Quando o Amor não é o Suficiente
3 Procura-se Uma Enfermeira
Notas iniciais
Dois meses depois...
O táxi parou na frente da porta do prédio. O porteiro abriu a porta de vidro para ela, ele estava sorrindo carismático, usava luvas brancas e um uniforme vermelho com dourado e preto. Ela achou bonito. A porta do elevador estava aberta, ela correu pedindo para segurar. Só havia um homem dentro, vestia branco e estava com uma raquete na mão. O homem saiu no 16º andar, ainda faltavam quatro andares para ela chegar, o que não demorou muito.
A porta do apartamento estava aberta, duas candidatas aguardavam ser chamadas na sala. Ela entrou, até o sofá são doze passos o que ela reduziu para nove, correndo e sentando-se na ponta esquerda que estava desocupada. A entrevista estava marcada para as 08h30, no relógio na parede em frente já passava das 09h00. Ela estava atrasada.
Uma mulher muito elegante entrou na sala. O vestido preto de marca famosa a deixava ainda mais elegante, os cabelos castanhos tingidos caiam pelos ombros, os brincos brilhavam mais que qualquer cristal. Ela se aproximou sorrindo sem mostrar seus dentes, parecia tão alta nos saltos que usava.
— Bom dia! Eu espero que eu não tenha deixado vocês esperando muito. Eu sou Majandra Fisher. – ela apertou a mão de cada uma. – Bem, vamos começar então.
A mulher fez algumas perguntas a cada uma das três jovens entrevistadas. Logo uma foi eliminada para o cargo, pois não tinha disponibilidade para viajar. Sobraram duas garotas e Majandra pensou em uma pergunta que lhe indicaria a profissional ideal. Não demorou muito para perceber que Kaley Mitz era a mais adequada ao cargo, parecia ter chegado sob encomenda.
*** ***
Dois meses antes, bar do Reed
— É muito simples, eu conheço tudo naquela casa. Principalmente o Edward, o tipo de cara que não sabe o que é ter um desejo negado. Tudo que você vai fazer é: entrar naquela casa, conquistar a confiança de todos eles, se passar pela boa moça que você não é. – Billy riu. – E fazer tudo o que você jurou não fazer quando se formou, mate ele, mate ele com pequenas doses diariamente. É só o que você precisa fazer, o resto fica comigo, eu resolvo.
Kaley pensou muito naquela noite, na loucura que foi obrigada a aceitar fazer, pensou nas pessoas queridas que estava em Salt Lake City.
*** ***
— Seja bem-vinda, Srta. Mitz. – disse Majandra a sós com Kaley. – Esta pasta tem tudo que vai precisar. As regras da casa, as medicações do Sr. Van De Manem, e o seu contrato. Vamos partir amanhã as 08h00, procure não se atrasar. Alguma dúvida Sra. Mitz?
Kaley estava ainda perdida com todas aquelas informações, mas balançou a cabeça positivamente e sorriu.
— Ótimo! Então nos vemos amanhã. Tenha um bom dia Srta. Mitz. – Majandra finalmente mostrou seus brancos e lindos dentes. – Srta. Mitz, leia seu contrato atentamente.
Ela já estava na porta para sair, virou e sorriu.
— Sim, eu irei ler atentamente. – respondeu antes de fechar a porta.
A sorte dela parecia não ter acabado, ou não tinha previsão para um terminou. O elevador a aguardava, um jovem estava sentado no chão escutando música, Kaley recordou-se da banda que seu irmão tanto escutava. Ela ainda o achou muito parecido com Alex, os cabelos negros cumpridos na frente dos olhos, as roupas largadas típicas de adolescente em crise. Sim, ele parecia muito com o Alex. O garoto escutava Crying Lightning da banda inglesa Arctic Monkeys. Ela sorriu, gostou da música, mesmo apreciando os clássicos antigos ainda assim ela gostou da música.
No apartamento dela algumas cartas estavam debaixo da porta junto com os jornais da semana passada. Era um aviso que ela passou algum tempo fora de casa. Kaley se abaixou para catar as cartas, com o pé chutou os jornais para um canto atrás da porta. Colocou as chaves no que chamava de mesa de entrada que sua amiga Tereza quebrou quando estava bêbada no inicio do ano. Talvez, Tereza estivesse sóbria, já que boa parte do ano ela estava embriagada. Seus cabelos negros cheiravam a Rum enquanto em sua boca sempre havia um cigarro, que ela inalava toda aquela fumaça e a expulsava com facilidade de seus pulmões. Isso tudo lembrou Kaley de ligar para casa, mas não teve presa em fazer isso, checou as correspondências primeiro. Algumas contas, água, luz, gás, e cartões de crédito. Uma carta do vizinho do lado – que provavelmente foi entregue por engano a ela – e a mais importante de todas era de Salt Lake City. Ela sentou no braço do sofá e abriu à carta tomando precações para não rasga-la, eram as letras da sua mãe, letras pequenas e redondas. Ela logo se recordou de como aprendeu a ler e escrever. Sua mãe ainda era enfermeira do hospital central de Salt Lake City, e a levava para seu plantão porque não tinha uma babá. No hospital tinha um paciente que a chamava de Pequeno anjo dourado. O Sr. Stan, ele a ensinara a ler e escrever com o auxilio de suas tão amadas revistas em quadrinho de Super heróis. Ele tinha um tumor no celebro, morreu em uma segunda-feira de céu estrelado. Ouviu Kaley ler pela última vez sua revista favorita do Capitão. Ela sentiu muito, foi sua grande perda na infância, acreditou por um tempo que assim como o Capitão voltou depois de morrer o Sr. Stan também voltaria. Ela respirou fundo antes de ler a carta.
Querida Kaley
Faz algum tempo que não nos falamos, e Allison tem perguntado muito por você. Principalmente agora com a chegada do inverno, com o dia de ações de graça. Ela queria muito você aqui, e eu também. Ela tem curiosidade de saber como você é, como está, se você realmente gosta dela. Eu não sei como responder a isso, nenhum de nos podemos responder a isso, somente você. Ela fez um desenho para você, está junto com a carta. Ela não quer que você se esqueça do aniversário dela depois do natal, por favor, não se esqueça, Kaley.
Algumas das novidades de Salt Lake City; Gary foi embora de casa, e você estava certa sobre ele. Gary Jones não é um bom sujeito. Mas tenho noticias boas. Seu irmão, Alex, foi aceito pela Universidade de Chicago. Ele foi aceito para o curso de Medicina Psiquiátrica, e deve começar no inicio do ano de 2016. Mas como posso dizer isso... Aquela banda de fundo de garagem está o atrapalhando, mas seu irmão não me escuta, está sempre rebelde e me culpa por tudo de errado que o acontece. Talvez, eu seja responsável, mas não é para um filho dizer isso. Volte Kaley, por favor. Não por mim, eu sei que nos desentendemos no passado, mas Allison e Alex precisam de você. Volte por eles.
A banda do Alex vai fazer um show em Canson City em Nevada. Eu sei que aqui ao lado, mas essas estradas são tão perigosas, e eu tenho medo. Tenho medo por ele. Ouvi-los falarem de abrir um show para uma grande banda da costa oeste no Kansas, parece que será depois do natal, e eu não sei como impedi-lo. Sito sua falta, você sempre foi uma melhor mãe para ele do que eu, eu que vivo para os loucos que me cercam no sanatório. Eu sei que é isso que dizem, mas talvez seja assim porque são os únicos que me entendem de verdade. Mas eu sou forte, eu sou forte por vocês.
Com amor, Jane!
Os olhos marejaram, quando percebeu o que estava fazendo Kaley já estava chorando. Entre os soluços ela retirou o desenho de dentro da carta, então ela sorriu quando viu o desenho que seria ela. Dobrou a carta e o desenho juntos, colocou dentro da mala que já estava pronta. Já estava tudo certo. Ela se lembrou de Billy, e desistiu de ligar para casa. Ele ligou para saber como foi tudo na entrevista, comemorou com sua gargalhada dizendo – Eu sabia, tudo como planejei. Majandra se faz de durona, mas se deixa levar por uma falsa carinha de anjo.
Kaley não conseguiu dormi bem durante a noite. Alguns pesadelos a atormentaram, ela se revirou na cama, e até acordou algumas vezes. Mas isso não a fez se atrasar no dia seguinte, as 08h00 em ponto ela estava lá, no apartamento a espera da Srta. Fisher.
— Srta. Mitz... É bom vê-la aqui novamente. – Majandra estava novamente de preto. Ela esticou a mão para saudar Kaley. – Isso significa que você leu e concordou com todos os termos.
— Sim. – ela respondeu de imediato. – Eu não sabia o que trazer. A senhora não me disse para onde vamos. Sei que é uma das regras não questionar o destino do Sr. Van De Manem, então, eu trouxe roupas de frio e algumas para o calor.
Majandra riu sem esboçar o que estava pensando.
— Uma falha minha, Srta. Mitz. Eu reconheço o meu erro, e peço desculpas, isso não ocorrera novamente. – ela continuava a sorrir o que assustava Kaley. – Vamos para Oregon. Nesta época do ano é bom levar casacos, grandes casacos.
— Eu tenho tudo o que preciso. – respondeu prontamente.
— Ótimo! Vou pedir que o Alejandro leve suas malas para o carro. – acenou para o homem na porta do apartamento. – Mitz.
—Sim.
— Troque o “senhora” por Majandra, ou, você. – ela piscou e sorriu para Kaley.
Kaley disfarçou a antipatia com um sorriso. No apartamento ela olhou para um lado e outro e não encontrou o Sr. Van De Manem. Alguns rapazes cuidavam de caixas com objetos que seriam levados para a viagem. Ainda no aeroporto ela não o viu, mas como era uma das regras.
2. Não questionar sobre onde está o Sr. Van De Manem.
Ela não perguntou, optou por esperar ser apresentada a ele. Imaginou que a própria Majandra iria apresenta-la ao Sr. Van De Manem.
Em Oregon eles desembarcaram em Salem, seguiram de carro para Portland Tucson. A neve começava a cair, flocos pequenos de neve, mas qualquer ventania a transformava em uma nevasca. Kaley ouviu varias histórias do motorista, Alejandro, que trabalhava para a família há trinta anos. Um homem grandão, atrapalhado e bondoso. Filho de espanhóis, seu pai também trabalhava para a família Van De Manem.
— Sabe todas aquelas coisas de regras? A maioria é coisa da cabeça de Majandra. Quando você conhecer o Sr. Martinus vai perceber isso, ele é um homem muito bom, você vai gostar dele. – ele falava enquanto suas mãos agarravam o volante.
— Eu acredito em você. Trinta anos são muita coisa, tem certeza que são trinta anos? – Kaley o fez rir.
— Eu dirigir por dez anos para o Sr. Martinus e sua esposa Melissa, e despois de suas trágicas mortes eu passei a dirigir para seu único filho. – ele fitava a longa estrada.
O carro onde estava Majandra vinha logo atrás. Na estrada eles passaram por um homem com o carro quebrado e uma placa escrita Ajuda com o carro. Alejandro passou direto pelo o homem, o segundo carro fez a mesma coisa, e o carro com a mudança também. Kaley ainda esticou o pescoço para vê-lo depois que o carro que estava o ultrapassou.
— Porque não parar para ajuda-lo? Está nevando, logo ele vai congelar. – disse ela comovida.
— Menina, aqui é uma estrada de Oregon. Se você parar corre o risco de não voltar mais para a estrada. – Alejandro a olhou rapidamente e voltou a fitar a estrada.
Ela pensou sobre isso ao longo da viajem que fica a cada minuto mais fria. Era o inicio do inverno mais frio dos últimos anos. Geralmente as nevascas aconteciam no final de janeiro, mas os acidentes realmente eram mais frequentes em fevereiro.
Depois de algum tempo de silêncio Alejandro ligou a rádio. Passou por algumas estações locais, mas o sinal estava péssimo, talvez fosse toda aquela neve que não parava de cair. Em uma estação tocava uma música da cantora Bebe Rexha, ele parecia ter gostado. Kaley o olhou de lado e riu escondendo seu lindo sorriso.
— Ei, você não gosta? É bem jovem, e sexy. Não é disso que a garotada gosta? – gracejava Alejandro.
— Acho que sim, mas eu já tenho vinte e oito anos. Sou de outra década. – ambos riram.
— Você ainda é bem jovem, menina. E não ganharia vinte e oito anos assim de graça. Eu chutaria vinte e cinco.
— Está falando isso para me agradar. – ela jogou a franja que insistia em cair na frente dos olhos para trás da orelha. – Posso fazer uma pergunta sobre o Sr. e a Sra. Van De Manem?
Alejandro ficou calado. Olhava fixamente para a estrada, já estavam pertos, faltava pouco mais de um quilometro.
— Sim! É bom ver que alguém tem alguma curiosidade sobre eles ainda. – ele sorriu para ela mais por conveniência.
— Eu sei que as regras que a Srta. Fisher nos passou diz sobre isso, que não se pode perguntar sobre isso. Mas eu preciso, não posso simplesmente chegar a uma casa que tem uma história e fazer somente o meu trabalho. – ela respirou fundo e fechou e abriu os olhos lentamente. – Como eles morreram? Martinus e Melissa.
Os olhos castanhos se voltaram para ela, e as mãos firmes no volante. Alejandro virou para a esquerda, e lá estava a estrada para casa coberta de neve. Uma casa branca perto do lago. De madeira as paredes pareciam ter sido erguidas há muito tempo, mas continuavam conservadas. Pinheiros a cercavam nos fundos onde tinha um balanço congelado pelo frio do inverno, e uma canoa emborcada próximo ao lago que começava a experimentar a fina neve. A casa do lago era grande, era uma mansão de inverno da família. Nos últimos três invernos eram para lá que o Sr. Van De Manem fugia de tudo.
— Chegamos a casa do lago. – Alejandro parou o carro.
— Me deixa adivinhar, você não vai me responder.
— Na verdade eu vou responder, mas não será agora. – ele abriu a porta e desceu do carro. – Vou tirar as malas Srta. Mitz.
Ela continuou dentro do carro, não conseguia interpretar as ações de Alejandro, se ele a queria bem ou era como a antipática Majandra. Enquanto construía um perfil para o motorista viu a porta principal da casa abrir. Um homem surgiu na porta. Tinha os cabelos curtos e negros assim como a barba que começava a ficar grande, talvez, duas ou três semanas sem fazer. Ela pensou se tratar do cuidador da casa, mas quando se aproximou dele Majandra o apresentou depois de abraça-lo.
— Edward esta é a Srta. Mitz a enfermeira. – ela ficou entre os dois.
— Srta. Mitz seja bem-vinda. – ele esticou a mão e sorriu.
De perto ela percebeu que os olhos dele eram azuis, e quando sorria covinhas discretas se formavam em suas bochechas. Ele realmente era como Billy o descreveu; o cara legal, bonito e charmoso. Kaley lembrou-se do seu proposito na casa.
— Obrigada, Sr. Van De Manem. – ela apertou firme a mão dele.
Majandra ficou fitando ela como se a lembrasse com apenas um olhar as regras.
— Elise, faça companhia a Srta. Mitz até o quarto dela. – Majandra disse a uma das duas empregadas da casa que estavam paradas do lado de dentro. – Acho que vai querer descansar Srta. Mitz. A viagem foi longa.
Aquela era mais uma ordem do que uma sugestão. O comportamento de Majandra era um reforço para Kaley continuar com o plano do Billy. Ela adoraria vê-la sofrer e perder tudo que tanto controlava, e de quebra ainda ficaria rica. Mas precisava ter cautela, saber agir na hora certa, tudo como planejou. A voz de Billy a atormentava diariamente.
*** ***
— Ouvir um caso do marido que aplicava insulina na esposa. Todos os dias, no mesmo horário Alfred aplicava uma dose na esposa. Ela tinha um seguro de vida de meio milhão, e o que o nosso herói fez. Alfred começou a aplicar doses altas, fugiu totalmente das prescrições medicas. Mas uma coisa ele não mudou; Alfred aplicava todos os dias no mesmo horário. – Billy jogou algumas batatas fritas na boca. – Um gênio, se não fosse pela borrice de aplicar três doses no mesmo dia em um curto espaço de tempo. Ellen entrou em coma, morreu uns dias depois. Ele recebeu o seguro, mas o pessoal da seguradora desconfiou das causas da morte de Ellen, e foi investigar.
Ele ficou calado por um tempo. Fez mistério sobre o fim da história.
— O que aconteceu? – perguntou Kaley o fitando.
— Booom! Nenhuma seguradora quer pagar meio milhão a qualquer idiota. Alfred foi burro, deixou desconfiança. É logico que foi ele que a matou pelo dinheiro, e pra ser mais otário, ele nem fugiu quando colocou a mão na grana. – ele riu depois de beber o que restava de tequila no copo. – Não seja um Alfred, Kaley. Não seja burra, não deixe desconfiança.
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