Quando ela partir

2 Isso é um pé no saco que eu nem tenho


✦

Capítulo 2

Isso é um pé no saco que eu nem tenho

por Maria Lírio

✦

Estamos em novembro. E pelo o quê ando percebendo desde que abri os olhos, é que eu ainda não morri.

Te poupando dessa coisa de menina espera a morte toda vez que acorda, deixa eu te contar a novidade que a senhora Paige, doce e velha porém viva feito uma criança de dois anos trouxe pra o andar de número quatro: (antes que você me pergunte: o andar um é a sala de quimioterapia, o dois são os quartos das crianças, o três pros adultos e uti, e como da pra imaginar, o andar quatro é o ultimo andar que eu acredito que, ninguém nem sonha em pisar. )

Voltando a novidade, como se não bastasse as pessoas da recepção, da minha família falarem comigo como se fosse o último dia que vão me ver (Além do dia do meu velório) a senhora Paige junto com os donos do hospital decidiram contratar uma moça pra tocar violino por cinco horas na porta do elevador. Que maravilha não é mesmo? Pelas minhas pesquisas, a moça se chama Margô e pode ter saído daquele filme A família Addams. Não é que eu esteja sendo rabugenta, mas ela vai tocar TODO O SANTO DIA logo no corredor do meu quarto. Não me leve a mal, eu adoro música mas essa tá difícil de engolir.

Você não acha meio triste? prematuro demais? Tipo, eu nem morri ainda caramba! Mas confesso que esse negócio do violino até que é engraçado porque quando as pessoas sobem pra esse andar e passam pela Margô elas tem duas opções. A primeira é que elas recuam e apertam o botão de fechar a porta do elevador e a segunda — Que não é tão engraçada assim. É quando elas entram na recepção e são afogadas pela onda de pré-enterro e dá até pra saber oque que elas pensam naquele exato momento. '' Quando eles vão morrer? '' ou '' Pra onde será que eles vão? '' . A doutora Marise que é a psicologa do andar dos '' quase mortos '' diz que o violino acalma os pacientes. Bom, acho que isso só serve pra os pacientes quase jurássicos desse corredor. Mas e eu? Sou uma adolescente e também tô morrendo nessa droga de quarto! Não é pedir demais uma hora de música eletrônica...

Não é que eu seja tão mesquinha assim. As enfermeiras daqui são um amor, mas elas tem que entender que eu não posso ser poupada ( ou posso sei lá ) só porque eu sou jovem demais pra morrer. Quer dizer, olha por um lado, todos morrem! pode não ser agora, mas uma hora, as gostosas, os jogadores, os cantores, os mendigos e até mesmo você vão morrer um dia. Eu só ganhei uma entrada vip e passei na frente de todos vocês. Mas na verdade, isso é um pé no saco que eu nem tenho.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.