Quanto Tudo Começou A Mudar.
26 A gente combina.
Continuei em silêncio, sorrindo enquanto Aaron apertava minha mão com força.
- Namorado pai? Sério?
- Aaron eu sei que é difícil...
- Difícil? Que merda é essa? Minha mãe era apaixonada por você...
- Não Aaron, ela não era...
- Aaron – sussurrei – fica calmo. Deixa seu pai te explicar...
- Explicar o que? Que ele engravidou minha mãe mesmo gostando de homens? Você é uma vergonha.
- Sua mãe era minha melhor amiga Aaron. Nós nos conhecíamos desde o berço...
- O que? – a boca do Aaron ficou seca e ele já não estava mais segurando minha mão.
- Quando eu comecei a gostar de garotos... Era errado. Então eu perguntei se ela podia...
- Dormir com você – eu sussurrei.
- Exato. E ela, como uma boa amiga, aceitou. Mas não fazia parte dos planos ela engravidar. Aconteceu e eu ajudei ela de bom grado. Ela sabia que eu era gay.
- Não – Aaron estava andando em círculos, passando a mão pelo rosto, tremendo – Não, não.
- Eu nunca quis deixar ela. Mas seu avô... Ele descobriu a verdade e se livrou dela. Quis me arranjar uma mulher de verdade. Eu era um tolo e não me impus Aaron. Eu deixei ele tirar você dela e nada me machuca como isso. Nada.
- Eu odeio você – Aaron disse tentando se recompor – Não por você ser gay. Não por você ter sido um lixo de pai. Eu odeio você porque você podia ter salvado ela...
- Aaron – Marcos estava em lágrimas enquanto seu companheiro o segurava pelos braços. Eu estava no meio do fogo cruzado e por mais que meu dever fosse correr e ficar do lado de Aaron, era Marcos quem eu queria consolar.
- Mas você não salvou pai. Você deixou ela ir. Você a tirou de mim. Eu não quero nada... Nada de você.
Aaron saiu em direção a porta enquanto o homem que a segundos atrás se mantinha em pé, impecável, chorava debruçado no chão. Corri até Marcos e me ajoelhei a sua frente.
- Eu sinto muito – sussurrei segurando seu rosto – Eu vou tentar faze-lo mudar de ideia.
- Emma, talvez as coisas mudem – ele disse em meio às lágrimas – Talvez ele mude.
- E eu vou ter que lidar com isso – eu disse lhe dando um beijo na bochecha e correndo em direção a porta.
***
- Você não saiu correndo atrás de mim – Aaron entrou no nosso quarto de hotel meio tonto, pisando nos próprios pés e falando embaralhado. Estava bêbado.
- Eu preferi te esperar aqui – eu estava deitada na cama, observando ele tentar chegar ao banheiro.
- Que dia hein – ele sorriu se segurando no batente da porta – Você vai querer um cara tão complicado quanto eu?
- Eu sou tão complicada quanto você Aaron. A gente combina – eu sorri.
- Pois é – ele capengou até mim e se sentou do meu lado – Você me ama?
Me levantei e segurei suas mãos, tentando o guiar até o banheiro. Coloquei-o debaixo de uma ducha gelada de roupa e tudo e depois o esperei se trocar. Ele colocou a camisa do avesso e dormiu de calção, mas o importante é que ele estava por perto.
Deitei-o na cama e poucos segundos depois ele caiu no sono.
- Sim – sussurrei em seu ouvido – Eu te amo muito.
***
- Meu Deus – Aaron grunhiu e me acordou – Minha cabeça vai explodir.
- Por que será né? – questionei colocando o travesseiro sobre minha cabeça para conseguir dormir mais um pouco.
- Emma, nós devíamos voltar para casa.
Finalmente me sentei e o encontrei já sentado, abraçando suas pernas.
- Mas ainda podemos ficar três dias. Ter nossa viagem romântica. Fazer turismo. Conversar... – abaixei o tom de voz – Com seu pai.
- Não – Aaron respondeu rígido – Isso eu não vou fazer.
- Aaron não seja antiquado.
- Eu não sou... Quer dizer eu super apoio os gays em geral, mas quando é meu pai...
- Isso te torna antiquado – eu disse me deitando novamente.
- Mas minha mãe o amava...
- Ele já te explicou isso... Ela o amava como amigo. É claro que ele devia ter feito mais por ela Aaron, mas quem não comete erros?
- Mas o erro dele – a voz do Aaron soava mais alto que o normal – Custou a vida dela.
- Você acha que seu avô...
- Não sei, eu não sei. Não posso fazer suposições sobre isso. Mas ela sumiu do nada Emma. Ele me tirou dela e talvez ela tenha morrido de tristeza.
Me sentei novamente do lado de Aaron e o abracei.
- Eu sinto muito – sussurrei – Mesmo. Mas se tem uma pessoa a quem você deve cobrar, é seu avô. E é um ótimo momento, agora que você vai para longe dele.
- Sobre isso – Aaron segurou meu rosto e se aproximou – Eu decidi que quero ficar na universidade perto da nossa casa.
- Sério? – eu disse entusiasmada demais – Quero dizer, sério?
- Sim, sério – Aaron sorriu – Acho que esse é o momento que eu mais preciso de você.
- E eu estou aqui Aaron. Pro que der e vier.
Aaron escorregou sua mão para minha barriga e começou a me fazer cócegas. Segundos depois nós estávamos aos beijos e acabamos passando o dia na cama, deixando uma Nova York fria viver por nós do lado de fora.
***
Meu celular tocou enquanto Aaron estava no banho. Ele tinha aceitado passar os próximos três dias na cidade, mas se negava a conversar com o pai.
- Emma – a voz do Marco era tímida do outro lado da linha – Você me atendeu.
- Como o senhor conseguiu meu número?
- Me chame de “você”, por favor. Aaron não quer falar comigo. Liguei para meu pai e ele conseguiu seu número, creio que com a Rosa. É um problema?
- Não, imagina. É só que... Talvez Aaron fique bravo comigo. Eu estou sendo persistente sobre ele ir conversar com o senhor... Você. Mas você sabe o filho que tem. Quer dizer, imagino. Perdão, eu não...
- Tudo bem Emma – ele suspirou – Eu sei que sou um pai distante que não conhece o filho suficientemente bem para saber suas manias, mas eu sei que ele se parece muito comigo. E isso é um problema, porque se não fosse pela ligação de hoje, em alguns meses eu e meu pai completaríamos sete anos sem conversar.
- Meu Deus, eu não me imagino tanto tempo sem falar com meu pai... Quer dizer... Ai Senhor, eu só falo besteira.
- Não me chame de senhor, Emma.
- Não era o senhor. Era tipo o Senhor, Deus sabe? Eu sou meio que uma pessoa religiosa, isso não vem ao caso.
- Eu respeito isso. Talvez se eu acreditasse em Deus, meu filho me daria uma chance.
- Aaron não... Ele também não liga muito para essas coisas de Deus. Ele acredita e dá as mãos para fazermos oração quando janta lá em casa, mas ele sempre me ignora quando falo para ele orar. Acho que é uma coisa pessoal, né?
- Emma – Marcos soava confiante agora.
- Sim?
- Você é boa para o meu filho. Por favor não o deixe nesse momento difícil.
- Eu não vou – Aaron saiu do chuveiro sorrindo, com a toalha enrolada na cintura e o máximo que eu pude fazer foi sorrir.
- Ele está perto de você, não está?
- Sim. Você quer...
- Não, não. Mas eu vou ao aeroporto, para me despedir. Você pode me mandar o horário do voo de vocês por mensagem?
- Claro, com certeza.
- Agora diga uma coisa de garotas para que ele pense que você está falando com outra pessoa – Marcos riu do outro lado da linha.
- Não durma de barriga para baixo – eu disse gargalhando e pude ouvir uma risadinha de Marcos, que provavelmente não entendeu nada do outro lado da linha.
Desliguei o telefone enquanto Aaron colocava sua calça jeans.
- Lizzie?
- Sim – eu sorri – Você vai sair?
- Só dar uma volta...
- Eu posso... – perguntei hesitante.
- Eu preciso de um tempo Emma. Mas você pode ir fazer compras. Meu cartão está na estante.
- Eu trouxe dinheiro – eu disse séria, me levantando e pegando meu casaco cor-de-rosa.
Meu telefone tocou novamente e dessa vez foi Aaron quem o encontrou.
Um nome brilhava na tela, junto com a foto que eu tinha tirado no último verão.
O tom de Aaron me assustou.
- Emma, você anda conversando com o Dylan?
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