Quando a Chuva Encontra o Mar: Uma Nova Seleção
89 Capítulo 89: POV Gabrielle DeChamps
A festa de Halloween estava indo muito bem! Eu estava vestida de Marie Antoinette e equilibrava uma peruca enorme e pesada em cima da minha cabeça. Mas isso não estava me impedindo de aproveitar.
Claro, a festa tinha acabado de começar, mas eu já tinha passado por duas pessoas que me reconheceram e vieram me falar que estavam torcendo por mim. Aquilo realmente me animou, apesar de no fundo eu ainda saber que não era uma questão de favoritismo, era só a opinião de Charles que importava.
Uma hora, eu fui até o bar para pedir uma bebida que não fosse champanhe, quando uma mulher ruiva e linda se aproximou de mim.
"Você é Gabrielle, não é?" Ela me perguntou, mas não esperou eu responder. "Ah, minha irmã falou tanto de você! Ela disse que você é decendente de franceses. Eu adoro a França!"
Eu fui pega de surpresa, mas achei legal a atenção.
"É, sou," falei, sorrindo. "Como você chama?"
"May," ela disse, me oferecendo a mão dela para apertar. "May Singer."
"Prazer," eu falei e apertei a mão dela.
Mas aí que me ocorreu de onde eu a conhecia! E eu não consegui me soltar dela.
"Ai, meu deus, você é a irmã da rainha?" Eu perguntei, e ela concordou com a cabeça, animada. "Você é a estilista da Singer Revolution! É claro que eu sei quem você é! Nossa, eu sempre quis te conhecer e agradecer por você sempre criar botinhas nas suas coleções, mesmo no verão! Elas são as peças de roupa perfeitas! Elas tem estilo e ao mesmo tempo são super práticas! Sério, muito obrigada!"
Eu chacoalhava sua mão para cima e para baixo, enquanto ela só sorria para mim. Até que percebi que eu já tinha extrapolado no cumprimento e a soltei, me desculpando.
"Não, pelo contrário," May disse, rindo. "Eu gosto de conhecer fãs."
"É, eu também," falei, lembrando das duas meninas que tinham me reconhecido.
O garçon se virou para mim com o meu drink, cheio de morangos e os olhos de May se arregalaram.
"O que você está bebendo e como eu consigo um desses?" Ela perguntou, animada, já se virando para o bar.
Eu ri, enquanto ela pedia para o garçon a preparar um drink daqueles.
"Gosta de morangos?" Perguntei.
"AMO!" Ela disse, arregalando os olhos. "Mais do que tudo!"
"Eu também!" Falei, rindo e tomando um gole da minha bebida. "E esse drink está maravilhoso!"
"Obrigada por me deixar com vontade," ela disse, cruzando os braços na frente dela, fazendo birra.
"Conta até dez que aparece um copo na sua mão," eu falei e ela sorriu, desistindo de fingir que estava incomodada.
Depois que nós duas já estávamos servidas, nós começamos a andar pela festa. A luz estava bem baixa, deixando o salão bastante escuro, de um jeito que eu nunca o tinha visto antes. Teias falsas de aranha estavam penduradas em todos os cantos que davam, se entrelaçando com lençóis pretos que caiam das paredes direitinho, ajudando para o cenário assustador.
Pelo que eu tinha aprendido na escola, a primeira festa de Halloween depois de muito tempo tinha acontecido na Seleção do rei. E desde então, eles tentavam trazer de volta o verdadeiro significado dela, que era fazer aquele dia ser das bruxas. Mas a maioria das pessoas só o usava como uma desculpa para se vestir de alguma coisa diferente.
Eu reconheci algumas pessoas ao passar por elas, mas de longe era impossível de enxergar alguém. May me falava sobre como tinha sido a festa no ano passado, me contando que Sebastian tinha bebido tanto que tinha dado vexame na pista de dança. Ela me prometeu que existia uma gravação desse dia, eu só precisava encontrá-la.
Eu ria do lado dela, não só do que ela falava, mas do jeito que ela falava. Até que a minha bebida acabou. Eu procurei um garçon e coloquei meu copo vazio na bandeja dele. Sem me perguntar nada, ele me entregou a única taça de champanhe que ele carregava. Eu tentei protestar, devolvê-la e explicar que eu não queria beber nada, mas ele começou a andar para longe antes que eu pudesse me dar conta do que ele tinha feito.
Olhei para a taça e decidi que era um sinal do destino para eu aproveitar aquele champanhe maravilhoso. May nem se deu conta de nada, ela continuou falando da festa.
"Naquela época, meu irmão namorava um atriz," ela falava, "como ela se chama mesmo? Britton, alguma coisa Britton."
"Alicia Britton," falei, tomando um gole do champanhe.
"Isso! Alicia Britton! Deus, ela era insuportável. Ela arrastava ele de um lado para o outro, sempre reclamando que ele bebia demais, ria demais, dançava demais. Sério, insuportável."
"Há, eu acredito," falei, tomando outro gole.
Aquele champanhe estava bom demais! Suas bolhinhas brincavam com a minha língua, me fazendo me perguntar porque eu o tinha desprezado por um drink de morango.
"Ele está aqui em algum lugar," May começou a olhar para os lados.
"Seu irmão?"
"É," ela desistiu de procurar e me mirou. "A não ser que ele tenha preferido ficar no quarto, se remoendo de ter feito aquela menina desmaiar."
Eu franzi as sobrancelhas, me perguntando do que ela falava.
"Qual menina?" Perguntei.
"A Lady Arya," ela disse, como se eu já soubesse do assunto. "A menina que esbarrou nele e desmaiou," ela me mirou séria, percebendo que aquilo era novidade para mim. "Ai meu deus, você não sabia?"
"Não!" Falei, um pouco histérica demais.
"Ah, ele esbarrou sem querer nela, mas os dois estavam correndo, então ela acabou levando a pior. Ela bateu a cabeça."
"Mas ela está bem?" Perguntei, imaginando a cena.
Só de pensar na Arya caída no chão, desmaiada, me deu um aperto no coração. Eu não tinha feito nada para ajudá-la! Eu precisava fazer alguma coisa.
"Ela está bem, não se preocupe," May me confortou. "Mas eles tiveram que levá-la ao hospital de Angeles, para conseguirem tratá-la, caso ela tivesse alguma sequela mais grave."
"Como assim, tratá-la? Você acabou de dizer que ela estava bem!"
"E está," ela me garantiu. "Não se preocupe, ela está! Logo ela volta, era só por precaução."
Eu bebi todo o resto de champanhe que tinha na minha taça, pensando que aquilo talvez fosse me acalmar.
Não sei quanto tempo se passou depois, mas a família real tinha acabado de fazer sua aparição, quando eu comecei a me sentir um pouco tonta demais. Não sei se era a luz, ou a falta dela, ou era só o champanhe mesmo, mas sei que tudo parecia estar acontecendo do lado de fora de uma parede de vidro.
Eu pedi licença para May, não querendo passar mal na frente dela, e saí do Salão, já mirando o banheiro.
Eu poderia ter parado no banheiro das mulheres que tinha ali perto, mas de novo eu pensei que preferia ficar sozinha. Eu não queria câmeras perto de mim, registrando o momento em que estava. Eu ainda nem sabia o que ia acontecer, mas alguma coisa me dizia que eu não teria muito controle da minha cabeça em alguns minutos.
Eu fui apoiando na parede, tentando equilibrar ainda a peruca, mas estava pesada demais! Quando já estava um pouco longe da entrada do Grande Salão, eu a arranquei e deixei cair onde estava. Meus pés cambaleavam, mas eu pelo menos enxergava mais lá de fora do que dentro do salão. E tudo que eu ouvia eram os meus passos.
E mais uma pessoa andando atrás de mim, eu percebi do nada.
Meu coração, tolo como era, pensou que seria Charles e já começou a bater mais rápido. Mas quando eu me virei, eu não o reconheci. Ele estava vestido de vermelho, eu tinha certeza! Mas o homem que andava até mim, decidido, usava uma camisa branca e calças pretas.
Ele está quase chegando a alguns metros de mim, quando eu reconheci que era um garçon. Por instinto, me virei de novo para a frente e continuei andando. Fui apressando meu passo, do jeito que meu coração se acelerava, já esquecendo onde eu estava tentando chegar, só querendo ver se isso o faria andar mais rápido.
E fez. Eu fui ouvindo ele correndo atrás de mim e a cada passo, eu sentia o pânico dentro de mim crescendo, me fazendo andar ainda mais depressa. Eu não sei o que eu estava pensando, eu só sentia em todo o meu ser que eu tinha que correr, que eu tinha que fugir dele. Podia parecer estúpido, mas meu coração estava pensando muito melhor naquela hora do que a minha cabeça, e algo me dizia que a razão não estaria do meu lado.
Eu avistei a porta do banheiro privado no final do corredor e uma esperança frágil cresceu dentro de mim. Eu só teria que entrar lá e trancar a porta e eu estaria a salvo, eu estaria livre dele, que ainda corria freneticamente atrás de mim.
Eu o ouvi apertar o passo e eu fiz o meu melhor para não deixá-lo chegar até mim. Eu estava quase lá, já estava antecipando o momento em que eu pegaria a maçaneta e teria que me virar correndo para trancar a porta atrás de mim. Eu estava chegando. Só mais um pouco, pensei. Só mais alguns metros e eu estaria a salvo, e eu poderia respirar.
Antes que me desse conta de que tinha chegado no banheiro, um barulho alto de vidro se quebrando em milhares de pedaços tomou conta do corredor, ecoando pelo castelo. Eu protegi meu rosto com o braço antes mesmo de sentir os pedacinhos de vidro arranharem minha pele. Eu olhei para o lado para encontrar cinco, oito, quinze pessoas, não sabia direito, todas entrando pela janela, quebrando o que tivesse na frente delas, determinadas em sua missão, que eu nem sabia o que era.
Eu me voltei de novo para o banheiro, mas era tarde demais. O cara que tinha entrado pela janela mais perto de mim me mirou, chegando até mim junto com o garçon que antes me seguia. Os dois me pegaram pelos braços antes que eu alcançasse a porta do banheiro e me levantaram do chão. Minha cabeça estava começando de novo a ficar tonta e eu comecei a chutar o que dava, com os pés no ar. Eu mal pegava neles, mas eu não parava. Eu esperneava, eu tentava me livrar das mãos deles, enquanto eles me carregavam para o banheiro. E então a ideia de trancar a porta passou de segura para assustadora.
Eles me jogaram no sofá e eu senti uma dor nos meus dois braços, onde eles tinham estado me segurando um segundo atrás. Eu tentei me levantar, mas uma tontura forte me bateu e eu mal consegui enxergar a um palmo do meu rosto quando um deles se ajoelhou na minha frente.
"Você não deu o sedativo para ela?" Ele perguntou e eu senti sua voz ecoando na minha cabeça.
"Dei," o outro falou, enquanto quebrava uma cadeira do banheiro e usava seus tacos de madeira para fechar a porta. "Não é culpa minha se demorou para fazer efeito."
"Acho que agora está começando a fazer," o que estava na minha frente falou, quando eu inclinei para trás no sofá. Ele se levantou e foi até o outro.
Eu não queria apagar, eu não queria ficar ainda mais vulnerável. Eu só precisava tentar focar alguma coisa com os meus olhos, eu precisava fazer aquela tontura passar só um pouco, só o suficiente para eu sair dali.
"Ótimo, aí nós podemos levá-la daqui."
Meu cérebro acendeu quando ele falou isso, em pânico. Não, ninguém ia me levar de lugar nenhum, eu ia continuar onde estava! Eu tentei levantar e cambaliei até o cara que tinha estado na minha frente.
Eu tentei acertá-lo na cabeça, mas suas mãos se precipitaram para a frente, me agarrando pelos cotovelos.
"Menina teimosa," ele disse, me empurrando na direção do sofá de volta.
Mas eu empaquei meus pés com toda a força que tinha, insistindo em não me mexer, mesmo que ainda estivesse bastante grogue.
O outro cara chegou perto de mim para me pegar pelos pés, e eu tentei lhe dar uma joelhada. Eu o acertei, mesmo que não bem, pois ele se dobrou para a frente, levando os dois braços ao estômago.
Mas a tontura me bateu de novo quando um alarme alto e estridente soou pelo castelo e eu perdi a força que ainda me fazia lutar contra eles, do jeito que fosse. E um cara só foi o suficiente para me jogar no sofá de novo.
"Eles sabem que nós estamos aqui," o cara que me empurrou falou, sua voz bem mais grossa que a do outro.
"Por que mesmo nós temos que levá-la viva?" O outro perguntou, ainda agonizando um pouco de dor.
"Ordens do chefe."
Eu pisquei mais algumas vezes, sentindo que aquele era o único movimento que eu ainda conseguia fazer, até que uma escuridão tomou conta de mim e eu perdi a noção de onde estava.
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