Quando o Tudo Gritou - A Canção da Criação
4 Canto IV - O Confronto dos Absolutos
Luz e sombra dançam no vácuo, criando e desfazendo, para todo o sempre.
O Criador experimentava agora uma sensação nova e estranha: Culpa.
"Será que errei ao criar?" — Pensava. "Será que deveria ter deixado tudo como estava, eu e somente eu por toda a eternidade? Talvez tentar mudar as coisas seja um erro. Talvez o próprio ato de criar seja uma blasfêmia. Mas como posso considerar meu próprio filho como um erro? Não, estou enganado. Oblivion não é um erro, a visão dele das coisas é que está equivocada. Criação com certeza é preferível à estagnação. Multiplicidade é muito melhor que unidade. Portanto, continuarei a criar, independente da opinião de Oblivion."
Com estes pensamentos, tornou a trabalhar. De suas infinitas mãos, saíam as mais variadas obras. Sentia um carinho muito grande por cada uma. E uma dor pungente quando eram desfeitas, pois Oblivion no silêncio, as desfazia uma por uma, pacientemente. Desfazendo suas obras, apagando a sua luz. Há portanto, um grande impasse. A luz tenta preencher toda a imensidão, mas é impedida pela sombra que por sua vez, também exige seu espaço.
"Eis o paradoxo da criação..." — Pensou o criador. "Ao criar, cedi, pois tudo poderia ser meu. Poderia ser Eu. Mas agora existe outro. Interessante como o ato de criar soma e subtrai ao mesmo tempo. Possuo mais e ao mesmo tempo menos. Um verdadeiro mistério. Um mistério que me intriga."
Mas enquanto o Criador estava intrigado com este mistério e ocupado com suas criações, Oblivion estava cada vez mais incomodado. O Criador parecia cada vez mais determinado a preencher o espaço com luz e matéria. Cada espaço preenchido era uma ofensa, um corte profundo no Vazio que ele representava e era. Para Oblivion cada nova criação era uma agressão a seu ser, e farto da teimosia do Criador, resolveu confrontá-lo:
- Tua insistência em preencher aquilo que deveria permanecer intocado é uma afronta! Tu insistes em me ofender e violar o sagrado Vazio que represento e sou! Se continuares com tuas agressões, serei forçado a reagir!
- Não é minha intenção agredir-te, meu filho. Apenas existo, e compreendi que é da minha natureza criar... Assim como parece ser da sua desfazer...
- Tu invades meus domínios e justifica teus atos com esta filosofia tola? É meu último aviso: Contém tua mão, ou serei forçado a parar-te.
O Criador baixa o olhar por um instante. No entanto, não há raiva. Há tristeza — não pelo que Oblivion fará, ou tentará fazer, mas pelo que ele nunca pôde entender. Nunca pôde sentir. Talvez jamais venha a entender. Mesmo assim, não iria se deixar ser oprimido por seu próprio filho. Ergueu o olhar novamente, não com olhos, mas com consciência pura, e encarou Oblivion.
- Oblivion, meu querido filho... Acredito que não há palavras para convencer-te do meu amor, mas saiba disto: Eu te amo profundamente, e sempre amarei, mesmo que tu não conheças nem compreendas este sentimento. Gostaria que soubesses disto. No entanto, não cederei a tuas ameaças. Não cessarei de criar, e não permitirei mais que tu desfaças tudo a seu Bel prazer. Tu precisas de limites. E Eu os imporei, tu querendo ou não.
Toda a realidade pareceu parar de respirar.
Dois olhares — um feito de infinita presença, outro de abismo insondável — se cruzaram no limiar do tudo e do nada.
Oblivion que até este momento se mostrava frio, até mesmo indiferente, muda sua postura. Agora seu rosto assume uma expressão que o Criador nunca tinha observado com seus olhos eternos.
Oblivion carregava em seus olhos o mais puro ódio, e qualquer um tremeria diante de tal olhar, mas o Criador permaneceu impassível.
A sombra parecia pulsar ao redor de Oblivion. O silêncio, antes estático, agora vibrava, quase produzindo som. O Criador compreendeu: palavras já não bastavam.
- Quem... precisa... de limites... — Cada palavra saía como um rosnado, contendo uma fúria capaz de devastar galáxias inteiras. — ... é VOCÊ!
Com esta última constatação, decide avançar em direção ao Criador, que por um breve momento se assusta. Não com o ataque, mas com a ousadia dele. Não esperava que Oblivion investiria contra Ele, essa ideia era absurda demais até mesmo para Ele conceber.
Oblivion ergueu lentamente a mão. Não havia carne, nem ossos, ou qualquer matéria... apenas uma forma esguia feita de silêncio condensado.
Do vazio ao seu redor, começaram a brotar tentáculos de sombra, grandes como galáxias, sinuosos como fumaça. Cada um deles avançava com uma fúria cruel e direcionada.
O Criador permaneceu imóvel. Sua luz não tremia.
Mas quando o primeiro tentáculo se lançou em sua direção, o cosmos inteiro estremeceu.
O impacto foi silencioso e, paradoxalmente, ensurdecedor.
Os tentáculos se desfizeram em névoa negra, que se reagrupou instantaneamente.
Oblivion sorriu, desafiado.
- Então é assim que será.
Ele avançou novamente.
- Oblivion, perdeste o juízo? Qual tua intenção em atacar-me?
A confusão era legítima, o que Oblivion pretendia? Como que em resposta a suas indagações, a encarnação do silêncio dá voz a seus pensamentos:
- Tu crias tudo a partir de ti mesmo! Tu és a origem! O meu toque é o fim, se tu conheceres meu toque, se eu apagar a ti... tudo se desfará contigo. Restando apenas Eu, o Fim!
"Eu gerei um filho louco." — Concluiu o arquiteto do universo em seus pensamentos. "Ele realmente acredita que essa é a solução? Matar-me?"
Oblivion gera uma espécie de avatar amorfo composto de sombras, com tentáculos negros saindo aparentemente de toda parte, acreditando que isso deixaria o Criador sem saída. No calor da batalha, esses mesmos tentáculos desfazem o próprio tecido da realidade, nada escapa da fúria de Oblivion.
O espaço ao redor começa a ruir como vidro sob pressão. Planos inteiros de realidade foram esmagados pelos ataques enfurecidos de seu filho. O Criador respondia com gestos simples — cada movimento de sua consciência refazia o que Oblivion destruía. Mas Oblivion não recuava. A cada criação, um toque dele bastava para desfazer. Um balé cósmico e louco de criação e destruição se desenrolava.
Era como assistir à aurora e ao eclipse travando uma guerra.
Uma espiral colossal se formou ao redor dos dois.
Luz e sombra entrelaçadas — criando e desfazendo — numa dança primordial que enlouqueceria o mais são dentre os mortais.
Um frenesi de criação e destruição como nunca houve e talvez jamais acontecerá novamente.
A escuridão aumenta cada vez mais, engolindo tudo que atravessa seu caminho, cada vez mais perto de seu progenitor, de seu pai.
Oblivion finalmente faz o impossível: engolfa seu pai com a escuridão, e sorri de triunfo. A luz enfim se apagou. Tudo finalmente retornou ao nada. Como sempre deveria ter sido.
Entretanto, de repente, começa a sentir seu corpo queimar. Algo está errado. Uma rachadura dourada se abriu no centro da escuridão.
A sensação aumenta cada vez mais até seu corpo ser transpassado por um facho de luz.
Depois outro. E mais outro.
Vários fachos de luz surgem, lentamente desfazendo a escuridão que O tinha engolido. Até que finalmente o Criador ressurge triunfante rompendo sem esforço sua prisão de trevas, como quem sai de dentro de um ventre.
- Tu realmente acreditaste que poderias me derrotar em combate, Oblivion? — Sua voz soa novamente como trovão, mas dessa vez acompanhada de um som dilar a sinos. Qualquer ser ficaria aterrorizado e fascinado ao mesmo tempo. — É realmente uma lástima esta loucura que te acomete.
A luz continua se expandindo, afastando cada vez mais um confuso Oblivion.
- Eu não entendo... Oblivion estava genuinamente confuso. — Nada sobrevive ao meu toque. Eu sou o fim de todas as coisas, a encarnação da inexistência. Por que não fui capaz de dar-te um fim?
- Esqueces que eu que te gerei. E Eu sou eterno, assim como nada escapa de teu toque destruidor, nada apaga minha luz. Por isso, sugiro que cesse teu ataque insano. Tu jamais vencerá. Porque Eu Sou a existência, a vida, e tudo o que existe. Na verdade Eu sou mais do que isto. Eu Sou AQUELE ACIMA DE TODOS.
Por um breve instante, ele viu não só o Criador mas tudo que poderia ter sido, se tivesse escolhido outra senda. Tantas possibilidades...
Seu rosto — ou aquilo que lhe servia de rosto — se contraiu.
Por um momento, quase vacilou. Quase cedeu.
Mas então a escuridão nele se ergueu novamente.
- Tua vitória é uma ilusão. Tuas obras são perecíveis. Um dia tudo estará gasto e morto. Até mesmo tu. E nesse dia, eu serei tudo outra vez...
- Eu ainda estarei aqui quando tudo chegar ao fim. E criarei novamente. Nunca cessarei de criar. Não haverá destruição eterna, apenas recomeços.
- Palavras vazias as tuas... Tudo retornará a mim no final... até mesmo você...
...
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