Quando a Morte Chega

1 Quando a Morte Chega


Notas iniciais
Revisada e agora re-postada

Não havia mais para onde correr, a decisão estava tomada e, afinal, já havia chegado até ali. Seus olhos se enchiam de lágrimas enquanto olhava para baixo, assistindo os pontinhos de luz que se moviam de um lado para o outro em seus rumos apreçados, sem tempo de intervir em uma pobre alma. As lágrimas finalmente se soltaram de seu rosto e se misturaram às gotas da chuva grossa que açoitava a cidade. Seu corpo inteiro tremia enquanto ele subia e ultrapassava a grade do parapeito, os olhos tão embotados que tudo parecia um enorme borrão brilhante.

Ali, pendurado como uma gárgula sobre aquela cidade enorme. Estava pronto para dizer adeus à vida, deixar que sua alma partisse para o outro mundo. Sua vida passou diante de seus olhos: os anos de sofrimento pela rejeição do pai, os olhares decepcionados da mãe, os julgamentos da sociedade, os comentários maldosos de seus colegas, os tapas e chutes, as brigas sem fim... Tudo só por ser diferente, pensar diferente, ter opiniões próprias. Depois de anos brigando com a vida e lutando contra o mundo, faria com que tudo terminasse ali. Não podia mais suportar aquilo. Sua família não o aceitava, seus amigos eram poucos e a maioria estava se afastando ou fazendo o mesmo que ele pretendia fazer, a maioria importava e ele já não tinha forças pra continuar, realmente, o melhor seria acabar de vez com tudo aquilo...

Suas mãos já estavam prestes a se desprender das grades para a queda sem volta, quando a voz que parecia vir do nada o surpreendeu:

— Você tem certeza de que quer fazer isso?

O susto o fez segurar novamente a grade e ele virou pronto para pedir que o seu observador o deixasse morrer em paz. Mas, para sua surpresa, não havia ninguém ali.

— Não se preocupe, se você realmente quiser pular, eu não vou te impedir. Só quero saber, você realmente acha essa a melhor solução? — a voz soou novamente, firme e alta o suficiente para ultrapassar o barulho da chuva.

Seus olhos vagaram pelo terraço aparentemente vazio, tentando encontrar a fonte daquelas malditas frases incômodas. Era óbvio que estava decidido, não se daria o trabalho de se esconder, enganar a segurança de um prédio e subir tão alto. Estava realmente pronto para se jogar! Irritado e olhando para o nada, novamente se segurando a grade do prédio, ele bradou:

— Se não quer me impedir saia logo daqui. Eu não pedi nenhuma plateia! E sim, essa é a melhor solução, minha vida não tem mais sentido algum.

— Eu não tenho tanta certeza disso.

Seus olhos vagaram pelo telhado, seguindo a direção da misteriosa voz. Para sua surpresa, quem falava era um corvo pousado em um dos respiradores, a poucos metros de distância. Os olhos vermelhos brilhavam, ultrapassando a escuridão da noite e encaravam-no firmes, as penas negras pareciam não se molhar, mesmo com toda aquela chuva. Só havia uma resposta que fazia sentido diante daquela situação: ele havia enlouquecido.

— Não, você não enlouqueceu. Acredito que quem tenha enlouquecido tenha sido eu. Afinal, eu jamais deveria conversar com um humano. — um suspiro profundo saiu da ave, que voou baixo para se empoleirar a seu lado — Acho que acabei escutando demais meus irmãos, simplesmente não suporto mais ver esse tipo de coisa acontecer.

O suicida já Não sabia realmente mais o que fazer. A pressa de se jogar havia sumido, e a curiosidade havia tomado o lugar da tristeza. Seria tudo aquilo um sonho? Fora loucura. Essa era a única resposta que podia fazer algum sentido, afinal, de que outra forma um corvo poderia estar falando com ele?

— Não, isso também não é um sonho... Talvez, depois, eu até possa arranjar um jeito de te convencer que foi só isso. Mas, por agora, quero que você saiba que eu sou real.

Assim que terminou de falar, o corvo começou a crescer e crescer. De debaixo de suas asas surgiram dois braços, enquanto sua silhueta tomava cada vez mais um formato similar ao de um humano. As penas do corpo se tornaram uma profusão de fios longos e negros, que se desprendiam de sua cabeça e estendiam até sua cintura, balançando ao gosto do vento. Já não havia mais pássaro nenhum ali. Em seu lugar, sentado sobre a grade, encontrava-se uma figura andrógena, e as únicas coisas que lembravam que a criatura em algum momento havia sido um corvo eram as enormes asas negras que lhe adornavam as costas e os olhos, que mantinham a mesma cor vermelha.

— Pode lhe parecer estranho, mas eu conheço a tua dor. Tudo que acabou de ver, eu vi também, e antes que tome a tua decisão, quero que escute minha história...

O olhar daquele ser era tão penetrante, sua presença lhe dava um conforto tão grande, que o jovem só pode balançar a cabeça, concordando com a ideia. Sem desviar seu olhar da íris rubra que parecia o hipnotizar, passou novamente pela grade de segurança e sentou-se em uma área coberta qualquer, e ele veio então em sua direção e sentou-se ao seu lado.

— Há muitos anos, muitos mesmo, provavelmente mais do que a tua espécie é capaz de contar, eu nasci. Não fui o primeiro da minha espécie e não tenho a pretensão de ser o último. Junto comigo, milhares de outros foram criados, a maioria de vocês nos chama de anjos. Só que havia uma enorme diferença entre mim e todos os meus contemporâneos: todos eles possuíam enormes asas brancas, macias como nuvens, e olhos de tons claros e agradáveis, que lembravam paz e alegria. Eu, contudo, havia nascido com esse par de asas negras. — o anjo abriu de leve as asas, enfatizando sua fala. — E esses olhos cor de sangue, que pareciam aterrorizar a todos.

— No início, não entendia direito. Havia acabado de ser criado e as coisas não faziam muito sentido, eu só sabia que todos pareciam fugir de mim. Os novatos me evitavam, com medo, e os veteranos viravam o rosto na minha presença, não foram poucas as vezes em que escutei um veterano dizer que minha existência era fadada ao fracasso, que todos aqueles, nascidos como eu, haviam cedido e caído para o lado negro, que aquelas asas eram a marca de uma maldição e comigo não seria diferente. Sem nem saber o motivo que os levava a dizer aquilo, eu passei a acreditar. Fui sendo treinado e preparado para a vida de um anjo completo. No fim do treinamento, todos teriam que se apresentar diante do conselho, no qual seria determinada nossa posição. Eu temia esse dia, tinha certeza de que seria rejeitado e jogado direto às trevas por ter nascido imperfeito.

— Um dia, minha tristeza tornou-se raiva, passei a evitar a todos, afastei-me completamente de tudo, rejeitava qualquer tentativa de aproximação e respondia com violência a qualquer um que viesse me importunar por minhas asas. Isso só piorou as coisas, eles diziam que meu comportamento era a maior prova de minha origem imperfeita, e que eu provavelmente cairia sem sequer ter um cargo determinado. Fingi ignorar, fazia-me de forte, mas a verdade é que cada uma daquelas palavras parecia me cortar por dentro, cada uma delas me destruía aos poucos. Na véspera do dia de me apresentar ao conselho, meu medo era tanto que o desespero tomou conta de mim. Tentei por tudo cortar minhas asas, arranquei cada pena que conseguia alcançar, ignorando completamente a dor. À medida que eu as arrancava, o quarto se pintava de negro, mas pareciam nunca acabar. No fim, acabei desmaiando de dor, e no dia seguinte, minhas asas ainda estavam ali, negras e enormes como na noite anterior, apenas com algumas falhas.

— Não tinha mais como fugir, o dia havia enfim chegado, meu destino estava traçado, tudo o que eu podia fazer era me apresentar diante do conselho e esperar que eles me jogassem fora, enviassem-me às trevas — provavelmente o único lugar ao qual eu pertencia. De cabeça baixa, atravessei os corredores enormes, e à medida que eu ia passando, pude escutar os sussurros maldosos, e sentir os olhares de desprezo. E eu encolhi ainda mais a minha insignificância...

— A primeira vez que conheci um anjo que não tinha as asas brancas, foi quando ele veio me chamar. Suas asas eram de um vermelho intenso, que lembravam meus olhos, seu sorriso era encantador e seus olhos de um tom rosa claro que eu nunca havia visto. Senti-me apaixonado naquele exato momento, até hoje digo que ele foi meu primeiro amor e o vejo rir, desviando do assunto... Bem, aquela visão me deu uma esperança, meu coração se encheu de alegria, e eu o segui para a sala na qual o conselho se reunia com um sorriso renovado no rosto, havia mais anjos com asas de outras cores, eu não era a único!

— Lá dentro, contudo, meu sorriso morreu novamente. Tirando ele, todos ali tinham as asas completamente brancas, uma maior e, para mim, mais intimidadora que a outra. Voltando à tristeza de antes, me posicionei no centro da sala. Não ousava levantar o rosto, quem seria eu para encarar todos aqueles seres perfeitos? O anjo sentado no centro da sala se levantou e veio, então, em minha direção. Suas mãos macias e quentes tomaram meu rosto, e com um movimento leve, ele levantou meu olhar para que eu passasse a encará-lo. "É um prazer finalmente tê-lo conosco, tua chegada há muito era aguardada" ele falou com um sorriso enorme e eu fiquei sem entender nada. "Sabe, nós somos muitos, e muitos aqui se consideram fortes... Mas infelizmente ninguém aqui tem a capacidade de cumprir a tarefa que foi determinada para ti.".

— Ele se afastou andando pela sala, parecendo pensativo. Eu só o encarava, tentando entender o que me fora dito. "Tua tarefa é árdua, muitos já acabaram cedendo à dor ao tentar cumpri-la, teus irmãos são muitos, mas nós não podemos julgá-los, poucos sabem como é lidar com o mundo humano e menos ainda já lidaram com a aflição de forma tão direta, mas é, sem dúvida, o trabalho mais importante para o nosso mundo. Sem a tua presença, tudo seria o caos!". Ele se aproximou novamente de mim, dessa vez trazia consigo uma foice. Sua mão tocou o topo da minha cabeça e sua voz reverberou por toda a sala. "De hoje em diante, serás conhecido como Morte, e é teu o dever de levar as almas que abandonam o mundo vivo para cumprirem as sentenças." ele então me entregou a foice e deixou o centro da sala.

— Eu pude sentir de imediato uma identificação com a ferramenta colocada em minhas mãos. Mesmo sem nunca ter sequer visto aquilo, eu sentia que, de alguma forma, ela pertencia a mim, e eu pertencia a ela. — O anjo se calou por alguns minutos e, com um movimento de mãos, fez com que o objeto mencionado aparecesse. Era de sua altura, o cabo parecia ser feito de fumaça, e a lâmina negra, cujo formato lembrava bastante o bico de um corvo, brilhava ameaçadoramente. Sorriu de forma melancólica e acariciou a foice.

— Daquele dia em diante, eu passei a treinar junto com alguns dos anjos que tinham permissão para vir ao mundo humano. Mesmo agora, sendo considerado um dos líderes e tendo sido colocado em um dos cargos mais importantes, o desprezo e o medo ainda estavam presentes na maioria. Minha única alegria era que o anjo de asas vermelhas — por quem eu havia me encantado — estava entre os que desciam ao mundo humano, e com ele eu podia conversar sem medo.

— Nossos encontros eram diários. Ele me contava coisas sobre o mundo humano, sobre suas tarefas, sobre sua função — que era unir os corações e fazer cumprir os destinos —, sobre as linhas que uniam cada humano ao outro, e como ele tinha prazer em tecê-las. Certa vez, quando eu estava triste demais, ele me falou para não me preocupar, que aquele despeito todo era inveja, pois desde a minha criação, eu era um dos poucos que poderia trafegar entre todos os mundos. Hoje, quando penso nisso, não posso evitar rir, não compreendo como qualquer um pode invejar meu trabalho.

— Minha primeira vinda ao mundo humano foi chocante. Ao contrário da ideia que eu havia formado em minha mente, ao ouvir os relatos de meu colega, tudo aqui era ainda mais assustador e incompreensível se comparado o lugar de onde eu vim. O ódio, a inveja e o egoísmo eram ainda mais latentes. A tristeza parecia dominar tudo, e nos locais aonde eu ia, eu sempre percebia que até aqui minha presença não era exatamente... Agradável.

— Foi após alguns anos passados aqui, que finalmente encontrei um dos meus irmãos. Assim como eu, ele possuía asas negras e olhos vermelhos. Contou-me sua história, e não pude deixar de me identificar. A humanidade é realmente difícil de compreender... Vocês têm uma das maiores dádivas já dadas a qualquer ser: a capacidade de sentir, a oportunidade de viver no que deve ser um dos mais belos mundos existentes, de decidir, escolher e moldar seus destinos... Em comparação com a vida de um anjo, a vida de vocês é curta, mas é muito mais cheia de oportunidade que a nossa! Veja, tome-me como exemplo, eu estou fadado a passar o resto da minha eternidade trazendo dor, pelo menos na maior parte das vezes que apareço.

—Bem, voltando ao assunto, Esse meu irmão, após anos convivendo e levando suas almas, não suportou. Ele passou a vê-los como um câncer, adquiriu uma raiva sem fim da humanidade e se juntou àqueles que queriam o fim dela. Os séculos foram passando, e eu conheci meu irmão mais velho. Contando comigo, somos três até agora, todos com histórias parecidas. Criaram raiva da humanidade. Outros se deixaram cair só por não aguentarem mais carregar o fardo da morte consigo. O que todos concordamos, é que vocês estão caminhando para a autodestruição, não conseguimos compreender como, mesmo com tantas coisas boas, com tantos sentimentos bons, vocês ainda escolhem a amargura, ferir uns aos outros...

— Eu também já não estou mais suportando ver isso, acho que assim como os veteranos previram, logo irei cair para junto dos meus irmãos. Estar aqui falando contigo é provavelmente meu primeiro passo, o certo seria aparecer apenas para recolher tua alma. Mas, como te falei, a história de vida que você acabou de rever, eu também assisti, e não consigo deixar de te ver parecido comigo... Escute um pedido meu. Só um! Não abandone esse mundo agora. Tua dor pelo egoísmo e pela maldade humana eu também carrego, e como uma mensagem que só posso lhe entregar, por que esse deveria ser teu ultimo suspiro, eu te peço: não desista.

— Uma coisa que eu posso ver: as linhas do destino. Aquelas que ligam cada ser humano ao outro... A tua não precisa acabar aqui, acredite ou não, cada ser humano que cruzou contigo teve sua vida mudada para melhor. Você sofre tanto porque é um agente da mudança e o mundo só consegue te ver como uma anomalia, tudo que é diferente parece uma ameaça. Assim como a minha, tua tarefa é árdua, mas necessária para consertar este caos! Se fizer isso, eu te prometo, quando chegar teu dia eu venho buscar-te, levar-te-ei sem dor e farei questão de te pôr ao meu lado. Mostrar-te-ei, pelos olhos da eternidade, como o veneno que a humanidade vem espalhando só serve para ferir a eles mesmos.

Terminando de falar, a morte ofereceu sua mão para que o outro se levantasse. No momento em que suas peles se encostaram, ele pôde sentir sua consciência se esvaindo, sentiu os lábios frios da morte tocaram de leve a palma de sua mão, em seguida a voz que havia ocupado seus pensamentos voltou a ecoar, dessa vez próxima ao seu ouvido:

— Não se esqueça de mim. Cumpra nosso combinado e eu cumprirei o meu também...

Seus olhos se abriram para se deparar com o teto branco. Ele não se lembrava sequer de ter fechado os olhos, muito menos de como havia chegado àquele lugar. Tentou se levantar, mas apenas sentiu a cabeça rodar. Uma moça de cabelos loiros e sorriso preocupado aproximou-se:

— Olá! Que bom que você acordou, nós já estávamos preocupados! Você foi encontrado completamente inconsciente ontem, na escadaria de emergência. Aparentemente, você rolou escada abaixo! Só te encontraram por que um curto circuito no sistema de eletricidade fez com que o alarme de incêndio tocasse! — ela tagarelava sem se preocupar se o outro estava entendo ou não algo. — Você ficou desacordado por um longo tempo! Ficamos com medo de ter alguma sequela em você!

Sua mente ainda estava tentando acostumar àquela nova situação repentina, as lembranças da noite anterior ainda estavam marcadas em sua mente, mas agora era difícil saber se era, de fato, algo real.

A mulher lhe entregou alguns remédios e ele esticou a mão para recebê-los. Foi então que reparou; na palma de sua mão, bem próximo ao seu pulso, havia uma marca vermelha com o formato bem definido de um corvo e se ele olhasse bem para a moça, era capaz de ver um fio vermelho que saia de seu peito e seguia para o corredor aparentemente sem fim.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!