Quando o Tempo Parar
2 Negação
O escritório da redação do Washington State Journal era amplo, com janelas de vidro que deixavam o sol refletir sobre as mesas brancas e os monitores ligados. Teclas batiam em sincronia com o zumbido distante das impressoras, e o aroma de café velho se misturava ao cheiro metálico do ar-condicionado.
Isabella Swan estava em sua mesa, envolta pelo brilho frio das telas de computador.
Vestia uma camisa branca abotoada até o pescoço, a gola ligeiramente torta. O coque improvisado deixava escapar mechas soltas que tocavam a nuca. O batom estava desbotado — um detalhe pequeno, mas que dizia muito sobre o cansaço dela.
O cursor piscava no parágrafo de uma matéria sobre criminalidade em Seattle.
Mas as palavras não faziam sentido.
Só o som do próprio coração parecia audível.
A porta de vidro se abriu com um chiado leve.
Aro Volturi entrou como quem comanda uma orquestra silenciosa.
O terno preto impecável, o sorriso controlado. O tipo de homem que nunca dizia o que realmente pensava, apenas sugeria.
— Srta. Swan. — a voz dele tinha uma suavidade estudada. — O relatório da edição de fim de semana?
— Está quase pronto, senhor. — respondeu, sem encará-lo.
Ele inclinou o corpo sobre a mesa, observando-a de perto.
— Você foi àquela consulta médica, certo? Tudo bem?
— Tudo ótimo. — respondeu rápido, sorrindo de leve.
— Ótimo. — repetiu ele, o tom arrastado. — É uma palavra curiosa. Ninguém que está realmente ótimo usa essa palavra.
— Foi só uma tontura, Aro. — mentiu com um riso discreto.
Ele assentiu, mas os olhos ficaram nela por um segundo a mais do que o normal.
— Espero que continue assim. O jornal precisa das suas palavras, e eu… — fez uma pausa, irônica — prefiro não perder bons funcionários por motivos trágicos.
Bella forçou um sorriso.
Se ele soubesse o quanto a frase era literal…
As horas seguintes correram em modo automático.As teclas do teclado faziam um som repetitivo, a luz branca refletia nas pupilas dela como um filme passando em câmera lenta.
O Blue Moon Bar era um refúgio de luz morna e taças tilintando, com iluminação baixa, paredes de tijolos e jazz ao vivo. As lâmpadas âmbar criavam uma penumbra confortável — a ilusão de que o mundo lá fora não existia.
O ar cheirava a limão, álcool e fumaça adocicada de velas aromáticas.
Bella chegou usando um vestido preto de tecido leve e um blazer bege jogado por cima. O salto era discreto, a maquiagem suave. Quase como se quisesse passar despercebida de si mesma.
Jacob já estava lá.
Camisa social aberta até o terceiro botão, cabelo perfeitamente bagunçado, sorriso que parecia ensaiado. Ele era o tipo de homem que sabia ser bonito — e se apoiava nisso.
— Finalmente. — ele disse, levantando-se. — Quase achei que tinha desistido.
Bella foi recebida com um beijo simples nos lábios.
— Trânsito. — mentiu outra vez.
Rosalie e Emmett os esperavam no fundo do salão.
Ela — um retrato de elegância num vestido marfim e batom vermelho.
Ele — camisa azul dobrada nos cotovelos, risada fácil e olhos sagazes.
O casal perfeito.
O equilíbrio entre leveza e firmeza.
— Olha só quem chegou! — gritou Emmett, erguendo o copo. — A futura mamãe!
Bella piscou. — O quê?
Rosalie o cutucou discretamente.
— Emmett!
— Ué, você mesma disse que ela foi ao médico. — respondeu ele, rindo. — Ou é gravidez, ou é ressaca.
Jacob soltou uma risada forçada. — Se for gravidez, pelo menos é um bom motivo.
Bella olhou para o copo, o gelo flutuando no líquido âmbar.
Demorou alguns segundos antes de dizer:
— Não é gravidez.
O riso morreu.
Jacob pigarreou. — Então… o que foi?
Bella respirou fundo. A música pareceu diminuir de volume.
Tirou o blazer e o pendurou no encosto da cadeira vaga.
— É um tumor. No cérebro.
A palavra caiu sobre a mesa como uma pedra.
Rosalie cobriu a boca com a mão.
Emmett encostou o cotovelo na mesa, como se precisasse se firmar.
Jacob riu nervoso.
— Tipo… um cisto?
— Não. — ela respondeu se sentando. — Um tumor maligno. Glioblastoma.
A risada dele morreu.
A luz do bar parecia mais fraca agora.
Ninguém conseguia olhá-la por muito tempo.
— Isso… tem tratamento, né? — Emmett perguntou, com a voz rouca.
— Tem. Mas o resultado é o mesmo.
Rosalie piscou várias vezes, tentando conter o choro.
Jacob mexia no celular, inquieto.
— E o que você vai fazer?
Bella o encarou.
— Ainda não sei.
Ele assentiu, frio, e se recostou na cadeira.
Rosalie segurou a mão de Bella por cima da mesa.
Os olhos dela diziam tudo o que a boca não conseguia.
Emmett soltou um suspiro pesado.
— Merda.
Bella deu um meio sorriso. — É. Merda mesmo.
O garçom se aproximou, recolhendo copos, sem notar a cena. Bella fez o pedido de uma Cosmopolitan.
O bar inteiro seguiu rindo, bebendo, flertando — e ali, naquele pequeno canto de mesa, o mundo tinha parado.
Mais tarde, no apartamento, Bella tirou os sapatos antes de acender as luzes.
O som do salto ecoou pelo piso de madeira.
A casa cheirava a perfume velho e silêncio.
Ela jogou o blazer no sofá, abriu o laptop sobre a mesa de centro.
A matéria ainda estava na tela, o título piscando:
“A morte sempre chega sem avisar.”
Bella soltou uma risada fraca.
— Nem sempre, né? — murmurou.
Um alerta de mensagem surgiu na tela do telefone:
“Conta comigo no que precisar baby”
A notificação era de Jacob, fria e distante, uma frase ensaiada.
Encostou-se no sofá, olhando o teto branco.
O relógio marcava 22h47. O silêncio da casa era quase sagrado.
Quase.
Negação é só o primeiro estágio, pensou.
E, ainda assim, o mais confortável deles
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