Quando um escritor se apaixona
1 Quando um escritor se apaixona
Purifique seus pensamentos, foi o que eles disseram, através destas palavras encontrei-a. Em uma viela, separada por uma tênue cavidade, uma trincheira de letras, afogada em expressões que sempre esperou dizer para alguém. Deve ser antirromântico, entretanto realmente não lembro qual era o nome do livro onde esbarrei-me entre sentenças.
Apontou para o meu livro e disse: “Falta um acento aqui...”, arregalei os olhos e perdi-me nos oceanos profundos e inquietos que seus sofistas olhos traziam-me.
Um amor de gato-e-rato. Ela soube desde o início o modo de me atingir. Sabia que recorrer para o emocional não era tão funesto como apontar erros nas minhas estórias simultaneamente rasgando-as. Mesclando gritos histéricos com sinuosos movimentos corporais.
Quando muito próximos, da minha boca gotejava mel e da dela, um doce veneno de fel. Ao perceber a saliva que escapara, um rápido movimento da sua pequenina língua supria minha falta de atenção, ou excesso de carência.
Ao passo que decepava meu fitar de olhos, usava suas mãos para arrepiar meus pelos, aproximava-se do meu pescoço débil e enfermo sem as suas seduções, e lascava um beijo, deixando-me a deriva de um abismo sem volta. Onde eu tinha consciência que o salto seria a favor das estacas, porém mesmo assim, jurava encontrar seu reflexo no sangue que escorria das varetas que ousavam atravessar meu corpo.
Um dia roxo, outro dia ruivo. A expressão é confundida até hoje com termos semelhantes a “garotos” e “cabelos”. Amêndoas rosadas em um cálice encorpado, tocando a flauta da minha existência para assim, domar meu Leão, tornando-o escravo do seu viver.
Já tentaram sussurrar o nome desta ninfa por toda a eternidade. Certas vezes deixo escapar, todavia por trás de um nome, condessa, meretriz, beldade, os rótulos são esquecidos, e a medusa transforma em pedra a quem já jurou amar.
Uma judiação, um suplício a um homem como eu. Escritores, com QE tão alto, não deviam se apaixonar, pois cada suscitar de saudade, é um suicídio. Sou uma junção das escolas literárias, e a minha sagrada aversão, tumor de mortais homens, chama-se pecado original. “Uns resistiram a tentação, outros sucumbiram diante dela”.
FIM
04/12/14
Fale com o autor