Notas iniciais
Boa leitura ♥

Diana

Estava de manhã e o fim do ano estava chegando. Por este motivo, o Peru e seus pontos turísticos estavam lotados.

No banheiro feminino do aeroporto, Diana tentava de forma frustrada esconder um corte em sua bochecha esquerda.

Apesar da peruca e de muita maquiagem, ela ainda se assustava com cada mulher que entrava no local, pensando na possibilidade de se encontrar com LeBlanc.

Fugir de Draven e Darius era uma coisa. Fugir de LeBlanc era outra, completamente impossível. Ela era inteligente demais, tinha muito poder e grande capacidade de formar estratégias. Diana nunca conseguiria, caso a encontrasse ali.

Enquanto passava corretivo no corte, lembrou-se da luta, na noite anterior. O machado de Darius, por milímetros, não feriu gravemente seu rosto, porém deixou o corte na bochecha.

A dupla de irmãos pegou pesado com ela. Diana havia descoberto muita coisa, a possibilidade de que ela interferisse nos planos de LeBlanc era certa. Por pouco, ela conseguiu escapar, utilizando a cidade perdida Machu Picchu a seu favor. Os irmãos acabaram se perdendo em meio àquelas ruínas, enquanto ela, uma guia turística, conseguiu facilmente sair de lá.

Diana guardou o corretivo em sua bolsa e saiu, olhando bem para os lados para ter certeza de que o trio amigável não estava por ali.

Depois de certo tempo, entrou no avião tremendo, de tanto nervosismo e trauma. Retirou seu notebook de sua bolsa e abriu a pasta na qual ela estava trabalhando desde quando soube sobre o plano de LeBlanc.

Ali ela guardava informações sobre algumas pessoas as quais ela tinha a certeza de que haviam saído pelo portal. Ela reuniu fotos, filmagens e até jornais digitalizados. Qualquer informação sobre o paradeiro de qualquer um seria útil.

“Não vou conseguir fazer isso sozinha. Vou precisar de ajuda”, pensou, enquanto decidia para onde iria primeiro.

Syndra

Eram exatamente 4:15 da madrugada de sábado e Syndra estava assistindo a um programa qualquer e se empanturrando de chocolates.

Seus olhos estavam inchados de tanto chorar e ela não havia conseguido dormir, mesmo sabendo que teria que levantar cedo para trabalhar.

Estava xingando tudo mentalmente (inclusive Jake e Zed) quando ouviu um barulho vindo da janela do quarto de hóspedes. Ela estranhou, pensando que Zed, como um bom ninja, nunca seria descuidado a ponto de fazer um barulho daqueles.

Andou devagar até a porta do quarto, sem fazer barulho, e teve a ilustre visão do ninja deitado no chão, frustrado, olhando para o teto e com a mão sobre seu machucado. Ele percebeu a aproximação da mulher, mas não disse uma palavra, nem desviou o olhar de um ponto fixo no teto.

— Está doendo não é, imbecil? – Syndra perguntou, estressada.

Ele estranhou a reação dela e sentou-se, encarando-a. Percebendo que ele não ia dizer nada, ela continuou:

— Você é um ingrato, sabia? Podia ter ao menos me agradecido! – Syndra cruzou os braços, impaciente.

— Eu só fui dar uma volta. – Ele respondeu, de forma nada sincera.

— Sei.

— Cadê o seu namoradinho? – Zed tentou mudar de assunto.

— Primeiro me conta que tipo de peripécia você aprontou enquanto estava fora. – Ela bufou ao ouvir a menção do namorado e o ninja percebeu que, provavelmente, ela estava chorando por Jake.

Ele suspirou e acabou cedendo, percebendo que não conseguiria convencê-la sobre “a voltinha”.

— Eu voltei para o lugar onde eu estava morando. Só que eu tive alguns problemas.

— E então você decidiu voltar, como se nada tivesse acontecido? O apartamento é meu, por que você acha que eu não te expulsaria daqui agora?

— Porque eu fui sincero.

— De qualquer forma, não explicou direito. Quais “problemas” você teve?

Contrariado, Zed contou tudo aquilo o que Syndra já desconfiava:

— Tem um outro ninja atrás de mim. Na verdade, são dois. Foram eles que me fizeram parar aqui na madrugada anterior e, quando eu voltei para o depósito onde eu morava, encontrei os dois passeando por lá. Procurei outro lugar por um bom tempo, até pensei em voltar lá e expulsá-los. Mas eu não consegui vencê-los antes, provavelmente eu não conseguiria agora, machucado. O corte dói e eu não consegui andar muito. Isso é uma droga, na Runeterra eu me curava mais rápido. Então, eu voltei para cá. Agora, seja boazinha e tenha piedade de um homem indefeso.

Certa parte de Syndra sentiu pena dele. Outra dizia para que ela o arrastasse para fora do apartamento pelos cabelos.

— Você pode ficar – suspirou, cedendo – Eu vou trazer alguns remédios do hospital hoje, para dar um jeito nesse corte.

Então, algo estranho aconteceu: Zed sorriu. Mas não da forma sarcástica de sempre. Foi um sorriso sincero, ao mesmo tempo em que ele fechou os olhos, aliviado. Foi sua forma de demonstrar gratidão.

— Você..., aconteceu alguma coisa? – Ele sentiu-se na obrigação de perguntar, já que era fácil perceber que ela havia chorado.

Syndra suspirou e deu alguns passos, até sentar-se embaixo da janela, um pouco afastada de Zed. Ela precisava conversar com alguém e, ultimamente, não tinha muitas amigas para falar sobre isso.

— O jantar estava bom, sabe? – Ela começou a contar, recordando-se do início da noite. – Até que Jake começou a perguntar algumas coisas sobre o meu passado. Não consigo me lembrar com certeza como foi que a discussão começou. Nós chegamos a um ponto onde ele disse que a relação estava difícil, pois eu sabia praticamente tudo sobre ele e nunca falava sobre mim. É que eu nunca contei sobre a Runeterra, ele nunca acreditaria. Depois de um tempo as histórias que eu criei não o convenceram mais. Ele foi embora, dizendo que era complicado permanecer assim e eu não sei bem como estamos agora.

Zed ouviu tudo com atenção e, no fundo, ele sentiu pena. Dava para perceber que Syndra gostava do namorado.

— Desculpa, eu me empolguei – ela disse, quando percebeu que havia, de certa forma, falado demais. – É que não tem como eu explicar essa situação para nenhuma das minhas amigas. Elas iam me internar num manicômio se eu dissesse que saí de um portal e vim parar aqui.

Syndra riu, esquecendo a situação por um segundo. Zed olhou para ela e, em sua mente, ele viu outro flashback. Foi mais curto do que o primeiro, e sua cabeça não doeu dessa vez. Viu Syndra rindo, em algum lugar parecido com uma praça, cheia de flores.

Ele piscou algumas vezes, tentando se recompor. Pensou quando a questionaria de novo, talvez ela contasse de onde o conhecia.

— Não sei muito bem como te ajudar – começou – Nunca me envolvi com ninguém dessa maneira, acho que não sou um bom exemplo. Mas também acho que Jake é um babaca.

Ela virou-se para ele. “Nunca me envolvi com ninguém”. A frase ecoou por sua cabeça e doeu como uma facada, mas se recompôs em poucos segundos.

— Por que você acha que ele seja um babaca?

— Primeiramente porque ele não confia em você. Te conheci ontem e você quase ganhou minha confiança – ele disse, dando uma ênfase na palavra “quase”.

— Quase? – Ela perguntou, com ironia.

— Isso. E, segundamente, porque você encheu a sua mesa com aqueles troços coloridos para ele e ele pareceu nem notar.

— Troços coloridos? Ah, aquilo são bolinhas de Natal.

— Tanto faz, são horríveis.

— Ele pode ter achado a decoração horrível também.

— A questão é que você se esforçou para fazer aquilo. Ficou um bom tempo arrumando tudo para ele. Mesmo que ele não tenha gostado, ele precisava ter valorizado. Você fez para ele, o mínimo que ele podia ter feito é reconhecido.

Zed disse tudo com tamanha naturalidade que Syndra ficou impressionada e não conseguiu dizer nada. Realmente, um dos defeitos de Jake era nunca ter se importado com os pequenos detalhes que ela fazia para ele.

— De qualquer forma, eu não o conheço totalmente. Então até onde eu sei, ele é metade idiota. A outra metade, é você quem conhece. – Zed concluiu.

— Não acho que ele seja totalmente idiota. Eu chuto uns 60%.

— Mais do que a metade. E o que você vai fazer?

— Para falar a verdade, eu não sei.

— Também não sei se eu estou ajudando.

— Você ajudou sim. Eu é que sou um tanto complicada.

Os dois ficaram sentados ali por alguns minutos, sem dizer nada. Até que Syndra levantou-se, dizendo que precisava ir dormir.

— O hospital precisa de mim amanhã cedo. Amanhã não, hoje. Vou indo, se precisar de alguma coisa, pode me chamar.

Ela tentou dormir, mas não conseguiu. Não parou de pensar um segundo sobre o quanto Zed havia mudado. Ele nunca tinha sido tão sociável como estava agora. Talvez ficar fora da Runeterra não o tenha mudado apenas por fora, como por dentro também.

Teemo

Fazia uma semana desde que Annie havia encontrado o trio de yordles no Central Park. Sua rotina estava completamente alterada, mas ela sentia-se feliz por morar na companhia de amigos.

No dia anterior, no almoço, Teemo havia pedido para que Annie conseguisse um emprego para ele. Poderia ser algo simples, mas que o permitisse ajudar com as despesas da casa.

Annie se empolgou com a ideia e o arrastou, na tarde seguinte, para fora de casa, dizendo que seria uma “surpresa”.

Até que, minutos depois, os dois estavam parados no meio do corredor do shopping, em frente ao cinema onde a garota trabalhava. Ela estava ajeitando uma gravata borboleta no pescoço de Teemo, enquanto ele fazia caretas.

— Por que temos que usar esse troço? – Ele suspirou, impaciente.

— Faz parte do uniforme. Fica fofo, mas ao mesmo tempo nos deixa com um aspecto formal. – Ela riu e ele revirou os olhos.

— Incomoda. Não posso ficar sem?

— Não!

Quando ela finalmente conseguiu terminar, ele a olhou, percebendo um detalhe:

— Seu cabelo. Está crescendo e as raízes estão rosas de novo.

— Quando chegarmos em casa, eu dou um jeito nisso. – Ela suspirou, enquanto mexia no cabelo, tentando esconder as raízes.

— Por que? Não é feio. Acho que você me entendeu mal, não há nada de ruim em ter um cabelo rosa.

— Eu só... Ele me traz lembranças ruins, da época em que... você sabe, da guerra.

Ela demonstrou-se desconfortável e sensível em relação ao assunto e Teemo resolveu não prosseguir. Ambos ficaram em silêncio por alguns segundos, até que ela continuou:

— Carol é muito boazinha e eu já conversei com ela, mas ela vai te fazer algumas perguntas. Você vai explicar tudo o que ensaiamos: que foi deixado na porta do orfanato em que eu cresci e que somos muito amigos. Sobre o seu nome, você dirá que veio escrito num papelzinho junto com você e que é um nome estrangeiro.

— Que história clichê! Ela não vai acreditar nisso!

— Vai sim. Ninguém consegue ver maldade nessa sua carinha fofa! Custei desconfiar que o ladrão de cookies da casa era você!

Annie começou a rir e Teemo não resistiu. Quando os dois pararam, ele perguntou:

— Que tipo de trabalho eu vou ter que fazer, mesmo?

— É fácil e legal. Você provavelmente vai ser o lanterninha da sala três. Vai ganhar uma lanterna e terá que ficar de olho para ver o que as pessoas estão aprontando. Você não pode deixar ninguém filmar, conversar alto ou mexer no celular. E, no fim da sessão, você limpa e organiza a sala.

— Parece chato.

— O quê? Você só pode estar brincando! Eu queria trabalhar de lanterninha! Você pode assistir os filmes de graça, basicamente!

— E por que você não faz isso?

— Porque a Carol quis aumentar o meu salário e disse que eu merecia algo melhor do que limpar salas.

— Estou me sentindo ofendido.

—Ah, para! Agora vem, ou vamos nos atrasar. – Annie saiu puxando Teemo para dentro do cinema.

Zyra

A mulher estava ajoelhada, cortando com cuidado algumas folhas secas de uma rosa. Os longos dreads cor rosa escuro estavam presos em um coque. De repente, um sininho estalou, indicando que a porta da loja estava sendo aberta.

— Nós já fechamos – Zyra disse, sem tirar os olhos do que estava fazendo.

— Realmente, são as flores mais bonitas da cidade. – LeBlanc disse, enquanto passava a ponta do dedo lentamente em uma pétala de orquídea.

Ao ouvir a voz da mulher, Zyra estremeceu. Virou-se, chocada, torcendo para que LeBlanc não a reconhecesse. Todas as vezes em que LeBlanc havia procurado-a, na Runeterra, foram sempre para pedir favores absurdos.

— Vo..você precisa de alguma coisa?

— Na verdade, preciso sim.

Quando ela terminou de dizer, Draven e Darius postaram-se ao lado dela, o que fez com que Zyra se preocupasse ainda mais.

— Preciso ser sincera, ou algo me diz que você não irá colaborar. Ao mesmo tempo, o que eu tenho para dizer não pode ser espalhado. Portanto, depois de ouvir minha historinha, você terá a obrigação de colaborar ou representará uma ameaça. E eu não hesitarei em matar você.

Zyra piscou algumas vezes, tentando processar a ameaça que recebera.

— Sou uma vendedora de flores, então, a não ser que precise da minha ajuda para algo relacionado com plantas, sugiro que saia. A loja está fechada, por sinal.

— Ah, vamos. Eu sei quem você é e o que pode fazer. — De repente, Zyra sentiu uma mão em seu ombro, que a fez pular de susto. Quando virou-se, viu LeBlanc. Olhou para a porta da loja, no rumo de Draven e Darius e, ali, havia outra LeBlanc também. – E você vai me ouvir.

Era impossível distinguir qual das duas era a verdadeira LeBlanc. A mulher era famosa em toda a Runeterra por seus truques e magia. Zyra engoliu seco e decidiu ouvi-la.

— Dependendo do caso, eu ajudo.

— Ótimo. – A LeBlanc atrás dela soltou um sorriso de satisfação, enquanto a outra moveu-se para começar a falar. – Recentemente eu encontrei uma caverna. Meio estranha, porém dela sai uma energia que atrai qualquer ser que tenha vindo da Runeterra. Ela é gigante e profunda, metade do tamanho de Summoner’s Rift, mas possui a forma de um círculo. No centro dela, há um círculo de pedra, cercado por um riozinho de mana. Há escritas e um mapa talhados nas paredes. A parte das escritas foi fácil de entender: Bardo fez algo útil, deixando nesta dimensão uma forma de reabrir o portal e voltar para a Runeterra. Ou seja, nossa antiga casa não foi destruída. A forma de ativar o portal é tosca: ele espalhou três sinos dourados pelo mundo, e basta coloca-los no círculo de pedra no centro da caverna. A localização dos dois primeiros sinos foi fácil de encontrar: no mapa talhado na parede, cresceram plantas, indicando alguns pontos. Elas formam um triangulo, as três pontas estão em Stonehenge, Machu Picchu e na Catedral de Maputo, que fica na África. Só há um problema: dois dos pontos representam sim, a localização dos sinos, e eu já possuo um deles. Mas o outro, no caso Stonehenge, é a localização da própria caverna. E, lá dentro, não há nenhum sino. Acredite, já passei muito tempo procurando.

— E o que eu tenho a ver com isso? – Zyra perguntou, impaciente.

— Primeiramente você entende de plantas. As plantas da caverna se movem todos os dias, não é possível que nenhuma delas não mostre a localização do terceiro sino. Eu deixei Swain hospedado na Inglaterra, perto de Stonehenge, para que ele pudesse monitorar isto. Não virou muita coisa, acredito que você faria um trabalho melhor.

— Por que eu deveria te ajudar?

— Não quer ir para casa, docinho? – LeBlanc perguntou, irônica.

— Eu... eu quero, mas a Runeterra deve estar destruída. E quanto aos outros?

— A Runeterra não foi destruída. Bardo fez com que Zilean parasse o tempo lá, deixando de fora do feitiço os dois Nexus. Cinco anos foram o tempo necessário para que eles se reconstruíssem, estabilizando a força vital daquela dimensão. A caverna foi aberta após este tempo e eu a encontrei. Sobre a sua pergunta, que outros?

— Não somos só nós que gostaríamos de voltar para casa. Não vamos avisá-los?

LeBlanc riu da inocência da mulher.

— Nem se eu quisesse eu poderia deixar todos voltarem. Ou a guerra iria começar novamente. Portanto, selecionei alguns para me ajudarem. Diana, aquela louca que venera a Lua, pensa como você e acha que todos têm o direito de voltar para casa. Precisamos dar um jeito nela. Tenho certeza de que o resto que ficará aqui nem irá saber que voltamos, e continuarão felizes com suas vidinhas.

Zyra olhou para baixo, pensando o quão injusto seria deixar tantas pessoas na dimensão da Terra. Ela queria muito ir para casa, será que os outros não queriam também?

— Então, você vai me ajudar? – LeBlanc perguntou, impaciente com a demora.

— Saiba que eu só concordei em deixar o resto das pessoas para trás porque, como você disse, a guerra poderia começar novamente. – A mulher levantou o rosto, encarando LeBlanc e pensando o quanto se arrependeria depois – Então sim, eu ajudo você.