Quando o amor acontece
9 As fases de uma rainha
Notas iniciais
Hoje eu acordei linda e diva. A primeira coisa que fiz foi ir direto ao banheiro pra fazer minha higiene pessoal. O silêncio na casa era normal, afinal, sempre morei sozinha. Fui até a cozinha comer meu croissant com nutella, sem essa dupla meu dia não seria nada bom. Logo abri a porta de vidro que dava acesso à sacada, não demorou muito pro vento começar a soprar forte pela sala, essa era uma das vantagens de se morar no décimo terceiro andar.
Alguns minutos depois, Dolores bateu na minha porta. Ela é a faxineira. Eu já sou bem grandinha, então não preciso de uma babá 24 horas por dia, muito menos alguém pra me ajudar a administrar as despesas do apartamento. Cozinhar? Tudo bem, eu encaro. Lavar e passar? Moleza. Lavar louça? É nojento, mas eu faço. Agora limpar casa...? Nem morta, isso é o fim. Por isso fiz questão que meus pais pagassem uma empregada pra mim. Pais. Quatro palavrinhas que carregam um significado de amor e carinho extremamente grande e isso sempre me dava um aperto no coração.
No momento minha vida se resume em três fases. "Paty quebra tudo". Essa foi minha primeira fase. Haaa naquela época eu era terrivel — sorri ao me lembrar do passado. Eu quebrava tudo. Batia nas minhas amiguinhas, na professora... acho que comecei a fazer isso quando percebi que era o único meio de chamar a atenção dos meus pais. Eu sempre fui nervosa também. Nunca queiram brigar com Paty Pannes. Mas até ai tudo bem, eu só dava beliscões e empurrões. A coisa ficou feia mesmo quando descobriram meu sobrenome. Pannes! É difícil admitir, mas quando se pronunciam o meu sobrenome, a impressão que se tem é de estar falando o nome do orgão sexual masculino. No entanto meu papi tomou uma atitude e me ensinou a canalizar a minha raiva. O Muay Thai salvou a minha vida.
Já a segunda fase é algo que eu gosto de chamar de "Metamorfose", é durante esse período que a deusa aqui, ira passar de delinquente insuportavel à popular poderosa e invejada. Confesso que essa é a minha fase chata, pois eu era nojenta e completamente metida. Zoava os nerds, namorava o capitão do time de futebol, passava todas as tardes fazendo compra no shopping com minhas amigas. Eu morei no Rio de Janeiro até meus 16 anos, então nos finais de semana sempre rolava uma praia. Naquela época eu ainda estava conhecendo meu terreno, ganhando espaço, por isso sempre haviam brigas por popularidade. Era pra ser representante de sala, comiter diciplinar, principalmente rainha da primavera, sempre tinha uma disputa acirrada por popularidade. Porém, minha vitória era algo inevitavel.
Depois que terminei meu café, fui direto ao meu quarto, entrei no closet e peguei uma muda de roupas fresquinha. Um shortinho preto e um top azul marinho, essa era a minha parte preferida do dia. Bater! Peguei meu celular e fui para a porta de madeira negra no corredor. Eu já estava no tatame ajeitando as luvas quando o celular tocou me fazendo pular de susto.
— Alô querida! — Falei assim que vi que era Valquiria.
— Oi Paty lindaaaaaa... — Valquiria sempre teve a voz animada.
— Pode falar amiga o que foi? — Prendi o telefone no ombro enquanto terminava de colocar as luvas.
— Então... eu e as meninas estavamos pensando em dar uma passadinha aí, pra colocarmos as fofocas em dia... pegar uma piscininha. O que me diz? — Valquiria tinha a voz doce.
— Infelizmente não da amiga! Tenho compromisso hoje e é super importante, não da pra desmarcar. — Senti uma certa raiva crescer em minha voz. Isso por que eu me lembrei qual era o tal compromisso importante.
— Haa ok né... — Valquiria ficou alguns minutos em silêncio. — Mas você vai hoje na Num, certo? — Ela perguntou com certo ar de preocupação.
— Com certeza estarei lá. — Sorri e desliguei o celular.
Comecei trocação de soco, controlava a minha respiração, tudo certinho. Minha sequencia de golpes era sempre bem executada. Meu pai é um engenheiro muito bem sucedido e tem varíos empreendimentos espalhados pelo país. No caso aqui em Cuiabá ele tem a Arcati e shopping Maresias e costumo falar que estes dois lugares são os meus palácios. Já a mamis é uma estilista famosa e está sempre lançando suas coleções na Europa. Eu fui educada pra ser uma lider, afinal, um dia eu irei assumir os negócios da familia já que sou a única herdeira. Por conta disso, eu perdi meu direito de escolha no momento em que nasci.
Meus presentes quando pequena não eram bonecas, muito menos casinhas e panelinhas. Eram saltos, vestidos, maquiagem, e por aí vai. Minha mãe sempre montava meus looks para ir a escola. Fazia balé e dança do ventre e tambem tinha aulas de francês e inglês. Como meus país estavam sempre viajando e ocupados, eles tentavam compensar essa falta de atenção e carinho com dinheiro. Eu podia pedir qualquer coisa que eles me davam, até hoje é assim. É por isso que quando eu digo que na minha fase de mimada e nojenta, nas disputas por popularidade, minha vitória era inevitavel. Essa é a educação que recebi, está no meu sangue liderar.
— Licença. Srt. Pannes? — De repente uma cabeça grisalha pulou por de trás da porta negra.
— Pois não Dolores. — Disse enquanto segurava o saco de pancadas que balançava devido meu ultimo golpe.
— É que a senhorita pediu pra chamá-la as 12h30. — Disse a bondosa senhora.
— Ha certo. Já estou indo. — Comecei a tirar minhas luvas.
Não tinha nada melhor do que a sensação de derreter dentro de uma banheira, era incrivel como os minutos lá dentro pareciam voar. Já eram 13h15 quando comecei a me arrumar e meu compromisso era as 13h30 — sim, eu chegaria atrasada para o compromisso. Mas esse sempre foi um dos meus caprichos, jamais que Paty Pannes será a primeira a chegar em algum lugar.
Se fosse a quase um mês atrás, eu diria que estaria muuuuuito irritada por ter que ir nesse compromisso, no entando, hoje já não posso mais dizer que odeio, pois eu estaria mentindo. Mas se seu podesse dizer uma palavra que descrevesse minha emoção, "Desconfortalvel" seria a palavra que mais se encaixa no momento. Coloquei minha Anabela preta, um vestidinho azul marinho e uma jaqueta preta. Agora sim! Eu estva linda, diva e poderosa. Pronta pra atacar e mostrar a minha superioridade a qualquer um que cruzasse meu caminho.
— DOLORES, JÁ ESTOU INDO! QUANDO TERMINAR, TRANCA TUDO, OK? BEIJOS DE LUZ QUERIDA. — Berrei enquanto pegava as chaves do meu bebê.
— ATÉ MAIS SRTA. PANNES! — Disse a senhora.
Não demorou muito e eu já estava no estacionamento e claro, sempre carregando os olhares comigo. Era o faxineiro, o zelador, o jardineiro... os gêmeos do primeiro andar... — sorri levemente com o canto da boca. Tinha as biscates que ficavam no terceiro andar olhando e fofocando, mas aquelas ali só mereciam meu despreso. Entrei no veloster e girei a chave.
— Óóó meu amor, ficou com saudades é? — Disse assim que o motor roncou em baixo dos meus pés.
Falando em meu amor... Observei uma mensagem chegar no meu iphone, era o Thad querendo saber se ia poder me ver hoje. Só iria responder depois, mandar uma mensagem logo em seguida não ia pegar nada bem, faço questão de mostrar pra ele que não sou desesperada. Meu compromisso ficava quase no final de Varzea Grande, uma cidade colada com Cuiabá. Por que tão longe? Digamos que eu sou o tipo de mulher que não pode ser vista em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Principalmente com aquele Alien! Graças aquele estranho estava tudo ferrado, ainda bem que ele teve o bom senso de entender a minha posição — bufei.
Por fim cheguei na galeria. Nada de muito glamur, bem ralé... lugar de gente de baixa categoria, mas suportavel. Pelo menos tinha um estacionamento, por que nem morta que eu vou deixar o meu bebê na rua, a merce dos marginais. Passei por umas botiques, um estudio de tatto, abri uma porta de vidro que dava acesso à uma lanchonete climatizada, só tinha um porém. O cheiro de fritura estava em todo lugar. Dei algumas voltas e pronto. Lá estava ele. Minha aberração que eu havia ganhado de brinde na faculdade. Meu mosntrinho — sorri. Bryan não havia percebido que eu tinha chego. Ele estava lá despreocupado, sem se encomodar com as pessoas a sua volta. Nas suas mãos havia um tablet onde ele depositava toda sua concentração. Mas é um idiota mesmo! Ele tava tão concentrado que nem percebeu os olhares femininos as sua volta. Com certeza ele estava chamando atenção. Agora eu extava extremamente cuirosa... como aquele nerd feioso estava chamando tanta atenção? Nem o Thad recebe olhares assim e olha que ele é um gato! Talvez seja aqueles cachos esculpidos por Deus ou então os olhos... aquela armação quadrada e negra, parecia fazer um convite pra desvendar todo o mistério que aqueles olhos cor de mel traziam.
— Oi nerd! — Sorri enquanto me sentando a sua frente.
— Oi Paty! — As palavras sairam como uma bala, seus olhos ainda davam atenção ao tablet.
— Então... teve mais algumas ideias pro nosso projeto? — Minha voz era calma e suave.
— Tive sim, eu até... — Bryan direcionou seu olhar até mim. Aqueles olhos me observavam atentamente. — Você está... linda.. — Sorriu.
— Queridinho, eu nasci linda. — Balancei meu cabelo.
— E a humildade? Onde fica? — Bryan soltou uma risada gostosa. — Sabe, eu achei um apelido que combina perfeitamente bem com você? — Aqueles olhos ainda me encaravam.
— Ha é? E qual seria? — Observei o cardapio, não dando muita atenção para o que ele falava.
— Paty Pannes! A rainha dos tomates. O tamatão Alpha. — Disse ele entre risos. No mesmo instante minha atenção voltou para o nerd a minha frente.
— Você até pode me chamar assim, mas eu terei que matá-lo depois disso. — Sorri sinicamente enquanto estralava os dedos.
— Ok, parei. — Ele levantou as mãos.
Os assuntos do trabalho logo foram decidos, Bryan havia trago alguns materiais que ele tinha feito no Ilustrator e Photoshop, era bem legais. Conceito do projeto, ok. Material pra divulgação, ok. Planta do projeto, ok. Agora viria a parte mais chata e a que exigiria mais tempo juntos, construir uma maquete. E uma maquete perfeita, por que nada que passa pelas minhas mãozinhas sai feio. Na minha bolsa o celular não para de vibrar, era o Thad querendo minha atenção. Minhas amigas pedindo cortesias e outras mandando fotos do seus looks para a baladinha de hoje. Essa é uma das obrigações de ser uma rainha, ajudar as vitimas da moda e o peso é maior quando se é filha de uma estilista famosa.
— Vou querer dois x — burguer. — Bryan falava com o garçom.
— Eu quero um sanduiche natural. — Disse logo em seguida.
Estava tudo indo bem, até que a companhia do Bryan não era ruim. Foi aí que vim um Deus grego entrando pela porta de vidro. Loiro, alto e de olhos azuís. Em seus flancos veio duas meninas morenas e mais um cara de boné. Espera... Espera aí! Um momentinho só, por que eu estou arco-irís agora. AQUELE É O MEEEEU DEUS GREGO! Mais que droga! O que o Thad estava fazendo aqui? E com Elise e Jenifer? Era a pior situação possivel. Thad e as meninas não podiam me ver aqui, não nesse lugar horroroso, muito menos com esse nerd.
Meu coração começou a bater forte, eu suava frio. Meu medo era constante. Eu não podia manchar minha reputação assim. Merda, merda, merda, merda! Meu mundo desmoronou quando vi que eles tinham avistado Bryan, vinham na nossa direção. Será que irão zoá-lo? Então Bryan notou minha cara de pavor, olhou para traz e fez uma cara sem graça. Não foi preciso falar nada pra ele entender a situação. Então o nerd começou a procurar algo em sua mochila e tirou uma mascara preta que mais parecia um robo.
— Toma! Coloca isso rápido. — Ele me entregou a mascara.
— Não, para. Eu não vou colocar esse troço nojento na minha cabeça. — Bufei.
— Então pode dizer adeus ao seu posto de rainha. — Pra ser bem sincera... aquelas palavras doeram.
— Me dá isso aqui! — Peguei a mascara quase arrancando a mão do Bryan junto.
Santo cristo! Como essa mascara vai me salvar? Eu só vou piorar a situação. Posso até ver amanha na pagina oficial da Arcati: "Paty Pannes é vista em um lugarzinho furreca com um nerd estranho! E olha a bomba, ela estava usando uma mascara ultrapassada e ridícula. Será que Paty decidiu antecipar o carnaval?" Já podia ver tudo. Todos esses anos de abdicações e babações, todo o investimentos dos meus pais em mim, tudo tinha ido pelo ralo. Tudo por causa desse nerd, se não fosse por ele eu não teria que frequentar esse tipo de lugare. Mas ninguém podia imaginar que o Thad e as meninas ia andar pra esse lado da cidade. Agora tudo o que eu podia fazer era deixar rolar.
— Aí galera! Olha só o que temos aqui, o nerd que anda implicando com a minha bonequinha. — Thad começou a provocação. Eu achei que haveria uma respota imediata do Bryan, mas tudo o que ele fez foi comer o x — burguer que havia chego.
— O gato comeu sua lingua o mané? — O cara de boné bateu na mão do Bryan, fazendo com que o lanche caísse no chão.
— É, eu implicava com sua bonequinha sim, mas já perei. — Bryan não deu atenção ao cara de boné e pegou o outro x — burguer que estava na mesa.
— É o seguinte, quero só te dar um recado. — Thad puxou um cadeira e sentou de frente para o Bryan. — Você é um lixo! E pessoas como eu, Paty, as duas gracinha ali, nós costumamos pisar em lix... mas que porra é essa? — Thad agora me encarava. Droga, ele tinha me reconhecido.
— Darth Vader? É serio? — Todos riram, menos Bryan que estava concentrado demais no seu lanche. — Caramba nerd, você está pegando uma fã de Star Wars? Viram isso galera? Temos um casal escrotinho aqui. — Thad caia em risos.
— Ouvi dizer que essas pessoas não são nada higienicas. Se brincar ela deve cultivar uma floresta negra no meio das pernas. — Elise e Jennifer riram juntas.
— Arrasou amiga! — Elise bateu palmas.
— Não sejam ignorantes! — Bryan tinha voz serena. — Essa é a minha prima, ela estava trabalhando em uma convenção nerd. Ela apenas esqueceu de tirar a mascara. — Boa Bryan! Eu estava começando a me sentir aliviada.
— Ok, então me fala uma frase de efeito. — O cara de boné me encarava. Eu? Euzinha falar uma frase de efeito? Mas nem sei quem é esse tal de Dath. É uma marca de roupa infantil? Reuni toda a coragem que eu tinha, depois gritei a primeira frase que me veio a mente:
— A-AOO INFINITO E ALÉÉÉÉÉÉÉMMM! — Levantei meu braço direito apontando para o céu.
Observei Bryan colocar um monte de batata frita na boca na tentativa de suprimir uma gargalhada. Os outros quatro me encaravam sem entender. Eu tinha a leve sensação que havia pagado o maior dos bafões. Mas pra minha surpresa Bryan tentou clamufar a minha vergonha — ou não.
— Ok, vocês venceram! — Bryan afirmou. — Ela não estava em uma conveção nerd. A verdade é que minha prima nasceu com uma deformaçãozinha no cerebro e por isso ela é meio retarda. Ela acredita que o Darth Vader e o Buzz Lightyear são a mesma pessoa. — O QUE??? EU MATOOO VOCÊ BRYAN. EU MATO VOCÊ.
— Está explicado... — EU NÃO ACREDITO QUE O THAD ACREDITOU NISSO! HAAAA BRYANNN... VOCÊ NÃO PERDE POR ESPERAR.
JÁ DEU! Me levantei numa fração de segundos. Eu estava muito puta e tinha aquela vontade imensa de quebrar a cara de alguém. Precisava me acalmar, ou eu juro que vou matar um deles. Fui marchando até saída da lanchonete, Bryan veio logo em seguida dando as costas ao meu Deus grego. Por incrivel que pareça ele não falou nada, foi o caminho todo em silêncio até o estacionamento. Que ódio! E por que o Thad estava andando com Elise e Jennifer? Ele nem me disse que ia sair.
— Ei, você está bem? — Bryan falou assim que chegamos no carro.
— Tô. — Menti enquanto jogava a mascara do tal Dath no chão.
— Fica calma! Agora as coisas mudaram, eu estou com você, lembra? Posso não ser popular ou um contador de histórias muito convincente. Mas sempre vou tirar você dessas roubadas. E sabe por que? — Bryan afagava minha cabeça. Aquilo de certa forma me acalmava.
— Por quê? — Não consegui esconder minha curiosidade.
— Por quê um heroi sempre protege sua rainha. — Bryan tinha o sorriso mais doce do mundo.
Foi o que bastou. Eu entrei no meio dos seus braços e o abracei. Percebi que ele ficou meio sem jeito com a minha atitude, mas eu não estava nem aí. Naquele momento eu senti uma necessidade tão grande de ter ele nos meus braços que não pude aguentar. Minha unica ação foi abraçá-lo de uma forma que nunca abracei ninguem, então ele me abraçou. Era tão quente e reconfortante, nem passava pela minha mente a idéia de soltá-lo, apenas quis ficar alí sentindo seu perfume.
— Me desculpa! — Assim que percebi o que estava fazendo, o empurrei imediatamente. — Tchau! — Entrei dentro do carro e dei a partida
Aos poucos o rosto confuso de Bryan foi sumindo no retrovisor. O que deu em mim? Eu não posso me dar o luxo de bancar a emotiva, ainda mais com o Bryan. Qual é, ele é nerd. Minha cabeça estava com um turbilhão de coisas, não via a hora de chegar na minha casa. Precisava falar com Thad, tirar essa a história a limpo. Era impossivel ele me trair, não tem como ele achar uma menina melhor que eu ou será que tem? Senti um frio percorrer minha barriga.
Quando cheguei Dolores já tinha ido, o apartamento estava limpo, cheiroso e um silêncio que só era cortado pelo barulho do vento passando pela janela da sacada. Fui direto pro meu quarto e me joguei na cama, imediatamente peguei meu celular.
De: Paty
Para: Thad Lindo!
Oi, meu anjo. Acabei de chegar em casa, o que fez hoje?
Tirei minha roupa ficando só de calcinha. Fui até a geladeira e peguei um iorgute, depois comi uma banana — eu estava aflita. Outra vantagem de morar sozinha num andar alto, é que você pode andar pelada pela casa sem correr o risco de ser vista. Logo voltei para o quarto, até pulei quando vi que Thad havia me respondido.
De: Thad Lindo!
Para: Paty.
Oi linda. Então, dormi até tarde hoje e depois sai com Elise e Jennifer. Digamos que um amigo meu estava afim da Elise e como ela não sai sem a Jennifer, tivemos que sair os quatro. Ha, eu encontrei aquele nerd de publicidade e propaganda. Não se preocupe, eu o coloquei em seu devido lugar.
De: Paty.
Para: Thad Lindo!
Há ok querido. Que bom que se divertiu. Sobre o nerd, por favor, não se encomode mais com ele, tá? Eu não o odeio. Te vejo na Num?
De: Thad Lindo!
Para: Paty.
Tudo bem, se isso te faz feliz, me faz feliz também.. Sim, nos encontramos lá.
Pela primeira vez desde que sai daquele raio de lanchonete o ar ficou mais leve. Me senti desmoronar na cama. Thad é um dj bem famoso, é um dos melhores da cidade e além de tudo é meu namorado. Não posso dizer que é amor, mas o que eu sinto por ele é o mais próximo de afeição que eu consegui chegar. Novamente o telefone toca.
— Oi amiga, está tudo bem? — Minha voz saiu suave.
— Oi amiga... na verdade não. Eu quero te pedir um favor, mas estou sem graça. — A voz de Valquiria soou do outro lado da linha.
— Não, tudo bem. Pode falar. — Me espreguicei na cama.
— É que assim, vai ir um carinha que eu to super afim lá na Num. E sabe como é né... Você sempre chama a atenção. Então, hoje você poderia... se arrumar um pouco menos? — As palavras de Valquiria explodiram em minha mente.
— Desculpe, mas não posso fazer isso. — Minha voz saiu séria.
— Eu sou afim dele desde o ensino médio e quero que ele me note hoje. — Valquiria praticamente cuspia as palvras.
— Olha Val... não se preocupe com isso, você é linda, ok? Coloca esse sorriso lindo que você tem na cara, vista aquele vestido super sexy e com certeza você vai ganhar o seu boy magia hoje. Tenha confiança mulher. — Disse na tentativa de animá-la.
— Então tá, te encontro lá. Beijos. — A voz rouca da loira soou no telefone.
— Beijos de luz. — Foi a unica coisa que disse.
Era normal eu ouvir aquele tipo de coisa. Se tem uma coisa que a popularidade me ensinou, foi que em tudo há entenresse. As pessoas andam comigo por que a minha amizade tráz benefícios e eu as deixo andar comigo por que a amizade delas me beneficia em alguma coisa. É um sistema de trocas. Graças a Deus eu fui abençoada com belos traços e uma genética perfeita, então desde pequena eu ouvia as pessoas me chamando de bela, de linda e etc. Sempre sou escolhida. Não importa quem seja o cara, eu sempre sou a primeira opção. No entanto, eu descobri que nem sempre ser a primeira é bom.
"Rainha Absoluta!". Essa é a terceira e atual fase da minha vida. O ensino médio acabou, ser uma mimada reclamona na faculdade não ia colar. Precisava mudar meu visual de menininha pra mulher, mudar meu comportamento. Foi aí que resolvi criar uma nova Paty, uma mais linda e poderosa. Eu não zoava mais os nerds e nehum outro grupo social, mas eu acredito que cada um tem que ficar na sua, os grupos não podem se misturar. Também notei que na faculdade as pessoas saem muito, principalmente pra beber, então decidi que eu precisava ser o passaporte deles pra qualquer lugar. É claro que haviam outras festas, mas nehuma se comparava as minhas. Eu tinha os contatos, sabia quem era os bons e trazia para as minhas festas. Conheci fornecedores, então eu também tinha as melhores bebidas, principalmente as importadas.
Os semestres foram passando e aos pouco eu fui construindo meu império. Esse era o meu plano até terminar a faculdade, mas o viadinho do Bryan resolveu aparecer naquela universidade e acabou colocando meus planos em risco. Tudo bem que a culpa é minha por ter esbarrado nele aquele dia, afinal eu estava sem minhas lentes de contato, mas aquele nerd bem que podia olhar por onde anda. Eu fiquei tão irritada com ele, era como se meu sangue fervesse e meus orgãos explodissem, por isso avancei nele. Foi a primeira vez em muitos anos que eu havia perdido meu controle e o pior, na faculdade. Naquele dia eu decidi que Bryan Marralkcs era uma ameaça. Passei a persegui-lo, provocá-lo, mas tudo mudou quando fomos escolhidos para formar uma dupla no trabalho.
Já é a terceira vez que ele me pega em um momento não muito bom. Primeiro foi a reação alérgica, depois meu quarto de treino e agora esse abraço super esquisito. O que deu em mim? Eu não sou de mostrar fragilidade, não fui educada para ser fragil. No entanto tem um lado bom nisso tudo, eu ganhei um confidente. O Bryan não quer me derrubar ou tirar o meu posto, pra falar a verdade ele nem se importa. Tudo o que ele quer é poder ver seus deseinhos em paz e tudo o que eu quero é fazer o trabalho sem ser vista com ele. Pode parecer loucura da minha parte, mas por um momento, me veio uma idéia na cabeça de que talvez, não seja tão ruim assim ter aquele nerd feioso como dupla. Apenas talvez.
Acordei com meu celular vibrando, era o despertador. 22hrs. stava na hora da diva aqui brilhar! Fui até o banheiro tomar meu banho. Dessa vez eu caprichei mais no visual, queria que o Thad olhasse só pra mim e mais ninguém. A Num é uma casa de balada eletrônica, muita gente vai lá e o Thad ia tocar lá hoje. Peguei as chaves do meu bebê e fui indo até o estacionamento.
Novamente aquela sensação que eu particulamente a-do-ra-va, a sensação de olhares te cuidando. Eu sempre estou ciente de estar sendo observada e isso se confirmou ainda mais quando dois homens que tiravam seus carros da garaje, pararam tudo o que estavam fazendo pra me ver passar. Um deles levou um safanão da esposa. Normal, eles não tem culpa de serem hipnotizados pela minha beleza.
A Num estava lotada. A fila para entrar dava volta no quarteirão, mas eu sou a namorada do Dj que vai tocar na balada, um dos organizadores e tenho amizade com os seguranças. Obviamente não peguei a fila. Assim que entrei uma loira veio em minha direção, em seu encalço mais duas meninas.
— Haaaaaa sua louca do cú! — Valquiria havia me tomado num abraço de urso. — Você está Linda. — Ela sorriu.
— Obrigada Val. Você também está otima. — Retribui o sorriso. Elise e Jennifer me deram oi também, mas para aquelas ali não dei muito moral não.
Eu amo muito tudo isso! O poder. A atenção. Não tinha um que não via eu passar e não arregalava os olhos. Não demorou muito e o resto da galera chegou. Eramos um grupo de nove. Tinha o Simom que era muito bom com informática e estava de rolinho com meu anjinho a Becah. Da turma o Louis é o mais cacheceiro, só tinha trinta minutos de festa e o doido já tinha secado uma Smirnof sozinho. Era pra Denise estar aqui também, mas ela mandou uma mensagem dizendo que ia ter que cuidar do irmãozinho. Tambem tinha o casal mudo — Elise e Jennifer. Elas sempre estavam com a gente, mas quase nunca falavam. A Val só estava presente de corpo, por que a mente dela parecia estar em outro lugar. E por ultimo meu Deus grego, o Thad, mas ele devia estar em algum lugar preparando sua mesa de som.
— BOA NOITE GALERAAAAAAAAAAAAAAAA! — Disse um homem no palco. — ESPERO QUE ESTEJAM CURTINDO A FESTA. AGORA VAMOS COLOCAR O TREM PRA FERVER, COM VOCÊS A ATRAÇÃO DA NOITE.... THAAAAAAAAD! — Agora é a minha hora. Sorri asssim que o homem falou.
Meu Deus grego estava lindo, só não gostei muito quando aquele bando de piranha começou a gritar o nome dele. Em questão de minutos eu já estava no palco, ao lado de Thad. Daqui eu tinha visão de tudo. Dava pra ver os casalsinhos se pegando nos cantos, o espaço era escuro e tinha bastante fumaça. Varios flahs me acompanhavam, fiquei tão perdida em meio aqueles clarões que nem percebi quando Thad começou a tocar. A galera vibrava! Fiz questão de soltar bem o meu cabelo e resolvi aplicar tudo o que havia aprendido com balé e dança do ventre e quando dei por mim eu havia me entregado totalmente aquele som viciante.
A música estava ótima. O Thad era quem tocava, mas eu era quem atraia os olhares. Cada reboloda e mechida de quadril, o efeito que as luzes causavam no meu cabelo cor de fogo, tudo contribuia para que eu fosse o objeto de desejo e atenção. Bastou olhar apenas uma vez para a platéia para os meus olhos registrarem uma cena que jamais esquecerei. Eu não estava entendendo mais nada., um misto de confusão e supresa tomava conta do meu corpo. Eu observava um rapaz alto de cabelos cacheados e óculos que dançava com uma outra ruiva, pra ser sincera ele usava uns passos bem estranhos. Uma hora ele imitava um robo e em outra ele parecia simular uma batalha enquanto sacava uma espada invisíel no ar. A menina que o acompanhava parecia gostar dos gestos que apesar de malucos, eram bem originais. Bryan havia prendido completamente a minha atenção e unica pergunta que passava na minha mente era: desde quando nerds feiosos vão a balada?
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