Quantas Vezes?
34 Resolvendo
Notas iniciais
Acordei um pouco cansada hoje, mas nada que um banho bem tomado não resolva o problema. Pedro ainda dormia então aproveitei, peguei minhas coisas e fui pro banheiro. Abri o chuveiro e coloquei na água gelada. Deixei que ela percorresse todo meu corpo e só depois pensei em começar a tomar BANHO MESMO. Lavei o cabelo, e enfim fiz uma coisa que eu nunca tinha feito na vida: Sentei no banheiro embaixo do chuveiro pra pensar na vida. Já fazia uns dois meses que eu vim pra cá e muita coisa tinha me acontecido. Fiquei melhor amiga e mascote de uma banda que eu odiava, fui a shows deles, aprontamos juntos, e me apaixonei pela pior pessoa do mundo. Ta faz parte né. Mas essa historinha de verão foi diferente, nunca tinha visto nada parecido nem em filmes. Mas a gente supera. Agora eu vou embora e tudo volta ao normal, mas eu preciso ter AQUELA conversa com o Diego. Não quero fazer ela parecer uma despedida mas eu acho que será. Apenas sentirei falta e deixarei o tempo apagar. Bom apagar é meio difícil, mas a dor pelo menos é amenizada e o que sobra são lembranças, que não vou negar, são plenamente boas. Nem percebi quanto tempo eu estava embaixo do chuveiro, decidi sair logo antes que achassem que eu tivesse morrido afogada aqui. Me enrolei na toalha e sai. Pedro já não estava mais no quarto então aproveitei pra me trocar com calma. Deixei o cabelo molhado mesmo, tava calor e calor sempre deixa o dia tedioso. Era pra eu estar agora em uma piscina aproveitando com os meus amigos, mas é claro, o Diego sempre tem que estragar tudo, mas ok a gente supera. Posso sobreviver a isso.
- Apareceu à margarida, achei que tinha morrido no banho – Pedro entrou com um prato com um pedaço de pizza gelada.
- Sim, estava pensando. – Falei despreocupada – O que tem pro café?
- Tem pizza, mas se você quiser tem outras coisas lá na mesa, veja lá e volte aqui. – Ele disse mastigando um pedaço.
Fui pra cozinha e claro eu podia ter uma surpresa melhor? Diego sentado a mesa, não essa é ótima. Não é hora pra isso poxa, eu acabei de acordar, posso comer e me recompor e depois a gente conversa? Respirei fundo e segui em frente.
- Bom dia – Disse seca e me sentando.
- Bom dia – Ele estava comendo torradas.
Foi só. Peguei um copo e coloquei leite com achocolatado. Comi pão com manteiga, clássico. Fiquei mais feliz e surpresa quando eu vi o Dan. Logo tinha mais gente ali e ele não tinha vindo PRA CONVERSA. Dan se sentou do meu lado pra tentar quebrar o clima pesado que claro, ele tinha percebido.
- Bom dia dorminhoca – Ele me deu um abraço.
- Bom dia. Cadê a Mari? – Perguntei com um pedaço de pão na boca.
- Ah, ela tava com uns probleminhas em casa e não pode vir, então é só a banda mesmo.
- Tá, mas o que tem hoje que ta todo mundo aqui? – Perguntei curiosa.
- Nada de mais, a gente vai resolver nossa agenda de shows e ver algumas composições novas – Ele lançou um olhar pro Diego. Fiquei sem entender.
Enfim, terminei de comer e fui pro quarto.
- Legal geral ta aqui. – Disse me jogando na cama.
- Aham, vamos lá que a gente tem que resolver uns bang. – Ele disse se levantando e eu fui atrás.
Quando eu disse todo o PIN também está no meio, claro o produtor mais educado da face da terra.
- Bom galera, vamos lá fora. – ele disse se encaminhando pra parte da piscina.
Chegando lá sentamos em volta da mesa, e eles começaram a conversar sobre os shows em outros estados, sobre hotéis, camarim, preço de ingressos que não eram estabelecidos por eles, gastos e o equipamento. E então eles começaram a falar das novas composições.
- O Diego disse que tinha uma música antiga da without que ele estava refazendo e pá, como é que ta? – Pin olhou pra ele.
- É então, ela ta quase pronta. Eu tinha dado uma parada pra dar atenção pra nova cara da banda, mas eu to terminando ela. – Ele ficou meio sem jeito.
- Ótimo. Só cuidado pra não vazar na internet. – Ele disse mexendo em uns papéis.
Bom, fiquei lá olhando e dando algumas idéias sobre palco, setlist, camarim, claro porque eu ia ser publicitária e precisava por em prática esse tipo de coisa.
- Bom a agenda é essa. – Pin jogou um papel sobre a mesa e eu curiosa peguei e comecei a ler pra galera.
- Ok vamos lá. Dia 27/01 Hangar 110; 28/01 São Paulo Music Fest; 03/02 Curitiba; 10/02 Rio de Janeiro. – e outras datas mais que eu não vou colocar aqui, quem quiser entra no site. Haha.
Achei estranho o show do Rio ter mudado pro dia 10. Meu plano de ir embora agora tinha falhado mesmo mas eu não podia ficar aqui até dia 10. O aniversário da Anne era dia 9 na sexta feira e ia ter uma puta festa, aliás não se faz 18 anos todo dia. Eu teria que esperar até Agosto.
- Ué, o show do Rio mudou? – Dave pegou a lista.
- Sim mudou, a pedidos. – Pin tentou ser discreto sobre isso.
- A pedidos de quem? – Pedro olhou incrédulo – A Manuella ia com a gente, agora não vai poder mais.
- Paciência, depois vocês se entendam. – Ele olhou pro Diego.
Pedro entendeu na hora quem havia pedido e fervilhou de raiva, mas se conteve. Porque o Diego pediu pra trocar as datas? Isso é super burocrático, entrar em contato com o local do evento, avisar a galera que já comprou ingresso sobre a mudança, isso era realmente complicado porque eu vivi nesse mundo artístico dois meses pra saber como funciona. Mas ok ok, fiquei curiosa, mas não é da minha conta. Vai ver ele não queria enfrentar uma viagem comigo, que bebezão.
Bom, os meninos foram embora, a tarde se passou lentamente, e parece que eles iam pra casa do Dan naquela noite. Tenho más lembranças da casa dele se é que vocês se lembram. Enfim, eu não ia deixar me abalar por isso. Dormi um pouco durante a tarde, liguei pra Anne pra avisar que iria logo mais embora, entrei no meu twitter um pouco, e depois fui tomar banho e me trocar. Pedro já estava pronto e era nove horas da noite quando estávamos a caminho da casa do Danilo. Chegando lá tinha uma galerinha legal, os caras da Sevenlox estavam lá, o Koala e o Caio do Replace, o Thi e o Celo do Quarter, A Mia e o Pipo do CW7, o Rogerinho fotógrafo, o Adam do Stevens, e outras pessoas que eu desconheço que devem ser amigos de bastidores. Hoje era um daqueles dias em que eu não poderia beber pra não acabar como da última vez, na mesma casa, no mesmo local e na mesma situação. Hoje eu ia maneirar na dose.
- Hey galera, vamos jogar “Eu nunca”? – Propôs o Caio.
- Vamo aê. – Disse uns três quatro que eu não consegui identificar quem eram.
Fomos e fizemos uma rodinha. A brincadeira era simples. Alguém dizia uma coisa do tipo “ Eu nunca comi banana com feijão” e a pessoa que já fez essa coisa nojenta ia até o centro da roda e bebia uma dose de tequila. Então o jogo começou pelo Caio mesmo.
- Eu nunca bebi até cair – Fácil essa.
Todos foram pro centro da roda, exceto a Mia e o Adam. O jogo continuou com o Pin.
- Eu nunca fiquei com uma menina chamada Manuella – E lançou seu olhar maligno de pessoa que estava se divertindo as minhas custas.
Não preciso nem falar os dois que foram ao centro. Então foi a vez do Bruno.
- Eu nunca fui expulso da vila Olímpia – A coisa estava começando a esquentar. Fui até o centro e o jogo continuou comigo.
- Eu nunca transei com a Fernanda Palma – Sorri lindamente.
O clima ficou tenso, e eu fiquei surpresa ao ver, além do Diego, o Bruno e o Caio na roda. Enfim, continuou o jogo com o Diego já que os dois já tinham ido.
- Eu nunca fiz uma declaração de amor pra um jornalista que depois colocou o áudio pra todo mundo ouvir. – NOSSA, ESSA FOI LÁ NA ALMA.
Fui ao centro e mandei uma bem tensa.
- Eu nunca chorei no colinho da mamãe porque a menina que eu amava me deu um pé na bunda. – Chorava de rir sozinha, estava ficando alterada, já tinha tomado duas doses.
Diego ao centro, e já estava um pouco vermelho, mas era de raiva.
- Eu nunca... – Ele viu que não tinha mais o que falar – Eu nada, cansei de brincar.
O Clima ficou pesadinho, mas eu já estava voltando ao normal, os outros continuaram brincando. Fui pra cozinha do Dan, tomei um copo de água, me encostei na pia e tive um leve dejavú quando vi o Diego entrando também.
- Ah que ótimo. – Me virei para sair dali.
- Não, chega de deixar pra depois, vamos conversar agora. – Diego me puxou pelo braço.
- Ai, ta bom. Vamos pra sala. – Fui na frente e ele me seguiu.
- Tá, o que que tem pra falar Diego? – Sentei no sofá. – Eu to indo embora sábado não vou nem ficar pro show no hangar acho. Não tem o que conversar sabe, tipo, se a gente se entender o que acontece? Eu vou ta lá e você aqui. O máximo que a gente pode fazer é colocar as coisas no lugar, esclarecer os maus entendidos. Isso pelo menos a gente pode fazer.
Diego me olhava perplexo, acho que não estava prestando atenção em nenhuma palavra do que eu dizia. E então ele começou a falar.
- Olha, acho que é isso mesmo. Esclarecer os maus entendidos. Começando pelo dia da Fernanda já que você citou ela. Bom, já disse que aquilo foi um impulso, eu fiquei com ciúme e agi totalmente errado, eu estava tomado pelo nada. Vazio.E daí você levou uma surra que consequentemente foi culpa minha também. Peço desculpas por isso. Depois teve o outro incidente com a Fernanda. Depois tem o ano novo certo? Acho que não aconteceu nada demais, eu me declarei e a gente se entendeu. Depois o que foi que deu errado mesmo? Ah, a Vila Olímpia, fiquei bêbado e te traí. Acho que foi a pior coisa que eu já fiz na minha vida. Me desculpa também por bancar o idiota e jogar o carro na frente de um muro e tentar me matar por ter perdido o amor da minha vida. E perdão por abusar de você bêbada. Eu sabia o que eu estava fazendo e mesmo assim continuei, não sei quando eu ia ter você daquele jeito e resolvi arriscar. Foi burrice minha. Acho que essa sim foi a pior coisa que eu já fiz, você podia até ter me denunciado sabia? – Ele deu uma risada vazia – E enfim, acho que foi só, as nossas discussões bobas, falas irônicas, e lalala. Te peço perdão por tudo isso, sério mesmo. Espero que me perdoe de verdade – Seus olhos encheram de lágrimas, mas elas não caíram – Bom é isso, agora é sua vez.
- Bom, acho que tenho que pedir perdão por todo doce que eu fiz com você, pelas coisas que eu te disse quando você estava certo mas meu orgulho não deixou admitir, todas as vezes que você tentou se redimir e voltar comigo e eu fiz charme. Eu fui o motivo pra você ter tentado se matar, eu não sei o que seria de mim sem você – Respirei fundo – Devia ter te perdoado antes por tudo que você fez no caso da Fernanda, porque você tinha feito e a gente nem tava junto ainda, então eu devo desculpas por isso. Pelo drama todo que eu causei na sua vida. Me perdoa. – Tentei não chorar também.
- Eu te perdôo e você? – Ele se levantou.
- Eu também te perdôo Diego, como não poderia? – Levantei também.
Nos olhamos por um tempo, e as lágrimas começaram a escorrer de ambos os lados, nos abraçamos forte, por muito tempo, acho que ficamos uns 15 minutos sem se soltar.
- Você foi a melhor coisa que me aconteceu em toda vida – Diego dizia entre o choro.
- Eu nunca vou esquecer tudo que você fez por mim – Eu disse chorando.
Nos soltamos, e bom era isso né.
- Acho que aqui é o fim – Ele deu de ombros.
- É – Limpei o rosto com o dorso da mão – Foi bom.
Ele deu um breve sorriso, me deu um último abraço, e saiu, vi ele partir e me sentei no sofá de novo e comecei a chorar muito. Acho que nunca tinha chorado tanto. Mari apareceu lá dentro pra me pegar, e então eu fui no banheiro me arrumei de novo, e sai mais apresentável. E ele não estava mais lá.
- Cadê ele? – Disse baixinho pra Mari.
- Ele foi embora assim que saiu lá de dentro. – Mari disse pra mim.
Bom, amanhã estaria tudo normal, iríamos nos ver de novo, era sexta, íamos sair pela última vez, e sábado de manhã eu ia embora. Os meninos iam me levar até o aeroporto à passagem já está até comprada. Poltrona 14 e meu vôo sai as 10 da manhã. Amanhã eu iria querer fazer algo épico e bem legal, só não sei o que ainda. Meu último dia em São Paulo, e eu estávamos me sentindo estranha, vazia, mas era melhor assim.
Eu não estava mais em clima de festa e pedi pro Pedro pra ir embora, acho que todos já estavam cansados depois de tudo, então fomos direto pra casa. Chegando me troquei, escovei os dentes, e nem conversei com o Pedro sobre o que havia acontecido, eu não queria ter que se lembrar das palavras dele e começar a chorar. Mas naquela noite me veio todas as lembranças possíveis da gente, tudo TUDO MESMO. E aquilo me corroeu por dentro, chorei baixo no colo do Pedro que não se atreveu a perguntar nada, afinal ele sabia de tudo. Então acho que dormi.
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