Acordei bem tarde e já fui ligar para Mark, sentindo a ressaca que já me rondava. Merda... Toda vez que eu bebia eu falava que nunca mais ia beber... Então por que nunca me lembrava disso?

Mark atendeu o celular. Até sua voz invadiu minha cabeça como se fosse um eco irritante, por mais que ela parecesse a voz de um anjo. Cara, eu nunca mais vou beber... Tomara que eu me lembre disso da próxima vez.

— Nate? — a voz dele chamou simpática depois de, provavelmente, ter visto meu número na tela de seu celular.

— Mark... Eu conheci o cara que é dono da Harley Davidson — recitei lentamente. Ele soltou um sussurro como se compreendesse. Eu parecia uma garota fofoqueira falando do próximo pretendente com a melhor amiga. Ainda bem que o Mark me entende... Acho.

— E...? — perguntou depois de um tempo. Ah, eu podia parecer uma garota fofoqueira, mas ele era a melhor amiga que incentivava. Ri um pouco do meu próprio pensamento.

— Tipo... — uma pausa. Aposto que Mark esperava ansioso — Ele não é normal.

— Roqueiro? — perguntou ele com naturalidade.

— Não! — exclamei — Ele só... Não parece... — mais uma pausa. O que iria falar para não parecer um idiota total?

— O quê?

— Ele... Parece... Ele não parece humano — soltei um longo suspiro. Eu gostava de Mark por causa disso: ele não riu. Qualquer outro riria.

— Já tá bebendo de manhã? — perguntou brincando.

— Mark, tô falando sério — refleti por um momento. Se ele me ligasse falando isso eu provavelmente riria na sua cara. Não só riria, gargalharia — Mark, ele realmente é... Perfeito demais para ser humano.

Mark dessa vez riu. Mas vendo que eu não o acompanhava parou.

— Nate... Isso soou... Como dizer? — uma longa pausa.

— Sei que soou gay demais, mas, Mark, você não entende! Se pelo menos o conhecesse...

— Que horas eu vou aí, então? — perguntou com naturalidade.

— O quê? Por quê?! — me assustei com a pergunta dele. Por que ele mudara de assunto tão rápido?

— Você não quer que eu conheça o cara? — perguntou ele, com bastante naturalidade.

— Nem eu o conheço direito, então não — ouvi minha mãe chegando, destrancava a porta — Tenho que ir. Tchau.

— Tchau — e desliguei. Odiava que minha mãe me visse falando com o Mark no telefone. Ela sempre ficava questionando depois por que eu ligara para falar uma besteira daquelas, ou por que eu não falava depois, quando ele entrasse no computador?

Bem, desliguei. Vi minha mãe segurando várias sacolas de compra quando entrou. Era o “dia do supermercado” e também o dia em que ela ficava mais ocupada. Ah, meu querido sábado... Devo tanto a você!

— Nate, vem cá – ela chamou-me, um tanto zangada. Já tinha se esquecido da discussão da noite anterior, mas provavelmente, se eu chegasse muito perto, começaríamos outra. Fiquei a uns dois metros dela, distância que dá para correr caso ela invente de jogar essa sacola de arroz na minha cara.

— Precisa de algo? – perguntei simpático, na maior cara de pau. Ela suspirou cansada.

— Guarda essas coisas para mim? – ela também tentou parecer simpática. Tal mãe, tal filho... Ambos com uma cara de pau imensa – Tenho que sair...

— Vai voltar logo? – ah, eu era o filho perfeito, não era? Que filho hoje em dia pergunta se a mãe vai voltar cedo? Cara, eu era um demônio com cara de anjo, só podia.

— Já são três horas da tarde, não é? – peguei meu celular e olhei as horas, confirmei o horário e ela suspirou mais uma vez cansada – Não me espere acordado...

— Está bem... – disse, já tirando as coisas da sacola e guardando-as. Ela me deu um beijo na bochecha e saiu.

Sozinho, finalmente.

Praticamente joguei as coisas na geladeira e no armário e sentei-me em frente da TV, ligando meu Playstation num jogo qualquer.

Não prestei muita atenção. Nunca prestava. A verdade era que eu não gostava de jogar. Eu gostava do tempo que aquela coisa na minha frente desperdiçava da minha vida. Adorava como os minutos passavam rápido ao jogar qualquer um daqueles jogos irritantes. Só sai quando meu estômago começou a roncar alto de tanta fome que eu sentia.

Abri o armário e encontrei um pacote de salgadinhos. Os devorei enquanto, apoiado no vão da janela, observava o sol desaparecer. Tão belo aquele efeito. Todos os prédios da cidade começavam a ligar suas luzes enquanto o sol desaparecia. Quando terminei de saborear aquela coisa salgada e enjoativa, o sol já havia sumido no horizonte e a maioria das casas já estava com a luz acesa.

Ah, eu queria ver o Nick. Eu queria realmente vê-lo. Será que ele inventaria uma desculpa para vir me visitar hoje? Será que esperaria eu procurá-lo?

Alcancei meu celular no bolso novamente e olhei as horas. Seria inconveniente tocar a campainha dele às 19 horas? Eu sei que era idiota fazer isso... Mas eu queria.

Logo tomei um banho e me vesti mais adequadamente. Uma blusa com manga curta azul e com uma blusa de manga comprida branca embaixo. Uma sobreposição sempre caía bem. Coloquei uma calça jeans e baguncei meus cabelos. Perfeito.

Já tinha dado oito horas da noite. Tranquei a porta do meu apartamento e comecei a subir as escadas até o quarto andar. Bati na porta do apartamento em cima do meu. 42.

Demorou um pouco para vir atender a porta. Devia estar desarrumado, talvez até sem blusa, como ficam a maioria dos solteiros em casa quando estão sozinhos... Talvez não. Quando abriu a porta para mim estava impecavelmente vestido. Uma calça jeans surrada, uma blusa de botões branca com os dois primeiros abertos, me dando uma linda visão de seu peitoral. Ah, eu tinha que parar de ficar reparando em homens...

— Nate – ele parecia surpreso em me ver – Eu ia falar com você hoje... Mas já que veio aqui – deu um sorriso malicioso e abriu espaço para que eu entrasse. Estava com as luzes apagadas. Pude reparar numa taça em cima da mesa perto do sofá negro, provavelmente estava bebendo vinho, já que o cristal estava um pouco manchado daquela característica cor... Um tipo de vermelho mais escuro.

— Sente-se – ele disse, apontando o sofá. Ele passou por mim e sentou-se antes, enquanto eu observava cada detalhe do apartamento. Na realidade, era bem vazio. Nenhum quadro na parede, nenhum detalhe diferente. A única coisa que chamava a atenção era uma prateleira cheia de livros perto do sofá. Nossa, ele realmente gostava de ler, me assustei de verdade com a quantidade de livros ali. Muitos nomes que eu conhecia por causa de Mark, outros que eu conhecia por causa de alguns professores, alguns que eu já tentara ler... Mas todos, todos tratando do mesmo assunto.

De Carmilla de Joseph Sheridan a Drácula de Bram Stoker, Goethe com seu famoso Noiva de Corinto, toda a coleção das crônicas vampirescas de Anne Rice, várias enciclopédias sobre o mesmo assunto, os livros que agora voltaram à moda graças a Crepúsculo de Stephenie Meyer, House of Night que eu já chegara a ver em uma livraria qualquer... Ah, tantos livros que eu mal conseguia nomear! Todos sobre o mesmo assunto! A mesma coisa! Passei meu dedo levemente sobre uma das prateleiras. Todos aqueles livros preenchiam praticamente a estante toda. Um livro também pairava em cima da mesa, próximo de sua taça de vinho. Não identifiquei imediatamente qual era, mas quando sentei no sofá reparei que era o Drácula original. Quando me obrigaram a ler aquele livro para a escola, lembro-me de só ter lido o começo. Era interessante, mesmo. Só que quando o jovem descrevia em seu diário as redondezas da mansão do conde, lembro que quase me cagava. Sério, o original dava medo, ainda mais com a narração...

Sentei-me e ele olhou-me com curiosidade.

— Gosta de vampiros, hein? – engoli em seco. Algo em vampiros sempre me assustara. Aquele fascínio que as meninas pareciam ter por eles para mim era idiota. Um monstro que suga sangue... Essa idéia sempre me assustara. Eu não achava que era algo bonitinho que podia ser admirado. Para mim era, definitivamente, assustador. Um monstro... Sugador de sangue.

— Nem tanto – sorriu irônico – Gosto de como os escritores os descrevem...

— Se pelo menos houvesse um equilíbrio – refleti – As novas escritoras os descrevem bonzinhos demais... Os antigos os descrevem... Assustadores demais. Não existe meio termo. Se pelo menos existisse... Eu gostaria de ler alguma coisa, mas...

— Tente Anne Rice – ele me interrompeu, sem olhar-me, parecia estar com os pensamentos em outro lugar. Virou-se e passou a olhar-me com uma velocidade surpreendente – Os vampiros dela demonstram amor e paixão... Mas não deixam de ser maus e violentos. Mas sabem ser bons quando querem. São manipuladores. Esse é o meio termo, pelo menos para mim.

Fiquei admirando-o falar aquelas palavras com tanta sabedoria. Ele parecia conhecer tão bem daquele assunto...

Seus olhos olhavam-me com fascínio. Parecia que realmente estava interessado em mim, um garoto tão idiota como eu.

Respirei fundo.

— Você é tão lindo... – ele sussurrou. Já estava tão perto de mim que nossos lábios quase se encostavam. Ah, cara, se pelo menos eu fosse mais forte e não me deixasse levar pelo momento...

Mas não, eu era fraco. Logo senti seus lábios encostando-se aos meus, curiosos, gelados, românticos. Era um momento perfeito. Fechei meus olhos automaticamente. Nossas mãos estavam paradas, a única coisa que nos conectava eram nossos lábios. Tremia como se fosse meu primeiro beijo, sentia aquele nervosismo que ia e vinha conforme as batidas do meu coração. Mexíamos nossos lábios sem deixar que nossas línguas atrapalhassem, apenas deixávamos rolar naturalmente. Um beijo que eu nunca havia experimentado. Era tão... Suave.

Afastou-se lentamente. Abri meus olhos devagar, observando-o me olhar com fascínio.

— Nate – sussurrou meu nome como um cântico, avançando sua mão para uma mecha de meu cabelo. Rondou-a com o dedo indicador. Finalmente corei, caindo em mim.

— O quê...?! – perguntei, confuso. Meus olhos estavam arregalados. Por que sempre chegava o momento em que tinha de cair em mim?

— Shh – fez com suavidade, me interrompendo e colocando o dedo indicador em cima de meus lábios – Não vai estragar o momento... – dizia de olhos fechados, como se uma música tocasse em sua cabeça naquele momento – Não vai surtar apenas porque beijou um homem – finalmente abriu os olhos, como se aquela frase que ele mesmo dissera tivesse estragado toda a música.

Sim, era isso mesmo que eu ia fazer se ele não tivesse colocado o dedo em minha boca. Eu tinha beijado um homem! Não era estranho nos dias de hoje, mas... Era estranho para mim. Principalmente porque fora o melhor beijo que eu já ganhara em minha vida. Tudo aquilo me deixara confuso demais.

Levantei-me do sofá, respirando fundo, finalmente corando.

— Preciso ir – praticamente cuspi as palavras. Saí correndo porta afora. Ele ficou olhando-me por um longo tempo. Ouvi seu suspiro de desgosto, mas em quinze segundos já estava no sofá do meu apartamento, amaldiçoando-me.

Ah, cara, eu realmente era um idiota...

Notas finais
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