Quarteto: a saga do apartamento
1 Capítulo Único: No dito apartamento
Notas iniciais
Apartamento
Quando o quarteto decidiu alugar aquele pequeno apartamento de 2 quartos, 1 banheiro, 1 sala/cozinha e 1 minúscula lavanderia num prédio de 3 andares a 2,5 km do trabalho de Vitória e Elizabeth foi por puro desespero de não ter qualquer outro lugar melhor para ficar (elas haviam sido despejadas do apartamento anterior) somada a esperança de que a situação não duraria mais que 1 ano.
Os dois quartos eram muito pequenos e os moveis sempre ficavam no caminho dos pés, Helena e Margarida, que trabalhavam em casa sofriam com a claustrofobia do pouco espaço e a constante necessidade de limpar e por ordem na bagunça natural de casa. Margarida cozinhava porque não conseguia limpar sem quebrar algo, Helena cuidava da limpeza por não ter confiança em sua culinária, aos fins de semana a lavagem da roupa e do banheiro ficavam a encargo de Vitória e Elizabeth.
Vitória que chegava sempre muito tarde por causa dos seus horários loucos no laboratório ou das bebedeiras em que saia com os colegas de trabalho costumava tropeçar no tapete e desabar só levantando no dia seguinte para mais uma rotina apertada em 24hs.
Elizabeth se habituou a olhar os classificados atrás de uma nova moradia sempre que estava de folga, a divisão dos quartos não ajudava também, com Margarida e Helena discutindo de um lado e Vitória e Elizabeth de outro, todas eram muito espaçosas, viam descontentes os hábitos das colegas, todas gostavam de privacidade em um nível quase antissocial e todos os dias as quatro esperavam ansiosas para se mudar.
Um ano se passou e uma grande crise as impediu de ter um apartamento melhor, Margarida foi despedida de seu emprego e em março, três meses depois, entrou em depressão, Helena também perdeu boa parte de seus clientes.
Vitória teve sua carga horária cortada praticamente pela metade, sua pesquisa em laboratório perdeu o financiamento e foi finalizada sem um resultado satisfatório, em abril as saídas para beber acabaram, a maioria de seus colegas foi dispensada. Elizabeth sofria com as contas acumuladas ao lado da porta.
O ano se arrastou cruel e com muitos cortes.
Em maio Margarida se surpreendeu tendo pensamentos suicidas, para encher a cabeça com coisas úteis e evitar ócio começou a fazer trabalhos manuais aproveitando tutoriais no YouTube e blogs, as vezes usava lixo reciclável (papéis que Helena não queria mais, garrafas pet, vidros de copos quebrados) outras vezes quebrava os moveis do caminho e fazia deles prateleiras. Ninguém reclamou.
Vitória, para diminuir o nervosismo e a ansiedade, criou uma pequena horta na lavanderia composta por alguns pés de alface, de cheiro verde, salsa e um tomateiro, seu maior objetivo era não deixa-los morrer. Helena conseguira um emprego meio período como auxiliar de cozinha onde não ganhava muito, mas que a deixava levar sobras para casa o que diminuiu muito a despesa da comida.
Como quase não havia dinheiro sobrando elas raramente saiam, mas todas estavam sempre exaustas demais para sair então não tinha importância.
No meio do ano a plantação da lavanderia ganhou um pé de limão, um de laranja, muitos temperos diferentes e uma composteira. A maquina de lavar quebrou e por falta de verba as roupas passaram a ser lavadas no box do banheiro. Elizabeth teve um colapso e entrou de licença perdendo o dinheiro das horas extras; Margarida começou a sair nas ruas vendendo suas obras e a dormir no sofá; Helena vendeu as camas de seu quarto no site de vendas online, comprou uma rede e transformou o espaço em um escritório improvisado, havia sido despedida de seu emprego meio período.
Em agosto as vendas de Margarida decolaram ela passou a receber encomendas e ser reconhecida enquanto andava por ai, também começou a pensar em ter um ponto próprio; Vitória conseguiu verba para reabrir seu projeto de pesquisa e voltou a trabalhar no laboratório.
Helena passou a se arriscar na cozinha usando o que aprendera em seu tempo como auxiliar, suas visitas aos temperos da lavanderia eram constantes e depois de uns dias o cheiro de comida queimada foi substituído por aromas saborosos. Os nervos de Elizabeth melhoraram e ela voltou a sorrir e trabalhar menos, pela primeira vez desde o inicio do ano ela não se desesperava com as contas ao lado da porta.
As garotas passaram a fazer piqueniques semanalmente em um parque próximo ao apartamento as vezes iam lá apenas para estar em um lugar aberto, outras era para comemorar algo, qualquer coisa servia.
No mês de Setembro Margarida foi presa e parou de vender com medo da policia, Vitória quis plantar maconha na lavanderia, todas protestaram aos risos, Helena passou a desenhar plantas de prédios e casas para um amigo que lhe pagava muito bem, Elizabeth retornou a trabalhar a todo o vapor, mais calma e sorridente, Margarida voltou a apresentar sinais de depressão.
Em outubro cinco desconhecidos bateram a porta do pequeno apartamento perguntando pela vendedora das ruas, Margarida temia que fossem policiais, mas eram só pessoas querendo aprender artes manuais, ela aceitou feliz a ocupação e seu rendimento. Helena fez vestibular para arquitetura, muitos colegas de seu amigo pediam para ela fazer plantas e projetos de construção, sua comida estava muito melhor com os frutos da lavanderia.
Vitória negociou o atraso do aluguel com a dona do prédio: ela construiria uma horta para o uso de todos os moradores e os juros seriam esquecidos; Elizabeth diminuiu suas horas extras para cuidar do jardim que Vitória negligenciara. A nova maquina de lavar foi posta no banheiro entre a pia e o box. Elas venderam o sofá e compraram almofadas fofas e de cores quentes.
No fim do ano não havia mais um pequeno apartamento de 2 quartos, 1 banheiro, 1 sala/cozinha e 1 minúscula lavanderia num prédio de 3 andares e sim um aconchegante lar de um quarto, um banheiro/lavanderia, um escritório, um jardim, uma sala/cozinha e quatro moradoras que não trocariam isso por nada.
No ano seguinte Helena começaria a faculdade de arquitetura, Vitória mandaria um projeto para construir uma horta comunitária na escola para ser mantida pelos alunos e responsáveis como uma forma de integrar a família e sociedade com a escola e meio ambiente, Elizabeth encontraria o amor de sua vida (que ainda está com outra pessoa) e Margarida compraria um ponto para dar aulas de artes manuais para pessoas depressivas e/ou com outros transtornos mentais além que fazer um blog sobre os benefícios das artes manuais para a mente e para o meio ambiente. Mas isso são resoluções de ano novo e talvez demorem um pouco para se cumprir.
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