Quarta-feira,a culpa e ela
2 Capítulo 1
Nunca esperei viver esse momento. Eu estava em um tribunal. A sentença do que aconteceria comigo pelo resto da minha vida estava nas mãos imparciais de um juiz que não possuía empatia nenhuma com qualquer pessoa ali. Afinal ele era o juiz, ele fazia a lei ser aplicada. E não importava se eu gostasse dele ou não. Eu era uma adolescente. E tinha que ter alguém que cuidasse de mim. Estanho ou não.
— A custódia provisória de Alexia Bonfim está em nome de Luís Bonfim, irmão de seu pai e sua tia Clarisse Rui Bonfim. – o juiz bateu o martelo.
Olhei entre o juiz e meus tios. Como meu destino poderia ser escrito por pessoas da qual eu não lembrava e que não me conheciam? Minha tia colocou a mão no meu ombro e me guiou a saída do tribunal com um leve sorriso no rosto que transmitia compreensão. Eu estava pasma de mais para agir no momento.
— Está tudo bem, querida? – meu tio perguntou.
Assenti, franzindo os lábios. Era muita coisa para assimilar.
— É muita coisa para assimilar ainda Luís. Ela perdeu os pais e a memória. É claro que ela está confusa e mal. Não a pressione. – Clarisse respondeu ao marido. Obtendo um pequeno aceno de cabeça.
Luís destravou o alarme do carro quando nos aproximamos.
— Vão entrando, tenho que pagar o estacionamento.
Poucos minutos depois o carro estava andando. Em direção ao destino final. Ou por assim dizer, a casa na qual eu iria morar nos próximos anos até atingir a maioridade. Com desconhecidos. Tinha como a situação ser mais bizarra? Não, acho que não.
Apesar de confusa, minhas perguntas não deixaram de surgir. Para onde iriamos? Como era lá? Qual rumo tudo isso tomaria e o que eu poderia fazer para retornar ao que eu era? Aliás o que eu já fui? Ao que parece eram perguntas que no momento não poderiam ser respondida. Exceto as duas primeiras.
— Para onde vamos?- perguntei do banco de trás do motorista. Meu tio olhou pelo retrovisor e nossos olhares se encontraram.
— Joinville. Conhece?
Fiz que não com a cabeça.
—É uma cidade linda, Alexia. Você irá adorar! —complementou minha tia animadíssima.
Sorri.
Era um tanto longe de onde estávamos. O bastante para um bom começo. Ou a ruína de tudo. Eu achava que meus sentimentos não poderiam ficar piores. Mas lembre-se de nunca duvidar da Lei de Murphy: '' se algo pode dar errado dará errado da pior maneira possível.''
Eu duvidei que minha confusão, que a ausência do conhecimento sobre mim mesma me iria levando ao fundo do poço aos poucos enquanto eu fingia que estava bem. Levou e acho que foi mais do que eu poderia aguentar. Mas tudo bem, eu sou forte. Só não sei o quanto ainda.
Só não sei o que restou do meu eu quebrado. E eu gostaria de saber. Só não sei se gostarei da resposta.
Era um breu. Eu não sentia. Eu não pensava. Eu existia. E de alguma forma, mesmo que inconscientemente e com amnésia eu sabia que minha vida não passava disso: existir, ver o breu.
Mesmo nos meus sonhos eu via isso. Felizmente antes que eu me aprofundasse mais em meus sonhos tenebrosos que era igual a minha alma, mesmo que no momento, ela poderia ser imaculada pela falha humana produzida pelo meu corpo, ainda era um breu. Fui sacudida pelo ombro suavemente.
Meus olhos se abriram confusos. Fitei minha tia que tinha um sorriso amoroso nos lábios, ela parecia feliz. Muito mais do que eu era. Olhei em volta pare perceber que ainda estava no carro e que era noite lá fora.
— Chegamos a casa, querida. Venha! Estou doida para lhe mostrar seu quarto e o resto da casa.
Resmunguei enquanto me levantava. Meu corpo estava todo dolorido da má posição que aderi enquanto dormia no carro.
— Que horas é? – perguntei.
— É madrugada. Paramos algumas vezes para reabastecer, você até chegou a comer, mas depois pegou no sono e não acordou até agora.
— Não imaginei que demoraria tanto e nem que ficaria tão cansada.
Clarisse sorriu.
— É totalmente compreensível, Alexia. Seu tio vai levar suas malas para dentro, vamos entrando?
Assenti e a segui. Eu observava cada detalhe com atenção. Estava curiosíssima para descobrir cada canto da nova casa, desde o jardim requintado, que tinha diversas flores, ao espaço mais rústico.
O sobrado tinha um designer moderno, com toques rústicos pela madeira envernizada que estava nas paredes. A porta era larga e de vidro. Na varanda de paredes de tijolinho algumas trepadeiras se espalhavam pelo muro e flores caiam em cascatas dos vasos pendurados.
A sala era espaçosa e tinha grandes janelas que iam do teto ao chão em duas paredes. A cozinha era americana. A casa parecia um sol mesmo sem iluminação natural.
Subimos a escada virando à direita e entrando em um dos quartos. Quarto este que estava em branco. Totalmente branco. Nu. Peculiar, foi o que pensei.
— As paredes já eram brancas e os móveis também. Então decidimos que deixaríamos você dar vida a ele.
Suspirei. O quarto era tão branco quanto minhas memórias. Eu estava pronta para construir novas eu só não sabia até que ponto eu iria.
— Branco é bonito. – foi o que eu disse. — Faz referência direta ao que estou passando.
— Eu não queria... – ergui a mão, impedindo-a de concluir a ideia.
— Tudo bem. É a verdade não é?
Ela assentiu.
— Será um bom começo. É só seguir em frente, querida. – selou minha testa com um beijo e caminhou para a porta – Descanse. Amanhã organizaremos tudo.
A porta se fechou em seguida. Olhei para a imensidão do branco a minha frente e sussurrei baixinho o que eu tentaria fazer. Parecia simples, mas não era.
— É só seguir em frente – repeti pela segunda vez. A questão era, se eu conseguiria.
Escorreguei na cama com a intenção de adormecer. Intenção que foi completamente anulada quando percebi o caos que eu estava vivendo. Eu não tinha ninguém. Eu não conhecia meu tio e mais preocupante ainda eu não me conhecia.
Eu sabia minha cor favorita, que eu não tomava café puro, que eu gostava de gatos, que eu tinha renite pela manhã. Eu não tinha fotos. Não tinha nenhum objeto que era verdadeiramente especial e com significado. Era exatamente o que esse quarto era: branco.
O mais desesperador era que eu não via o que todo mundo via. Eu não achava que eu estava bem. Porque eu não estava. Eu estava me sufocando por dentro. Estava com medo. E ninguém via isso.
Como você pode dizer a alguém para seguir em frente quando a pessoa está perdida em si mesma e no mundo? Quando o medo e a insegurança bate a porta você não pode simplesmente ignora-los. Seria imprudente. Seria descaso consigo mesmo.
Eu era o caos dentro de mim mesmo. A escuridão que eu sentia começava a me sufocar aos poucos. Não tinha saída. O ar ia se esvaindo. Eu queria perdidamente saber quem eu era.
A realização bate.
E se eu nunca fui alguém?
A respiração foge.
A escuridão se formou e o esquecimento ressurgiu.
Tudo era breu. E não havia nada que me salvaria da escuridão. Não agora. E talvez nunca.
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