“Na minha época não tinha dessas coisas”, proclamava o velho, cuspindo no chão em um misto de indignação e saudosismo.

Ela fingiu que não entendia a conversa. Eram frases aleatórias e banais, como qualquer outra coisa que ocorre nas mesas de bar em finais de tarde. Olhou o chão.

“Olhe sempre para cima, minha filha, o chão é lugar de pisar”, diriam seus tutores se a visse naquele momento.

Ajeitou a franja verde para trás com a ponta dos dedos e achou lugar em uma mesa vazia, no cantinho mais escondido do estabelecimento.

“Não, senhor, no meu tempo não tinha nada dessas coisas de fadas, elfos, e sabe lá Deus o que tem andando por aí nos dias de hoje”, o idoso prosseguia seu repertório de insatisfações. “Bons tempos, aqueles. Éramos só nós”.

O que ela foi fazer naquele lugar, até hoje foge à minha compreensão. Era uma daquelas admiráveis ousadias, típicas da força rebelde que lhe arrebatava o coração ao ter uma ideia obstinada.

Achou prudente encolher as asas multicoloridas. Não que julgasse possível se passar por humana, mas exibi-las poderia ser erroneamente interpretado como uma afronta. Sabia que humanos consideravam imoral o espontâneo orgulho da beleza que as fadas possuem. O que para ela era natural como respirar, os humanos censuravam como escandaloso.

“Mas não podemos negar, ‘seu’ Pedro”, arguiu o jovem sentado de frente para o velho rancoroso, “eles nos trouxeram boas coisas”.

Por “boas coisas”, se referia às maiores inovações que essa espécie já conheceu, o uso das artes que ela aprendera desde criança.

“Pois eu te digo, garoto, volte a usar a boa e velha energia solar. Um dia vocês irão se arrepender por abrir as pernas para essas raças. Sabe-lá-deus o tipo de reação essa coisa de gemas pode causar no corpo humano”.

Ela sabia. Causaria uma vida prolongada em humanos. Infelizmente.

“Além disso, ficar tão dependente deles é ruim, muito ruim. Um dia eles mostrarão suas reais intenções. Espero que eu não esteja mais aqui para ver isso”.

É preciso fazer uma pausa nesse importante relato. Os mais atentos de vocês devem ter notado nas descrições das asas multicoloridas e cabelos verdes, que se tratava de uma Fada Silvestre na flor de sua Segunda Idade. Os mais jovens de vocês, que nasceram do lado de cá, talvez não saibam como ocorre a natureza dessa espécie rara — eu alertei, em meus ensaios, sobre a importância de se manter o conhecimento sobre a fisiologia e hierarquia de todos os povos. Mas é importante tomar nota do fato de que uma Fada Silvestre que consegue atingir a Terceira Idade sem perder o brilho das múltiplas cores das asas, ou o tom azul dos globos oculares, está apta para reproduzir, o que é um verdadeiro milagre para a espécie.

E também compete a este relato gravar-lhes à mente seu nome: Shala-an-nar. Nascida nas selvas, banhada nas puras águas do Nig-ur-la, encantadora de aves. Possuía o canto dos colibris nos finos lábios azulados. Eu poderia chamá-la pelo nome que usavam seus tutores — simplesmente Shala — mas cabe aqui eternizar toda a reverência e santidade de seu nome.
Onde eu estava? Sim, nos alertas do velho a respeito das gemas que lhes fornecem energia. Creio que foi a essa altura do diálogo que o jovem se levantou e foi até a mesa de Shala-an-nar. Ela o achou interessante, julgo. Afinal, ele parecia ao menos interessado nos benefícios que os povos mágicos trouxeram ao seu mundo. Pudera!, a sociedade humana não teria sobrevivido sem isto.

Sim, recordo-me agora que ela realmente gostou daquele humano, pois suas asas se abriram discretamente, deixando-a encabulada.

Como habitual, devo enfatizar o caráter profético na cadeia de eventos que contemplamos hoje, em nossas constantes previsões e retrospectivas. É uma lástima que os anciãos tenham se tornado tão cegos quanto os humanos. Quantas vezes eu supliquei… Ah, se tivessem me ouvido!

Mas estou divagando em lamentações as quais reservei para um outro manuscrito. Vocês hão de perdoar os efeitos da minha idade avançada.

Shala-an-nar era tão inocente quanto uma pequena ave que não sabe distinguir entre a direita e a esquerda. Ela ingenuamente teceu algum diálogo com o humano, o qual eu não transcreverei. Seu conteúdo era frívolo, e em certa altura se tornou em uma série de trocadilhos e metáforas que, salvo aquelas que se referiam às cores estampadas nas asas de Shala-an-nar, comparando-a com um pavão, eram incompreensíveis.

Até que ele declarou um pouco de seus pensamentos.

“Olha, eu acho melhor você deixar essa cidade”.

De modo algum eu me simpatizo com o rapaz, mas não pude deixar de concordar com ele. O local era povoado por velhos de olhares desconfiados e mentes encaixotadas. Hostil. Eu estivera ali tempo o suficiente para determinar enfaticamente — evitem cidades conservadoras como esta.

“Eu não pretendo ficar por muito tempo, apenas o suficiente para aprender um pouco sobre vocês”.

Ah, a candura ingênua que ainda encanta meus sonhos!

“Eu disse!”, manifestou-se o velho, aproximando-se deles. “Eles estão nos espionando para que? Não há nada que lhe interesse sobre nós, moça. Bisbilhoteiros não são bem-vindos aqui”.

Shala-an-nar podia ser inocente e às vezes tímida, mas tinha o seu orgulho, e como tinha. Fora ensinada a contê-lo para não irritar os humanos, mas quando acuada, ele saltava como gafanhoto daqueles olhos enormes. Ela se levantou com toda a imponência que lhe possuia em momentos como esse, e suas asas se abriram, enormes e brilhantes.

“Ei, ‘seu’ Pedro… eu cuido disso”. O rapaz até que tentou, devo admitir.

“Então você agora defende essas… coisas?”

Foi aí que eu percebi tardiamente que eu já deveria ter intervido. Um grupo de cinco, seis, sete homens se aproximava. O dono do estabelecimento olhou preocupado para os lados. Não havia mais ninguém além deste admirável elenco. Ele fechou as portas; com olhar arrependido, mas fechou, prevendo o que aconteceria ali.

Puxaram o rapaz e lhe deram uma boa surra. Chamaram-no de “fadinha”, provavelmente imaginando que isso fosse algum insulto. Jogaram-no em um canto, e eu jamais soube o que houve com ele, ou quais eram suas reais intenções. Não houve tempo para compreendê-lo.

Eu não me importei. Apenas queria tirar Shala-an-nar dali. Mas, como já devem saber aqueles que foram proibidos de serem associados a mim, a coragem correu de meus brios e eu me preocupei mais com minha própria subexistência.

Se arrependimento desse a oportunidade de voltar no tempo… Ou que eu tivesse perdido a visão! Mas não fui abençoado por nenhum dos dois milagres. De qualquer forma, este será mais um capítulo para o livro das minhas numerosas lamentações.

Agarraram Shala-an-nar como se ela fosse uma mera embalagem de qualquer coisa sem valor. Ela lutou, lutou sim. Mas uma Fada Silvestre foi feita para inspirar, encantar e ser amada. Não para lutar.

A primeira coisa que fizeram foi arrancar suas asas… suas majestosas, sagradas asas…

Perdoem este idoso, é tão doloroso relembrar tais coisas quanto necessário.

Eles queimaram suas asas em cima daquelas mesas cheias de gordura e cerveja, enquanto a dor arrancava-lhe os gritos que às vezes me acorda durante a noite.

Com uma faca, cortaram-lhe os cabelos verdes, que espalharam pelo chão. Jogaram-na com repulsa no balcão, bateram com sua cabeça na madeira. Acho que se surpreenderam com a fragilidade de uma fada ao notarem que a haviam assassinado.

Então, claro, perceberam o fenômeno que mudou as coisas para sempre. O corpo de Shala-an-nar se enrijeceu e os olhos refletiram o brilho de uma Garnet Azul.

Não há mais necessidade em narrar o que veio depois. Sabemos que com a descoberta de que, na morte, os olhos de fadas se transformam em garnet, muitos humanos começaram a caça. Claro, as fadas não são as únicas vítimas da chacina que ocorreu em muitos lugares. Elfos nobres e até mesmo os guerreiros sucumbiram, mesmo não havendo nada de valor em suas mortes. Até mesmo a garnet aparentemente já não vale mais como antes, tamanha foi a quantidade delas que apareceu no mercado durante as caças. Ainda assim, eles continuam caçando, como se fosse algo divertido.

Com isso, as máscaras que cobriam a fragilidade das relações diplomáticas entre as espécies, caíram. Não houve uma guerra declarada, houve um holocausto.

Não temos armas para combatê-los. Estamos longe de casa, escondidos, famintos, abatidos e sem esperanças. Pela primeira vez encaramos a extinção.
Se houvesse tempo para lamentar os erros, essas páginas não seriam o suficiente. Sim, o livro das lamentações, é um projeto ambicioso que visa a salvação de minha sanidade. Devo encontrar material para isto.

Não tenho mais esperanças para a utilidade de todo o nosso conhecimento e toda nossa cultura, que busco registrar em incontáveis volumes. Não me parece que há um futuro promissor em que faremos uso de tais manuscritos para reconstruir nossa gloriosa civilização. Também temo que os humanos encontrem este esconderijo e todo esse conteúdo caia em suas mãos. Seria uma catástrofe sem precedentes. Por vezes, penso em incinerar meu trabalho de décadas.

Sei que quando vejo alguns de vocês, jovens que se preparam para um arriscado retorno ao nosso lar silvestre, enfrentando os perigos que o trajeto oferece, meus olhos deveriam se encher de esperança. Mas estes olhos estão cansados de verem tantos de nós caírem. Shala-an-nar foi apenas a primeira história trágica. Talvez um dia eu escreva sobre o príncipe Tel-ar-mar.

É por isso que peço para que me deixem executar meu plano, por mais que a combalida confiança em minha pessoa recomende o contrário. A ideia é simples e não haverá chance de fuga para o lar silvestre de outra forma.

Descansarei em paz para sempre, redimido, assim que eu desativar o centro energético das gemas. Com sorte, terei tempo de vislumbrar o colapso da civilização humana, antes que eu seja tragado pela explosão, conduzindo-me ao desejado oblívio.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!