Quando o Passado Nos Encontra
1 Capítulo Único
Ahh os festivais tradicionais... Eu amo esses fim de semanas, onde colocamos kimonos bonitos, andamos pelas ruas admirando as artes dos feirantes, podemos sentir cheiros e experimentar sabores únicos e, quem sabe, até encontrar o amor, talvez? Diz a lenda que se você dançar com um rapaz ao redor da fogueira, o amor dê vocês será eterno.
"Que coisa boba e brega" você pode pensar, mas eu, Yagami Hikari, no auge dos meus 25 anos, me permito, ao menos nesses festivais, ser boba o bastante para viver um conto de fadas em um cenário repleto de balão de luzes artesanais, roupas bonitas e tradicionais em uma festa pirotécnica em fogos de artifício que iluminam o azul marinho do céus.
Aliás, aqui estou eu, me olhando no espelho, e gostando muito de ver meus, agora, longos cabelos castanhos, amarrados em um coque, preso por kanzashis branco e rosa e outros adornos. Brincos de argola simples, em cor dourada e um belo kimono branco com feixes rosa discretos, e dessa vez um detalhe especial, o brasão da luz, bordado nas costas.
Estou linda e pronta para curtir. Confesso, um pouco decepcionada com Miyako, Sora e Mimi que furaram comigo, mas tudo bem, eu sou adulta e posso me divertir sozinha, não?
Alçando meu celular, jogado pela cama bagunça com tudo que experimentei antes de escolher o look; me posiciono no espelho e tiro várias fotos, mandando as melhores no nosso grupo, perguntando como estou e logo respostas positivas são enviada pelas meninas. "Kiahh, queria ir 😮💨" choraminga Mimi, que está nos EUA para uma conferência. Miyako resume-se a uma figurinha de inveja, ja que está em uma feira de tecnologia a trabalho, apresentando a nova tecnologia da empresa dela e do Koushiro-kun em Singapura. “Garota, você está um ES-PE-TA-CU-LO”, Sora incentiva, “Amei o brasão nas costas”
Enquanto conversávamos as 4, aproveito para já pedir um uber até o lugar, já que, não queria me preocupar com local para estacionar e nem horário de voltar
No trajeto entre Osaka, meu novo lar, e Kyoto, fiquei refletindo meus últimos anos, desde que resolvi me mudar de Tóquio para cá. Os encontros ficavam cada vez mais raros, praticamente anuais, e nem sempre dava pra reunir todo mundo. Tentávamos ainda manter algum contato, principalmente pela Internet mas... Não era como antigamente, sabe? Será que sou eu nostálgica demais, ou de fato, estávamos deixando esfriar uma ligação especial?
Ergo meu celular para ver as horas, e vejo uma foto do nosso último encontro, no digimundo. Tailmon ao meu lado, feliz. Sinto tanto sua falta, no dia a dia. Acho que nas próximas férias, aproveitarei para ir passar um tempo com ela lá, já que vir para cá anda… complexo, devido a segurança de ambos os mundo.
Não resisto a abrir a galeria vendo outras fotos e me recordando das brincadeiras, risadas e piadas do último encontro. Eu estava feliz, aliás, não apenas eu, todos estão. Em uma das fotos vejo ele, Motomiya Daisuke. Nossa, quanto tempo não pensava no ruivo? Como será que ele está? Passo mais algumas fotos e encontro uma em que ele está com uma bela beca preta com detalhes vermelhos e sorrindo exibindo seu “canudo” e um belo prato de lamen, devido à sua formatura no renomado curso de gastronomia na universidade de Toquio e da conquista do seu estágio.
Meus dedos passam pelo seu sorriso, e involuntariamente um se forma em meus lábios, sentia muita falta da energia, da vibração, do positivismo. Até quando ele tropeçava ao me dar um ramo de flores mal embalado, meu peito apertava de um jeito quente... Meu eterno líder.
Não posso mentir para mim mesmo, as cantadas e inúmeras investidas dele me fazem falta também. Além de massagear um pouco o ego, me fazia bem, me fazia sentir amada... Ah qual é, vão bancar os moralistas comigo? Quem não gostaria de ganhar elogios, atenção e até presentes de um crush, no auge da adolescência? Kami, até mesmo os bilhetes bregas eu guardava em uma caixinha; obviamente, trancada a 7 chaves, Taichi-nii, jamais poria nem imaginar o conteúdo deles, mas acima de tudo… Me arrancava suspiros, pela ternura genuína e... Como eu queria voltar para a garota de 12 anos que ria e brincava com isso é dizer "menina, agarra isso, porque é ouro, e raro"
O tempo voou no trajeto, e o motorista precisou chamar minha atenção, para perceber que havia chegado. O pagamento já estava no aplicativo, então agradeci e desci do carro para… Uau! Que lugar lindo!!.
A decoração e a iluminação contrastavam com o céu noturno, límpido e azul-escuro. O clima estava agradável – nem frio, nem abafado –, e as correntes de ar balançavam suavemente as bandeirinhas, trazendo uma calmaria que refrescava meu rosto.
Andar pelas ruas do festival era como passear em uma vila encantada. Meu celular não descansava: fotos de comidas coloridas, lanternas balançando e até de alguns visitantes tão estilosos que pareciam saídos de um drama de época. Experimentei tudo que consegui segurar e, mesmo que não merecessem por ter me dado o bolo, me compadeci e comprei lembrancinhas para as meninas. Aproveitei o embalo na loja de presentes, e assinei um cartão postal para Taichi-nii, com destino a sede da ONU, onde ele estava em conferência sobre segurança no mundo digital e real.
Tudo estava perfeito até que escuto:
— Hikari-chan?
Aquela voz era impossível de confundir. Virei-me devagar, como se ele fosse desaparecer — mas meu corpo já traiu qualquer compostura:
— DAISUKE-KUN!!! KIYAAAA~! — Gritei, pulando no lugar como uma garotinha. — Não acredito que é você!
— Kami-sama! — Abriu seus braços sorrindo, como convite — Que felicidade de te ver!!!
Mesmo contra os costumes japoneses, me joguei para um caloroso abraço, afundando o rosto no kimono dele. Alguns nós olham torto, e escuto até um senhor tossir em reprovação, mas quer saber? Dane-se! Estou revendo um amigo depois de séculos. Eles que lutem
— Eu também... tô tão feliz! — Minha voz saiu abafada contra o tecido..
— Pois é, se a gente marcasse, daria errado — ele riu, afastando-se só o suficiente para eu ver seu sorriso brincalhão de sempre.
— O que você está fazendo aqui? Turistando?
— Ahh, quem me dera — coça a nuca — Olha só — Apontou a logomarca, bordada no kimono — Estou trabalhando na barraca de lamen do restaurante que estou estagiando. Todo ano eles enviam um pessoal da sede para Kyoto, para ajudar na filial durante o festival. E, como sempre, sobra pros estagiários trabalhar, enquanto os chefões só curtem.
— Uau! Eu sempre ouvi falar muito bem da comida dele — compartilho minha curiosidade sobre seu local de trabalho
— Ora, vamos lá provar. Amiga não paga hoje — estava pronta para agradecer, já com olhos grandes e feliz, quando ele completa — mas também não come — gargalhando no final
— haha, muito engraçado — finjo um olhar de reprovação, socando levemente seu ombro — por isso a Miyako-chan sempre te batia
— Aii — ele fingiu dor, fazendo eu revirar os olhos. — Vai dizer que não sentiu falta das minhas piadas? — Me entregou um daqueles sorrisos que me derretiam fazendo-me sair da pose.
Com sua energia característica, puxou minha mão carregando entre as pessoas.
— Vem, vou fazer o melhor lamen da sua vida.
Depois do prato que, por Kami-sama estava divino, Daisuke consegue uma dispensa para conhecer o festival comigo. Claro, que depois de eu fazer olhos de gatinhos para o chefe dele, e usar minha voz manhosa narrando o quanto estava com saudade do meu amigo. O gerente caiu no “golpe”, dizendo que daria uma colher de chá porque eu era uma fofa.
— Me deve um Lamem, pela folga — rindo, coloquei minha condição por ter conseguido a bem-feitoria
— Concordo, só marcar, garota de luz — me chama por um apelido antigo, que aquece meu coração
Andamos pelas barracas, brincamos nos desafios, tiramos fotos, muitas fotos. Kami-sama, nem eu sabia que poderia comer mais comidas, agora acompanhada e até um teatro de sombras assistimos.
Depois de tanto andar, encontramos um lugar mais calmo, em frente, um lago pequeno, onde nas beiradas casais apaixonados trocavam juras de amor. Achamos um canto e ficamos sentados, apreciando a brisa e a vista
Em um momento descontraído, e confesso, depois de alguns Sakes, me aconcheguei nos ombros de Daisuke dizendo "que bom que te encontrei aqui"
O lugar, a atmosfera, o cheiro das águas se misturam com o perfume dele que... Kami, me fez sentir de novo uma adolescente. Fechei os olhos quando ele acariciou meu rosto e, praticamente resmungar um "também fico feliz de te encontrar".
Deixo-me levar pelas inúmeras sensações diante de tanto amor e carinho. Daisuke, agora muito mais maduro, não fez cantadas toscas, ou investidas desesperadas. Ele foi durante todo o tempo um cavaleiro, e extremamente respeitoso.
Um silêncio se instalou, mas não constrangedor. Apenas estávamos ali, curtindo a presença um do outro, o perfume, os toques... Estava tudo perfeito.
O céu se iluminou, e erguemos os olhos vendo as explosões multicoloridas que o show de fogos estava proporcionando. As luzes refletiram no espelho d'água, deixando tudo ainda mais belo
Não sei dizer se foi a bebida levemente alcoolizada, o perfume ou o ambiente mas, tomada de uma coragem incomum, beijei seu rosto.
Foi rápido, singelo e depois disso, escondi meu rosto no tecido de seu kimono. Delicadamente, Daisuke ergue meu olhar para o encara-lo, e suas orbes castanhas fitavam as minhas com um misto de susto, curiosidade e... Paixão? Não, acho que estou vendo coisas, será?
Sorrimos um pro outro, e me sinto desmanchada. Os dentes brancos e alinhados parecem iluminar a noite, aquecer meu corpo e fazer minhas mãos suarem.
Educadamente, e ele me oferece a mão, quicando-me
— Onde vamos? — Questiono curiosa
— Acho que essa noite merece uma dança para ser fechada, não concorda?
Quando percebo, a fogueira está ali. Uma música lenta, e gostosa toca de fundo, e Daisuke está, charmosamente, me convidando para uma dança. Olho o ruivo de cima a baixo, o seu kimono azul, ainda que um uniforme, está perfeito nele. Os óculos de aviador dão lugar a um de sol, estiloso e moderno, preso na cabeleira ruiva estilo Black power.
Sorrio largamente para ele, e deixou-me conduzir, descansando a cabeça em seu peito, ouvindo seu coração bater forte
A menina de 12 anos gritava, e eu... Ahh é uma noite apenas, uma noite de conto de fadas, amanhã reflito mais sobre isso... Amanhã...
FIM
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