Quando passei por aquela porta
3 Capítulo três - Ele voltou
Sentei em um dos bancos da praça, observando as crianças se divertindo no parque com suas mães ao redor, lembrei o quanto sinto falta da minha, e por um segundo tive a certeza de que já não pensava mais nele. Tentei pensar em momentos felizes que aconteceram comigo até aqui, como meu desempenho nas aulas de artes que tive, a conclusão do meu curso técnico e os momentos em que estive ao lado da minha família. As vezes me pego pensando na morte da minha irmã, como receber aquela notícia acabou comigo, fiquei desorientada e decidida que a partir daquele dia, teria que deixar meus pais sempre orgulhosos pelos meus atos. E foi aqui que decidi me mudar para Trento. Tentar recomeçar a minha vida, distante daquela cidade que trouxe dores e pesadelos. De repente meu celular toca, é Tony, o cara por quem eu havia sido entrevistada.
— Oi, Lauren? Como vai? Preciso que você esteja aqui dentro de dez minutos. Consegue? – ele disse.
— Ah, Tony, sim... claro – desliguei e sai andando em passos largos até chegar na construtora.
É claro que eu seria aceita. Tudo bem que não possuo muita experiência como alguns, mas estava tão preocupada em chegar a tempo que naquela sala, de frente com Tony, não lembro de ficar nervosa, respondi corretamente todas as perguntas. Era o esperado. Teria que honrar a minha promessa. Disse-me que teria alguns projetos para entregar no prazo de um mês e meio, concordei, peguei os detalhes e voltei para minha casa.
Preparei o almoço que eu era capaz de fazer, decidi então ligar para Nykolas, convidá-lo para esse não-encontro. Fiquei pensando nas possibilidades dele recusar meu convite ou de algo estragar esse momento. Não que eu esperasse que algo acontecesse, mas nessas horas meu nervosismo é um pouco mais aparente.
***
Os negócios estavam indo bem. As pessoas me procuravam para projetar suas casas, e cada vez eu estava ganhando mais confiança na área. Minha amizade com Nykolas estava ótima, saíamos as vezes, fiz várias amizades nesse período de seis meses na cidade. Conheci Hope, uma mulher extremamente linda, bem-sucedida e simpática. Ela trabalha no edifício ao lado, e não lembro exatamente quando e como nos tornamos tão próximas, mas até hoje, é uma das melhores amizades que tenho.
Eu estava bem, a ponto de pedir demissão para abrir o próprio escritório, que era o meu sonho desde que botei meus pés pela primeira vez nessa cidade. Nunca fiquei tão feliz em realizar um sonho tão grande como esse. Tive ajuda de Nykolas é claro, e agora ele trabalha comigo.
Fui visitar Beth, como estava fazendo frequentemente. Ela é como uma mãe para mim, me ajuda a tomar decisões e até me dá alguns conselhos de como conquistas Nykolas, apesar de já achar que ele está completamente apaixonado por mim. Ter a companhia dela é muito bom. Depois de visitá-la decidi ir a um Starbucks próximo ao meu apartamento, pedi o de sempre, paguei e sentei-me ali mesmo, em uma das mesas do estabelecimento.
— Ei, Lauren? É você? – ele disse.
— Minha nossa Richard! Por que você desapareceu assim de repente, do nada? Você me deve uma boa de uma explicação – disse por fim.
Eu não acreditava que depois de tanto tempo eu o encontraria de novo. Alguns meses atrás ainda pensava nele, aliás, assim que me mudei para cá comecei a pensar nele. Talvez agora tudo faça sentido. Era um aviso, ou não, eu não sei.
— Me desculpe, eu sinto muito mesmo, não era exatamente isso que eu queria – completou ele.
— E o que você queria exatamente? – ironizei.
— Não é como você está pensando, eu não tive escolha, fui levado a força pelos meus pais. Você acha que seria fácil deixar nossa cidade, deixar você? – admitiu ele.
Essas palavras pesaram em mim. Fizeram com que eu me lembrasse de todos os momentos que passei com ele, como um flashback, questão de segundos. E eu sei que quem estava errada era eu, e não ele. Mas agora eu entendo, ou tento entender o porquê dele ter desaparecido dessa forma. Talvez uma despedida teria sido mais dolorosa do que simplesmente desaparecer, sem manter nenhum contato. Agora eu entendo e sinto muito pelos meus erros, é só isso que eu gostaria de lhe dizer.
— Vamos ao meu apartamento, quero que você me conte exatamente tudo – insisti.
Não era exatamente o dia que eu gostaria de ter, mas era preciso. Preparei um lanche e ele começou a me contar tudo. Os pais queriam que ele se afastasse da cidade, ou melhor, de mim, não que eu tenha me tornado má influência ou uma pessoa horrível após o nosso término com as besteiras que fiz. Só acharam que fazendo isso estariam protegendo-o do sofrimento que eu causei a ele. E ainda o proibiram de manter qualquer contato comigo, o isolaram em um quarto, sem qualquer tecnologia, apenas uma cama, e comida trazida diariamente. Para mim isso é tortura, para os pais dele, apenas a solução para o amor.
A conversa estava fluindo de um jeito bom, não assustador como eu achava que seria. Já não éramos mais as mesmas pessoas de anos atrás, mas alguma coisa ainda tinha entre nós, isso eu conseguia sentir, e acho que ele também. Ele simplesmente parou de falar e olhou em meus olhos, ficou me observando até que começou a falar todos os momentos que eu havia visto naquele flashback, e o que me fez partir o coração foi quando ele disse que me perdoaria. Que me perdoaria pelas coisas que fiz quando na verdade não era a verdadeira Lauren que estava em meu corpo, era o efeito da depressão. Por mais que naquela época eu tinha meus pais, meus amigos, Richard, eu não tinha minha irmã.
Imediatamente senti uma lágrima percorrer o meu rosto, desabei, bem ali na frente dele, sem vergonha alguma, chorei o máximo que pude, e ele ficou tão próximo de mim que eu pude sentir sua respiração. Uma das coisas que eu mais gostava nele, é que nestes momentos, apenas o beijo dele me faria melhor, e foi o que ele fez. Ele sabe me acalmar de um jeito que ninguém consegue. Assim que me acalmei, decidimos ver um filme no sofá da sala, e fui obrigada a contar o que fiz depois que ele se foi e como vim parar aqui.
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