Quando o Rei Retorna
3 O Dia Em Que Emma e Regina se Separaram
O dia seguinte amanheceu frio. Regina não foi trabalhar, não tinha forças nem para levantar da cama, mas se obrigou a fazê-lo e ir preparar o café da manhã de seu marido, deixando tudo perfeitamente arrumado com um sorriso plástico no rosto.
— Essa é a minha Rainha — ele falou alegre, beijando-a no rosto, tal qual um adorável esposo.
Ela retornava para o quarto e algo chamava a sua atenção no espelho junto a porta.
— Se divertiu? — Regina perguntou friamente.
A imagem do Gênio apareceu, dando lugar ao reflexo do cômodo, e ele a respondeu:
— Achei que me divertiria mais — ele falou parecendo chateado.
— Vá embora, Sidney, já teve o seu troco — ela ordenou. — Emma o colocou no espelho, não foi? Diga-lhe para libertá-lo.
— Eu não vou, não depois do que ele lhe fez passar — parecia resoluto.
— Agora virou meu salvador?
Depois dessas palavras, o Gênio desapareceu. A mulher então pretendia passar o resto do dia fechada em seu quarto, porém um assunto surgiu, com uma mensagem de sua secretária para o celular, e precisava de sua atenção no trabalho.
— Meu Rei, eu preciso ir até a prefeitura — ela o informou.
— Você é minha Rainha, vai ficar em casa, onde é o seu lugar. Jamais a deixei se aborrecer com assuntos de Estado, agora não será diferente. Eu irei resolver em seu lugar — ele decidiu.
— Mas eu sou a Prefeita — Regina argumentou.
— Não é mais — ele tratava como sendo óbvio, tal qual na Floresta Encantada, e sorria.
Assim, Leopold foi para a Prefeitura e a esposa ficou sozinha em casa.
Neste mesmo dia, Emma dormiu e acordou diversas durante a noite. Estava péssimo dormir no carro, devia ter perdido o jeito. Levantou e saiu dirigindo pela cidade, já de manhã, quando avistou o seu avô entrando na Prefeitura. Agora ele provavelmente proibira Regina de trabalhar, mas aquela era uma oportunidade. Foi na casa da morena e entrou, subindo para as escadas até o quarto. Respirou bem fundo e bateu na porta, mas provavelmente a mulher não a atenderia. Valia a pena tentar:
— Regina, sou eu, Emma.
A Rainha fora pega de surpresa pela visita. Não abriu a porta, mas se levantou da cama e se aproximou da entrada, respondendo através da mesma:
— Por favor, Emma, vá embora.
— Ele não está aqui. Deixe-me te ver por um minuto. Por favor — pediu, colocando as mãos na madeira, ainda que a outra não pudesse ver, era como se pudesse tocá-la.
Regina parou por alguns instantes, refletindo se aquela era uma ideia válida. Tinha marcas por todo o corpo, ainda que cobertas pelas roupas, mas o seu lábio estava com uma ferida do tapa na noite anterior. Não queria que Emma a visse. Acabou usando uma mentira:
— Eu prefiro não correr o risco.
Emma apenas deslizou as costas na porta e sentou no chão. Ainda deveria ter alguns minutos ali, mesmo que não estivesse de fato com a amada, ao menos estavam próximas e poderia escutar sua voz.
— Você prestou alguma atenção quando eu disse que te amava? — Perguntou.
— Sim — Regina respondeu com uma dor enorme no peito.
A loira levantou do chão e tocou mais uma vez na porta. Era melhor ir embora. Disse uma última vez com pesar:
— Eu te amo, Regina.
Assim, desceu as escadas e saiu da casa. Precisava ver onde iria ficar, não aguentaria passar mais uma noite no carro. Dirigiu devagar, não tinha exatamente um rumo e não queria dormir num hotel. Acabou encontrando com Lily, que andava na calçada.
— Há quanto tempo não te vejo, minha amiga sumida — a garota falou para a Xerife.
— É... Eu tenho estado ocupada — respondeu um pouco constrangida.
— Eu já soube — Lily comentou. — Regina te expulsou de casa, agora que o marido voltou. Pode ir lá pra casa, minha mãe não vai se importar.
Emma apenas acenou com a cabeça, aceitando. Estava tão cansada que não iria dar voltas tentando ser agradável. A amiga entrou no carro e ambas foram para a casa que Lilith dividia com Malévola.
Quando chegaram, Lily foi entrando de forma rude, sem falar com a mãe ou avisar que estava em casa, apenas jogando a bolsa de qualquer jeito em um canto próximo a porta.
— Boa noite pra você também — disse Malévola insatisfeita, só então notando a visita. — Oh... As coisas não devem estar mesmo boas na casa de Regina. Leopold já a está prendendo de novo, não? Tão típico dele... Ela costumava fugir para poder se encontrar comigo.
— Hum... Então ela fugia para se encontrar com você? — Emma perguntava de forma displicente, ainda que estivesse como convidada na casa. — E sim, as coisas estão uma merda lá. Ele está batendo nela.
Lily faz cara de surpresa, mas que não demorou muito. Já Malévola não pareceu impressionada com a notícia.
— Nada de novo. Antigamente, ela só conseguia fugir quando ele viajava, sempre dava um jeito de burlar os guardas. Quando ele estava no castelo, ela tentou fugir uma vez, mas foi apenas uma. Eu falei com ela pelo espelho, ainda lembro que ele a feriu tanto que ela quebrou o punho tentando se proteger. Claro que eu fui lá para curá-la. Depois disso ela nunca mais tentou sair do castelo enquanto ele estivesse. Há coisas que não adianta tentar.
— Entendo... — Emma disse sentando no sofá atordoada. — Malévola… — Parou por um instante e olhou para a mulher. — Não há nada que eu possa fazer?
— Sempre há, a questão é se ela vai querer que você faça.
A resposta foi um tanto enigmática, em especial pelo tom triste. Parecia que a dragoa também havia passado por situação que a deixara igualmente impotente. Malévola andou até um grande espelho na sala e passou uma mão à frente dele, sem tocar. Ele mudou e o reflexo desapareceu, mostrava Regina, de longe, sentada na cama, olhando para o nada. Era a imagem que o espelho do quarto da Rainha refletia.
— Regina — Malévola a chamou.
A Rainha ouviu o próprio nome e apenas escondeu o rosto, virando-se de costas. Em seguida, ergueu uma mão e o espelho se tornou turvo, tendo a conexão quebrada pela sua magia.
— Ela não quer ser vista — disse a dragoa.
— Eu não vou simplesmente deixá-la apodrecer com aquele velho estúpido — a Salvadora falou decidida.
— Emma, você está com a cara acabada. Vamos lá para o quarto, você descansa um pouco e depois pensa. Venha — chamou Lily.
A loira aceitou chateada a ajuda e foi com a amiga para o quarto. Lá, tomou um longo banho e colocou uma roupa confortável, deitando na cama. Ainda era cedo, mas seu corpo se sentia pesado, assim como o coração. Emma apenas fechou os olhos e apagou.
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