Quando a Chuva Encontra o Mar: Uma Nova Seleção
93 Capítulo 93: POV Sebastian Regen
"Está tudo bem," ela disse do nada e eu virei meu rosto para olhá-la. "Lá fora, está tudo bem."
Eu sorri pelo seu otimismo, mas não estava convencido. "Você não sabe disso," falei.""É, não sei," ela concordou, para a minha surpresa. "Mas ficar pensando no que poderia acontecer não vai ajudar. Se alguma coisa acontecer, a gente vai descobrir mais cedo ou mais tarde. Não tem porque ficar sofrendo por isso agora."Dei de ombros, ainda não convencido. Eu gostava que ela estava tentando me animar, e a cada palavra doce sua, eu me lembrava da sua carta. Mas não conseguia esquecer de que alguma coisa poderia sim estar acontecendo lá fora.E poderia ser alguma coisa grande, enorme. Eles tinham esperado anos para atacar de novo e tinham escolhido logo a época da Seleção para invadirem o castelo. Não podia ser alguma coincidência, tinha que ter alguma coisa aí. E eu só conseguia pensar que era porque eles queriam chegar até Charles, eles queriam lhe tirar o trono. E se eu perdesse o meu irmão, eu perdia tudo. Ele era meu melhor amigo, a pessoa mais importante no mundo para mim. Eu não conseguia nem imaginar minha vida sem ele. Eu precisava saber se ele estava bem. Eu precisava ter a chance de ajudar se ele estivesse ferido.Por um segundo, eu esqueci de todas as coisas boas que eu tinha e comecei a sentir como se o medo fosse tomar conta de mim de novo. Estava quase me virando para Nina e pedindo para que ela entrasse em pânico de novo para me fazer esquecer de mim mesmo, quando ela levou sua mão até meu rosto e afastou um pouco do meu cabelo.Eu não estava esperando aquilo, mas não questionei. Pelo contrário, seu toque era delicado e leve, bastante reconfortante. Eu fiquei pedindo na minha cabeça para que ela não parasse, para que continuasse. Até fiquei um pouco preocupado em fazer algum movimento que a assustasse ou a fizesse pensar que eu não tinha gostado.Seu dedo começou a traçar meu rosto de leve e eu fechei os olhos, tentando aproveitar o máximo que dava do seu toque. Eu me concentrei em sua respiração, pensando mil vezes nas palavras que ela tinha falado na sua carta.A verdade era que eu não tinha pressa. Eu a queria comigo, e como! Mas eu queria cada segundo do lado dela. Eu queria ver o que ela faria, o que ela queria de mim. Ela não sabia que eu tinha lido a carta e eu não estava disposto a contar. Eu queria mesmo era ver se ela me falaria alguma coisa primeiro, se ela é que me beijaria.Eu não estava pensando direito, só deixei com que fizesse comigo o que queria. Eu gostava que ela se importava comigo. Não só para me escrever o que estava bem guardado em meu bolso, mas para conseguir engolir seu próprio orgulho e me consolar. Algum de nós tinha que ser forte assim, não é?Eu estava ficando cada vez mais calmo, cada vez mais distraído. Até que ela parou com o seu carinho. Eu abri os olhos um milésimo de segundo antes dela se inclinar para mim. Eu achei que ela fosse me beijar, mas seus lábios pousaram em meu rosto de leve. Quando ela se afastou, eu ainda a olhava, confuso. Mas logo baixei os olhos, com medo de que ela achasse que aquilo significava que eu não queria seu beijo.Nos poucos segundos em que ela passou longe de mim, eu fiquei me perguntando se eu deveria tomar uma atitude, se eu deveria controlar a situação. Eu estava gostando de uma vez na vida eu perder o controle e não me importar. Se era para eu estar exposto para alguém fazer o que quisesse de mim, ninguém melhor do que ela. Mas eu ainda não estava satisfeito em deixar aquele momento morrer. Então se ela parasse, eu precisaria recuperá-lo.Era engraçado, porque eu nunca tinha sentido nada daquele jeito por ninguém. Além de que eu me importava com o que ela pensaria de mim de verdade, eu ainda queria poder aproveitar os segundos que eu tinha com ela, como eles fossem. Com qualquer outra menina, até mesmo Amélie, que tinha sido por um bom tempo uma das minhas melhores amigas, eu só queria poder aproveitá-las. Elas, o corpo delas, o que eu poderia tirar delas. Mas com a Nina era bem diferente. Eu não queria só saber o que eu podia conseguir, mas eu também queria poder lhe fazer tudo que estivesse ao meu alcance.Era como se eu não fosse só eu, eu era parte dela, entrelaçado nela. Eu dependia dela para ser eu mesmo. Eu era tanto seu, quanto ela achava que era minha.Estava quase me virando para roubar-lhe um beijo ou pelo menos pedir com os olhos que ela me desse um, quando ela se inclinou de novo para mim, pegando meu rosto com as mãos e o beijando. Depois o outro lado, depois meu queixo e minha testa, sem parar. Achei bastante estranho quando ela até beijou meus olhos fechados. Era esquisito e íntimo, era algo só dela.Eu tentei não sorrir largo demais, tentei me manter sério. Ela estava fazendo tudo aquilo para me consolar, se eu ficasse feliz demais, ela não teria porque me animar. Ela chegaria ao que buscava. E eu queria mais, queria que ela me amasse daquele jeito, baixinho e devagar.E enquanto seus lábios me beijavam o rosto todo, eu percebi que aquela sua carta poderia muito bem ter sido escrito por mim para ela. O que eu sentia por ela era bem maior do que qualquer coisa que eu já tinha sentido antes. E eu sabia que ela me entendia. Não pelas palavras que ela tinha usado, não por falar que tinha se apaixonado por mim. Amélie me tinha dito isso já.Mas era diferente. Em todos os sentidos. Nina estava cuidando de mim, de cada pedaço meu. Ela tinha me colocado antes dela, esquecendo dos meus defeitos, mesmo que ela gostasse deles. Eu poderia muito bem ser orgulhoso, ser convencido. Era esse o cara que ela conhecia. Mas ela me colocou em primeiro lugar, tentando me consolar. E a cada beijo seu, eu sentia meu corpo acordando, meus pêlos se arrepiando e a minha vontade de selar aquele momento crescendo.
Eu me convencia de que queria deixá-la continuar, queria ver até onde ela iria, se ela falaria alguma coisa. Mas estava quase demorando demais para mim. Eu fechei meus punhos, apertando meus dedos o mais forte que podia, tentando descarregar ali a minha vontade de beijá-la.E eu não teria aguentado mais nem um segundo, se ela não tivesse pegado no meu rosto, levando-o até ela. Eu abri meus olhos para lhe mirar, mas ela tinha os dela fechados. Antes que eu pudesse me perguntar se ela iria beijar meu rosto de novo ou se eu deveria tomar uma atitude, ela se inclinou para mim, encostando seus lábios nos meus.E eu nunca tinha precisado tanto de alguém na minha vida! Eu puxei seu rosto para mim, firme, sentindo como se eu não pudesse deixá-la se afastar nem um pouco de mim. Eu precisava dela, eu nunca tinha sido tão admirado, eu nunca tinha tido alguém que se importasse assim comigo. E quanto mais eu sentia que ela me amava, mais eu a amava, mais eu precisava dela. Nunca tinha pensado que ia sentir essa necessidade de pertencer a alguém. E ter ela ali, comigo, ligada a mim, me roubava o ar.E era bem assim que eu me sentia. Eu a beijei de volta, quase sem conseguir me contentar com o seu beijo, a abraçando, precisando que ela fosse minha. Não só naquele momento, mas pro resto da minha vida.E as suas palavras rodaram na minha cabeça, me lembrando do que eu mesmo sentia. Eu era dela, ela precisava saber disso. Ela que fazia meu mundo parar. Ela que tinha me conquistado. Eu que amava tudo nela, mesmo sua loucura, mesmo o jeito que ela parecia ser completamente diferente de mim. Aliás, principalmente por esse seu jeito que me incomodava tanto, que chegava à base do meu ser, que tomava conta de tudo que tinha dentro de mim. Seus lábios nos meus me tiravam o ar, mas eu queria mais. Eu queria muito mais. Eu queria tê-la comigo, eu queria ela em meus braços, eu precisava dela.E eu não conseguia pensar em outra coisa a não ser falar isso para ela, acalmá-la e lhe contar que aquilo que ela sentia por mim, eu sentia por ela.Me afastei um pouco dela, ainda segurando seu rosto com as duas mãos. Eu não queria ter que ficar nem mais um centímetro longe, não queria sentir nem por um segundo que eu já não a tinha comigo. E as palavras que pesavam na minha cabeça não estavam me ajudando a recuperar o ar."Nina," eu comecei baixinho, me ganhando tempo para juntar forças e falar o que eu tanto precisava falar."Hmm?" Ela murmurou e eu abri os olhos para ver sua reação bem na hora em que as palavras saíssem da minha boca.Mas um barulho oco e forte me interrompeu, vindo da parede. Ela abriu os olhos, confusa, mas eu sabia o que aquilo significava. Nossos minutos a sós tinham terminado, eu tinha perdido a minha chance.Continuei mirando-a, como se eu ignorar quem nos chamava fosse fazer com que a pessoa nos deixasse ali. E com seus olhos nos meus, eu pensei no que eu queria tanto falar e não conseguia.Mas o momento tinha terminado e eu não queria apressar aquilo. Principalmente porque toda a coragem que eu tinha juntado já tinha desaparecido.O barulho se repetiu e eu finalmente soltei de Nina, completamente contra a minha vontade. Fui até a parede, deixando-a para trás."Thomas?" Perguntei assim que ele começou a abrir a passagem.Dei um passo atrás enquanto ela abria por completo e Thomas deu um passo para dentro."Vocês estão bem?" Ele perguntou e eu concordei com a cabeça.Ele saiu de volta e eu olhei para Nina, esperando que ela se levantasse. Ela o fez e passou por mim, saindo do esconderijo. Eu a segui e então Thomas fechou a parede logo atrás de nós."O que aconteceu?" Eu perguntei, quando começamos a andar pelo corredor."Não sabemos ao certo," ele confessou. "Fomos atacados, mas não durou muito. Não sabemos se eles pegaram o que tinham vindo buscar ou o que aconteceu, só sabemos que eles foram embora."Nina estava quieta e parecia bastante incomodada. Eu não tinha podido falar o que queria, mas eu precisava que ela soubesse que eu me importava com ela. E o único jeito que eu vi de fazer isso foi colocando minha mão nas suas costas, como se nós já estivéssemos juntos e eu tivesse essa liberdade."Alguém se feriu?" Eu perguntei para Thomas, casualmente.Não queria que meu gesto parecesse algo mais do que natural. Porque era natural para mim, ela já era parte de mim. E eu queria deixar claro que nós estávamos juntos, antes mesmo que pudesse questionar isso."Ainda não se sabe, mas acreditamos que não," Thomas falou.Eu só ia concordar com a cabeça, mas Nina não se contentou com aquilo."Como, não sabem?" Ela perguntou, me fazendo olhar para ela por alguns poucos segundos."A maioria conseguiu chegar até o esconderijo," Thomas explicou, não parecendo contente com a sua falta de informação. "Mas foi tão rápido e era tanta gente, que ainda não nos demos conta de todo mundo."Nós paramos de andar quando chegamos na escada e ele se virou para mim."Eu preciso ir, vossa Alteza a acompanha até seu quarto?" Ele me perguntou e eu concordei com a cabeça. "Seu pai precisa que a vossa Alteza o encontre em seu escritório depois," ele me informou, logo antes de começar a descer as escadas.Nina e eu andamos em silêncio até seu quarto, enquanto eu tentava afastar qualquer pensamento que me preocupasse. Eu só tinha mais alguns poucos minutos com ela, eu poderia entrar em pânico com o ataque rebelde depois que ela estivesse segura em seu quarto. Eu não podia deixar que aquela noite acabasse com nós dois não sabendo agir e nos distanciando sem que deixássemos o outro certo do que sentíamos.Mas não era fácil de tentar falar qualquer coisa parecida com o que eu queria antes. Não ali, na luz do corredor ou do seu quarto, aberto para todos verem. Era como se aquele esconderijo tivesse sido feito para segredos, seguro e afastado. Tão fora do comum, que seria fácil fingir que o que tinha acontecido ali era um sonho. As coisas eram mais reais do lado de fora. E, de longe, bem mais arriscadas.Nós chegamos até seu quarto e eu tirei minha mão de suas costas, mais por medo de ela me contestar naquilo do que porque eu queria. Ela abriu sua porta e entrou, deixando-a aberta.Eu pensei por um segundo que ela queria que eu entrasse com ela e não consegui evitar."Eu preciso ir," eu disse, apesar de que já estava em seu quarto."É, eu ouvi," ela falou, enquanto entrelaçava seus dedos uns nos outros. "Você precisa ir ver se Charles está bem."Tinha algo de zombação naquilo que me fez sorrir, mas era verdade e eu não conseguia não ficar pelo menos um pouco abalado. Eu engoli em seco, tentando afastar qualquer pensamento que me incomodasse.E então eu levantei os olhos e ela estava ali, seu rosto cheio de expectativa. Nós não estávamos em um lugar estranho e escondido. Pelo contrário, tudo que eu fizesse ali poderia ser usado contra mim. E, pela primeira vez na vida, o medo de cair não me fez correr para o outro lado e negar o que eu queria de verdade. Pelo contrário, eu fui sentindo aquele nervosismo tomando conta de mim, mas ele só me fazia andar até mais perto dela.Minhas mãos foram de seus ombros ao seu rosto, trazendo-a até mim. Mas metade daquele beijo era dela, que me queria tanto quanto eu a queria. Eu sabia que aquilo era o pulo final, já não tinha o que eu podia fazer para alegar negação plausível. Ela sabia que eu também estava apaixonado por ela. E se não soubesse, eu lhe contava. Quantas vezes ela precisava, o tempo que fosse. Eu passaria o resto da minha vida ali, com ela em meus braços e seus lábios nos meus.Eu tive que me convencer de que aquele era o jeito perfeito de terminar a noite para me afastar dela. Eu não me deixei pensar nos outros problemas que acompanhavam a nossa necessidade de entrar no esconderijo, mas eram eles que me fizeram deixá-la.Eu me afastei um pouco, passando meu dedo de leve em seu rosto enquanto eu o segurava. Eu não conseguia nem formar direito uma frase na minha cabeça que conseguisse lhe explicar o que eu estava pensando. Eu estava orgulhoso de tê-la comigo, orgulhoso dela. E eufórico. Eu queria gritar, ao mesmo tempo que não precisava falar nada. Eu estava calmo e contente, satisfeito e nervoso. Eu ainda tinha o medo de que aquilo pudesse acabar, que não fosse verdade, mas sentia uma segurança confortável que vinha dos seus olhos nos meus.Nina sorriu para mim e eu respirei fundo, quase que ao mesmo tempo que ela. Aquele sorriso era tudo que ela me precisava dizer naquela hora. E eu resolvi retribuir com um beijo. E outra vez eu percebi que ela era completamente diferente para mim de todas as outras meninas que já tinham passado pela minha vida.
Eu senti todos os meus nervos acordarem quando me inclinei para ela uma última vez e deixei meus lábios pousarem em seu rosto. Eu cuidaria dela, eu passaria o resto da minha vida tentado fazê-la feliz, disso eu tinha certeza. Eu também queria ela do jeito que ela era. E eu precisava deixar claro antes de sair dali o carinho que eu tinha por ela.Eu a soltei devagar, lutando contra a vontade que eu sentia de abraçá-la de novo e saí do seu quarto. Cada passo que eu dei me afastando de lá me fazia questionar se eu deveria voltar ou não, se tinha como eu simplesmente adiar a conversa do meu pai me explicando sobre o que tinha acontecido.Mas eu fui pensando naquilo e deixando todos os problemas do ataque rebelde voltarem à minha cabeça. E o pânico me foi batendo. Eu precisava saber se Charles estava bem, eu precisava saber que nada tinha acontecido com a minha mãe.Quando cheguei às escadas, eu parei. Aquela era a minha única chance de desistir de ir falar com meu pai e voltar até Nina. Me virei para o seu quarto, esperando encontrar a porta fechada. Mas ela estava lá, apoiada no batente, olhando para mim.Aquela surpresa me fez sorrir, e ela sorriu de volta para mim. Uma vez tinha ouvido falar que a pessoa que olha para trás quando os dois se afastam é a pessoa que não queria ir embora. E eu achei que eu era aquela pessoa. Eu achei que estava sozinho naquilo. Mas ela também era. Ela também não queria ir embora.Eu lhe fiz um pequeno aceno com a cabeça, sem conseguir expressar de outro jeito naquela distância que eu estava feliz de saber que ela estava tão naquilo quanto eu, que ela estava tão disposta a sentir aquilo quanto eu. Então comecei a subir as escadas de vez.Eu tinha um sorriso tonto na cara, mas ele desapareceu assim que eu consegui ouvir a voz de Charles. Eu não conseguia entender palavra por palavra, mas entendi bem sua raiva, mesmo ainda longe.Quando cheguei no andar do escritório, vi Thomas parado ali, junto a outros guardas. Eu podia jurar que ele tinha descido as escadas, mas não o questionei quanto a isso. Ao invés, tentei ouvir o que Charles dizia."MAS COMO VOCÊ SABE QUE ERA ELA?!" Ele berrou, sua voz já parecendo fraca."O que está acontecendo?" Eu me virei para Thomas, sem conseguir ouvir a resposta de quem ele indagava."Uma das selecionadas foi levada," ele disse, parecendo bastante culpado. "Lady Gabrielle.""Mas você tinha dito que ninguém tinha sido ferido," eu o contrariei."Me perdoe, Alteza," ele olhou para baixo, "mas eu não poderia ter lhe falado sobre isso na frente de Lady Nina.""VOCÊ NEM SABE SE ERA GABRIELLE!" Meu irmão continuava gritando e eu resolvi entrar de uma vez.O escritório estava cheio e eu nem precisei me preocupar em distraindo-o de sua raiva. Havia guardas para todos os lados e nosso pai estava de pé atrás da sua mesa, nervoso com a reação de meu irmão.Ele estava por todos os lados, gritando com Loric, que parecia encolher ao som de sua voz. "POR QUE VOCÊ NÃO FOI ATRÁS DELA?" Ele perguntou, ainda bufando de raiva, completamente direcionada ao guarda."Eu juro que tentei, Alteza," ele se defendeu, mas meu irmão não estava ouvindo direito."É SEU DEVER PROTEGÊ-LA! É SEU DEVER DAR A SUA VIDA POR ELA, PARA MANTÊ-LA SEGURA!" Ele gritava para cima agora, olhando para o teto, e eu me perguntei se ele estava falando aquilo para os guardas do castelo ou para ele mesmo. "EU CONFIE EM VOCÊS PARA CUIDAREM DELA! E AGORA ELA ESTÁ SEI LÁ AONDE, COM SEI LÁ QUEM, QUE QUER SEI LÁ O QUE DELA!" Sua voz foi aumentando a cada palavra e seu último berro foi seguido por um soco mirado na janela que fez até meu pai dar um pulo de susto.Eu nunca tinha visto Charles daquele jeito, ele nunca tinha ficado com tanta raiva em sua vida! Eu estava até com um pouco de medo de me aproximar, de sair de trás dos guardas que quase bloqueavam a minha visão.O soco de Charles tinha quebrado a janela e eu pude perceber que sua mão estava sangrando. Rezei para a dor o distrair do seu ódio, mas não foi o suficiente. Ele socou a janela outras vezes, com as duas mãos, quebrando o resto do vidro que ainda estava lá.Todos na sala ficaram imóveis, ouvindo seus grunhidos de dor e raiva, sem se atreverem a sugerir que ele parasse, sem reprimi-lo. Percebi nosso pai prendendo a respiração e fui até ele. Não queria nem que Charles percebesse que eu tinha chegado, mas não podia deixar que meu pai ficasse carregando aquele peso sozinho.Quando Charles acabou com todo o vidro da janela, ele berrou mais alto do que tudo o que tinha gritado antes, como se sentisse todos os seus ossos quebrando ao mesmo tempo. O som do seu desespero me incomodou demais! Eu não conseguia deixá-lo sozinho, não conseguia ficar igual aos guardas e só assisti-lo sentindo uma dor como aquela! Eu precisava consolá-lo e até comecei a andar, mas meu pai me segurou pelo braço, sua mão forte me impedindo de ir até Charles. Ele não falou nada, não se arriscaria desse jeito. E, para entender porque ele tinha me feito ficar ali, eu tive que olhar para o meu irmão.Seu berro o tinha feito perder as suas forças e agachar, enterrando seu rosto em suas mãos ensanguentadas. Eu nunca tinha visto tanto sangue na minha vida e o fato de estar vendo nele, daquele jeito, me era assustador. Eu fiz menção de tentar me livrar da mão de meu pai, mas ele me segurou ainda mais forte.E então Charles ficou ali, soluçando em meio ao líquido vermelho que lhe escorria e pingava até se juntar aos cacos de vidro no chão. Ele se soltou, se deixando sentar no chão, não se importando em se cortar. Talvez era essa mesma a sua intenção, sentir uma dor que fosse maior do que o que ele sentia por dentro. Talvez ele só quisesse a dor, porque ele achava que isso pouparia Gabrielle de senti-la.Depois de alguns segundos em silêncio, meu pai me soltou e eu fui até Charles, sentando do seu lado. Eu tentei afastar alguns poucos cacos antes, mas não quis que ele percebesse que eu me importava com qualquer coisa que não fosse ele.Eu tentei abraçá-lo, mas ele me empurrou, com raiva. Eu não desisti e o puxei para mim, enquanto ele ainda lutava para sair do meu abraço. Ele achava que conseguiria me afastar com socos, me batendo, mas quanto mais ele tentava me machucar, mas eu tinha certeza da dor que ele sentia. Eu não me importava de compartilhá-la com ele e ele acabou cedendo, logo me apertando ainda mais forte do que eu abraçava ele.E enquanto ele descontava em mim toda a raiva que ele sentia, eu ouvi meu pai ordenando os guardas para vasculharem o castelo mais uma vez para ter certeza de que era Gabrielle que tinha sido levada. Antes de ficarmos só nós três, ele também ordenou que alguns guardas investigassem o ataque e que descobrissem quem os rebeldes eram, o que eles queriam e porque tinham levado uma das selecionadas. E então a porta se fechou atrás do último guarda e ele veio até nós.Eu soltei Charles devagar e nosso pai o levantou, abraçando-o também quando ele ficou de pé."Nós vamos fazer tudo, absolutamente tudo," ele disse, "para recuperá-la sã e salva. Mas agora você precisa ser forte, Charles," ele se afastou dele e o segurou pelos ombros com as duas mãos. Meu irmão ainda tinha seus dentes cerrados, mas ele concordou com a cabeça. "Ela precisa que você seja forte e lute para salvá-la. Ela está contando com você.
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