"Quanto tempo"
1 Capítulo Único
Notas iniciais
23:36 — 19/06/2017
“Quanto tempo”. Ícone de lupa. Alguns segundos para carregar os resultados. A conversa move-se para a primeira mensagem encontrada. É recente demais. Três resultados acima e ainda não chega em março. Mais duas e finalmente uma mensagem deveras antiga. Ela é branca. “Quanto tempo você vai demorar pra chegaaaar? emoticon de desespero”, 14:53, 07/09/2016. O sorriso abobado surge não só involuntário como despercebido. Com um suspiro, contém-se para não ler as mensagens subsequentes. Próximo resultado. Mensagem verde. “Mas… você não vê ela há quanto tempo?”, 03:22, 21/07/2016. Leorio nota a existência de seu sorriso finalmente, mas isso porque ele se desfaz. Seus olhos aquecem. Sua garganta aperta. Em sua cabeça, a náusea das lembranças melancólicas implora para se liquidificar em seus olhos. Entretanto ele se recusa. Não hoje. Não depois de tanto tempo. Antes que as memórias do velório acabem completamente com seu espírito, ele pula para a mensagem seguinte. Verde. O xingamento ao aplicativo e seu sistema de pesquisa vem assim que reconhece seu próprio monólogo. “Tá, eu entendo que ele não tá nessa merda de universidade pra dar aula, mas sim pra fazer pesquisa. Eu imagino como isso deve ser frustrante e tals… MAS PUTA QUE PARIU! Custa dar as aulas direito?? E esse ainda não é o pior! Você tem noção o tempo que esse filho da puta gastou xingando a ‘falta de respeito para com o sinal amarelo’ duas aulas antes de pedir esse trabalho?! A FUCKING AULA TODA. Daí ele dá um PRAZO DE BOSTA e quer que a gente faça a pesquisa dele pra ele, o filho da puta! Quer fazer a gente de empregadinhos pra usar o tempo dele batendo mais punheta pra sinal amarelo. Eu nem sei dizer quanto eu desprezo essa merda... é imensurável” 22:14, 03/07/2017. Mesmo não precisando, ele lê a mensagem completa. Ri com a própria desgraça. Comemora internamente por já ter se livrado de bioestatística. Olha o horário.
23:41 — 19/06/2017
Solta um suspiro frustrado. O presente na mesa atrás de si. Há um laço nele. O papel de embrulho está tão intacto como deveria estar. Mas não como Leorio gostaria que estivesse. Falta pouco e esse pouco passa lentamente. O celular vibra. “Ansioso? :3”, 23:41, hoje. “Sim, muito”. Leorio envia um emoticon de coração. O outro chega rapidamente. “Te amo, Leorio”. “Também te amo, Zepile”.
Ele levanta, vai para a cozinha tomar um copo d’água. O contato visual com o pacote é inevitável e irresistível. Não! Ele tem que se conter, sua honestidade depende disso! Uma distração necessária: mensagens antigas. Deita na cama, de costas para o presente. Volta à pesquisa. O resultado logo acima era o que estava procurando. Quatro de maio de dois mil e dezesseis. Cinco e vinte e seis da manhã. Madrugada de terça para quarta. Leorio estava estudando há horas, exausto demais para continuar, tarde demais para dormir, irritado demais para fazer qualquer coisa que preste. O telefone apitou avisando a mensagem. A mensagem que começou tudo aquilo. As palavras responsáveis por, após a tão esperada meia-noite, o namoro de Zepile e Leorio completar um ano. O que Leorio recebeu naquele dia em seu pior estado psicológico o levou a agora ter que se preocupar com feriados, o fez abandonar de vez a ideia já fraca que tinha de que “o dinheiro compra tudo”. O dinheiro compra as passagens para visitar seu namorado depois de meses à distância. Compra vestes negras e paga o taxi para a capela onde a melhor amiga da pessoa que você ama será velada. Entretanto não há como preencher o vazio que um amigo deixa com nada. Nem dinheiro. Leorio sabia muito bem disso. Pisca repetidas vezes para fugir daquele devaneio cruel. Relê as quatro mensagens consecutivas, para se acalmar. Enxuga as lágrimas mistas.
“Daê, Lepeio!”
“*Leorip”
“Quanto tempo faz, não é? xD”
“... tô bbêbado, desgulpa”
Fale com o autor