Desde que ele era pequeno, Charles sempre falava da Seleção. Ele sonhava com isso, planejava coisas que ele faria com as selecionadas (coisas que foram se desenvolvendo conforme ele crescia). Ele me falava que seria a melhor seleção da história! Seria a primeira que só aconteceria porque ele queria, a primeira em que ele escolheria cada uma das meninas, a primeira em que as castas e suas posições sociais não importariam.

Eu o admirava por essa visão sobre uma tradição tão estranha. Mas ele via o bem em todas as coisas e isso me fazia temer por ele. Eu esperava que ele fosse desistir dessa ideia e ver os grandes problemas na seleção quando ficasse mais velho. Mas acho que eu e Maxon não éramos o melhor exemplo de como aquilo tudo seria uma péssima ideia. Tentei lhe explicar de como foi sorte, destino até talvez. Mas ele insistia que estaria perdendo uma grande chance se não tentasse. Ainda mais que ele raramente conhecia alguém novo.

No ano passado, quando tivemos que cancelar sua seleção por causa de um dos últimos ataques rebeldes ao castelo, ele tinha ficado tão aliviado, achei que finalmente fosse ver como aquilo não seria a solução. Mas acho que a única razão pela qual ele poderia escolher não ir em frente com a seleção seria o medo de não ser bom o suficiente.

Eu tinha que admitir que uma seleção para Charles nem era tão má ideia. Se fosse para Sebastian, eu estaria muito preocupada. Nem sei se deixaria com que organizasse um evento assim, trouxesse trinta e cinco meninas esperançosas para cá só para ele se divertir com elas e logo mais acabar com elas.

Charles nunca usaria nenhuma meninas sem ter intenções claras com ela. Esse não seria o problema. O que mais me preocupava era que ele sempre se apaixonava por qualquer menina que mostrasse interesse. Ele estava sempre pronto para se entregar e mudar por alguma pessoa que gostasse dele. Eu lhe falava que isso não duraria, que ele tinha que ser ele mesmo, mas ele não via isso. Ele ficava tão encantado com a mera possibilidade de alguém gostar dele, que ele agia como ela queria, com medo de ser deixado.

Por isso decidi que ia ajudá-lo. Claro, sem contar para ele. Decidi que ia conversar e conhecer cada uma das selecionadas. Eu não podia eliminá-las, mas podia tentar mostrar para ele qualquer problema que poderia existir. Não queria que ele acabasse infeliz e sempre se arrependendo dessa escolha. Eu precisava ajudá-lo do melhor jeito possível.

Quando entrei no Salão da Mulheres no primeiro dia da estadia das selecionadas, as encontrei reunidas nos sofás e nas poltronas, conversando sobre alguma coisa bem interessante.

Todas me olharam curiosas e assumiram poses mais eretas quando eu cheguei. A conversa desapareceu.

"Podem continuar," eu falei, querendo muito saber do que elas falavam. "Não precisam fazer pose para mim."

Sorri de leve, para tentar incentivá-las a serem mais naturais na minha presença, mas nenhuma pareceu acreditar que era uma boa ideia. Continuaram imóveis até uma delas se levantar e fazer uma reverência para mim.

"Sua Majestade, é um prazer tê-la aqui."

Achei interessante ela falar isso, já que era ela a visita em minha casa.

"Muito obrigada," eu disse e fiquei esperando que ela completasse com seu nome.

"Annabel," ela falou e abriu um sorriso. "Annabel Bellicov."

"É um prazer conhecê-la, Annabel," eu fui andando até elas, enquanto Mary buscava minha poltrona favorita para me juntar a elas. "Me conte um pouco de você, Annabel. O que você gosta de fazer?"

Me sentei com Mary ao meu lado.

Annabel parecia animada com a atenção.

"Eu sou bailarina," ela falou, orgulhosa. "Dançar é a minha vida. Se eu não pudesse dançar, não poderia viver!"

Pensei em mencionar que agora ela seria uma Três e que talvez isso a fosse impedir de continuar dançando, mas tínhamos regras claras de não pensar em termos de casta durante A Seleção. E se tudo desse certo, logo ela não teria esse problema. Estávamos prestes a conseguir eliminar a casta Cinco, o que era uma vitória pessoal para mim.

"Eu mesma nunca consegui dançar muito bem," falei, tentando fazê-las pensar em mim no mesmo nível delas.

"Ah, não pode ser verdade!" A menina com um button escrito Arya disse.

"Mas é!" Eu insisti, rindo de leve. "Se não fosse por Maxon me guiando super bem, eu teria caído na frente de todas as câmeras no nosso casamento!"

"Ai, eu adorei tanto seu casamento!" Uma menina chamda Melody falou, franzindo suas sobrancelhas.

Ela não parecia um dia mais velha do que dezessete anos.

"Mas como você pode ter visto? Voce nem era nascida na época!"

"Eu sei, mas é super fácil achar agora," ela deu de ombros. "Graças a vocês, é claro," falou para mim.

"O que você quer dizer?" Mary falou do meu lado o que eu mesma teria perguntado se ela não tivesse sido mais rápida.

"Eu não tive que passar por isso," ela falou, tímida e se esforçando o máximo para não ser. "Mas meus pais me contam que foram vocês que trouxeram de volta muito da tecnologia que temos hoje," eu concordei com a cabeça, lembrando de quando eu vi um computador pela primeira vez.

"É, é verdade," falei, repassando rapidamente na minha cabeça todo o processo que foi trazer de volta computadores e a internet. Ainda poderíamos fazer muito mais, mas já era um progresso enorme. "Vocês usam muito o computador?"

"Eu uso!" Disse uma menina chamada Melanie.

"É, eu te vi usando," uma outra comentou. Ela tinha um livro enorme no colo.

"Para que vocês usam?" Perguntei.

"Eu só consigo escrever meus livros no computador," Melanie disse.

"Sim! Eu também!" Uma chamada Gabrielle concordou, animada. "Quando eu era pequena, eu tinha que escrever em papel, porque não podia mexer no computador dos meus pais. Minhas histórias pareciam tão enormes e cansativas e eu nem escrevia tanto assim!"

"É que cansa, né?" Melanie perguntou e Gabrielle concordou com a cabeça enfaticamente.

"Então vocês são escritoras?" Perguntei, fazendo-as virar para mim. "Tem mais alguém aqui que também é?"

Uma menina com cabelo castanho escuro levantou a mão. "Eu escrevo, mas por hobbie."

"O que você faz de trabalho?" Perguntei.

"Meus pais são arquitetos e eu já gosto de desenhar prédios desde pequena," ela sorriu, fazendo seu rosto ficar ainda mais deslumbrante. "Mas também gosto de escrever fantasia."

"Que mais que vocês fazem?" Me virei para olhar todas. "Quem aqui é cantora ou toca algum instrumento?"

Várias levantaram a mão, me deixando completamente surpresa. "Sério?" Perguntei. "Vocês todas?" Elas concordaram com a cabeça. "Eu sou tipo uma inspiração para vocês?" Ri de leve e elas acompanharam, mas dava para ver nos olhos delas que era verdade.

Foi aí que eu comecei a sentir o peso de ser um exemplo para elas.

"Está bem, depois poderíamos conversar sobre música!" Falei. "Mas e as outras? O que vocês fazem?" Virei me para a primeira à minha esquerda.

"Eu sou jogadora de xadrez profissional," a menina morena de olhos grandes e azuis disse. Ela usava um button escrito Cristina.

"Verdade?" Perguntei. Nem sabia que aquilo era uma profissão.

Ela concordou com a cabeça e sorriu para mim. Então passei para a próxima.

"E você?"

"Ah, eu não sou cantora, mas eu ensino música para crianças," ela disse, um pouco envergonhada de me contar.

Era como se ela não quisesse mostrar o orgulho que tinha do que fazia. Mas ela deveria, porque era uma coisa muito legal.

"Até eu ter que tomar conta do restaurante do meu, na verdade," ela completou. Pude ver que se chamava Sophie.

"Vocês tem um restaurante, é? Onde fica?" Perguntei.

"Em Kent," falou, mas não parecia querer continuar falando daquilo, estava nervosa com a atenção, então não perguntei mais nada.

"Eu sou modelo," a próxima disse. "Eu e a minha irmã gêmea, que não está aqui."

"Ela não estava na aula de Silvia?" Perguntei e algumas balançaram a cabeça.

"Deve estar com o Charles," uma disse, meio triste.

"Eu conheço você," falei, virando-me para ela e esquecendo do que falávamos. "Você não é Abigail Neumann?"

"Sim," ela disse, olhando para baixo. "É um prazer conhecê-la, Majestade."

"Minha filha adora você," Mary falou, animada. "Depois se você puder me dar um autógrafo, eu agradeceria!"

"Claro," Abigail disse. "Seria um prazer!"

Depois de um silêncio e um sorriso, me virei para as outras. "Mais alguém aqui é modelo ou atriz?"

Outras levantaram as mãos. Modelos, cantoras, atrizes e escritoras. Essa era a maioria.

"O que você faz?" Perguntei para a menina que segurava um livro enorme.

"Por enquanto, nada," ela disse, "nada além de estudar o máximo que eu posso. Mas tenho planos de ser uma professora de línguas."

"Você fala várias línguas?"

"An-hã, algumas," ela deu de ombros, como se isso fosse o mínimo que ela podia fazer.

"E vocês," me virei para outras duas que eram as únicas que eu ainda não sabia o que faziam.

"Eu trabalho no hotel da minha família," uma delas disse.

"Mas se você pudesse fazer qualquer coisa no mundo, o que faria?" Perguntei, para tentar entender como ela era.

Ela pareceu que ia pensar muito, mas um segundo depois já tinha uma expressão de encantada no rosto. "Seria piloto de avião," disse, numa mistura de paixão e tristeza.

"E por que não vai atrás disso?" Insisti.

Ela deu de ombros. "É uma longa história."

Resolvi não continuar tentando já que ela não parecia estar aberta para isso. Então me virei para a outra.

"Eu desenho jóias," falou. Ela se chamava Nina.

"Sério?" Mary parecia bem interessada.

"Sim," Nina sorriu. "Meu pai tem uma loja de jóias e eu gosto de desenhar algumas peças. Comecei só de brincadeira, mas um dia uma cliente viu um desenho meu e insistiu para a gente fazer aquele colar para ela. Daí pra frente, meu pai começou a me pedir para desenhar mais vezes."

"Isso é incrível!" Falei. "Você tem que nos mostrar alguns dos seus desenhos um dia desses!"

"Pode deixar," ela falou, sorrindo.

"Aliás," tive uma ideia. "Quero que todas vocês preparem para amanhã uma apresentação pequena sobre sua vida antes da Seleção. Tragam seus projetos, trabalhos, fotos, ou até podem escrever um texto. Só quero poder conhecê-las melhor. Não se preocupem em impressionar Charles, isso é só para eu poder entendê-las!"

"Vamos ser avaliadas por isso?" Annabel perguntou, já começando a se preocupar.

"Não, nada assim! Só quero conhecê-las, de verdade. Não vou julgá-las," prometi. "E também vou fazer uma pequena apresentação sobre mim! Combinado?"

Elas concordaram e sorriram.

"Até o jantar, então," falei, me levantando e fazendo um último aceno de cabeça.

Elas se levantaram enquanto eu me retirava dali. Precisava ir falar com Silvia sobre essa ideia que eu tinha acabado de ter.