Notas iniciais
Hey Hey! Olha eu aqui de novo bem rápida e com um capitulo grande! Quem é vossa amiga, quem é? ♥

—Aslam! Aslam acorda por favor!

Inverno. Ghost River, Alberta, Canadá, 1975. No meio do nevão, a silhueta de uma jovem sobressaía.

Com as mãos esticadas sobre o peito de um rapaz, ela fazia compressões, a chorar, pois teria chegado um pouco tarde. Ele já tinha engolido demasiada água e não dava sinal de vida.

Saaya tinha apenas 17 anos. Aslam 14, e esta tinha sido a primeira vez em que ambos tinham lutado para sobreviverem. Estavam todos mortos, menos eles.

Aslam finalmente cospe a água que engoliu e Saaya abraça-o aliviada.

—O que aconteceu? – pergunta ele confuso.

—O gelo do rio quebrou… morreram todos… -ela chora_ não consigo ouvir o coração de ninguém Aslam, só sobramos nós!

O jovem de 14 anos tenta sentar-se. Saaya ajuda-o.

—Saaya… onde está a Eda? -volta a perguntar.

Saaya inunda-se em lágrimas e balança com a cabeça.

—A minha filha está morta Aslam… assim como o Raseek -ela soluça_ eu não consegui salvá-los, a culpa foi minha.

—A culpa não foi tua! -ele segura-a_ fizeste o que podias Saaya! Olha para mim! – ele abana-a. Saaya abre os olhos_ salvaste-me a mim…

Ambos se abraçam, pois, ambos tinham perdido tudo. Saaya, a sua filha de apenas alguns meses, o seu namorado e toda a sua família. Aslam, o seu irmão mais velho, Alir. Os seus pais já tinham falecido á alguns anos, pois eram idosos.

Aslam levanta-se e agarra-se a Saaya para começar a caminhar. Já não há nada ali para eles e, se ficarem, morrem de frio. Não demoraria mais do que vinte a trinta minutos para ficarem cobertos de neve e morrerem de hipotermia. O objetivo agora, é chegar á cidade mais próxima ou a uma estrada onde possam pedir boleia.

Saaya e Aslam caminham á beira da estrada, encolhidos de frio por estarem encharcados. Ambos perderam a noção de á quanto tempo estariam a caminhar. O jovem rapaz cai no chão, já sem forças.

—Aslam, levanta-te por favor… — ela implora.

Duas luzes amareladas ao fundo da estrada enchem o coração de Saaya de esperança.

—Aslam eu acho que vem aí um carro…! – ela grita animada.

Saaya mete-se no meio da estrada, decidida a não deixar o motorista passar sem que lhes dê boleia. O condutor para e os flashs da carrinha ofuscam a loba castanha escura por um momento. Alguém sai de dentro do carro. É um rapaz de 21 anos.

Saaya sente algo estranho. É como uma aura que vem de dentro dele. Como se o espírito animal de cada um deles se olhassem pela primeira vez. Ambos se encaram e estranham-se um ao outro. Aí eles entendem.

—Por favor… ajuda-nos – os olhos de Saaya brilham num amarelo luminoso. O jovem Luckyan assente.

Flashback Off

—Para quieta, vamos ser descobertos por tua causa…!

Nour para de debater-se quando ouve o sussurro a fazer impressão na orelha dela. É apenas o Aslam.

Suavemente, ele retira a mão da boca dela e aponta para o fim do rio. 4 homens armados, da mesma organização que deitaram fogo á Vila, procuram por trilhos e pegadas.

—Como é que eles chegaram aqui...?! – diz Nour chocada_ estarão á procura do quê? Estamos a milhas da Vila.

—Estão á tua procura – responde Aslam com um olhar repreendedor_ estou a segui-los á horas. Ouvi um deles dizer “Queremos a Loba Preta” -Nour cerra o maxilar.

—Há vários lobos pretos, eu não sou a única -ela rebate_ e como saberiam que estou viva??

—O Nanuk deve de lhes ter dito…

Aslam vira as costas, com intenção de voltar para a gruta para avisar o resto do grupo. A forma como acabara de falar de Nanuk pesa em Nour.

—O Nanuk não faria isso! – riposta ela.

—Ah sim? Então e porquê? – devolve Aslam num tom sarcástico.

—Porque eu o conheço – responde. Aslam começa a rir.

—Eu não sei se percebeste, mas estás a falar do lobo que entregou três centenas dos da sua espécie para salvar o seu próprio pescoço! -Aslam irrita-se. Nour arregala os olhos_ Raphael a esta hora já deve de saber que estás viva. Que estamos todos vivos! E não vai descansar até limpar o nosso sangue da sua besta.

Aslam vira costas de vez. Nour dá um último olhar aos soldados, antes de o seguir.

(…)

—Isso é suicídio!

Luckyan levanta-se da fogueira. O prato de latão quase que se entorna, juntamente com o jantar.

—O Luckyan tem razão, mais valia atirarmo-nos do penhasco – concorda Aslam.

—Vocês perderam o juízo? Nós não podemos ficar á espera que os soldados nos venham bater á porta. Temos que os matar. – Saaya rebate.

—Se os matarmos, saberão que estamos aqui! E para a próxima não irão mandar quatro, mas sim dezenas! – continua Aslam.

—Bear? – todos olham para ele. O mudo sacode os ombros.

—” Estou com a Saaya, não podemos ficar aqui sem fazer nada.” – gesticula ele.

Todos começam a discutir. Nour inspira fundo e cerra o maxilar antes de falar.

—Eu vou!! – ela grita. Toda a gente olha para ela_ Eu vou! É a mim que eles querem. Não vale a pena pôr-vos em risco por minha causa.

—Ora aí é que está uma decisão sensata – comenta Saaya com um pequeno sorriso. Luckyan fuzila-a com o olhar.

—Amanhã de manhã eu entrego-me. Fim da discussão…

Nour levanta-se e deixa assim todos boquiabertos. Aslam, com as sobrancelhas arqueadas, olha para Luckyan.

—Por esta é que eu não estava nada á espera.

No quarto, Nour deita-se e vira as costas para a porta. De maxilar cerrado, ela fuzila a parede húmida da gruta á sua frente, como se fosse ela a culpada de tudo.

A porta de betão abre-se de forma calma, surpreendentemente, e fecha-se da mesma forma. Nour sabe exatamente quem é.

4 patas percorrem o cubículo e o som de alguém a deitar-se no chão chama a atenção dela. Nour levanta a cabeça.

Na forma verdadeira dele, o alfa de pelagem mexicana dorme enroscado e com o focinho estendido no chão.

Nour respira fundo, antes de dizer:

—Podes não dormir no chão esta noite…? -pergunta ela. As orelhas de Luckyan começam a rodar_ por favor… estou aterrorizada.

O alfa levanta a cabeça e olha para ela antes de se levantar e sacudir. Num movimento rápido, ele está deitado na cama. O lobo esfuma-se e dá lugar ao charmoso homem de 36 anos que olha para a jovem de 20 com preocupação.

—Eu sei que não vale a pena tentar convencer-te para não ires… tu és tão teimosa…

Nour acha piada.

—Que bom que começas a conhecer-me.

Luckyan acaricia o braço destapado dela. Ela arrepia-se com o gesto. Depois, ele segue para o pescoço e termina nos seus lábios. Ela fica surpreendida, mas não desgosta de todo.

—Então por favor…deixa-me olhar para ti, assim, uma última vez…

Luckyan não se contém e avança cautelosamente para beijá-la.

—O que estás a fazer…? -pergunta ela num sussurro, inclinando a cabeça um pouco para trás.

—A arranjar maneira de levar um soco nos dentes, pelos vistos -responde o alfa de forma baralhada.

Nour torce a boca para tentar esconder um riso. Luckyan senta-se na cama, frustrado e sacode o cabelo. Ela molha os lábios antes de agir.

Delicadamente, Nour vira o rosto dele para ela e beija-o calmamente. Luckyan dá por si a deixar escapar um sorriso malicioso antes de colar os seus lábios contra os dela.

Nour empurra-o para trás e sobe para cima da cintura dele. O alfa para um pouco para admirar a fera que supostamente está prestes a soltar-se.

Ela debruça-se e espalha vários beijos pelo seu pescoço e bochechas de forma bem lenta. Uma pequena mordida é dada na orelha de Luckyan, o que deixa o alfa louco de tal forma que os seus olhos mudam de cor.

Nour solta um sussurro:

—Boa noite, tenta não ressonar muito.

Num movimento subtil, Nour deposita um último beijo e sai de cima dele sem aviso prévio. Luckyan arregala os olhos e olha para ela a deitar-se ao lado dele e a tapar-se como se nada tivesse acontecido.

Nour dá um sorriso de vingança. Mesmo de costas viradas para ele, ela percebe que o deixou bastante frustrado. Luckyan resmunga com os próprios botões, antes de apagar a vela.

Na vila, Nanuk não consegue dormir. De estômago vazio, ele dirige-se até á cozinha para apaziguar a fome. Os restos do jantar ainda estão em cima da mesa. É tanta comida que Nanuk nem sabe por onde escolher. Ele corta duas fatias de bolo, pega em sumo, camarão e algumas pernas de frango e coloca num saco.

A lua lá fora está cheia e brilhante. Um ligeiro formigueiro começa a percorrer-lhe o corpo assim que o luar lhe cobre a pele. Ele inspira fundo e senta-se para comer debaixo de um alpendre de uma casa em ruínas.

Nanuk começa a descascar os camarões. Ele lambuza os dedos e algumas cascas vão caindo no chão, formando assim um pequeno monte junto aos pés.

Pelo canto do olho, Nanuk vê algo a mexer-se, mas desaparece assim que ele olha. Ele franze a testa e espera pacientemente.

De repente, a cabeça de um menino aparece timidamente. Não parece ter além de quatro ou cinco anos. Está aterrorizado e não faz contacto com ele muito mais do que dois segundos. Nanuk relaxa por não ser um dos homens de Raphael, mas mesmo assim fica desconfortável. Crianças nunca foram o seu forte.

—Vais comer isso? – pergunta a criança a apontar para as cascas de camarão no chão. Nanuk fica sem saber o que dizer.

—Ahm… são cascas – acaba por responder. A criança sacode os ombros.

—Já comi pior.

Nanuk fica perplexo, mas o menino quase que se baba por elas. Nanuk tem outra ideia.

—Toma, podes comer isto – ele retira as fatias de bolo do saco_ é bolo de chocolate.

A criança aproxima-se com alguma confiança e senta-se ao lado de Nanuk para comer. Está esfomeada. Aí, Nanuk observa-a como deve de ser. É só pele e osso. Se houver uma rajada de vento mais forte, ele tem a sensação de que ela levanta voo.

Nanuk entrega o saco para o menino. Ele fica surpreendido.

—Podes comer tudo – diz o Husky.

—A minha mãe dizia que eras mau. Que eu nunca me devia de aproximar de ti – devolve o rapazinho. Nanuk faz uma expressão triste.

—Quem é a tua mãe? – pergunta calmo.

—Ela morreu.

Dito isto, o menino pega no saco e sai a correr. Nanuk levanta-se para ir atrás, mas apenas dá dois passos. O Husky está prestes a desmanchar-se em lágrimas.

—Foi um gesto bonito da tua parte…

Nanuk olha para o lado e limpa as lágrimas nos cantos dos olhos com o braço, assim que vê Ignis.

—Estás a chorar? -brinca ela.

—Não – resmunga Nanuk enquanto funga.

A ruiva de olhos castanhos dá um pequeno sorriso e descruza os braços para lhe dar um abraço.

(…na manhã seguinte…)

Está tudo escuro no quarto do Luckyan, apenas as pequenas e finas brechas de luz passam por debaixo da porta de betão e isso é suficiente para acordar a Nour. Ela dá por si, encostada com a cabeça a centímetros do peitoral do alfa que dorme pacificamente. A mão dele está apoiada na cintura dela.

Ela levanta-se com calma e sem fazer barulho para procurar uma vela para acender. Com alguma rapidez, ela veste-se e olha uma última vez para Luckyan deitado na cama. Ela não tem coragem de se despedir. Seria tortura. Num movimento limpo, ela sai e fecha a porta.

Aslam e Bear adormeceram á volta da fogueira como de costume. Nour não faz ideia de onde começa o focinho de Aslam e de onde acaba a cauda de Bear de tão embrulhados que estão.

Ela olha para a entrada da gruta a alguns metros dela. O sol já nasceu e as lágrimas começam a escorrer-lhe pelo rosto. Provavelmente será o último nascer do sol que irá ver. Incrível como algo tão simples e insignificante pode tornar-se tão bonito e desesperador de um momento para o outro.

De repente, o nosso objetivo é apenas viver, nem que seja por mais um dia. Só para ver mais uma vez o pôr do sol, ouvir o canto do mimo-gaio ou ver o rosto da pessoa que mais amamos no mundo.

Nour dá um sorriso triste aos dois lobos antes de iniciar caminho. A alvorada fria de primavera Canadiana refresca-lhe o denso pelo preto, que acaba por criar orvalhos nas pontas. As suas patas estão geladas e as mesmas só param quando as cataratas aparecem.

Ela olha em frente. A vila é já ali á frente. É só preciso descer a catarata com cuidado e seguir a margem do rio, que vai ter ao Lago Moraine. Ela respira fundo e para junto da margem para beber água. O seu reflexo na água chama-a á atenção, pois parece que muda de repente. Algo mais negro e sombrio desfigura-lhe a imagem. Ela franze a testa.

—“Porquê tanta hesitação?”

Nour dá um pulo no ar com o susto e vira-se para trás rapidamente. Aslam está sentado perto dos arbustos a olhar para ela.

”O que raio fazes aqui?” —pergunta a loba preta num tom sério.

”Achavas mesmo que sairias e que ninguém dava por ti?” — devolve o lobo branco.

—”Aslam, por favor vai-te embora”– diz Nour preocupada.

”Eu queria-me despedir, mas já que insistes…” — barafusta.

—Receio que aqui ninguém vá a lado nenhum.

Aslam e Nour congelam assim que Gabriel, o braço direito de Raphael, aparece. De armas apontadas as eles, ambos os lobos não reagem.

—Finalmente nos conhecemos. Ouvi falar muito de ti – diz Gabriel com um sorriso.

”Deixem-no ir. É a mim que vocês querem” — ela rosna.

—Sim, claro…

Gabriel faz um sinal com a mão e um dos homens dispara um dardo tranquilizador para Aslam, que lhe acerta no ombro.

—Nour…! – geme Aslam debruçado no chão, metade lobo metade humano.

”O que é que lhe fizeram?!” — Nour rosna. Gabriel e os seus homens riem.

Aslam cai no chão, totalmente humano. O lobo branco esfumou-se e está dormente do pescoço para baixo.

—És a próxima – avisa Gabriel.

”Gostava de te ver tentar”.

P.O.V. Luckyan

Acordo com fortes batidas na porta. Está tudo escuro, então demoro um pouco a abri-la. Saaya e Bear estão do outro lado, pálidos como a neve.

—O que aconteceu? – pergunto ensonado.

—O Aslam desapareceu – diz Saaya.

—”E a Nour também” – gesticula Bear aflito.

—Não desapareceu não, ela está mesmo… — o alfa trava, quando olha para a cama e nota que esteve a dormir sozinho.

Ele entra desesperado e revira tudo. A única coisa que Luckyan encontra é a camisa de noite branca que Nour deixara no chão.

—Ela deve de ter ido embora ao nascer do sol e o Aslam seguiu-a – diz Saaya_ há rastos de ambos com apenas alguns minutos de diferença. Adivinha para onde é que iam…

Luckyan cerra os dentes.

Nour ataca um deles, que morre de imediato assim que ela crava os dentes numa zona sem farda. Três tentam imobiliza-la, enquanto Nour está em cima dele. Ela debate-se até ao fim, quando um taser é encostado ao seu corpo lupino.

Ela cai no chão, desorientada com o choque elétrico, mas consegue ver Gabriel a pegar em Aslam e a aproximar-se da catarata.

—Não… — ela geme baixinho_ Não! Larga-o!

—Está bem — Gabriel larga-o. Nour arregala os olhos_ disseste para eu o largar, eu larguei.

De repente, Nour ganha uma vontade interior. Ela levanta-se do chão e sacode os soldados das suas costas. Que vontade que tem de ir direta a Gabriel, mas ela tem que salvar Aslam. Paralisado, irá morrer rapidamente.

Sem pensar duas vezes, ela atira-se. Aslam está a ser levado pela corrente e a engolir bastante água a cada segundo que passa. Ele afunda-se e Nour é obrigada a mergulhar para não o perder de vista.

Segundos passam-se sem que eles venham ao de cima. A corrente começa a perder força á medida que se aproxima do Lago Moraine.

Desesperada por ar, Nour vem ao de cima com Alsam encostado no seu peito e nada até á margem. Ela arrasta-o e começa a fazer compressões, mas ele não reage.

—Vá-la Aslam, vá-la… — sussurra­_ vá-la caramba!!

Uma corrente enrola-se á volta dos pés dela e puxam-na para longe de Aslam, estendido no chão. Ela debate-se, mas mais corrente surgem, agora para lhe prender as mãos, tronco e pescoço.

—E o branco? Levamo-lo? -pergunta um deles para Gabriel, referindo-se a Aslam.

—Ele está morto –mente Nour com lágrimas nos olhos.

—Deixem-no aí então. Não nos serve de nada.

Ao longe, Luckyan, Bear e Saaya olhavam a cena. Saaya não contém as lágrimas e soluça compulsivamente.

—Ele está vivo… -tranquiliza Luckyan.

—Eu sei… — ela funga_ mas custa-me que ele reviva tudo outra vez.

Todos aproximam-se de Aslam, deitado ainda na margem no rio, assim que os soldados levam Nour. Saaya abraça-o, inanimado.

Já Nour, caminha acorrentada e de cabeça baixa em direção á Vila, sem saber o destino de Aslam…

Notas finais
Ai ai que agora é que vai ser! O que irá acontecer? Nour na Vila?