Quando as luzes se apagam
1 Quando as luzes se apagam
Notas iniciais
Ariana como sempre conversava alegremente com sua família, já era de costume ficarem das nove da noite até a meia-noite conversando. Então o pai dela mandou-a ir deitar e dormir, nesse momento o coração de Ariana parou. Ela odiava ir dormir, ter de atravessar a escuridão do corredor, ir até o banheiro escovar os dentes em frente a um espelho que para ela era macabro e, sem poder acender as luzes por causa do irmão mais novo, ir se deitar na sua assustadora e gélida cama. Pediu para os pais para dormir ali com eles, o que foi negado. “Você tem treze anos, está velha demais para isso. E outra coisa, não caberia aqui conosco.”. A mãe dizia quase dormindo.
“Mas mãe, eu tenho muito medo do escuro!” Ariana resmungava segurando a borda da camiseta que usava. “Por favor, mamãe. Por favor, papai.”
“Querida, não precisa ter medo, tudo que tem no claro tem no escuro.” O pai tentava acalma-la e depois acompanhou a garota até a porta fechando-a.
“Eu sei que tem... Mas pode ter algo a mais.” Murmurou encarando o corredor escuro e imaginando que criaturas sombrias sairiam das paredes.
Começou a andar, no meio do corredor, toda encolhida. Estava na metade, quando sentiu algo em sua perna, podia ser imaginação, mas para ela era muito real. Tapou a boca para evitar dar um grito e continuou a andar, agora com os olhos marejados.
E finalmente, o banheiro. Entrou sorrateira e olhando para todo lado, prestando atenção especialmente no espelho “maligno”. Tentou acender as luzes, mas lembrou-se que naquela manhã haviam queimado. Tremia por completo enquanto dava passos curtos até o espelho, apoiou-se na pia enquanto encarava-o. Acendeu a luz do próprio espelho, uma fraca luz alaranjada que iluminava apenas o rosto da garota, a pia e um pouco do chão.
Ariana esticou o braço abrindo o pote da escova desajeitadamente. Pegou uma escova, ainda olhando para o espelho, rezava para ser a certa. Infelizmente teve azar, era a de sua mãe. Guardou e pegou outra, era a dela. Ainda encarando o espelho, ela apoiou a escova na pia, sentindo um arrepio na nuca e ouvindo um suposto sussurro, que lembrava uma risada maligna. Agora, ela se dava ao trabalho de abrir a pasta, a tampa presa por pasta endurecida e ela não olhar o tubo da pasta, mas sim para o espelho, não ajudava em nada.
Suspirou aliviada, a tampa saiu sem tanto esforço. Colocou a pasta na escova e escovou os dentes olhando para trás de vez em quando, seu medo era de encontrar um ser sombrio ali. Na hora de cuspir a espuma e enxaguar a boca, foi um desafio maior ainda. Ela cuspia e olhava para cima, jurando para si mesma que tinha visto algo ou alguém atrás dela.
“Por que eu nunca escovo os dentes antes de ir falar com a mamãe e o papai...” Pensava alto guardando, totalmente desconfiada, a escova e o tubo de pasta dental. “Daí eu nunca ia ter que vir até o espelho macabro escovar os dentes.”
Com receio apagou a luz alaranjada e saiu o mais rápido que pode do banheiro, sem se esquecer de fechar a porta. Respirava o mais baixo que podia, olhando tudo a sua volta no corredor negro e sem nenhuma janela. Os quadros que ela mesma desenhara, ou que a mãe pintara se tornaram aterrorizantes, como se algo tivesse os rasgado e rabiscado. Cada passo curto da garota que tremia fazia um som estranho no chão de madeira, como se mais alguma coisa além dela andasse ali. Novamente, Ariana sentiu algo com toque leve em seu tornozelo. Tapava a boca para conter os berros que pretendia dar, mas de que valeria? Ninguém iria estar lá se os pais da jovem viessem dar-lhe uma bronca e acendessem a luz. Começou a andar mais rápido, causando novos ruídos no chão.
Ali estava o quarto, na mais completa escuridão e em um silencio absoluto. O berço do irmão lhe parecia mais com um cercado de monstros e sua cama, localizada perto da janela, parecia cercada de seres do mal. Fechou a porta e se jogou debaixo das cobertas, mesmo assim não conseguiu dormir. O lençol parecia pequeno nos pés, trazendo a sensação que algo a puxaria pelo pé. Apesar de estar perfeitamente coberta ela ainda choramingava triste. Estava prestes a chorar quando a porta se abriu e alguém ligou uma luz.
“Melhorou?” A voz de seu irmão mais velho, Thomas, acalmou seu coração. “Sabe, o escuro pode ser assustador, mas com um pouco de luz, se transforma em um espetáculo...” Sentou-se na beira da cama e apontou para o teto, as sombras causadas pela luz de seu celular dançavam alegres para Ariana. “Lindo né?”
“Obrigada mano...” Ela sussurrou fechando os olhos, agora calma. “Eu te amo, mesmo que você não fique mais aqui...” Ela resmungou lembrando que o irmão iria para outra cidade estudar.
“Não se preocupe maninha...” Cochichou Thomas dando-lhe um beijo na testa e vendo que ela agora dormia. “Mesmo longe, eu continuarei trazendo luz a você...”.
O garoto saiu do quarto deixando seu celular lá. Ele sorria fracamente, mesmo assim estava triste. Sem ele ali, ninguém daria luz para Ariana dormir, ninguém a acalmaria nos dias de apagão com uma luz que pisca, e ela nunca mais dormiria bem ou sorriria quando a luz apaga-se. Suspirou ainda segurando a maçaneta da porta, tinha tomado uma decisão.
Na manhã seguinte, Thomas foi embora, deixando sua família ali. O dia passou tranquilo até a hora de Ariana ir dormir. O corredor parecia menos assustador graças a alguns curiosos gatos com leds em cima das mesas que lá estavam. O banheiro, que antes era um desafio e tanto, agora tinha sua luz concertada e tinha varias luzes em volta do espelho. A garota ria divertida com tudo e seu medo foi-se indo embora.
Ela foi andando confiante até o quarto, mas ao abrir a porta, se deparou com a mesma cena de todas as noites, o quarto continuava um breu. Ela andou até sua cama, quando puxou o lençol, que era mais comprido que o de costume, viu um abajur em forma de flor, que estava aceso, e uma carta. Abriu a carta se sentando na cama e usando o novo abajur como lanterna.
“Cara irmãzinha, eu sei que sem a luz de meu celular as noites parecem mais obscuras e tenebrosas. Eu sei, eu mesmo morro de medo do escuro... Afinal, no escuro com certeza tem mais coisa que no claro e, convenhamos, não são muito amigáveis. Por isso, minha pequenina Ari, eu te comprei todas essas coisas. O abajur que te dei também pisca, como meu celular! Quero que saiba que deu muito trabalho colocar tudo sem que você visse, por isso fomos até a casa da vovó Julie. De qualquer maneira, eu te amo minha irmãzinha e, mesmo longe, eu continuarei trazendo luz a você. E sabe de uma coisa? O escuro pode ser assustador, mas com um pouco de luz, se transforma em um espetáculo... Com amor, seu irmão, Thomas”.
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