Quando eu cheguei.

1 Capítulo 1 - Quando eu cheguei.


Era mais uma tarde qualquer daquelas que saímos do colégio de manhã e nos jogamos no sofá e deixamos qualquer informação preencher o espaço que fica entre uma preocupação e outra.

As paredes de casa descascavam por alguma infiltração de água da chuva que insistia em cair sempre no mesmo lugar. Era como se cada detalhe daquela casa tivesse sido moldado para funcionar de um jeito extremo. Era assim com as paredes, com os móveis estrategicamente posicionados, era assim comigo e era assim com minha mãe. Cada um tinha uma função e nenhuma delas deveria ser discutida.

Desde cedo aprendi meu lugar. Era como uma prisioneira em um castelo. A questão era que eu estava em uma casa pobre e não em um castelo. A questão é que não queria ser resgatada. A questão é que estava sendo protegida. Dessa vez, não por uma bruxa, mas por uma rainha que sabia que o mundo lá fora seria cruel demais pra mim.

Mamãe me contava histórias sobre os homens. Sobre abandono. Sobre igualdade e ao mesmo tempo sobre não me sentar de pernas abertas e não usar roupas curtas. Mas mamãe não fazia aquilo. Mamãe era livre e ela sofria por isso. Mamãe se preocupava comigo e queria que eu fosse livre dentro do nosso próprio reino, sabia que quando eu saísse, poderia sofrer como ela. Mamãe estava desaparecida. Era óbvio. Nunca havia ficado fora por tanto tempo.

Eu sinceramente havia me acostumado desde os seis anos a encontrar mamãe com hematomas ou com feridas nos punhos. "Estou tentando mudar nossa cidade" ─ ela dizia. E eu, desde cedo entendi, que apesar de envolver seu frágil corpo, a luta de mamãe era mais que isso. Era mais que sangue. Era a alma.

Mamãe lutava junto com várias outras garotas. Uma delas, na época com uns vinte e cinco anos, chamada de Nana ─ a quem hoje chamo de tia Nana ─, insistia em chamar minha mãe de líder.

Elas lutavam por aumento no salário. Trabalhavam dia e noite por uma micharia. E era o suor de mamãe que me dava o conforto. Logo compreendi que teria que optar pelos abraços de uma líder, ou pela comodidade de um lar confortável.

Quando inteirei idade suficiente, entendi que a ausência de mamãe também me proporcionou o conforto e que não precisava optar entre um e outro. Um era resultado do outro. Do silêncio da sala vazia, nos programas da tarde "de mulherzinha", que eu assistia sozinha, brotava-se a admiração sempre que via o porta retrato em cima da TV, que mostrava mamãe e suas amigas sendo promovidas ao lado de dezenas de caras que olhavam descontentes.

Minha vida inteira fora assim. Meias palavras. Silêncio. "Tudo bem mamãe, eu te espero". Até que um dia, eu esperei demais.

Me acostumei tanto com ela longe de mim, que não notei ao certo o que era silêncio e o que era partida. Não notei ao certo o que era um "até logo" ou um "adeus". Ela nunca quis ir embora. Nunca quis sumir. Sumiram com ela. E eu sumi comigo mesma, dentro de mim. De tristeza. De felicidade. Afinal, é mais fácil ser feliz sozinha, ou mais difícil se adaptar em companhia?

Mamãe não iria voltar. Mamãe estava desaparecida. Era óbvio. Dessa vez ela não voltaria. Talvez um daqueles caras horrendos que a encaravam naquele porta retrato, tivesse a matado, ou a ferido. Talvez toda a sua luta ficasse marcada para sempre como a luta da mulher que lutou por si mesma, mas se tornou um ícone para uma nova geração. Talvez ela se tornasse referência sobre direitos e igualdade, mas a vida dela não seria igual. Ela não voltaria. Ela não estaria ali pra ser igual. Eu sentia isso.

Depois de entender sobre o luto. Descobri que lidei com a aceitação desde criança. Não chorei. Não fiquei feliz. Não tinha reação. Só lutava por justiça. Se ela havia desaparecido, deveriam encontrá-la. Liguei para a polícia e notifiquei o caso.

Não sabia se podia dar queixa e dizer que ela estava desaparecida. Quando foi que mamãe esteve aparecida em minha vida?

"Você deve estar sofrendo muito" ─ uma das polícias me dizia. Eu curvei os lábios na mesa da delegacia, tentei esboçar um sorriso e acenei com a cabeça. Um misto de "sim" e "não". Não sabia o que sentir, mas notei que ao menos, ao contrário dos que estavam ali, eu não sofria.

Até que ponto sofrer seria normal? Passei a vida inteira com aquilo. Não sabia o que era sentir a perda. Já havia perdido desde criança.

De fato não culpava mamãe. Insisto em dizer que entendia toda a sua luta e história. Mas, não posso culpar à mim mesma a minha frieza. Precisava colocar a culpa em alguém. Era horrível não sentir nada. E do mesmo jeito que sou grata por tudo, também sentia falta de ter com quem conversar. Finalmente estava sentindo algo. Finalmente não me sentia tão estranha. Podia até enxergar em mim mesma um curvamento desolado, como o de outras pessoas que prestavam queixa no mesmo local.

Mas é sempre quando se tira conclusões, que mais respostas aparecem. Se antes eu não sabia ao certo o que era perder e agora estava entendendo e aceitando o fato de que eu também culpava mamãe, aceitando todos os meus sentimentos reprimidos, a perda ─ sentimento responsável por toda a reflexão ─ tomou outro rumo.

O papel dizia meu nome completo. Me mostrava um endereço. Era naquela nova rua que eu deveria morar. Com alguém chamado Paul.

Já havia ouvido falar dele. Tia Nana dizia que Paul era um covarde que me abandonou com mamãe. Agora, o covarde era tudo que me restava.

Eu só tinha dezessete anos. Provavelmente era mais corajosa que ele, mas pela lei, eu era fraca. Pela lei, ainda precisava de um responsável por mim.

Talvez se tivesse ficado calada e deixado a solidão e o silêncio se fazendo presente, não teria que estar presente na casa dele.

Eu não o conhecia. Ele seria um estranho. Mas ali estava eu: Em um trem, com uma assistente social ao meu lado. Milhares de pensamentos na cabeça e a tentativa em vão de focar nos meus próprios pensamentos enquanto dezenas de pessoas conversavam normalmente uma com as outras e eu achava tudo um escândalo sem fim. Um grito diante de uma sala sem móveis. Um eco agudo e seco.

Mas as pessoas não eram culpadas. Não estavam gritando. Eu só havia me acostumado com o nada. E quando você tem nada, qualquer coisa que te dão costuma ser demais. E o demais, nem sempre é favorável.

No meu caso, a única coisa favorável era finalmente descer daquele trem, me despedir da assistente social e jamais entrar na casa daquele homem.

Paul poderia ser meu pai na certidão de nascimento. Mas meu pai e mãe verdadeiros eram apenas mamãe e ela havia desaparecido. Paul era um saco de carne. Eu já o odiava antes de vê-lo.

Minha mãe estava por aí, junto com Nana e as outras. Era meu dever encontrá-las. Meu pai não me impediria. Ao menos era o que eu pensava até ele abrir a porta e eu finalmente entender o motivo de Paul ter a abandonado.

Paul não era quem eu pensava. Talvez mamãe nunca fosse.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.