Quando o amor acontece
15 Cap 15 - Meu Mangá - Parte I
Notas iniciais
Eu estava ali, sentado. Nada conseguia explicar o mix de emoções, aquele fervor que vinha do estômago e chegava nas terminações nervosas me fazendo estremecer. O ardor tomava conta dos meus olhos, era como se eu tivesse tacado sal ou shampoo, lagrimas quentes escorriam do globo e desciam pelo contorno do rosto até o queixo. Pingavam lentamente, como uma torneira mau fechada. Cada gota caia direto no tablet que eu segurava logo a baixo e isso deixava o Touch Screen maluco, abrindo e fechando aplicativos sem eu ao menos tocar. O cheiro de esgoto que vinha da porta ao lado invadia minhas narinas, mas eu não me importava. Tinha aqueles sons que pareciam estuprar meus ouvidos, alguém no outro box tentava dar a luz ao próximo king kong. O coração deste herói se desmanchava, ele era como um filho pra mim. Vi as suas lutas, os seus medos, vi ele conquistar tudo também. Perseguiu seus objetivos com garra e nunca desistiu de si mesmo, muito menos de seus amigos. Vou trancar a sete chaves em meu coração, cada lição que ele me ensinou.
— Naruto! Você se tornou um grande hokage... obrigado pelos seus ensinamentos! — Sussurrei enquanto as lagrimas escorriam.
— BRYAN! O QUE ESTÁ FAZENDO? JESUS! ALGUÉM MORREU AQUI?— O gerente deu três socos na porta do box.
— Desculpe, não estou num dia bom. — Uma voz soou com dificuldade no box ao lado.
— Acabei de ler o ultimo capítulo de Naruto! — Respondi.
— EU NÃO LIGO PRO QUE VOCÊ FAZ NO SEU HORÁRIO DE ALMOÇO, MAS AGORA VÁ PRO ATENDIMENTO, QUE HOJE ESSA AGÊNCIA ESTÁ UM INFERNO! — O homem esbravejou.
— Ok... ok! — Comecei a desligar o tablet.
Dessa vez não arquivei contratos, não fiz empréstimos, hoje o herói tinha uma missão diferente. Ajudar as pessoas no atendimento, principalmente os idosos que não sabem usar um caixa eletrônico. A tarde teria sido normal, exceto por um pequenino detalhe que fez meu coração quase parar. Assim que saí da agência Tati me esperava do lado de fora. Ela tinha um roxo enorme em volta do olho e alguns hematomas nos braços. Um sorriso se abriu no canto de seus lábios quando seus olhos encontraram o meu.
— Oi Bryan! — Tati se aproximou timidamente.
— Oi Tati! — Sorri, mas me partiu o coração vê-la nesse estado.
— Eu sei que foi a Paty! — Ela apontou para o próprio olho.
— Eu te peço desculpas... nem sei o que diz ....
— Tudo bem. Já entendi, ela gosta de você. — Tati me interrompeu e então começamos a caminhar em direção ao ponto de ônibus. — De qualquer forma, eu queria ter uma conversinha com você. — Tati tinha a voz suave.
— E o que é tão urgente assim que não pode espera até chegar na faculdade? — Podia sentir o ponto de interrogação se formando em minha testa..
— O que ela sente por você é momentâneo, sabe disso né? — Seus olhos fitaram os meus.
— Defina "Momentâneo"! — Retruquei o olhar.
— Isso é jogo dela! Bryan, meninas como a Paty estão acostumadas a ter tudo o que quer e quando elas não tem, fazem de tudo pra conseguir. Ela só se apaixonou por você por que de todos os caras daquela universidade, você foi o único que não a paparicou e mimou, é obvio que ela iria querer te adicionar a coleção dela. — Tati falava pausadamente, como se quisesse que eu entendesse cada palavra.
— Se a Paty se apaixonou por mim, é por que eu tenho algo que os outros caras não tem e ela viu isso! — Sorri.
— Há claro! Ela ficou encantada com a sua habilidade de fazer jutsus de Naruto né? — Ela bufou.
— Ei, jutsus são habilidades muito nobres, ok? — Não deixaria que ela ferisse o orgulho desse herói.
— Que seja! Mesmo que os sentimentos delas forem verdadeiros, ela não vai assumir um relacionamento com você Bryan. Ela é a rainha e você é só... o nerd! — Tati repousou a mão em meu ombro.
— Não se preocupe, esse herói sabe se defender. — Minha face não tinha nenhuma expressão.
— Tudo bem, mas como sua amiga é minha obrigação te alertar sobre algo. — Tati sentou no banco assim que chagamos no ponto de ônibus. — Tudo começou quando foram selecionadas as duplas do semestre interativo, confesso que o fato de você esconder quem era a sua dupla me dava nos nervos. Até que um dia, deixaram um bilhete na minha mochila, lá estava escrito um horário e um endereço. Imaginei que estavam tentando me dizer algo, então eu fui até o local. Era uma lanchonete que ficava quase no fim da cidade, quando eu cheguei tinha poucos fregueses, cinco minutos depois você e aquela nojentinha da Paty entraram. Vocês ficaram um tempo conversando, sinceramente, parecia que iam se matar, mas por algum motivo as coisas se acalmaram. Eu notei o seu esforço pra tentar se dar bem com ela, então não me intrometi, já que parecia ser importante. Depois de um tempo me mandaram novamente um bilhete, dessa vez no meu caderno. No entanto, ao invés de ter um local e horário, tinha uma confissão. O bilhete dizia que a Paty estava te obrigando a fazer tudo sozinho, que você estava virando escravo dela. Não pensei duas vezes em mandar uma mensagem pra ela e tirar essa história a limpo. E julgando pela reação dela no bar do azeitona e na festa... parece que ela não te vê como um escravo. — Sua voz tinha uma pontada de ciúmes.
— Espere um momento! Você está dizendo que quem escreveu aquele bilhete sabia que eu e Paty somos dupla no semestre interativo? Merda! Isso significa que...
— Que eu fui usada para tentar prejudicar você e a Paty, eu não sou a única que sabe sobre vocês! — Cada sílaba parecia rasgar meus ouvidos. — É por isso que você tem que me prometer que vai sair de perto dela Bryan, seria muito ruim se você se metesse em problemas. — Tati fez biquinho.
— Desculpa Tati, mas se a Paty está com problemas, como eu poderia abandona-lá? Eu simplesmente não posso. — As palavras saiam calmamente. — Você tem alguma ideia de quem possa ter colocado aquele bilhete na sua mochila? — Meus olhos fitavam os seus.
— Ué! Você não é o herói? Use seus sentidos aranha e desvende esse mistério sozinho. — Tati não me deu a chance de resposta quando entrou no ônibus que havia acabado de parar.
A viagem foi silenciosa, afinal a Tati tinha ficado chateada comigo. Eu estaria mentido se não dissesse que não estava preocupado. As palavras de Tati instigaram meus sentidos de heróis de uma forma curiosa. Tudo bem que a Paty é mimada e muitos aturam esse jeitinho dela por causa dos benefícios da amizade dela, mas fazer mau a ela? E é absurdamente estranho a forma como os fatos aconteceram. Se eu fosse pensar como alguém que quisesse fazer mau a Paty, eu tentaria prejudica-lá arruinando a imagem dela. Não é preciso ser nenhum mestre Yoda pra saber que populares e nerds não se misturam, então seu fosse destronar a Paty, era só expor a minha relação com ela, e não iria separar a nossa dupla, isso seria um favor. Direcionei meu olhar lentamente para Tati que tinha a maior cara de bunda deixando bem claro o seu mau humor, por um segundo me perguntei se não teria sido apenas uma invenção dela
Na faculdade foi impossível prestar atenção na aula. André basicamente me dava uns cutucões o tempo todo. Era incrível a minha habilidade de me deslocar da vida real para o meu mundinho em questão de segundos. Este herói estava passando por momentos difíceis e turbulentos, descobrir que alguém usou a Tati pra desfazer a minha dupla com a Paty não representava nem dez porcento do tamanhã da esquistisse que havia virado a minha vida. Pra começar tem a dona Aline, que numa bela manhã resolveu cortar a carne da dieta da família, sim, esse herói agora só comia carne de soja, vegetais e legumes. Eca e saudável eram duas palavras que definiam benm a minha nova dieta alimentar.
— Ei! Pode me dizer por que essa múmia não disse um "A" desde que entrou na sala? — André me cutucou com a caneta, seus olhos miravam Tati, que estava na cadeira da frente.
— Provavelmente algo que eu disse. — Resmunguei.
— Acho que não! Aquele olho roxo dela não me engana... A Tati brigou com alguém! — André batia levemente a ponta da caneta no queixo.
— É, talvez seja isso. — Disfarcei.
Por que mulheres são tão complicadas? Ver a Tati daquele jeito, chateada e com hematomas abria uma ferida enorme em meu peito. Quando a Paty disse que não poderíamos mais nos falar, eu entendi aquilo como um fim. Esse herói só foi naquela festa por que a Tati tinha ganhando os ingressos e insistiu pra que eu a companhasse. Nunca. Nem por um milésimo de segundo passou pela minha cabeça que a Paty surtaria daquela maneira, a sorte é que o local estava tão escuro que ninguém reconheceu as duas.
Assim que o professor liberou para o intervalo peguei minha mochila e sumi pelos corredores do bloco. Normalmente eu tento não ser visto, mas dessa vez estava caprichando nas minhas habilidades mais que o normal. Olhando para todos os lados para não ser seguido, passos calculados e sempre andando nas sombras. O motivo do meu esforço era bem óbvio: Santuário. O único lugar onde esse herói pode revitalizar suas energias e encontrar a paz.
Logo que cheguei no terreno abandonado fui direto para a pilha de madeira, foi quando uma silhueta saiu de traz de um trator e veio em minha direção. Os passos eram apressados e pesados. A sombra chegou perto o suficiente para tocar o meu rosto com as duas mãos. Antes que eu pudesse dizer algo, lábios carnudos e delicados me tomaram num beijo quente e molhado.
— Oi... Nerd! — Paty recuperava o folego.
— Oi... Estou ficando viciado nisso. — Sorri.
— É?... Eu também. — Novamente nossos lábios se encontraram.
— Espera... Espera! Por favor, me belisca. — Dessa vez eu parei primeiro.
— Beliscar? Por que? — Paty arqueou uma sobrancelha.
— Esse herói costuma sonhar constantemente, eu preciso saber se isso que está acontecendo agora é real. — Fechei os olhos.
— Então pode deixar que eu vou fazer questão de te mostrar que é real. — Paty deu mordicadas leves em meus lábios. — E agora? — Ela tinha a voz doce.
— É real e tem sabor de melancia. — Um largo sorriso se estendeu em meu rosto.
— Eu estava com Halls na boca seu bobo. —Paty deu gargalhadas. — Sabe vai ter uma festa hoje, na verdade é um shopada, tem um bar inaugurando umas três quadras daqui, a galera toda vai pra lá. Como ainda estamos no meio da semana não deve acabar tarde, então eu pensei em ir pra sua casa depois de lá. Tudo bem pra você? — Paty fazia um olhar pidão.
— Claro! — Não consegui esconder a surpresa em minha voz.
— Tenho que ir. Não vou ter mais aulas hoje, me acompanha até o carro? — Paty checou o celular que acabava de vibrar.
— Sim. — Sorri.
No caminho nós conversamos mais um pouco, eu podia estar perfeitamente normal ao lado dela, mas na verdade minha cabeça estava a mil. Tudo bem que sempre que estou com ela eu fico nervoso, mas dessa vez era diferente, mais intenso. Certo momento do percurso meus ouvidos se desligaram, deixando o silêncio me consumir, eu só tinha olhos para ela. Era engraçado ver como Paty estava despreocupada, talvez fosse por que pegamos um caminho mais escuro onde quase ninguém usa, mas eu nem ligava, pois a felicidade que ela emanava era tudo o que importava.
— Meu... Deus! — Paty soltou uma voz fraca, me tirando do transe.
Nós já estávamos no estacionamento. Seus olhos eram do tamanho de bolas de tênis, ela levou as duas mãos a boca. Meus olhos varreram ao redor a procura de qualquer vestígio que tenha deixado a Paty naquele estado. Por fim, encontrei. O veloster branco havia sido pichado com letras enormes e vermelhas que diziam: "Ouvi dizer que os beijos de um nerd são contagiosos. Cuidado! Você pode ficar retarda igual eles. Ass: O Breu!"
— DROGA! — Paty deu chute frontal na lateral do carro.
Com a força do chute o salto dela quebrou e a lataria do carro amaçou, ela me encarou pasma. Eu queria falar, mas as palavras não saiam. Queria agir, mas não fazia ideia do que fazer. Corri até Paty e a puxei para um abraço apertado. Naquele momento eu senti o gosto amargo da verdade, Tati tinha razão, alguém sabia sobre mim e Paty.
— É aquela sua amiguinha de novo, né? — Paty bufou.
— Não! Muito pelo contrário, ela... ela... me pediu pra tomar cuidado. — Minha voz não tinha nenhuma expressão.
— Como assim cuidado? — Paty arqueou uma sobrancelha.
— Bom, parece que ela foi usada. Ela não descobriu sobre nós, alguém contou a ela na esperança que ela acabasse com a nossa dupla. — Meus olhos fitaram o seus.
— Eu estou muito nervosa agora, vamos conversar depois. — Paty começou a digitar no celular. — Alô! Boa noite, vocês poderiam mandar um táxi aqui a universidade Arcati? Obrigada. — Paty guardou o celular na bolsa.
Era umas 22hrs e eu estava no ponto de ônibus. Ainda tentava digerir tudo o que aconteceu, a Paty acabou indo de táxi e ligou pro seguro ir buscar o carro na garagem. Quem poderia ter feito uma coisas dessas? O que ela ganharia com isso? Perguntas, perguntas e nenhuma resposta. Vasculhei em minha mente qualquer fragmento que pudesse me dizer algo a respeito, mas nada. Eu amo a Paty, mas sei o quanto é importante o status dela, me perguntei se seria melhor nos afastarmos.
Quando cheguei em casa a primeira coisa que fiz foi tomar uma ducha, peguei meu samba canção preto e desabei na cama. Amanda e Aline já estavam dormindo. Não podia dormir ainda, então peguei meu tablet e comecei a fazer a unica coisa que poderia me acalmar naquele momento. Ver animes, um santo remédio! O escolhido da vez foi novamente Fairy Tail, eu tinha ficado um tempo sem ver, pois o anime tinha dado uma parada pra não atrapalhar as vendas dos mangás e depois retornou. Tive que esperar ums bons meses pra poder acumular os episódios.
— Santo Goku! Santo Goku! Não acredito que Zeref criou demô... — Minha empolgação foi cortada pelo som do celular tocando.
— Alô? — Minha voz não tinha expressão nenhuma.
— Oi, estou aqui na sua porta. Abre pra mim? — A voz doce de Paty soou do outro lado da linha.
— Já vai. — Dei um salto da cama.
Olhei as horas no celular, ainda era meia noite. Curiosamente um ponto de interrogação se formou em minha testa, era muito cedo pra Paty ter chego. Pessoas como ela geralmente ficam até o final, talvez tivessem cancelado. Abri a porta. Ela estava ali parada, encostada na parede, seus olhos pareciam me devorar. Paty passou por mim e foi direto até o meu quarto, terminei de trancar a porta e fui logo em seguida. Ela estava em pé me observando fechar a porta do quarto, sentei na cama e olhei atentamente em seus olhos.
— E então... como foi a shopada? Se divertiu? — Minha voz era doce.
— Ha, foi legalzinho até. — Paty fez uma voz despreocupada. — Por que pergunta? — Ela franziu o cenho.
—Porque você chegou cedo, achei que tivesse sido chato. — Meus olhos fitaram os seus.
— E foi. Na verdade... tudo fica chato quando você não está por perto. Minha necessidade de te ver, foi maior do que a minha vontade de ficar lá. — Paty subiu em cima da cama e sentou em meu colo.
Foi o que bastou. Minhas mãos seguraram firme suas coxas, senti seus lábios se moldarem aos meus, nossas línguas dançavam frenéticamente. Suas mãos passeavam pelos meus cachos, pressionei seu corpo contra o meu. Fogo. Desejo. Ela se afastou recuperando o folego. Paty levantou e foi até a porta do quarto, seus dedos tocaram levemente o interruptor, apagando a luz. Era possivel ver apenas a sua silhueta, que aos poucos foi se despindo.
— San-Santo Goku! — Tentei controlar o meu nervosismo.
— Cala a boca nerd! — Paty Tinha os lábios próximos o suficiente para que eu pudesse senitr sua respiração. — Está na hora de eu te mostrar algo melhor que esses seus desenhinhos. — Paty me tomou num beijo quente e molhado.
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