Quanto Tudo Começou A Mudar.
2 Como a da Jane Austen?
- Quer tomar um sorvete? – o carro mal começou a se mover e ele já estava ali, querendo conversar.
- Eu preciso ir buscar uma pessoa na festa.
- E depois?
- Depois? Eu já ultrapassei meu horário de chegar em casa. Meus pais vão me matar.
- Amanhã? – ele estava sorrindo e MEU DEUS ele era tão bonito. Eu juro que já o vi em algum filme, não é possível.
- Você não é daqui – disse enquanto freava bruscamente em um farol.
- Agora sou. Me mudei para cá há um mês.
- Você vai estudar na...
- Eu já terminei a escola.
- Meu Deus, você é mais velho do que eu imaginava. Meu pai me mataria se soubesse que eu estou em um carro com um estranho mais velho que eu.
- Não tão mais velho. Quantos anos você tem? 19?
- Dezessete.
- O que? – ele parecia chocado, de verdade.
- Ah me poupe. Eu tenho a maior cara de pirralha.
- Ok, então seu pai definitivamente te mataria.
- Ele te mataria primeiro – eu disse olhando para ele. E foi a primeira vez que eu deixei meus olhos se encontrarem com os deles.
- Você está terminando a escola, certo?
- Último ano.
O silêncio pairou por alguns segundos e foi como se algo estivesse me empurrando para frente, me chamando de idiota e me falando que eu não devia mais abrir a boca, ou ia estragar tudo.
- Mas quantos...
- Então, amanhã...
Nós dois rimos. Nossas palavras se embaralharam e acabamos os dois em silêncio. Foquei no caminho e em minutos nós estávamos perto da caminhonete novamente. Estacionei o carro e tirei o cinto.
- Se você quiser uma carona – respirei fundo, quase sugando todo o ar dentro do carro – eu posso deixar você com a caminhonete. Quer dizer, amanhã alguém vem buscar seu carro. Eu só tenho que encontrar minha amiga.
Eu estava pronta para ele negar, arranjar uma desculpa e sair correndo. Mas ele saiu do carro e sorriu.
- Isso seria ótimo – ele respondeu.
Entramos na rua em que o circo ficava. Tinham pessoas jogadas por todo lado, algumas pessoas se agarrando pelos arbustos e algumas que eu tinha certeza que veria vídeos de topless pela internet. Pulei alguns corpos e só então notei como estava frio. Comecei a gritar pela Mariana, sem notar se o menino bonito estava me seguindo ou se tinha ficado me esperando lá longe. Mariana estava sentada no meio da rua, só de sutiã, com a cabeça entre as pernas. O cabelo molhada, pálida.
- Meu Deus – corri até ela e só então olhei para trás... E ele ainda estava ali – Você pode... Odeio pedir isso é que...
- É claro – ele disse tirando a jaqueta e a entregando pra mim. Coloquei em volta da Mariana e a levantei.
- Você não estava aqui. Eu estava vomitando e você não estava aqui – ela dizia, embaralhando as palavras.
- Eu não vou poder estar aqui sempre – eu disse tentando apoiar o peso dela em mim.
Senti o peso ficar mais leve e então o vi levantando Mariana e a segurando no colo. Era impossível, mas eu senti algo apertar em mim. Eu não podia estar com ciúme de alguém que eu acabei de conhecer. E por mais que a Mariana fosse linda, naquela situação e talvez só naquela, eu estava mais atraente que ela. Ou não?
Abri a caminhonete e ele a colocou no banco traseiro. Entrei, balançando a chave e ele se sentou ao meu lado.
- Me desculpe, é só que... – comecei, corando.
- Você sempre cuida dela? Quando ela está assim?
- Bom, basicamente...
- Você não devia – ele disse e sorriu. Um sorriso que me mostrava que ele entendia.
- Digo o mesmo. Bom, nós não temos um GPS, então seria legal se você me guiasse.
Ele sorriu e começou me dando as direções. A casa dele era bem parecida com a minha. Para alguém que tinha um carro daquele, eu esperava alguém com uma casa parecida com a da Mariana. Estacionei e comecei a descobrir a Mari, quando ele segurou meu braço.
- Você pode me levar quando nós formos tomar aquele sorvete. Amanhã?
- Isso é loucura – eu disse rindo.
- Você ir tomar sorvete com o estranho que você carregou para todo lado hoje à noite? Poxa... Não acho!
- Certo. Mavericks?
- As três. Estarei lá.
- Não sou pontual – disse enquanto ele fechava a porta do carro. Estava pronta para dar a partida quando ele apareceu na minha janela. Abaixei o vidro e levantei as sobrancelhas.
- Droga – ele disse e deu um meio sorriso – Eu nem sei seu nome.
Eu comecei a rir.
- Fala o seu primeiro – eu disse, mordendo os lábios.
Eu nunca mordia os lábios na frente de um garoto. Era como carregar uma placa de “faria sexo com você”. O que está acontecendo comigo?
- Aaron.
- É um bom nome – eu disse, começando a fechar o vidro.
- Você não vai fazer isso comigo... – ele disse tão próximo, que eu gravei seu perfume.
- Emma – eu disse, rindo.
- Como a da Jane Austen?
- Exatamente como a da Jane Austen – eu disse, sorrindo de orelha a orelha. Eu nunca conheci um garoto que conhecesse algum titulo da Jane. Ok, era até suspeito.
Ele caminhou até a porta da sua casa e acenou. E eu sai em direção a minha casa, com uma melhor amiga desmaiada e uma jaqueta de um desconhecido. Não. A jaqueta do Aaron.
Fale com o autor