Notas iniciais
Já disse que tudo aqui nos pertence? É... Tudo aqui nos pertence! '

Nathaniel, que nome interessante, mas combina perfeitamente com a pessoa que o possui... Igualmente interessante.



Sou Nicolas. Quando meus amigos eram vivos me chamavam de Nick, mas hoje é apenas Nicolas. Mudei-me hoje para este prédio antigo, no último andar, exatamente no apartamento acima do qual mora o dono de nome e aparência tão interessantes.



Nathaniel tem cabelos castanhos, cor de chocolate ao leite, muito brilhantes para o cabelo de um garoto, olhos cor de mel, igualmente intensos, parecem até ser feitos do próprio mel. Não é um garoto muito alto e nem tem um físico promissor, na sua magreza o deixava com um ar fraco de quem precisava ser protegido.



Subi as escadas e ouvi logo no primeiro lance certa gritaria no terceiro andar. Prestando muita atenção percebi ser a voz de Nathaniel; ele estava discutindo com a mãe. Subi mais lentamente ainda para poder ouvir toda a discussão.



Pelo jeito a mãe dele não era a melhor pessoa para se ter de exemplo, e, pelo que entendi, tinha um trabalho nem um pouco honroso. Ao pisar no lance de escada que levava ao terceiro andar ouvi a porta batendo e uma mulher nova, de cabelos loiros tingidos e roupas provocantes passar a passos fortes por mim. A raiva que ela exalava era quase palpável.



Parei na frente do corredor do terceiro andar e olhei para a porta da casa dele, ele deveria estar chorando como todo bom garotinho faria numa situação dessas. Apurei meus ouvidos tentando procurar por soluços, mas a única coisa que ouvi foi a porta sendo aberta e logo após fechada. Um segundo depois e ele estava na minha frente.



-Com licença – ele pediu lentamente enquanto tentava conter a raiva cerrando os punhos.



-Vai sair – afirmei enquanto o encarava, estava com a mesma camiseta branca com mangas pretas e calça jeans surradas que usava da primeira vez que o vi. Também calçava o mesmo tênis branco com o símbolo da nike em azul, a única diferença era que agora ele usava uma jaqueta jeans com a manga desfiada pelo excesso de uso.



-Vai ficar parado aí?- ele indagou se aproximando para me empurrar, mas desviei para o lado e o deixei passar.



Ele desceu as escadas apressado e bateu a porta da frente. Assim que ele sumiu de vista, corri para o meu apartamento. Abri a porta e fui até a janela, para tentar alcançá-lo com meus olhos. O vi passar na calçado logo abaixo de mim e entrar num mercadinho vizinho. Fiquei batendo meus dedos impacientemente na beirada da janela, esperando sair. Não demorou muito... Minutos depois ele saiu de lá segurando uma caixa com garrafas de Smirnoff Ice e foi andando pela calçada bebendo uma delas até desaparecer da minha linha de visão.



Observei os prédios a minha frente. Já havia morado em tantos lugares, desde Nova York a Los Angeles até as capitais européias, como Paris, Londres e Madri, mas aqui, na cidade de Dallas, foi onde eu passei minha infância, a infância humana pelo menos. Talvez tenha voltado para reviver um pouco do meu passado, senti-lo. Talvez seja por isso que tenha me sentido tão atraído pelo garoto. Fora quando tinha aquela mesma idade que senti, talvez pela última vez, os prazeres de minha vida humana.



Naquele tempo não existia esses prédios ou ruas, nem mesmo os carros. Existia a pequena vila onde os bordéis e tabernas reinavam, junto com as lojas para suprir as necessidades dos fazendeiros.



Bom, isso até conhecer Joseph, que me guiou até a minha nova vida, a vida que eu levo já faz bastante tempo... Mas apenas hoje voltei para a minha cidade natal, que está completamente transformada pela modernidade desse século.



Fui despertado das minhas lembranças pelo barulho do telefone, mas não do telefone do meu apartamento, afinal eu ainda não tinha um. O barulho vinha do apartamento de baixo e para a minha surpresa alguém o atendeu.



“Alô?” era a voz do Nathaniel, não reparei que ele voltara, já que estava imerso em pensamentos. Deitei no chão e me concentrei apenas nele e no telefone, minha curiosidade dizia que seria interessante ouvir aquela conversa.



“Nate, posso saber por que o senhor não me ligou?” uma voz feminina respondeu. Mesmo sendo ligeiramente modificada pelo o aparelho, era uma voz muito irritante.



“Liza, cala a boca, eu não liguei porque não quis” uau. Por trás daquele rostinho fofo ele é uma pessoa bem rude com uma dama. Se bem que de dama ela não deve ter nada.



“Não fale assim comigo, Natezinho, eu só fiquei preocupada com você” ela respondeu com uma voz tão açucarada que dava até para ver o beicinho que ela provavelmente estaria fazendo.



“Claro, porque tudo que você faz é ficar preocupada comigo, não é?” ele ironizou, gostaria de saber o que tinha entre os dois para ele ser tão frio com ela.



“Sim! Estou preocupada, você sozinho aí na sua casa, que tal eu dar uma passadinha aí para te fazer companhia?” além de uma voz irritante ainda é uma oferecida? Não é a toa que ele a trata dessa maneira.



“Liza, para de ser uma biscate e vai procurar quem te ame. Já disse para você, não quero nada com garotas como você” essa doeu até em mim, devo admitir que foi algo um tanto duro demais.



“Por que faz isso comigo? Semana passada você veio implorando por mim e agora faz isso?” na voz dela não tinha nem uma gota de ultraje. Essa garota não ligou nem um pouco para o que ele falou, mesmo tendo dito isso, ela deixou claro em sua voz que não estava abalada.



“Eu nunca imploro” ele refletiu. A garota soltou um som de desgosto “Semana passada eu estava bêbado e queria me divertir, você foi a primeira que me apareceu, mas agora que eu estou sóbrio, digo que não preciso mais de você, vai procurar outro para pegar no pé” bom, acho que é melhor deixa-lo bem longe das bebidas, pelo jeito ele bêbado só faz idiotice.



“Humph, eu vou até aí para conversarmos civilizadamente, talvez até leve algo para bebermos enquanto conversamos” e depois disso, ela desligou. É impressão minha ou ela planeja embebedar ele? Essa garota é maluca, acho bom o Nathaniel dar um jeito nela antes que seja tarde.



De qualquer maneira essa foi uma conversa bem interessante, mal posso esperar para quando ela chegar.



Veja só, estou até rindo por antecipação, esses garotos de hoje em dia são mesmo muito... Interessantes.



“Aquela vaca! Quando ela chegar aqui vou terminar tudo de uma vez” eu o ouvi gritando para o nada. Raiva é simplesmente um sentimento complexo e que leva a maioria das pessoas a atitudes loucas, como, por exemplo, falar sozinho.



------------------------------



Reviews são de graça, não cobram nada, então por que não deixar um? Ç.Ç