmo sabendo dos motivos da ausência da minha mãe na minha infância e na minha adolescência, estou determinada a ser melhor para o meu filho mesmo sabendo dos desafios e do que estou passando, fugindo e me escondendo do meu próprio pai.
Sento no sofá não muito novo e olho ao redor, vejo aquela casa reformada com paredes novas, portas novas, e a solidão no ar. Fazia muito tempo que não ficava sozinha, apenas eu e o sussurro do silêncio. Olho para minha barriga um pouco grande, mas já amostra e aliso, começo a conversar com ele ou ela.
— Estou começando a gostar dessa bolinha que está me tornando gorda. Peço mil perdões por colocar na minha cabeça que não queria mais você. Mamãe estava desesperada, despreparada; não quer dizer que eu esteja preparada, mas vou tentar te dar o que não tive, te dar uma mãe, o colo de uma mãe, o abraço de uma mãe, a presença de uma mãe. Tudo o que eu não tive eu quero que você tenha, com isso tudo não sei como será o final, não quero amedrontar, apenas é o que estou sentindo agora. Minha vida está uma montanha russa e não sei se ela vai demorar mais nos rodopios ou se vai estacionar. O que titio Erick falou é verdade, será mesmo que eu amo Dylan?
Naquele momento eu não estava mais falando com meu bebê e sim comigo. Será mesmo que eu amo Dylan? Eu estou tão confusa, mais tão confusa que não sei nem o que pensar. E aquela loira? Será mesmo que ele não teve relação com ela? Fiquei arrasada quando vi aquela cena, ela provavelmente não sabia da minha existência, então não tinha como forjar nada. Ele estava chateado, mas isso não dá o direito dele em apenas um dia sair com outra. Ele já a conhecia de outra época quando ela disse que eles se divertiam. Ele pode até me amar, mas eu o amo? Ou estou sentida pelo que Erick e Tim disseram para mim?
— Não quero que você seja apenas fruto de uma aventura meu bebê! Não quero ter tomado o caminho errado, não quero que você seja um erro, não, não quero. Eu preciso pensar, preciso decifrar esse enigma dentro de mim.
Aquilo que sentir antes de Dylan aparecer, aquele sentimento estranho e ótimo que eu senti por Tim, aquela calmaria, aquele sentimento bom, não foi amizade, eu sentir algo. O arrepio do escritório não foi o mesmo arrepio que sentir por Dylan, foi algo diferente, sensível, não brutal e erótico. Tim me traz paz e sensações boas de leveza, já Dylan traz uma ferocidade, um arrepio violento, uma atração. Quem neste mundo nunca ficou dividida por alguém? Parece aqueles filmes de vampiro ou triângulos amorosos. E cá estou eu! Num "Triângulo" e uma mini paixão.
Alguém bate na porta e logo assusto-me. Levanto do sofá e olho pela brecha e aqueles olhos verdes não iriam me confundir em nenhum lugar. Abri a porta e aqueles braços enormes envolveram-me e deram-me um abraço forte.
— Você está bem?
— Como sabia que eu estava aqui?
— Erick mandou uma mensagem pedindo para que viesse ver você. Por que você não está com Dylan?
Abaixei a cabeça e ele perguntou de novo.
— O que aconteceu Quasar?
— Eu quero ficar sozinha, quero pensar, não quero mais ter que ficar indo de casa em casa como se eu não tivesse a minha.
— Se você não queria ficar indo na minha casa, você podia falar para mim.
— Mas se não fosse sua casa e você como eu teria ficado? Como eu teria ficado com tudo que eu descobri e passei?
— O que você quer dizer com isso?
— Quero dizer que se não fosse por você Timóteo Turner Müller, eu não teria com quem ficar e me sentir bem nos momentos mais difíceis da minha vida. As burradas de Dylan, quando descobri que minha mãe está viva, quando meu tio morreu, se não fosse por você Tim, onde eu estaria? Sozinha nesta casa? Pensando em tudo de ruim que aconteceu, chorando, sem ninguém para abraçar. E se eu amo vocês dois? O que eu faço Tim?
— Quasar, você não pode agir por impulso e momento. Olha para mim! — Disse ele segurando os meus pulsos. — Eu te amo, mas não quero dizer isso porque quero que você fique comigo, porque eu quero, mas eu não posso alimentar um sentimento ilusório em você.
— Não é ilusório Tim.
— É ilusório sim Quasar! Você me ama sim, mas o que você sente por Dylan é mais forte. Eu não vou te agarrar, desde o começo eu te digo que nunca vou forçar você a fazer nada, tanto que vai fazer quase um ano que você veio para Inglaterra e eu não te forcei a nada. Foi difícil sim aceitar que você ama ele, que você está com ele, mas a realidade é essa para mim. Não pense que meu amor diminui por causa disso, não! Eu sempre vou estar do seu lado.
Ele colocou a mão na minha barriga e chegou perto do meu nariz com sua boca, sua respiração quente, leve, e seu peito batendo como um tambor acelerado.
— Eu vou estar com vocês duas.
— Você insiste que é uma menina. — Disse dando um leve sorriso.
— Eu sei que é!
Sua mão atravessou minha cintura e a segurou firmemente.
— Tim!?
— Não se preocupe, só quero ter esse momento uma vez na vida.
Ele segurou minha cintura e encostou sua testa na minha, coloquei minhas mãos em seu peitoral e seu coração batia mais e mais forte. Ele fechou os olhos e começou a balançar como se estivesse dançando, então, encostei minha cabeça em seu ombro e comecei a balançar junto com ele.
— O que está fazendo?
Ele aproximou-se do meu ouvido.
— Lembra da festa do nosso primeiro ano da escola? A noite do Oscar? Lembra daquela menina de cabelos bagunçados e vestido sujo, porque uma garota marrenta a sujou de propósito? Lembra do menino que não tinha par?
Minhas lágrimas começaram a cair em seu ombro e ele começou a alisar meus cabelos devagar.
— Psiu! Não chora, não chora. Lembra do final dessa história?
— Lembro! — Disse sorrindo. — Você me tirou para dançar, mas eu disse "Eu estou feia", você parou e disse "Você é a mais linda desta festa" e a gente dançou até todo mundo ir embora. Você usava óculos, lembra?
— Agora uso lentes! — Disse se achando.
Dei uma leve tapa em seu ombro, ele parou olhou para mim e alisou meus cabelos, colocou uma mexa atrás da minha orelha olhando fixamente para meus olhos.
— Foi naquele dia que te dei um selinho. — Disse baixinho.
— Foi o melhor dia da minha vida.
Olhei para o seu braço e de baixo da manga longa do seu suéter vinho, estava um pingente preso numa pusera de ouro.
— Espera! Eu conheço esse pingente.
Parei levantei a manga e ele olhou para mim.
— É um pingente de uma rosa, eu tinha um igual. Espera! Eu perdi ele no dia da festa. Tim!?
— Eu peguei ele.
— E por que não me devolveu?
— Porque depois da festa, eu fui embora e ele era única coisa eu tinha de você.
Toquei em seu rosto e ele tocou na minha mão, olhei para sua boca, ele fechou os olhos, respirou fundo.
— Não faça isso.
Não dei ouvidos a sua suplica, cheguei mais perto e o beijei de leve. Eu posso estar me enganando ou não, mas eu vi a necessidade de fazer aquilo. Ele fechou mais forte os seus olhos e soltou seus lábios contra os meus, vi seu desejo sendo realizado, vi a hora dele cair duro no chão de tanto seu coração bater, um carro a cem quilômetros por hora não chegava perto da velocidade do seu coração; seu beijo e seus sentimentos se tornaram um Quasar, enorme e mais perigoso dos buracos negros, ele estava sugando gentilmente meu coração para si. Você deve estar se perguntando, "Você é rápida, deve estar se vingando" Não e sim. Não porque foi um desejo, uma necessidade de descobrir a verdade sobre o que eu sinto. E sim, pelo um por cento de raiva que sinto de Dylan.
Ele parou sorriu e continuou com sua mão na minha nuca.
— Você pode estar me iludindo, mas essa é a melhor ilusão que eu poderia ter. Vamos sair amanhã?
— Para onde?
— Comprar as roupinhas dela. — Disse ele com a cabeça encostada na minha testa.
— Mas você não tem certeza se é uma menina.
— Eu garanto que é.
— Tim...
— Vamos, pelo menos para comprar alguns brinquedos, deixa!
— Espera mais um pouco, tudo aconteceu tão recente.
— Eu espero. Tenho que ir. — Disse ele olhando para o relógio.
Ele retirou sua mão da minha cintura e sorriu, virei para a porta, ele abriu, olhou para mim, sorriu e roubou um beijo rápido.
Ele saiu passei a mão na nuca e abaixei a cabeça, dei um leve sorriso e o que eu pensei que iria retirar uma grande interrogação da minha vida, aumentou mais ainda.
Subi passando a mão pela parede, abri a porta, entrei e meus passos quebravam o silêncio dentro daquelas quatro paredes. Coloquei a foto da minha mãe em cima do criado-mudo, olhei por algum tempo, retirei minhas sapatilhas e deitei, dormir um sono que nunca mais tinha dormido, um sono solitário, mas um solitário bom, sem perturbações, sem lembranças ruins, apenas dormi como se nada estivesse acontecendo.
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