Quando um anjo se apaixona
3 Marco
Notas iniciais
O que Marco queria?
Desde uma semana antes de eu ser expulso de Ezret eu não o via, e agora ele manda uma carta pra mim do outro mundo? Me sentei à beira da cama e peguei a carta com medo.
Não entenda mal, Marco era meu único amigo em Ezret. Tínhamos várias coisas em comum, uma delas era que nós dois éramos considerados Desfeitos. Marco tinha um cabelo tão negro quanto o meu, mas seus olhos eram da cor marrom. Vivemos sobre o mesmo teto por anos só que quando meu plano de vingança estava quase pronto, ele sumira. Talvez sumir fosse a melhor opção mesmo, já que meu plano foi estúpido do início ao fim.
Abri a carta com delicadeza e nela lia-se:
"Ivan,
Soube que te expulsaram de Ezret a 4 dias atrás. Fiquei primeiramente triste ao ouvir isso, achando que nunca mais te veria, mas logo me lembrei que sei me teletransportar *risos*.
Desculpe-me, havia sumido na tua vitória (derrota), mas algo havia acontecido com Jean e tive que ajudá-lo.
Voltei à Ezret e assim que notei tua falta, perguntei por você e me disseram que estavas na Terra.
Juntei os pontos e descobri que as coisas não haviam ido como planejado.
Sinto muito por isso. Bom, qualquer momento eu apareço para te visitar!
Marco."
Marco havia se juntado a um grupo de anjos que protegiam humanos, eles se chamavam de Anjos da Guarda. Era um trabalho duro, mas sempre dizia que valia a pena. Volta e meia ele tentava me convencer a entrar nesse grupo, pois os participantes não julgavam a aparência, mas eu sempre recusava, estava ocupado com outras coisas...
O protegido de Marco era um adolescente chamado John. Marco me contava todas as formas que já protegeu o garoto, e como ele amava o humano, só que nunca teve coragem de aparecer na frente do menino, nenhuma vez. Triste pensar que a pessoa que você ama nem se quer sabe da sua existência, e você faz tudo pra ela.
Reli a carta mais algumas vezes e percebi que seria bom uma visita de Marco agora, assim não me sentiria tão sozinho. Joguei a carta no criado-mudo e me deitei na cama, apoiando a minha nuca com as palmas das minhas mãos. Afinal, o que era amar? O que essa palavra significava? Eu tinha certeza que nunca havia me apaixonado por alguém, e talvez a coisa mais próxima a amor fora o que eu sentia sobre o meu irmão, de pois disso (quem sabe?) nunca dei um segundo amais pra esse sentimento, sabendo que no fim, me traria só dor e ódio. Mas, como seria se apaixonar por alguém? Quais seriam as sensações? Estava realmente curioso, e, enquanto pensava sobre isso, um sorriso tímido invadiu a minha linha de pensamento. Esse sorriso, o sorriso de... Alan? Deixei essas imagem de lado e fiquei mirando o teto sem pensar em nada específico.
Enquanto não prestava atenção, me deixei levar e adormeci. Como sempre, acabei sonhando, e como sempre, o sonho era horrível.
Eu estava em uma estrada. O caminho era totalmente escuro, tirando um ponto de luz que vinha da minha frente. Mesmo com a escuridão, notei um vulto de alguém que corria atrás de mim, vindo em minha direção. Quem quer que fosse, me dava a impressão que não seria nada bom. Tentei correr para a luz, porém, mesmo com todas as minhas forças, meus pés pareciam ser feitos de chumbo, e só se arrastavam. O pânico me invadia toda a vez que eu olhava para trás e via que a coisa ganhava uma forma mais decifrável. Olhei em minha volta e nas bordas da estrada haviam anjos me olhando com desaprovação. Eles eram muito altos, tão altos que tinham que se curvar para me enxergar melhor. Isso me deixava inseguro, mas mesmo assim, tentava correr.
Percebi que o que me seguia também era um anjo, e esse eu conhecia bem. Era Michael, correndo com aqueles olhos verdes arregalados de medo e fúria. Sua boca era uma linha reta, tentando deixar a raiva dentro de si, mas sua expressão dizia que não estava funcionando.
Tentei gritar por socorro, mas a minha voz não saía, e então fiz mais força para chegar a luz que, pouco a pouco, se aproximava. Quando eu enfim consegui chegar a luz sem que Michael me alcançasse, demorei para focar na imagem principal; mas quando vi o que era, acordei subitamente e me sentei na cama, minha respiração estava rápida e meu peito doía. Estava tonto, não conseguia me orientar e sentia o suor frio em meu peito nu. Fechei os olhos e tentei apagar a imagem de minha mente. Por que sempre a mesma coisa? Mesmo querendo que ela sumisse, a imagem de Leo sendo morto, me encarando com seus olhos, que no momento mais pareciam buracos para o fim do universo, não saia da minha cabeça.
Fechei os olhos e prestei atenção em deixar a minha respiração regular. A dor no peito e a tontura passaram, a única coisa restante foi a imagem que ficou cravada junto as outras péssimas lembranças. Por esse motivo que eu não devo dormir, pensei. Abri os olhos novamente e quando olhei a janela, já era noite. Olhei para o livro junto a mim na cama e antes de pegá-lo para ler, decidi tomar um banho.
A água do chuveiro saia fria, mas eu pouco ligava. Pelo contrário, assim era bem melhor. A água fria sempre conseguiu acalmar meus nervos, sempre me deixando em um estado de paz. Botei minha cara embaixo da água, não me importando de fechar os olhos. Ela sempre levou todos os meus problemas embora, entretanto não por muito tempo, eles sempre voltavam.
Virei-me de costas para o chuveiro e abaixei minha cabeça. Parabéns, eu. Mais um pesadelo para se juntar a lista de intermináveis outros. Pelo menos minha vida não era mais um pesadelo tão grande quanto já fora em Ezret...
Depois que Leo morreu, os meus anos de vida foram simplesmente o que chamam de horrível. Todos os dias, quando saía de casa, sempre, sempre levei socos e chutes. De início eu não ligava, tentava manter as palavras de Leo sempre comigo. Quando voltava para casa, meus pais, que ficaram tão abalados quanto eu com a perda de Leo, me davam um curto "bem vindo de volta" e eu me trancava no meu quarto. Lá dentro, me deitava em minha cama, puxava as cobertas para cima de mim e me encolhia, fazendo o máximo para ignorar as dores dos chutes e socos. Ninguém mais iria me ajudar a juntar meus pedaços do chão. Ninguém mais me faria parar de chorar. Ninguém mais me faria rir.
Em todos os meus aniversários, ainda lembro. Lembro como eu conjurava um pequeno muffin e uma velinha e me escondia de baixo das cobertas. Acendia a vela enquanto ouvia no outro cômodo minha mãe chorando nos braços do pai. Pois não era o meu aniversário que eles se lembravam. Era a morte de Leo.
Mas esse menino um dia fraco cresceu. Cresceu e ainda não sei se foi para pior. Pois depois de anos tentando, conseguiu juntar todos os pedaços de seu coração partido, mas ainda sim faltava uma peça, um peça que foi facilmente substituída por ódio, essa pequena grande peça era nada mais nada menos que o amor.
Ainda não conseguia entender como Marco ficou ao meu lado todos esses anos. Talvez ele entendesse um pedacinho de mim. Talvez ele tenha conseguido enfiar um pouco de amor em meu coração, mas não o suficiente para impedir a minha loucura. Sou muito grato pelo meu melhor amigo e sei que ele sabe disso.
Saí do banho com uma toalha em volta de minha cintura e outra em minha mão secando meu cabelo. Desfiz a magia das asas e enfiei uma calça, como não gostava de camisetas, quanto mais tempo ficava sem elas melhor, ou seja, deixei-a de lado. Sentei na cama e (finalmente) peguei o livro e o abri na página do sumário. Nela dizia:
" Capítulo 1 ... Entendendo almas e alguns sentimentos.
Capítulo 2 ... As cores de almas e seus significados:
1. Amarelo: Covardia;
2. Azul: Inteligência;
3. Branco: Pureza;
4. Cinza: Sem confiança;
5. Laranja: Imaturidade;
6. Marrom: Seriedade;
7. Preto: Elegância;
8. Rosa: Amigável;
9. Roxo: ----?;
10. Verde: Seguro;
11. Vermelho: Orgulho.
Capítulo 3 ... Cores de sentimentos:
1. Amarelo: Ansiedade;
2. Azul: Confiança;
3. Branco: Indiferente;
4. Cinza: Tristeza;
5. Laranja: Frustração;
6. Marrom: Depressão;
7. Preto: Opressão;
8. Rosa: Amor;
9. Roxo: Verdadeiro;
10. Verde: Ganância;
11. Vermelho: Raiva."
Quando terminei de ler o índice, notei que para eu entender algo neste livro teria que ler o Capítulo 1... bem, pelo menos uma parte dele. Folhei até o começo deste capítulo e uma imagem me chamou a atenção. Era um esboço de um humano e que no meio do peito havia duas chamas: uma maior, que ocupava grande parte do peito; e uma menor, que estava dentro da outra. As legendas mostravam que a chama maior era a alma e a menor os sentimentos.
Li um parágrafo que falava sobre como as almas eram permanentes num ser humano e não podiam mudar drasticamente e outro que falava que os sentimentos eram variáveis dependendo do estado do humano. Havia algo sobre a alma influenciar os sentimentos que a pessoa tem, mas escolhi desprezar essa parte totalmente.
Sem mais delongas, fui para o capítulo que mais me intrigava que, obviamente, era a alma roxa. " A alma roxa é um caso especial. Poucos humanos possuem essa alma e pelos estudos, em cada pessoa ela pode se comportar de modo diferente. Uma coisa que é certa sobre o portador da alma: todos um dia o conhecerão. Talvez esse seja o ponto da alma roxa. Outros estudos...." Com um bang, fechei o livro.
Não precisava mais dele no momento. Já sabia o que tinha que saber. Botei ele junto à pilha de outros livros ao mesmo tempo meu estômago roncou. Conjurei uma maçã para o jantar por preguiça.
–----
E assim as semanas passaram, com Alan indo a minha casa para estudos quase todos os dias e nós dois aprendendo mais sobre a Terra. Consegui também um livro sobre matérias que Alan me pediu, como matemática. Deus, como eu odiei matemática, mas se interessava Alan eu não podia fazer nada a respeito...
– Então.... a fórmula da função quadrática é f(x) = ax+bx+c? — perguntou Alan, fazendo algumas anotações no seu caderno do Batman.
– f(x) = ax²+bx+c. — corrigi ele. Alan apagou o que tinha escrito e escreveu a fórmula certa. — Tem certeza que temos que estudar matemática logo agora? Por que não estudamos história?
Alan me olhou como se eu fosse um louco.
– Você sabe como eu não sou bom em história, vamos continuar em matemática. Além disso, por que você está reclamando? Você é bom em matemática. — falou Alan sem me entender.
– Ser bom não significa que eu goste. -retruquei, mas deixei essa passar pois gostava der ver Alan entusiasmado. Um calor no meu peito surgia toda a vez que ele sorria. Comecei a notar coisas sobre Alan que ninguém notaria de primeira, como quando está confuso ou não entende a matéria, ele sempre franzia o cenho e fazia um micro beicinho com o lábio inferior. Mas sempre que isso acontece eu me perco na conversa, pois eu fico encarando a fofura que na cara dele fica, e ele fica bravo comigo, por não ter prestado atenção em suas dúvidas.
Ainda não consegui entender o que esses sentimentos significavam, mas eles são bons e não gostaria de voltar para o total gelo em que o meu coração já se encontrou. Sim, o pequeno menino conseguia fazer o gelo derreter mais do que qualquer um. Mais até que o meu melhor amigo Marco.
– Bom, mas... — Alan parou de falar. E como se eu tivesse sem querer invocado ele, a campainha tocou. Confuso, me levantei da cama em que eu estava deitado e fui atender a porta. Abri a porta e quase dei um pulo para trás quando percebi quem era na porta. Assustado, a minha reação foi fechar a porta na cara de Marco, mas antes que eu conseguisse ele botou a mão nela e a segurou com mais força que eu. Sem abrir totalmente a porta, olhei para Alan e falei para ele esperar um minuto e sai de meu quarto.
– Por que não avisaste que vinhas, Marco? — olhei para ele. Estava com as asas negras expostas. Idiota... e se alguém o visse assim? Enfeiticei suas asas para que ficasse invisíveis.
– O que tu fizeste? — Marco olhou para os seus lados a procura de suas asas e eu soltei ar pelas narinas, sentia falta de seu jeito imbecil de ser.
– Só as escondi. — respondi. Parecendo mais confortável com a minha resposta, ele continuou.
– Achei que seria interessante fazer uma visita surpresa para um velho amigo. — sorriu. Larguei um pequeno riso sem graça e fiz um gesto com a minha cabeça para que ele entrasse dentro de meu quarto. E assim que pisei dentro do apartamento novamente, me lembrei de Alan... Oh....
– Alan... Esse é meu amigo Marco...- Alan olhou para Marco meio confuso, mas logo sorriu daquele jeito mais lindo de todos. — Ele é hãã... um russo assim como eu. — virei para Marco só para encontrar ele me encarando como se eu fosse louco. Ele olhou para Alan novamente e notou a alma. Virou o rosto para mim e com um olhar de compreensão, fiz ele se calar de qualquer coisa que estava prestes a sair de sua boca.
Alan se levantou de onde sentava e foi em direção de Marco, que como reflexo, se afastou um tanto.
– Hã... prazer Marco. — e com isso ele esticou uma mão para Marco. Desconfiado, Marco olhou para mim e eu só assenti a cabeça, e assim ele esticou sua própria mão para pegar a de Alan.
Alguns minutos depois os dois já estavam se dando muito bem.
Enquanto eu estava num canto lendo, os dois estavam rindo de piadas idiotas.
Estava com inveja de Marco. Como ele conseguiu que Alan se abrisse para ele desse jeito? Claro, eu não estava lendo de verdade, estava é com o livro tapando a minha cara para os dois não notarem que estava colhendo informações de como fazer Alan rir assim para mim também.
Mas parei de prestar atenção neles e me peguei pensando em Alan de novo.
Mais tarde no mesmo dia, quando o sol já tinha se posto, os três de nós saímos para comer algo que Alan propôs, e logo após, levamos ele de volta para sua casa. Trocamos despedidas e logo eramos só nós dois. De novo. Depois de tanto tempo.
– Quem é ele, Ivan? — perguntou Marco.
– Tu notaste a alma dele? — perguntei.
– Hã... sim, nunca vira nada assim antes. — respondeu ele, voltando a caminhar em direção ao meu apartamento.
– É um tipo de alma rara. — comecei a andar atrás dele.
– E como tu sabes disto? — retrucou ele.
– Livros. — respondi. Apressei o passo para ficar lado a lado com ele. — Mas eu não entendi uma parte dele, que dizia "todos um dia o conhecerão". O que isso quer dizer, Marco?
Marco pensou um pouco antes de responder um curto "não sei..."
Caímos em um silêncio. As ruas de Londres à noite eram muito movimentadas, quase tanto quanto nos dias. Pessoas andavam apressadamente nas calçadas, falando nos seus faladores místicos que eu não sabia como funcionavam e estava com medo de testá-los.
– Mas ele parece ser legal. — falou Marco, interrompendo o silêncio.
– Ele é. — disse.
Marco riu.
– Tu pareces gostar muito desta criança. — Concluiu Marco. Não respondi, apenas virei a cabeça e deixei o vermelho de meu rosto morrer junto com o assunto.
Chegamos ao prédio e entramos no meu pequeno quarto em silêncio que nem antigamente. Desfiz os feitiços de nossas asas e deixei um suspiro de alívio sair de minha boca.
– Então... como vai John? — perguntei, com a leve presença de curiosidade em minha vos.
– É Jean– corrigiu ele, e eu o ignorei. — E ele vai bem. Semana passada ele quase morreu três vezes.
– Que menino azarado esse. — falei, vendo Marco franzir o cenho como se estivesse bravo com o que eu acabei de dizer. Mas a questão é: ele nunca fica bravo. — Sortudo também por te ter como seu Anjo da Guarda.
Botamos nossas conversas em dia como sempre fazíamos quando ficávamos longe por muito tempo. Falamos muito, assim como também ficamos calados por um bom tempo. Mas logo Marco disse que estava muito cansado para continuar a conversar. Convidei-o para passar a noite e aceitou ser hesitar.
– Ainda tens pesadelos, Ivan? — perguntou Marco, já debaixo das cobertas ao meu lado na cama de casal. Assenti com a cabeça, não tirando os olhos de um livro que Marco havia conseguido para mim. — Mesmo aqui? Longe de casa? — Assenti de novo.
– Boa noite, Marco. — falei depois de um tempo.
– Boa noite, Ivan. — e ele dormiu.
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