Quando eu amava você
3 Primeiro Encontro
Primeiro encontro.
13h28; Praça de alimentação do Shopping.
— Uau, Emily! Você realmente me ajudou nessa, tenho que te recompensar!
Este era Rodrigo, apenas alguém que conheci a alguns dias, fomos em um encontro de casais sugerido por Lane, uma amiga que insistia em dizer que eu precisava de um homem. A questão é que não preciso.
Ele estudava Artes e parece que eu era a única pessoa disponível em sua lista telefônica para lhe ajudar numa maquete. Bem, eu não entendo nada de artes, usei conhecimentos básicos do que aprendi no fundamental, ele parece ter ficado bem satisfeito.
— Sério, não precisa, eu só fiz o que você mandou. — sorri gentilmente, Rodrigo estava animado com o trabalho feito.
— Mas não só isso, veio ajudar alguém que não conhece não faz nem um mês!
— Bem, você veio até o meu trabalho... Não podia dizer não.
Era horário de almoço, faltava poucos minutos para acabar e eu estava faminta! Foi neste momento que me arrependi de trocar nossos números de telefone.
Estávamos sentados numa mesa na praça de alimentação do Shopping, a loja na qual eu trabalhava ficava no segundo piso, então acho que daria tempo de comer algum lanchinho pelo caminho, menos mal!
— É... Sobre isso, eu sinto muito te atrapalhar, deixa eu te pagar um jantar!
— Ahn? Não mesmo, obrigada. — notando que minha resposta tinha sido... um pouco rude, tentei esclarecer — Sabe, é que...
— Olha, tudo bem, você não é a primeira a recusar um convite meu, — ele disse normalmente — então, que tal só uma bebida? Nada casual!
Homens eram fofos quando insistiam.
— OK, ok! — falei um pouco desinteressada.
— Tem uma adega não muito longe daqui, lá tem um espaço bacana, um barzinho bem na entrada, depois eu te mando o endereço, pode ser?
— Claro, sem problemas, então até mais tarde!
Levantei-me e acenei para não ter que prolongar a conversa com despedidas, comprei alguns pães-de-queijo no final da praça e peguei a escada-rolante para o segundo andar.
Assim que cheguei no meu local de trabalho os pães-de-queijo também haviam acabado, dobrei o saquinho no qual eles estavam e guardei no bolso para jogar fora mais tarde. Segui para o setor imobiliário — a loja possuía artigos para casa, e eu ficava na área de móveis. Depois de passar por duas montagens de cozinha e atravessar um quintal, cheguei em uma sala onde estava Sadie, uma colega de trabalho, ela estava deitada no sofá lendo uma revista.
— Sabe, se te pegarem não diga que não lhe avisei.
— Mas não avisou! — disse divertida — e como foi seu almoço com o gatinho? — ela colocou a revista em baixo do sofá e sentou com as pernas cruzadas com um olhar malicioso.
— Você acabou de dizer, foi apenas um almoço, que não foi um almoço! Ele só precisava de ajuda num trabalho de faculdade, não me olhe assim! — cruzei os braços.
— Emily, se você ajudar sempre qualquer cara que aparece de bandeja pra você nunca vai arranjar ninguém. Cansei de dizer isso, sempre faz o papel de amiguinha.
— Como se eu quisesse ser mais que isso, alias, se ele te interessou pode pega-lo. — sentei-me ao seu lado, ainda com um pouco de fome.
— Não, mas obrigada pelo convite! Não me interesso por caras, sabe disso.
— Poderia tentar provar da fruta. — sugeri, fechei os olhos e passei a mão na testa que começava a latejar.
— Pois eu ia dizer isso agora mesmo...
Senti ela sentando-se no meu colo, então abri minhas pálpebras e dei de cara com o profundo azul que eram seus olhos.
— Se nos pegarem de novo aquele gerente vai nos separar, você é a única pessoa com quem me dou bem nessa loja, por favor Sadie!
— Mas agora não tem ninguém aqui, minha querida Emily. — ela sussurrou em meu ouvido fazendo-me arrepiar.
Apesar de não ser lésbica, eu gostava do atrevimento da minha colega.
— Senhoritas...
Esta voz, com certeza era do gerente.
— Desculpe! — Sadie disse imediatamente — estávamos...
— Voltem ao trabalho! — resmungou e saiu andando grosseiramente.
Ri da expressão que Sadie estava fazendo, dessa vez ela se assustou!
— Mas esse cara aparece nos melhores momentos... — dizia ela já em pé — bem, continuamos uma outra hora! — ela piscou e foi para o quarto ao lado, onde, aparentemente, havia aparecido clientes.
Certo, eu preciso começar a trabalhar também.
Pessoas foram chegando de pouco em pouco, sempre que estava livre eu oferecia meu serviço com um belo sorriso! Mostrava os moveis mais bonitos, dos mais caros até os mais baratos. Se o cliente ficava satisfeito, meu patrão muito provavelmente não ficara por um mês todo no meu pé! O que era ótimo, já que, como podem ter visto, Sadie me faz levar muitas broncas.
~ ♥ ~
Quando faltava poucos minutos para a loja fechar e já não tinha mais nenhum cliente, fui para o banheiro dos funcionários para trocar de roupa.
— Então, tem planos para hoje? — perguntou minha colega tarada.
— Aparentemente irei beber com o Rodrigo — disse desanimada — não quer me acompanhar nessa? — pedi manhosa.
— Fazendo essa cara até posso pensar a respeito — respondeu enquanto abotoava a camisa e logo em seguida trançava seu cabelo loiro.
— Bom, meninas já vou indo, — esta era Samantha, outra funcionária da loja — boa sorte, Emily.
— Tchau Sam! — sorri e virei-me para Sadie — e então?
— Está bem. Com essa são três!
— Você estava contando? — ri brincalhona — obrigada, vou terminar aqui e já iremos.
— Ok, vou lá para fora fumar, a senhorita tem o costume de demorar, não é mesmo? — ela também riu e saiu deixando-me sozinha.
Soltei meu cabelo que estava preso num coque incomodo, lavei o rosto tirando toda a maquiagem feita de manhã e fiquei encarando meu reflexo por alguns segundos, um costume talvez, tirei o uniforme e coloquei no armário que a loja reservava para cada um dos funcionários, coloquei minha roupa e estava pronta para sair. Mas, falta alguma coisa... Passei um gloss e...
— Isso! — pensei satisfeita com minha aparência nada impressionante.
Ao sair do shopping vi Sadie em seu sobretudo sentada na beira da calçada, cheguei mais perto e ela sorriu, bem, não demorei tanto quanto pensei, dessa vez não levei sermão. Ela ergueu-se e deu mais uma tragada antes de jogar o restante do cigarro fora.
— Onde é o lugar? — ela perguntou.
— Ah, não sei, ele ia me enviar o endereço...
Meu celular vibrou bem na hora, era uma mensagem do Rodrigo, a loira percebeu e ficou ao meu lado para ler o que estava escrito, não por precaução para onde iriamos, e sim porque era uma xereta.
— Nossa, eu conheço esse lugar! — gritou espontaneamente.
— Não precisava disso! — retruquei no mesmo tom — pelo jeito você será a guia de hoje!
Apoiei-me em seu braço e começamos a andar, já que carro era um luxo que não conhecíamos, e essa era a nossa maior diversão.
Após uma bela caminhada de mais ou menos meia-hora, havíamos chegado na ‘Adega do Jocá’... Bem, estava escrito numa placa brilhante com pequenas lanternas piscando, ela estava acima de uma escada — devido a escuridão da rua eu não pude ver muito bem — mas como minha colega já sabia da existência daquele lugar, não foi muito difícil me puxar escadaria abaixo.
O final nos levava a um portal para o provável bar, dele emanava uma luz alaranjada e podia-se ouvir as vozes de quem já estava lá dentro. Música e gargalhadas.
— Vamos procurar pelo seu amigo. — disse Sadie.
Primeiramente eu deslumbrei o lugar, não era nada demais, mas a decoração era típica daqueles bares ingleses. O balcão era feito de madeira e comprido, as bebidas ficavam expostas em várias prateleiras que alcançavam o teto, havia banquetas na frente do balcão para aqueles que quisessem tomar sua bebida junto com o barman, ou simplesmente não sentar nas mesas, estas que também eram feitas de madeira negra.
Tinha uma grande mesa de bilhar no centro do recinto e um pequeno palco, onde havia alguns instrumentos, no fundo do local. Foi quando vi Rodrigo, acenava para mim, parecia estar fazendo isso a alguns segundos, ele estava sentado lá atrás, então eu e Sadie seguimos para o seu encontro.
— Oi... — ele começou — não sabia que ia vir acompanhada. Sou Rodrigo, prazer! — cumprimentou Sadie com um beijo na bochecha e voltou a se sentar, nós fizemos o mesmo.
— Ah, sabe, ela me pediu e eu não pude recusar...
— Trabalhamos no mesmo lugar! — disse tentando endireitar a conversa.
— É, sou Sadie.
— Foi uma sorte você ter vindo, um amigo meu também vai chegar logo.
— Amigo? — falei surpresa — que amigo?
— Calma, filhota, vamos pedir algo para beber primeiro... — falou Sadie pronta para se levantar e ir até o balcão.
— Pode deixar, eu pego! — Rodrigo então se levantou e sorriu para mim antes de sair.
Tudo o que eu fiz foi cobrir meu rosto com uma mão, apoiando o cotovelo sobre a mesa.
— Cara, ele está tão na sua! — Sadie brincou, rindo da minha expressão.
— Por favor, Sadie!
— Só espero mesmo que ele não ache que estou aqui para um “encontro de duplas”, aposto que ele foi ligar para aquele “amigo” dele agorinha mesmo. É uma pena que a única garota bonita do bar não se interessa por mim. — ela me fitou com um sorriso de canto e também apoiou o cotovelo na mesa, seu olhar não ousava desviar e eu começava a ruborizar — Você é uma fofa! — ela riu.
A loira pegou o costume de me constranger e eu fiquei com o hábito de ficar constrangida.
— Dois shops para as moças! — Rodrigo tinha voltado e colocou as bebidas na mesa.
Peguei a minha rapidamente e bebi até a metade para disfarçar o que Sadie acabara de fazer, mas, duvido que com aquela luz fosse possível notar, de qualquer forma, já estava feito.
— Uau... — exclamou Rodrigo.
Sadie também virou o copo e então disse:
— É um costume nosso, saber comemorar a primeira bebida com bom gosto, não é, Emily?
— Claro...
— Bem, — Rodrigo então fez o mesmo, terminando com sua bebida — vou participar dessa também!
~ ♥ ~
Estávamos na sétima ou décima rodada de... algo que Sadie fez a gente beber. Conversávamos sobre assuntos aleatórios e eu já estava meio zonza.
— Agora sim, tenho certeza que seu amigo não vai chegar! Uma hora certinha! — contei vitoriosa enquanto mostrava o relógio pelo meu celular para as duas pessoas na mesa.
— Emily, da para sentar? — pediu Sadie, enquanto ria.
— Ela já bebeu alguma vez?
— Sim, eu acho, mas parece a primeira... Rodrigo, acho melhor eu levar ela para casa...
— Por favor, fiquem, eu acabei de chegar!
Disse um rapaz alto, moreno e com um sorriso encantador. Mas, não foi por isso que Sadie voltou para sua cadeira, eu que estava o encarando demais.
— Case! — animou-se Rodrigo recebendo o estranho, que logo sentou-se conosco.
— Desculpem a demora, eu estava ajudando uma aluna com seu TCC.
— Então, você é professor? — perguntei curiosa.
— É, quase, eu só ensino informática, um trabalho pra ganhar uma graninha extra.
— Sei, que legal!
Eu devo ter me aproximado, mesmo que só um pouco, demais de seu rosto, ele recuou dando um riso.
Céus! Estou com bafo?
— Então, loira, tem nome? — dirigiu-se a Sadie, que logo me olhou com uma sobrancelha arqueada, o que eu posso fazer se os heteros preferem as lésbicas?
Dei de ombros e fui para o banheiro do bar, cambaleando, mas fui. Molhei o rosto e encarei o meu reflexo, sequei as mãos no meu jeans, já que aparentemente, lá não tinha nada higiênico para usar.
Voltando para a mesa onde estávamos, encontrei-me com Sadie na metade do caminho, ou ela me encontrou, caminhava até mim com mais uma rodada, eu apenas peguei e bebi colocando o copo numa mesa qualquer. Sadie segurou pela minha mão e me puxou até uma parte do bar onde estava mais vazio, todos aparentemente nos encaravam, mas sem cessar suas conversas paralelas. A loira fez um sinal para o barman e uma música sensual começou a tocar.
— Mas o que é isso, Sadie? — assustada tampei o rosto com as mãos — fala logo!
— Estou te deixando mais desejável, querida Emily. — ela piscou novamente, pegou minhas mãos e junto com as dela segurou nos meus quadris.
— Sadie, por Deus! Pode ir me soltando! — sussurrei quase gritando.
— Na, nã, ni, nã, não! — ela riu — você que tem que se soltar!
A loira começou a rebolar e eu a imita-lá, com suas mãos me guiando iniciamos a nossa “dança”. Ela virou-me e eu pude sentir seus seios nas minhas costas, Sadie estava se aproveitando daquilo com certeza! Suas mãos passeavam da minha coxa até minha cintura, nada mais que isso. Então, eu estava encarando seu rosto novamente e ao longe eu ouvia os gritos eloquentes de quem nos assistia.
De sensual a música ficou mais agitada. Sorrimos uma para a outra e eu começava a me divertir com aquilo. Já não éramos mais as únicas em pé dançando, quando vi que minha colega estava satisfeita, voltei para o meu lugar e tomei a bebida do amiguinho de Rodrigo.
— Vocês dançam muito bem. — disse Case.
— Eu sei. — respondeu Sadie sarcástica. — Vamos Rodrigo, vem dançar também!
Ela o puxou sem que ele respondesse e o levou para a “pista de dança”.
Ri e sentei-me de frente com o cara.
— Então... — ele começou — sua amiga é lésbica mesmo?
— Sim, não adianta querer mudar, por que ela nasceu com esse dom! — dei um sorriso amarelo, não pela minha resposta, eu respondi com orgulho, Sadie era uma ótima pessoa, mas, mais pela maneira de como ele perguntou.
— Ah, não, de jeito nenhum! Só achei um...
— Desperdício? Sei. — cruzei os braços e o encarei irônica.
— Você não foi nem um pouco com a minha cara, não foi?
Apenas olhei para o tumulto no centro do bar, até encontrar Rodrigo e Sadie às risadas.
— Desculpe! — disse perplexo, chamando minha atenção novamente — vocês são namoradas?
— O que? — falei surpresa — Não! eu e Sadie somos apenas amigas, colegas de trabalho. Mas, pode apostar que as lésbicas têm sorte de tê-la.
— Unhum... — ele apenas sorriu e começou a me encarar.
— O que foi? — perguntei também o olhando nos olhos.
— Nada!
Tentei deixar para lá olhando para os meus amigos dançando, ou para uma sujeira no chão, mas aquele olhar para cima de mim começava a pesar, e depois de um tempo comecei a achar estranho.
— Sério, o que foi? — perguntei pela segunda vez.
— É que, você parece ser mais interessante do que aparenta ser.
Isso foi um elogio?
— Eu devo agradecer?
— Sim, mas deixe comigo!
Case foi até o balcão e trouxe duas taças de shop para a mesa, uma ele me deu e a outra segurou a esticando para propor um brinde, que foi retribuído. Enquanto bebíamos nos fitávamos, pude perceber que seus olhos eram castanhos, assim como os meus, porém os dele eram mais galantes e serenos. Os meus eram simples mágicos.
Disso tudo, um sorriso igual foi dado por nós dois, e assim a noite terminou.
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