Quando o Tudo Gritou - A Canção da Criação
3 Canto III - Palavras ou Silêncio
A criação que silencia… e o silêncio que enfim encontra sua voz.
O silêncio voltou a pairar, quase sufocante.
O Criador respira profundamente. Se o ato de respirar nasceu ali, ninguém sabe com certeza. Mas Ele o fez. E olhou para sua criação com tristeza.
E insistiu na pergunta:
- Mas tu ainda não me explicaste o motivo de desfazer minhas obras.
- Já expliquei e tu não prestaste atenção. Não vejo sentido em tuas obras. Tudo que tu crias é perecível, não é eterno como nÓs. — Respondeu com frieza gélida.
- Te enganas. Tudo que Eu crio tem sua importância e legado. Tuas criações também teriam se te aventurasses comigo nesta empreitada. Tudo que se cria, tem em seu interior, uma centelha de ti mesmo. Uma parte de ti. Por isso é tão importante. A cada obra minha que tu desfaz, para mim é motivo de tristeza e pesar. Um fragmento de mim desaparece, tu literalmente mata um pouco de meu ser com tuas ações. Por isso te faço um convite... — Disse Ele, com a voz firme, mas com ternura ao mesmo tempo. — Abandone teu comportamento destruidor... e vem comigo. Para que juntos possamos criar coisas ainda mais grandiosas!
Oblivion ficou emudecido, não como quem reflete sobre uma proposta que foi feita, mas como quem escolhe as palavras certas para responder. Em seguida desviou o olhar em desdém.
- Não desejo criar coisa alguma. Não desejo participar de tua aventura inútil, criando coisas ainda mais inúteis. Eu nasci do Vazio, é lá que eu pertenço. E é para lá que todas as coisas retornarão. Pois eu sou inevitável. É minha sina engolfar a tudo. Sou o verdadeiro sentido e o verdadeiro final de tudo que existe.
O Criador sentiu, pela primeira vez, o peso da palavra "fim". Um conceito estranho para alguém eterno.
- E não pense que não percebi tua real intenção com teu convite.
O Criador pela segunda vez em toda sua infinitude, fica perplexo com a acusação de Oblivion.
- Meu convite foi sincero, não tenho nenhuma outra intenção.
Oblivion estreitou o olhar — ou o que se parecia com um olhar.
O ambiente ao redor ficou pesado. Um frio cortante percorreu toda a existência.
- Tu mentes... — Acusou Oblivion, com o frio cortante que sua presença causava, parecendo aumentar drasticamente. A voz dele saiu baixa, quase um sussurro, mas carregada de um peso enorme.
Por um breve momento, a escuridão parecia engolir a luz.
- A verdade é que... tu me temes. — Continuou Oblivion. — Pois é meu o verdadeiro poder. — A cada palavra da escuridão viva, a temperatura parecia abaixar cada vez mais. — Tu sabes que tudo que tu crias... posso desfazer a meu bel prazer. — Uma breve pausa, e Oblivion esboça um pequeno sorriso pela primeira vez. — E assim o farei. — Concluiu, com as sombras parecendo suspirar de satisfação. — Pois admiro a escuridão... a total ausência de tudo. O vazio é belo e puro, e tuas obras corrompem essa pureza. Não trarei a luz... — Afirmou, inclinando seu rosto de consciência pura. — ...mas a sombra. Não produzirei som, mas o silêncio.
Oblivion se aproxima do Criador, com seu vazio ainda mais denso, quase tangível, como quem quer transmitir uma mensagem, olhando nos olhos de seu interlocutor. O Criador se mantém firme, inabalável.
- Eu fui o silêncio que te cercava, mas agora tenho voz. Sou o Vazio com rosto, o Esquecimento. Em meio de toda sua obra, Eu sou sua maior antítese. Enquanto tu és o Senhor de Todas as Coisas, Eu Sou o Senhor do Vazio. Mas eu detenho o verdadeiro poder, pois tu somente cria ilusões. Eu sou o Senhor da única coisa real, o Vazio, enquanto tu és o Senhor da efemeridade. Acredito que eu não poderia ser diferente. E acredito que assim como Eu, tu talvez, não poderias ser diferente também.
O Criador refletiu, ponderando cada palavra de Oblivion, e fitou seu filho por alguns instantes que pareceram eras.
E pela primeira vez sentiu temor. Não da ameaça, mas da verdade que talvez estivesse contida nela.
Será que Oblivion era superior?
Será que ele criou seu filho apenas para assistir ele destruir tudo?
Era esse o destino trágico e cruel do Criador?
Como trazer seu filho para a luz sendo ele a própria escuridão?
Apesar de suas dúvidas, se recusava a se dar por vencido, resolveu então usar a lógica distorcida de Oblivion contra ele mesmo.
Então se aproximou de seu filho, era a vez da luz avançar.
Seu olhar encontra o de Oblivion, e o tempo se existia, parou por um instante.
- Se tu reclamas o Vazio... — Sua voz soa como trovão, mas não ameaçadora, apenas poderosa. — ...tornas o nada algo substancial. O tornas real. Tu dás substância à ausência. Dás forma ao informe. Fazes do nada uma existência. — A luz pulsava como se cada palavra fosse um golpe na escuridão. — Tornas-te portanto, um criador, assim como Eu. — Um leve sorriso se esboça na face do Eterno. — No fim... Tu acabas sendo semelhante a Mim.
Novamente, o silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade. Talvez tenha durado uma eternidade de fato, afinal, para estes dois seres o tempo pouco ou nada significa.
Oblivion quase vacilou dessa vez, sentiu um leve desconforto, uma quase dúvida surge em sua mente, mas rapidamente desaparece.
Lentamente, pela segunda vez em toda sua existência, esboça um sorriso. Ou algo semelhante a isso.
Então ergue um olhar sem olhos, um olhar apenas de consciência em direção à seu interlocutor e rebate:
- Acaso seria o nada, algo...? — Perguntou pausadamente, como quem reflete cada palavra.
O Criador permaneceu em silêncio, esperando o raciocínio de Oblivion. Sua luz permaneceu inalterada.
- Interessante conjectura... mas isso é irrelevante. Se o nada passa a existir, é apenas nada. Tua lógica é falha. O Vazio não é algo que existe, é aquilo que resta quando nada mais é. Não importa o que digas, nada muda o que sou, o que penso ou o que desejo.
O vazio que existia entre o Criador que era tudo o que havia, e Oblivion, que era o próprio vazio, pareceu se expandir ao redor dos dois, por um momento.
Como se tudo o que existia e o que existiria no futuro, estivessem presentes no meio daquele confronto, e todos prendessem a respiração.
O Criador estava pela primeira vez curioso. Manteve-se imóvel, e por um breve instante, algo que se assemelhava à dúvida passou por Sua expressão. Começou então a realmente se perguntar se seu filho tinha algum objetivo além da destruição total. Se Oblivion percebeu esse lampejo de dúvida, não demonstrou.
Apesar de não ter iniciado uma batalha, ela já estava praticamente declarada.
- E o que tu desejas? Por acaso almeja o retorno de tudo ao silêncio? É esse teu objetivo final?
- Desejo o que sou. O fim de todas as coisas. A quietude perfeita. Pois para mim, a ausência é meu lar. O silêncio para mim é música. Não pense mal de mim, mas não descansarei até ver tudo reduzido ao nada novamente. E tu não tens poder para me impedir.
- Tu vieste de Mim. É parte de Mim, do que Eu Sou. Poderia reintegrá-lO à Mim, se Eu assim desejar.
- Se tivésseis realmente poder para isso já o teria feito. Tu não me criaste, apenas me revelaste. Eu existo porque antes havia o vazio. Onde há criação, há descriação. Onde há início, há fim. É isso que sou, o Fim. Eu sou o silêncio que sempre esteve em teu interior, e tu reprimias. Eu sou o que virá quando tu te calares. Tu não me matarás porque seria como matar a ti mesmo. Pois ironicamente minha ausência é mais assustadora que minha presença. Tu deseja uma voz além da tua, mesmo que seja contrária a ti. Mas basta de conversa. Tenho muito trabalho para fazer, ou melhor, para desfazer. E eu sugiro que fique fora do meu caminho, pois nada escapa do meu toque descriador. Pois tudo é efêmero. Nada dura para sempre, nada é eterno.
Oblivion dá as costas ao Criador, mas logo volta seu olhar para Ele novamente para acrescentar um último aviso:
- Nem mesmo você...
Então o Vazio Encarnado finalmente se retira para continuar sua missão de destruição, deixando um Criador desolado para trás.
Com a saída de sua primeira criação, seu filho, aquele silêncio esmagador voltou a dominar tudo.
Mas agora era diferente.
Não era mais um silêncio vazio.
Era um silêncio com rosto, com significado, e um propósito contrário ao seu.
Um silêncio que observa, aguarda e age.
E pela segunda vez em toda sua infinitude, o Criador se sentiu impotente...
...
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