Quando o amor acontece
4 A verdadeira face
Notas iniciais
É umas duas horas da tarde e eu sai pro meu horário de almoço. É claro que se eu fosse normal, sairia direto da agência pra um restaurante ou lugar que eu pudesse comer, mas este herói aqui está sempre em busca de santuários e nesse momento estou trancado no banheiro de funcionários da agência. Eu assistia Belzebub. Sempre fazia isso quando via que tinha algum tempo sobrando, essas é uma das minhas habilidades especiais – ver animes em lugares inusitados. Quando eu fazia ensino médio, me lembro de sempre subir no telhado da escola e escalar uma arvore extremamente grande que tinha ao lado pra ver animes. Então os professores me apelidaram de “Sumiço”, porque eu sempre dava um chá de sumiço no intervalo. Sorri ao lembrar da peripécia.
— Marralkcs! Eu não ligo pro que você faz no seu horário de almoço, mas por favor, saia logo. Preciso de você nas aberturas de conta poupança. – O Gerente deu umas três batidas na porta.
— Ok, já estou indo. – Mas tudo o que é bom, dura pouco. Desliguei o Tablet. Se fosse como no passado, provavelmente hoje eu estaria muito nervoso. Afinal, amanhã irei sair com a Tati. E será só nós dois. Mas essa vida de otaku e geek exige algumas abdicações e uma delas é namoradas. Não que seja impossível, mas é difícil encontrar uma menina legal que aceite o meu estilo. Eu sou um combo. Pra me amar tem que amar meus animes, jogos, filmes e séries, ou seja, o pacote é completo.
A tarde passou rápido e eu quando dei por mim, já estava no ônibus. Tinha que tomar cuidado pra não encontrar com aquele demônio ruivo, ela estava me causando muitos problemas. Haaaa por que eu não aprendi a conjurar barreiras mágicas? Isso seria muito útil, a manteria afastada e preservaria minha paz e silencio. Assim que o ônibus entrou na rua principal, já era possível ver os alunos que tomavam conta das calçadas, dos bares e sorveterias. Arcati é uma das universidades mais famosas do estado e é conhecida pelo designer fantástico. Por dentro a impressão que se tem é a de estar num bosque, é cheia de eucaliptos e toda iluminada por tochas, mas tinha um patio todo de grama onde tinha as lanchonetes, apenas ali e nos blocos é que se tinha luz elétrica. Eu tinha me mudado recentemente, então não sabia muito. Porém, já tinha ouvido que essa família Arcati tem várias construções na cidade e a universidade é de longe a mais bela.
Hoje o clima estava fresco, dava pra sentir meus cachos dançando com o vento. Quando desci do ônibus. passei por dois caras com short e regata, provavelmente iam malhar e isso me fez doer as entranhas. Já havia umas três semanas que a mensalidade da minha academia estava atrasada, por isso fiquei um tempo sem malhar. Algumas pessoas pensam que nerds e geeks não combinam com academias, mas acho isso errado! Afinal de contas, não tem nada demais em querer ter uma saúde boa, em querer estar bem consigo mesmo e isso é algo que todos deviam ter a obrigação de fazer.
Eu estava tão perdido em meus pensamentos, que não percebi que atravessava a rua no sinal vermelho. Não demorou muito e pronto. Senti algo pegar no meu joelho com força e isso fez com que eu rolasse por cima do objeto. Então minha testa se chocou contra algo fazendo-o quebrar. Certeza que era um vidro. Depois de minha pele ter sido rasgada, senti meu corpo ser arremessado pro alto num trezentos e sessenta e só parou quando ouvi o baque do meu corpo se encontrando com o asfalto. Um carro havia me arremessado dois metros pro alto.
— Ai meu Deus! Você está bem menino? – Ouvi uma voz sair da janela do carro.
— Acho que sim... me desculpe eu atravessei no sinal vermelho. – Eu ainda estava zonzo e minha testa estava ardendo, mas por incrível que pareça estava bem.
— Não,tudo bem, eu também estava distraid....HA NÃO! VOCÊ É AQUELE NERD ESCROTO. – A voz calma da menina subiu uma oitava. Paty estava em pé à minha frente.
— VOCÊ QUER ME MATAR É? – A raiva consumia o meu corpo.
— NÃO RECLAMA TÁ? VOCÊ DEU SORTE POR SER ATROPELADO POR MINHA PESSOA. – Paty deu um sorriso sarcástico.
A situação era estranha. Eu estava sentado no meio da rua, discutindo com uma ruiva, um cabelo tão vermelho quanto o sangue que escorria da minha testa. Tinha um Veloster parado um pouco a minha frente, mas os outros carros seguiam seus caminhos. Alguns curiosos faziam uma roda e eu e Paty estávamos no centra. Por que ela me odiava tanto? É tão ruim assim conversar com um geek? Tentei reunir todas as minhas lembranças com ela, todas as vezes que brigamos, então cheguei a uma conclusão.
— Entendi. Vou te dizer uma coisa, se você é alguma espécie de shinigami tentando me levar pro submundo, saiba que esse herói não perde uma luta tão fácil. – Eu tinha um sorriso largo no rosto.
— “Shini” o que? – Paty trincava os dentes.
— Ceifadores, são criaturas que levam nossas almas. – As palavras dançavam em minha língua. A plateia a nossa volta não parava de rir.
— Eu.. EU SOU UMA DAMA! – A frase terminou num estalo. Senti o lado direito do meu rosto arder, como se estivesse em brasa.
— MAS QUE MÃOZINHA DE CHUMBO! – Eu gritei. As pessoas nos encaravam assustadas.
— POR QUE NÃO PODE SER IGUAL AOS OUTROS CARAS? SEU NEEEERRRD! – Paty estava extremamente nervosa, ela bufava a cada palavra.
— PRIMEIRAMENTE, É GEEK. SEGUNDO, VOCÊ É UMA RAINHAZINHA FUTIL. VIVE NO SEU MUNDINHO COR DE ROSA. ACORDA! A VIDA BEM MAIS DO QUE IR A BALADAS E FAZER COM...— Antes que eu terminasse, Paty levantou o pé direito e o direcionou contra o meu rosto, acertando meu nariz e boca.
Uma dor aguda se apossou da minha face. Todos estavam com a boca escancarada no formato de um “O”. Provavelmente nunca esperariam por uma atitude dessas, não vindo da rainha. A pesada que ela me acertou, fez com que eu caísse de costas. Talvez a verdade tenha sido dura demais. Paty jogou um pedaço de papel ao meu lado e foi marchando para o seu carro e arrancou numa fração de segundos. Olhei o papel que estava escrito “Band-aid”, aquilo me fez lembrar que minha testa estava tingida de vermelho. Aquele demônio, ela devia saber que minha testa ia precisar levar ponto.
Agora eu estava na faculdade e com um pano enrolado na cabeça. Todos olhavam pra mim com cara de espanto. Curiosos! Será que nunca tinham visto alguém sangrar? A minha sorte é que na Arcati existe um consultório onde alguns alunos de medicina fazem estagio, eu não queria perder a aula então não tive outra opção. Depois de alguns minutos encontrei uma sala no bloco de medicina com a placa “Pronto Socorro Arcati”, com certeza era ali.
Assim que entrei fui atendido por duas moças que logo foram fazer minha ficha. A sala era pequena, com umas seis cadeiras, um balcão onde as recepcionistas estavam, um corredor estreito com duas portas, uma na direita outra na esquerda. Apenas o barulho da tv tomava conta do espaço. Por se tratar de uma emergência, a doutora logo me chamou.
— Bryan Marralkcs, por favor entre! – Uma cabeça loira havia pulado para fora da porta que estava a esquerda no corredor.
A doutora pediu para que eu me sentasse na maca e ficou ali me examinando por alguns segundos. Ela levou a mão ao meu rosto e tocou no local da testa que estava rasgado. Uma dor terrível tomou conta do meu rosto, minhas mãos automaticamente grudaram no colchão da maca. Esse herói não podia se render a dor assim tão fácil, não na frente dessa dama. Enquanto a doutora examinava o meu rosto, soltei um sorriso forçado.
— Que fofo! – A doutora riu. – Você está se fazendo de durão na minha frente, não está? – Como ela descobriu?
— Nã-não. – Senti minha cara ferver, mas desta vez era de vergonha.
— É sério, pode chorar se quiser. Será o nosso segredinho. – Ela disse enquanto colocava a luva branca.
— Esse herói não chora. Não na frente de uma dama. – Minha voz não tinha expressão.
— Dama? – A doutora me encarou surpresa.
– Devo admitir, você é engraçado. – Novamente ela sorriu.
— Então doutora, ainda consigo assistir a aula hoje? – A preocupação ganhou vida em minha voz.
— Consegue sim, mas você vai precisar levar três pontos na testa e o seu rosto esta um pouco inchado nas áreas do nariz e boca. Recomendo que passe gelo. – Ela pegava linha e agulha.
O clima naquela sala era estranhamente confortável e silencioso, se percebia a paz do lugar.A doutora era uma mulher atraente, loira, olhos cor de bronze, devia ter seus vinte e sete anos. Montada num salto alto e um vestido vermelho, por causa do jaleco ela aparentava ser séria, e isso era sexy. Com certeza não era ruim passar um tempo ao lado dela, mas logo isso acabou.
— Acabei! – Sua boca se abriu num sorriso.
— Obrigado douto... – Ela colocou o indicador nos meus lábios.
— Me chame de Camila. – Sua voz era doce.
— Certo, então obrigado Camila. – Em compensação a minha voz era a de um troll.
— Que isso, imagina. Volte daqui uma semana para a retirada dos pontos, ok? – O que é isso, por um acaso eu estava falando com um anjo?
— Ok, vou indo então. – Minha voz não tinha expressão alguma.— Espera! Só mais uma coisa. Como conseguiu se machucar desse jeito? – Camila tinha a voz seria.
— Demônios. Eles estão por toda parte, e se você não tomar cuidado... eles te atropelam. – Trinquei os dentes com as últimas palavras.
— Então nesse caso, recomendo que utilize um crucifixo. – Ela deu uma risada gostosa.
Se meus problemas com aquela maluca pudessem ser resolvidos com um crucifixo, eu estaria pulando de alegria. Eu não sou um cara que gosta de causar problemas, eu os evito. Sou o tipo de pessoas que faz o que quer fazer, não ligo muito pra opinião dos outros e não gosto de me destacar, por isso sempre tento passar despercebido. Mesmo assim, é incrível a minha habilidade de atrair problemas.
Aquela brincadeira de médico me custou o primeiro horário, quando cheguei já tinha até acabado o intervalo, então tive que passar o resto da aula copiando as anotações de Tati. Ela tinha os olhos fixos em mim, aquelas esmeraldas pareciam tentar desvendar os meus segredos.
— Uau, você é bem forte né? – Tati tocava meu braço com o indicador.
— Eu malho. – Respondi sem graça.
— Hummm, gostei disso. – Ela mordia os lábios.
— Galera, depois da facul a Tati vai estar dando uma festa no club, estão todos convidados. – Uma jovem de cabelos pretos abriu a porta da sala.
— UHUUUULLLL! – Todos na sala gritaram em uníssono, menos o herói aqui, é claro.
Que tipo de brincadeira é essa? Siga o mestre? Todo mundo faz o que aquela anta quer. Não é possível que ela tenha tantos seguidores assim com aquele tipo de comportamento, pensando melhor, se ela é tão bem de vida do jeito que falam, então as pessoas no mínimo devem atura-la. Continuei copiando as anotações, pensar naquele demônio estava me deixando de mau humor. Não acredito que ela me atropelou e a única coisa que fez foi me bater e deixar um band-aid, aquilo não era postura de rainha! Minha sorte é que meus cachos estavam escondendo os pontos na minha testa, e aquele demônio teve sorte também, por que se ela tivesse quebra meus óculos eu ia....
— Bryan, nós vamos a festa. Você não vai? – André e Tati estavam em pé a minha frente.
— Eu? Ir na festa daquele troço? Não. Esse herói prefere ir se purificar. – Minha voz era calma.
— Então tá, até segunda Bryan. – André deu um tapinha no meu ombro.
— Até segunda. – Tati deu uma piscadinha pra mim. Ha é, tinha me esquecido do encontro.
Entrei no ônibus pensativo, meio fora de mim, naquele momento estava preso no barulho de minha mente. Hoje o dia tinha sido péssimo, briguei com uma menina, fui atropelado, levei pontos na testa, com certeza estava numa maré de azar. Paty Pannes, essa era uma menina que eu tinha que evitar a qualquer custo, aquele demônio estava perturbando minha paz de herói, e isso não era bom. Comecei a ouvir algumas musicas de Guilty Crown, eu gostava de outros gêneros de música também, mas apenas a japonesas me acalmavam. Depois de quarenta minutos eu já estava em casa.
— Meu Deus! Maninho o que houve com você? – Amanda surgiu na sala assim que abri a porta.
— Eu tropecei. – Respondi logo em seguida.— MÃEEEEEEE! Maninho ando brigando na rua. – Amanda era especialista na arte de fazer escândalo.
— Cale-se chibi! – Pulei em cima dela.
— Ahahahahaa, para maninho! Hahahaha PARA! – Amanda chorava de rir com as cocegas que fazia em sua barriga.
— Implore por perdão jovem donzela. – Sorri.
— Está bem, o herói venceu. Me perdoe guerreiro alado. – Ela sempre sabia o que dizer pra mim solta-la.
— Está perdoada. – Larguei Amanda e fui até a cozinha.
Minha mãe estava dançando enquanto fazia algo pra comer, percebi que ela usava um fone de ouvido. Agora sei por que ela não atendeu o chamado da Amanda. Quando não estava na academia, estava na cozinha preparando seus shakes, ela seguia uma dieta rigorosa. Aquela sim é uma rainha de verdade. Lotou pra educar e sustentar eu e minha irmã, trabalhava, cuidava da casa e ainda conseguia tempo para sair com as amigas e cuidar de si mesma. Aquele tomate ambulante não passa nem perto de ser uma rainha. Droga! Já estava querendo ficar de mau humor.
— Boa noite mãe! – Minha voz era calma.
— “E depois que começar não se arrepende, e depois que me atiçar não adianta mais, quando me atiçar não adianta mais...” Há, o-oi filho. Você está ai é? – Aline respondeu surpresa.
— Sério? Anitta? – Minha voz saiu acompanhada de risos.— E daí? É super na mod.... Você andou brigando? – Aline arqueou uma das sobrancelhas.
— Há, isso aqui? – Apontei para os pontos na testa.
– Eu tropecei.
— Isso não parece acidente pra mim mocinho.– Aline analisava os pontos na minha testa.
— Não se preocupe mãe, está tudo sob controle. – Sorri tentando transmitir confiança.
— Hum... sei. – Aline tinha um tom de desconfiança.
Dei um beijo em sua testa e fui até o meu quarto, minha mãe quando começava com perguntas, não parava mais. Tratei de encerrar o assunto logo. Quando entrei no meu quarto Amanda já tinha se apossado de tudo, inclusive do x – box. Ela usava um blusão vermelho que era o dobro do seu tamanho. Se eu fosse descrever minha irmã em detalhes diria que ela é uma versão miniatura da Karin de Naruto, só que ao invés dos cabelos serem ruivos eles são castanhos. Usava um óculos preto que parecia ser maior que sua cabeça, estava com seus quinze aninhos. Ela é uma geek também, mas sua verdadeira paixão são livros, ela se alimenta de palavras e respira histórias.
Eu e Amanda ficamos jogando até de madrugada, até que ela caiu no sono. Ainda bem que eu malhava! Aquela criança era pequena mas parecia pesar uma tonelada. Era sempre assim, ela vinha jogar no meu quarto, então ficava até pegar no sono e em seguida eu a colocava na cama. Eu estava sem sono e era madrugada de sábado, então fui direto pro not procurar alguns animes pra ver. Aquilo era tão bom. A vida seria muito melhor se existisse harém, ecchi, magias, o mundo real seria muito mais interessante.
Acordei com o celular tocando Hero’s come back. Percebi que estava sentado, e minha testa estava grudada no teclado do not. Droga! Vi tanto anime que nem percebi que peguei no sono, olhei na janela e vi que o sol já se encontrava majestoso no céu. Me perguntei quanto tempo eu havia dormido. Tentei me lembrar exatamente em que momento eu apaguei, mas minha mente estava completamente falha. Vamos lá cérebro, funcione! Peguei rapidamente o celular que dava um trezentos e sessenta do meu lado.
— A-alô. – Respondi com voz de sono.
— Oi Bryan, é Tati. Eai, já está pronto? – Tati tinha a voz extremamente empolgada.
— Há... oi Tati. P-pronto pro quê? – Eu mal formulava as palavras.
— A gente combinou de se encontrar no shopping hoje. Você não se esqueceu, né? – Tati agora tinha uma voz seria.
— Claro que não, sua boba. Rááá pegadinha do malandro ie ieeeeeeeeee. – Incivel como minha voz ganhou vida de repente.
— Hahaha, engraçadinho. Eu já estou indo, te encontro lá. – Tati desligou o telefone em quanto ria.
SAANTO GOKUUU! Como eu pude esquecer do encontro? Há cérebro imprestável que não lembra das coisas! Corri até meu guarda roupa, peguei uma calça preta, uma blusa de manga cumprida azul marinho e uma cueca. A próxima rota que esse herói tinha que seguir era pro banheiro. Esse herói aceitou essa missão e não pode falhar, por que um guerreiro alado nunca deixa uma dama em apuros. Sai do banheiro ainda de toalha. Era meio brega, mas eu tinha feito uma lista, pra ser sincero estava mais pra um roteiro do nosso encontro.
Missão: Encontro com a donzela
Rank: S
Etapa 01 – Marketing Pessoal
* Tomar banho
* Ficar cheiroso
* Roupa descolada
* Cachos ajeitados
* Não agir feito um retardado mental
Etapa 02 – Rota do encontro
* Leva-la para ver um filme
* Leva-la para comer em um lugar bacana
* Pegar um bichinho de pelúcia na maquina de brinquedos
* Tomar sorvete
* Jogar boliche
* Comer pizza
— W, S, D, R, T? – Minha mãe lançou um olhar curioso em direção a minha testa.
— O quê? – Perguntei sem entender.
— Essas letras... estão marcadas na sua testa. – Ela bebericava uma xícara de café. Sim, era meio dia e as moças aqui em casa ainda estavam acordando.
— Eu dormi com a cara no teclado. – Sorri sem graça.
Eu já estava no ônibus e praticamente derretendo. Descobri hoje que não é uma boa ideia usar calça preta no calor, parecia que minhas pernas estavam sendo cozinhadas. Até que eu estava bem apresentável, as roupas que escolhi valorizavam as linhas do meu corpo. Esses anos de academia fizeram muito bem a este herói – sorri confiante. O shopping Maresias ficava um pouco longe, se encontrava basicamente no centro de Cuiabá. Eu até pensei em ver alguns animes para passar o tempo, mas da última vez que vi acordei com a testa no teclado e atrasado. Por tanto, dessa vez seria mais cauteloso.
Depois de quarenta minutos eu já estava no shopping, que inclusive era imenso. Tinhas quatro andares. Não demorou muito para me perder, era tanta coisa, tanto corredor que eu não sabia para onde ir. Eu tinha me mudado recentemente pra cidade, então não conhecia nada aqui. “Tati, vem me busca tô perdido =/”, mandei um wathss pra ela na esperança que me salvasse. “kkkk seu bobo, onde você ta?”, graças a Deus, minhas preces foram ouvidas. “Estou na frente da livraria Janina =D”, mal terminei de digitar e eu já tinha uma resposta, “Sei onde é, fique onde está que eu já chego aí”. “Esse herói agradece o/”.
Apesar das dificuldades, não demorou muito para que a donzela encontrasse o herói. E aquela dama estava encantadoramente linda. Não era uma dama tradicional, daquelas que se vê em contos de fadas com vestidos, babados e salto alto, era diferente, uma beleza única. Ela usava um jeans rasgado, uma blusa de ombro caído amarela e uma regata preta. O All Satr vermelho fazia parte da combinação, o cabelo laranja jogado de lado, um batom vermelho que dava vida aos seus lábios e uma bolsa branca com detalhes de caveirinhas.
— Uauuu! Você está um gato. – Os olhos de Tati brilharam.
— O-obrigado. Você está encantadora hoje, uma perfeita dama. – Respondi sem graça.
— Wooonti, você é um fofo. – Tati deu um beijo na minha bochecha.
– Vem, estou morta de fome. – Tati saiu me puxando pela mão.
Segundo a rota que eu escrevi, a primeira coisa que faríamos era ver um filme, mas pelo visto nada naquela maldita folha será seguido. Tati insistiu pra comermos primeiro e depois ver o filme, quando dei por mim já estávamos no Giraffas pedindo o lanche. Conversamos sobre várias coisas, filmes, universo, assunto era o que não faltava. Apesar de não seguirmos o meu roteiro, eu estava gostando, Tati era uma menina divertida e atraente também, afinal, ela estava recebendo bastante olhares.
— Aff... não acredito. Olha só quem está sentando atrás de você. – Tati falou com desprezo.
— Quem? – Automaticamente olhei para traz.
Com certeza foi a coisa mais linda que eu já vi. A própria definição de beleza em uma única pessoa. Ela vestia um shortinho preto, uma sapatilha azul marinho, uma blusa de botão azul bebê, uma regata vermelha e um cabelo que me lembrava o sangue. Ela sempre usava jeans ou vestidos abaixo do joelho, então fiquei surpreso ao notar a caveira mexicana tatuada em sua coxa direita. Ela estava rodeada pelo seu grupinho de amigas, todas usando saia e salto. O único homem no grupo era um cara loiro de olho verde, parecia um jogador de basquete. O tempo parecia andar estranhamente devagar, até que meus olhos encontraram os seus, aquele azul piscina me encarava impiedoso. Qualquer um que a tivesse visto naquele estado, teria se apaixonado a primeira vista, mas tudo o que esse herói sentiu, foi apenas ódio.
— O que você faz aqui seu nerd? – Paty me encarava com nojo.
— Estou esperando o lanche como pode ver. – Minha voz não tinha emoção alguma.
— Ei, você! – Paty direcionava a palavra à Tati.
— Pois não? – Tati a encarava fria.
— Como consegue sair com esse lixo? Sério, ele da nojo. – Paty fez sinal que ia vomitar. Ouvi suas amigas falar algo como “Isso ai amiga! Mostra quem manda.”.
— Olha, nem todo mundo tem que ter o mesmo gosto que o seu. Pra mim ele é... atraente. – Tati sorriu pra mim ao terminar a frase.
— Há é? – Paty perguntou surpresa.
— Dois Brutos, mesa dezessete. É aqu... – Antes que a garçonete terminasse de entregar os pedidos, Paty interrompeu.
— Agora seu nerd atraente tem gosto de coca. – Ela despejou um copo inteiro de coca cola na minha cabeça. Todos nos olhavam espantados.
— SUA LOUCA! Bryan você está bem? – Tati tentava me secar com um guardanapo, mas já era tarde, eu estava ensopado e todo grudento.
Meu sangue ferveu, parecia que eu ia explodir. Perder a cabeça. Que vergonha, não sabia onde colocar minha cara. Aquele demônio... por que ela insiste em me perseguir? O que eu fiz? Queria revidar. Queria tanto dar o troco, mas faz parte do meu código de herói não ofender uma dama. Por mais que eu já tivesse feito isso com ela antes, eu não queria fazer isso novamente. Era errado. Retrucar só iria gerar mais ódio e isso nunca acabaria. Pensei na melhor maneira de resolver a situação, então falei:
— Estou bem Tati. Sabe, esse herói ama coca. – Tentei mostrar o meu melhor sorriso.
— Como é que é? Não vai se irritar ou discutir comigo? – Paty me olhava confusa.
— Tati, você gosta de mangás? Por que no caminho eu vi uma livraria que tem uns bem legais. Quer ir? – Me levantei e estendi a mão para Tati.
— Eu adoraria. – Tati não pensou duas vezes em pegar minha mão e vir para o meu lado. Todos observavam a cena.
— NÃO ME IGNORE! – Paty pegou as batatas fritas e atirou em minhas costas.
— Desculpe, mas não perco meu tempo com crianças. – Tenho certeza que ela sentiu o veneno de minhas palavras.
Tive a leve impressão de que assim que falei aquelas palavras, ela tentou avançar pra cima de mim. Porém, foi impedida pelas amigas que me encaravam assustadas. Já que o problema Paty estava resolvido, tratei de me concentrar apenas em Tati, que inclusive fez questão de ficar agarrada no meu braço o tempo todo.
Assistimos um filme chamado “Detentos do Amor”, onde casais cometiam loucuras de amor um pelo outro, Tati chorou horrores, acho até que perdeu peso, nunca vi tanta água sair de uma mulher só, e eu quase dormi. Logo que saímos da sala avistamos Paty e o seu bando, eles estavam distantes sentados em uma mesa na praça de alimentação. Aquele demônio estava diferente, ela sorria, brincava, transmitia uma aura positiva. Todos a notavam, e ela sabia que era notada. Não tinha uma alma viva que não passava por ali que não olhava pra ela e sorria. Aquela Paty de agora, parecia ser uma pessoa legal e bondosa, naquele momento, a presença dela se sobressaía das outras, se destacava. Era como se apenas ela existisse ali, como se as outras pessoas fossem apenas plano de fundo. Acho que entendo por que a chamam de rainha, a postura, a sua presença triunfante fazia com que ela fosse notada e desejada.
— É a primeira vez que a vê assim não é? – Tati tinha a voz séria.
— Ela tem dupla personalidade? Por que se tiver... – Antes que eu terminasse de falar Tati me interrompeu.
— Erradíssimo. Quando ela não está perto de você, é assim que ela é. A rainha. – Ela apontou pra ruiva que ria do outro lado da praça de alimentação.
– Já percebeu que sempre que vocês se esbarram, as coisas saem do controle e ela te agride? – Tati me encarava.
— Sim. – Eu tentava entender a sua lógica.
— A minha hipótese, é que quando ela está com você, por mais que sejam alguns minutos, você faz com que ela mostre a verdadeira Paty Panes. Uma jovem totalmente nervosa e insegura. – As palavras de Tati entravam lentamente em meu ouvido.
— É, faz sentido. – Concordei.
Se eu realmente tenho a capacidade fazer ela mostrar a verdadeira personalidade dela, então ela tem um bom motivo para me odiar, afinal eu a faço mostrar algo que ela não quer que as outras pessoas vejam. Olhei novamente para a ruiva, que agora estava aos beijos com Thad – sorri. Então eu só precisava ignora-la e ficar na minha, se eu parasse de retrucar suas ofensas, talvez uma hora ela desistisse de me perseguir, então eu ficaria em paz e poderia ver meus animes tranquilamente. Fiquei por algumas horas conversando com Tati, ela tomava um sorvete de baunilha enquanto me ouvia falar da rotina corrida do banco. Eu estava tão empolgado falando, que não havia percebido que alguém tinha se aproximado, qualquer um que ouvisse a voz da dama, diria que era um anjo, mas eu conhecia bem aquela voz, e com certeza odiava ouvi-la.
— Ei nerd, preciso falar com você. – Paty estava em pé ao meu lado, com um olhar pior que o da morte.
Continua.....
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