Quando o amor da sua vida não é o amor da sua vida

1 Por que você tem essa mania de complicar o mundo?


Notas iniciais
Essa é a história de uma parte da vida de Analu, que simplesmente não aceitou ser levada por um roteiro e me fez escrever o que ela quis viver.

— Eu escrevi um poema. — Ela disse, já jogando um papel amassado na cabeça do seu amigo.

— Bom dia também, Analu, eu dormi bem, sim, que bom que você perguntou. — Ele disse, abrindo o papel. — O que é isso?

Analu ergueu a sobrancelha, de um jeito que Felipe nunca conseguiria fazer e que sempre rendia risos fortes quando ele tentava.

— Já disse, um poema.

— Isso é um poema? — Ele mostrou o papel para ela, que só tinha uns rabiscos aleatórios, a cara de um garoto toda rabiscada e com setinhas escrito BABACA em letras garrafais em volta e uma ou duas anotações na letra da mãe da garota sobre compras de mercado.

— Opa... — Analu pegou o papel e o enfiou no bolso, pegando outro quase igual e pondo na mão do garoto.

— Okay, vamos ver... — Felipe passou os olhos rapidamente pelo papel amassado e depois de decifrar a letra da garota e entender o que estava escrito, virou-se para ela. — Outro que você deu o fora e quer parecer bonitinho?

A menina deu de ombros e suspirou.

— Eu só sinto que preciso muito de café. E você não me falou ainda o que achou.

Eles se levantaram do canto da praça que tinham combinado de se encontrar uma meia hora atrás e foram para a padaria já conhecida ali na esquina, em que o pão de queijo era sempre o melhor.

— Olha, eu achei uma droga. — Ele disse simplesmente, jogando a bolinha de papel de volta para a amiga, que propositalmente acertou a cabeça dela.

Analu riu alto, não ligando para as pessoas que passavam naquela manhã pacata de domingo e as encarava.

— Pelo menos você é honesto. — Ela curvou a cabeça, fazendo um gesto engraçado franzindo o nariz. Felipe sempre adorava quando ela fazia aquilo, e achava a coisa mais espontânea do mundo quando ela simplesmente deixava seus sentimentos transbordar. — Até demais.

— Analu, por que você tem essa mania de complicar o mundo?

A menina deu lingua pro amigo e jogou a bolinha-poema-ruim dentro do bolso do short de novo.

— Eu não complico o mundo. O mundo que me complica! — Ela pegou a mão do amigo e a puxou. — Vamos, eu realmente quero café.

Os dois pediram então quatro pães de queijo grandes, um café preto puro sem açúcar e um toddynho. Felipe odiava café e nunca iria entender o motivo da amiga ser tão viciada naquele líquido estranho.

Só depois de umas boas horas e algumas xícaras mais de café, Felipe parou de falar sobre a correria que estava sendo aquele ano para ele, com o ENEM ali na porta e os irmãos mais novos para tomar conta. Os gêmeos eram realmente uma peste. Os dois se despediram e cada um foi para um lado, ele precisava chegar em casa rápido para terminar para um simulado que teria logo e ela precisava passar no mercado para a mãe.

Com os fones de ouvido quase explodindo nos ouvidos em uma música dessas alternativas, Analu caminhava como se não houvesse problema algum no mundo em que ela se preocuparia. Mas isso não era verdade. Pensando no poema em que escrevera pensando no idiota do Tiago, ela considerou se não havia realmente açúcarado demais a relação dos dois no papel. Felipe a conhecia, e sabia que nada do que ela escrevera era o que realmente era.

Ela costumava escrever desde pequena, para não para ficar fantasiando demais, mas como uma extensão do que ela vivia, sentia. Mas desde aquele dia em um longíquo Setembro, nada mais fazia sentido quando tentava escrever. Talvez por que o seu mundo parara de fazer sentido. E então todo o resto também.

Seus poemas e histórias continuavam bons para mentes não treinadas a pensar demais, mas ela sentia que não escrevia mais verdades. Como que ela, que nem acreditava mais no amor, poderia escrever poemas românticos? Era supérfulo. E as suas histórias, em que as pessoas estavam sempre muito felizes, ou muito tristes, mas nunca os dois ao mesmo tempo?

Era assim que ela se sentia. Mas ela nunca se sentira representada. Oi, as pessoas precisam mesmo ficar felizes o tempo todo? Que coisa boba! Mesmo com o fone ligado ao máximo tocando uma outra sintonia que seus pensamentos, ela os deixou mais altos e riu. Assim, feliz.

Analu comprou o pão, os ovos e o leite que sua mãe pedira e logo voltou para casa, andando em passos longos como se só quisesse se sentir assim.. completa.

#

Felipe assistia Analu andando no seu costumeiro modo, como se estivesse ali, viva, andando, só para desfilar para o universo. Ela era uma contradição em pessoa. Um furacão, domesticado e com medo dos próprios poderes. Ele riu divertido e correu para a sua casa.

Como ainda não era nem meio dia, seus irmãos mais novos nem se preocuparam de sair do quarto e sua mãe estava vendo uma série nova da Netflix na sala, ele andou direto para o seu quarto e separou as apostilas que precisaria estudar. Respirou fundo e colocou uma meta mental para si — estudaria química até entender o capítulo 9 e só depois pensaria em biologia.

Dessa forma, assim que o menino chegou à metade do capítulo estipulado, seu telefone tocou e já passava das três da tarde. Era uma notificação do whatsapp.

AnaluS2AMOMUITOHAHAHANAO:
*Mídia*
nOVO CRUSH!


Você:
O corpo nem esfriou e tu já está em outra, eita.


AnaluS2AMOMUITOHAHAHANAO:
Não
tenho
culpa
se
você
é
demorado,
migo


Você:
Para
de
mandar
mensagem
assim


AnaluS2AMOMUITOHAHAHANAO:
Mando se quiser, bobão


Você:
Nooooossa, me chamou de bobão
Mas então
Quando tu vai aquietar em um crush só, feia?


AnaluS2AMOMUITOHAHAHANAO:
só qnd meu asc em ság deixar migão
entãooo
nunca
acho...


Você:
Bom, boa sorte ai com o crush
mas
alguém aqui precisa estudar
até


#

Já era costume de Analu sumir por um tempo quando entrava de cabeça em uma conquista louca de crushes. Era intenso, por isso Felipe nem se importava de ficar uma ou duas semanas sem ter ela falando com ele direito, mas ele sabia que se ele precisasse, ela já estaria lá.

Durante o começo dessas duas semanas, Analu acreditou de novo no amor. Era uma coisa boba e inconstante. Ela sabia que o que sentia por Rafael não era nada como os grandes amores (e completamente falsos, devo acrescentar) que ela via, lia e ouvia. Era só... Uma vontade de ser amor. Na madrugada do oitavo dia em que ela fazia junto dele, ela escreveu um poema. Outro poema. Era uma coisa boba, e bem boba. Do tipo:

Seus olhos brilham
do mesmo jeito que outrora
meus sentidos partiram
junto com a sanidade
de quem me fez ter fé
ah, a saudade
daquela xícara de café

Ela mandou o poema para Felipe no whatsapp, que imediatamente respondeu com um audio rindo, e rindo muito. Ele provavelmente estava no meio de uma maratona de Flash, a série favorita dele quando a mensagem chegara. Ela até conseguia imaginar ele com o notebook no colo e um balde de pipoca de microondas (desde que ele queimara ao todo cinco panelas da mãe, ele fora proíbido de fazer a de panela) ao lado quando a mensagem chegara.


LIPELIPSLIPOASPIRAÇÃOESPIRADOR:
Adorei, sério.
Muito bom pra rir.
Mas agr sério, gosto mais dos seus poemas de coração partido.
Vc é tipo a Adele dos poemas de dor de cotovelo


Você:
Nossa, valeuzão
lipe...


LIPELIPSLIPOASPIRAÇÃOESPIRADOR:
hm?


Você:
eu acho q agr vai hein


LIPELIPSLIPOASPIRAÇÃOESPIRADOR:
vc já falou pra ele que gosta dele? e ele falou q gosta de vc?


Você:
uhum


LIPELIPSLIPOASPIRAÇÃOESPIRADOR:
falou nada q eu te conheço


Você:
af mas eu vou
amanhã
ou talvez dps de amanha


LIPELIPSLIPOASPIRAÇÃOESPIRADOR:
uhum tá
vou voltar aqui pro flash
vc consegue ser mais complicada que a linha temporal dele, sabe disso né?


Você:
mas vc gosta de mim mesmo assim


#

Felipe recebera uma mensagem, as seis da manhã, de Analu. Ela dizia ser urgente. Então, às sete e meia, lá estava ele na praça que era de costume dos dois. Era dia de semana, e ele estava faltando aula de Física, uma das que ele mais precisava entender para ter uma chance mínima de passar para Medicina, mas ele estava na praça, esperando Analu. Quando ela chegou, o capuz no cabelo sempre bem arrumado e o nariz vermelho já entregara que ela andara chorando.

Sem nem falar nada, Felipe largou a mochila no banco onde estava e se levantou. Ele abraçou a menina forte, sem falar nada. Assim que ele a soltou, o menino agarrou a mochila e saiu andando puxando a menina pela mão.

— Pra onde a gente tá indo?

— Você precisa de café. — Ele disse, sorrindo de canto. — E se quiser, me contar o que houve. Hoje, eu só vou ouvir.

Analu respirou fundo, puxou a barra do seu casaco para cobrir a mão toda e seguiu em frente. Assim que chegaram na padaria, Felipe pediu a maior caneca de café que eles vendiam e entregou na mão da menina.

— Eu disse que gostava dele. — Analu falou, brincando com a xícara de café entre suas mãos. Então, ergueu os olhos para me olhar. — E então... Bem, ele foi um babaca.

— Não é a primeira vez que isso acontece, Analu, e eu sei não vai ser a última. — O menino disse, a encarando enquanto ela tomava um gole do café. — Nem sempre vai ser você que vai sair arrasada, nem sempre você vai sair odiando o garoto, algum dia você vai decidir afogar as mágoas no chá e não no café, as vezes você vai escrever poemas muito bons, outros muito, mas muito, ruins e assim a vida segue. Mas sabe de uma coisa que nunca vai mudar?

— Eu terminando com alguém?

Felipe riu.

— Além disso.

Ela entortou o nariz e a cabeça, do mesmo jeito que da última vez, e Felipe achou adorável como todas as vezes. Como sempre achava o jeito em que ela andava como se nada a preocupasse, como sempre andava mais devagar quando passava na frente de um sebo, como sempre gostava de beber seu café sem açúcar, como sempre conseguia demonstrar tudo que sentia mas ao mesmo tempo não entendia o que sentia... Mas ele não achava adorável a forma como ela se depreciava sempre à procura de um grande amor e ainda sim fingia não sentir tal sentimento. Ela amava sim. Ah, e como amava. A vida, as artes, as pessoas... Ela nunca conseguia ser muito séria no que sentia pois sempre fora uma amadora.

— Eu tive ideia para um poema!

Felipe fez uma cara de preocupação, no que a menina riu.

— Tem caneta?

O menino caçou uma caneta preta na mochila, que sabia ser a favorita da garota, e entregou a ela. Analu começou a escrever freneticamente num guardanapo. Assim que ela terminou, a menina amassou o papel e pôs ele dentro do bolso do seu short.

— Vamos pra escola? — Ela perguntou, e ele pareceu surpreso. — Eu sei que essas aulas são importantes para você, pequeno Einstein.

— Você não vai me mostrar esse poema?

— Nope. — Analu se levantou e pegou a bolsa que carregava, com somente um caderno pequeno. — Vamos?

Felipe coçou a cabeça, confuso, mas assentiu. Como o esquema da padaria era por fichas, o café já estava pago, então eles só levantaram e foram embora. Analu se despediu dele a uma quadra da escola, já que não iria naquele dia e não estava muito afim de levar sermão do porteiro. Ele observou ela indo embora como sempre fazia, mas agora feliz, com passos largos e como se nada nem tivesse mexido em seu coração e mente.

E ela se sentia assim, agora. Esse era um desses momentos em que ela se sentia plenamente feliz, como uma personagem de livro, mesmo que depois não fosse estar assim de novo. Entrando em sua casa silenciosamente, ela se jogou na cama assim que chegou no quarto e puxou o guardanapo do bolso, para ler o poema escrito às pressas.

O amor que tanto busco
não é carnal nem totalmente puro
é aquele som acústico
que me faz amar-o
sem intenções de nem tocar
nem beijar nem querer
nem desejar
só de estar, viver
tomar uma xícara de café
e sentir tudo ficar bem
uma levantada mútua na fé
do que se arrasta mas não
para
que um dia quisera ser
meu melhor amigo
de um jeito só de estar
minha alma gêmea não precisa
ser o amor da minha vida
e o amor da minha vida
não é minha alma gêmea
ele é
e o amor
sou eu
com a dor, a confusão, os sentimentos
e eu me aceito assim
com o amor quebrado com alma gêmea ao lado

Notas finais
Eu não complico o mundo, o mundo que me complica.

Se você achou alguma coisa desse conto - Bom, ruim, muito ruim....
Sinta-se livre para comentar! :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!