Luz e sombra dançam no vácuo, criando e desfazendo, para todo o sempre.


O Criador experimentava agora uma sensação nova e estranha: Culpa.


"Será que errei ao criar?" — Pensava. "Será que deveria ter deixado tudo como estava, eu e somente eu por toda a eternidade? Talvez tentar mudar as coisas seja um erro. Talvez o próprio ato de criar seja uma blasfêmia. Mas como posso considerar meu próprio filho como um erro? Não, estou enganado. Oblivion não é um erro, a visão dele das coisas é que está equivocada. Criação com certeza é preferível à estagnação. Multiplicidade é muito melhor que unidade. Portanto, continuarei a criar, independente da opinião de Oblivion."


Com estes pensamentos, tornou a trabalhar. De suas infinitas mãos, saíam as mais variadas obras. Sentia um carinho muito grande por cada uma. E uma dor pungente quando eram desfeitas, pois Oblivion no silêncio, as desfazia uma por uma, pacientemente. Desfazendo suas obras, apagando a sua luz. Há portanto, um grande impasse. A luz tenta preencher toda a imensidão, mas é impedida pela sombra que por sua vez, também exige seu espaço.


"Eis o paradoxo da criação..." — Pensou o criador. "Ao criar, cedi, pois tudo poderia ser meu. Poderia ser Eu. Mas agora existe outro. Interessante como o ato de criar soma e subtrai ao mesmo tempo. Possuo mais e ao mesmo tempo menos. Um verdadeiro mistério. Um mistério que me intriga."


Mas enquanto o Criador estava intrigado com este mistério e ocupado com suas criações, Oblivion estava cada vez mais incomodado. O Criador parecia cada vez mais determinado a preencher o espaço com luz e matéria. Cada espaço preenchido era uma ofensa, um corte profundo no Vazio que ele representava e era. Para Oblivion cada nova criação era uma agressão a seu ser, e farto da teimosia do Criador, resolveu confrontá-lo:


- Tua insistência em preencher aquilo que deveria permanecer intocado é uma afronta! Tu insistes em me ofender e violar o sagrado Vazio que represento e sou! Se continuares com tuas agressões, serei forçado a reagir!


- Não é minha intenção agredir-te, meu filho. Apenas existo, e compreendi que é da minha natureza criar... Assim como parece ser da sua desfazer...


- Tu invades meus domínios e justifica teus atos com esta filosofia tola? É meu último aviso: Contém tua mão, ou serei forçado a parar-te.


O Criador baixa o olhar por um instante. No entanto, não há raiva. Há tristeza — não pelo que Oblivion fará, ou tentará fazer, mas pelo que ele nunca pôde entender. Nunca pôde sentir. Talvez jamais venha a entender. Mesmo assim, não iria se deixar ser oprimido por seu próprio filho. Ergueu o olhar novamente, não com olhos, mas com consciência pura, e encarou Oblivion.


- Oblivion, meu querido filho... Acredito que não há palavras para convencer-te do meu amor, mas saiba disto: Eu te amo profundamente, e sempre amarei, mesmo que tu não conheças nem compreendas este sentimento. Gostaria que soubesses disto. No entanto, não cederei a tuas ameaças. Não cessarei de criar, e não permitirei mais que tu desfaças tudo a seu Bel prazer. Tu precisas de limites. E Eu os imporei, tu querendo ou não.


Toda a realidade pareceu parar de respirar.


Dois olhares — um feito de infinita presença, outro de abismo insondável — se cruzaram no limiar do tudo e do nada.


Oblivion que até este momento se mostrava frio, até mesmo indiferente, muda sua postura. Agora seu rosto assume uma expressão que o Criador nunca tinha observado com seus olhos eternos.


Oblivion carregava em seus olhos o mais puro ódio, e qualquer um tremeria diante de tal olhar, mas o Criador permaneceu impassível.


A sombra parecia pulsar ao redor de Oblivion. O silêncio, antes estático, agora vibrava, quase produzindo som. O Criador compreendeu: palavras já não bastavam.


- Quem... precisa... de limites... — Cada palavra saía como um rosnado, contendo uma fúria capaz de devastar galáxias inteiras. — ... é VOCÊ!


Com esta última constatação, decide avançar em direção ao Criador, que por um breve momento se assusta. Não com o ataque, mas com a ousadia dele. Não esperava que Oblivion investiria contra Ele, essa ideia era absurda demais até mesmo para Ele conceber.


Oblivion ergueu lentamente a mão. Não havia carne, nem ossos, ou qualquer matéria... apenas uma forma esguia feita de silêncio condensado.

Do vazio ao seu redor, começaram a brotar tentáculos de sombra, grandes como galáxias, sinuosos como fumaça. Cada um deles avançava com uma fúria cruel e direcionada.


O Criador permaneceu imóvel. Sua luz não tremia.

Mas quando o primeiro tentáculo se lançou em sua direção, o cosmos inteiro estremeceu.


O impacto foi silencioso e, paradoxalmente, ensurdecedor.


Os tentáculos se desfizeram em névoa negra, que se reagrupou instantaneamente.


Oblivion sorriu, desafiado.


- Então é assim que será.


Ele avançou novamente.


- Oblivion, perdeste o juízo? Qual tua intenção em atacar-me?


A confusão era legítima, o que Oblivion pretendia? Como que em resposta a suas indagações, a encarnação do silêncio dá voz a seus pensamentos:


- Tu crias tudo a partir de ti mesmo! Tu és a origem! O meu toque é o fim, se tu conheceres meu toque, se eu apagar a ti... tudo se desfará contigo. Restando apenas Eu, o Fim!


"Eu gerei um filho louco." — Concluiu o arquiteto do universo em seus pensamentos. "Ele realmente acredita que essa é a solução? Matar-me?"


Oblivion gera uma espécie de avatar amorfo composto de sombras, com tentáculos negros saindo aparentemente de toda parte, acreditando que isso deixaria o Criador sem saída. No calor da batalha, esses mesmos tentáculos desfazem o próprio tecido da realidade, nada escapa da fúria de Oblivion.


O espaço ao redor começa a ruir como vidro sob pressão. Planos inteiros de realidade foram esmagados pelos ataques enfurecidos de seu filho. O Criador respondia com gestos simples — cada movimento de sua consciência refazia o que Oblivion destruía. Mas Oblivion não recuava. A cada criação, um toque dele bastava para desfazer. Um balé cósmico e louco de criação e destruição se desenrolava.

Era como assistir à aurora e ao eclipse travando uma guerra.


Uma espiral colossal se formou ao redor dos dois.


Luz e sombra entrelaçadas — criando e desfazendo — numa dança primordial que enlouqueceria o mais são dentre os mortais.

Um frenesi de criação e destruição como nunca houve e talvez jamais acontecerá novamente.

A escuridão aumenta cada vez mais, engolindo tudo que atravessa seu caminho, cada vez mais perto de seu progenitor, de seu pai.


Oblivion finalmente faz o impossível: engolfa seu pai com a escuridão, e sorri de triunfo. A luz enfim se apagou. Tudo finalmente retornou ao nada. Como sempre deveria ter sido.


Entretanto, de repente, começa a sentir seu corpo queimar. Algo está errado. Uma rachadura dourada se abriu no centro da escuridão.


A sensação aumenta cada vez mais até seu corpo ser transpassado por um facho de luz.

Depois outro. E mais outro.


Vários fachos de luz surgem, lentamente desfazendo a escuridão que O tinha engolido. Até que finalmente o Criador ressurge triunfante rompendo sem esforço sua prisão de trevas, como quem sai de dentro de um ventre.


- Tu realmente acreditaste que poderias me derrotar em combate, Oblivion? — Sua voz soa novamente como trovão, mas dessa vez acompanhada de um som dilar a sinos. Qualquer ser ficaria aterrorizado e fascinado ao mesmo tempo. — É realmente uma lástima esta loucura que te acomete.


A luz continua se expandindo, afastando cada vez mais um confuso Oblivion.


- Eu não entendo... Oblivion estava genuinamente confuso. — Nada sobrevive ao meu toque. Eu sou o fim de todas as coisas, a encarnação da inexistência. Por que não fui capaz de dar-te um fim?


- Esqueces que eu que te gerei. E Eu sou eterno, assim como nada escapa de teu toque destruidor, nada apaga minha luz. Por isso, sugiro que cesse teu ataque insano. Tu jamais vencerá. Porque Eu Sou a existência, a vida, e tudo o que existe. Na verdade Eu sou mais do que isto. Eu Sou AQUELE ACIMA DE TODOS.


Por um breve instante, ele viu não só o Criador mas tudo que poderia ter sido, se tivesse escolhido outra senda. Tantas possibilidades...

Seu rosto — ou aquilo que lhe servia de rosto — se contraiu.

Por um momento, quase vacilou. Quase cedeu.

Mas então a escuridão nele se ergueu novamente.


- Tua vitória é uma ilusão. Tuas obras são perecíveis. Um dia tudo estará gasto e morto. Até mesmo tu. E nesse dia, eu serei tudo outra vez...


- Eu ainda estarei aqui quando tudo chegar ao fim. E criarei novamente. Nunca cessarei de criar. Não haverá destruição eterna, apenas recomeços.


- Palavras vazias as tuas... Tudo retornará a mim no final... até mesmo você...


...