Quando a Chuva Encontra o Mar: Uma Nova Seleção
125 Capítulo 125: POV Gabrielle DeChamps
Pela primeira vez em uma semana, eu dormi a noite inteira sem interupcões. Não acordei nenhuma vez, nem por pesadelo, nem por costume. Eu dormi direito, direto. Perfeito.
Quando acordei, precisei de alguns minutos para me situar, para lembrar do que já tinha acontecido comigo naquele castelo. Tudo parecia tão longe, parecia ter acontecido há mil anos atrás. Eu estava a salvo, eu estava bem. Estava até confortável demais para quem tinha que se levantar.Até que as lembranças do dia anterior voltaram de uma só vez. Toda a raiva que eu tinha sentido por Charles, toda a culpa de ter brigado com ele quando ele realmente estava me ouvindo. Eu tinha passado o dia inteiro correndo atrás dele sem o encontrar. E depois tive que ficar presa no chá-de-panela de Amélie. Eu tinha que ter entrado lá! Depois de horas insuportáveis de vê-la recebendo presentes adiantados e explicando como ela e Sebastian tinham a melhor história de amor do mundo (apesar de ele não parecer concordar), eu finalmente achava que ia ver Charles! Mas ele estava ausente durante o jantar e Sebastian me contou que ele teve que sair com alguns guardas.Mas ele me prometeu que ele voltaria hoje. E eu ainda precisava ir atrás dele. Eu tinha sido idiota, eu tinha brigado com ele por nada! Se eu tivesse tentado me explicar primeiro, se eu tivesse lhe dado uma chance, talvez ele estivesse comigo ali, naquela hora.Eu me virei na cama, imaginando-o ali, me abraçando. Eu era realmente muito idiota! Eu não tinha parado para perguntar se ele estava bem! Eu tinha mesmo defendido na cara dele quem tinha atirado nele? Se não fosse por Gregor, Charles não teria passado por tudo aquilo. Ele não teria sentido tanta dor.Aquilo tudo era loucura. Tudo tinha acontecido tão rápido e passado mais rápido ainda. Eu não sabia direito como reagir. E se eu estivesse estragando tudo? E se eu já tivesse estragado? Eu não sabia o que estava fazendo! Eu só fiz, eu não pensei! A ideia de aceitar que algo assim acontecesse com alguém que eu conhecia era demais para mim! Mas eu não tinha a intenção de afastar Charles! Eu não queria afastá-lo! Era tudo que eu menos queria! Eu precisava que ele entendesse isso! Eu precisava ir atrás dele, eu precisava mostrar para ele que eu ainda queria estar ali, que eu ainda o queria. Eu que precisava lutar por ele.Eu me virei e me levantei com tudo da cama bem na hora em que a porta se abria e as minhas duas criadas entravam."Lady Gabrielle, nós já estávamos vindo acordá-la," uma delas disse, enquanto a outra trazia um carrinho com meu café da manhã."Eu estava pensando em descer para comer com todos," eu falei. Depois de quase uma semana só comendo no meu quarto, todas as refeições com a única companhia da Nina, dessa vez eu gostaria de poder me juntar aos outros.Principalmente se o Charles estivesse no meio deles."O rei e a rainha pediram para que todos tomassem seus cafés no quarto," Nik, a mais alta disse, já indo arrumar a cama atrás de mim."Por quê?" Eu perguntei desanimada. Se ela não já tivesse alisado toda a colcha, eu já estaria me sentando na cama."Preparativos," Lila disse."Ah, o casamento?" Eu perguntei. "Podia jurar que Amélie tinha mencionado que seria amanhã."As duas trocaram um olhar misterioso que me deixou curiosa. Mas essa curiosidade passou rápido. Se tinha alguma coisa que elas não podiam me contar sobre a princesa de França, que não contassem. Eu não tinha estômago ou cabeça o suficiente para ficar me preocupando com ela.Lila terminou de preparar a minha mesa e eu fui me sentar lá para comer. Eu não sabia que eu queria comer tanto até que meu nariz sentiu o cheiro do pão quentinho. E enquanto eu tomava meu café, elas iam preparar meu banho."Eu precisava falar com o príncipe," eu falei, tentando fazer minha voz chegar até elas. "Preciso de uma roupa apropriada.""Desculpa, senhorita, mas você não pode sair de seu quarto hoje," Nik saiu do banheiro com as duas mãos juntas à sua frente."Eu não posso?""Nenhuma selecionada," ela corrigiu rapidamente. "Nenhuma selecionada pode deixar seu quarto hoje.""Isso é medo da Amélie de nós sabotarmos seu grande evento?" Eu soltei uma risada rápida, mas ela não me acompanhou. E seu olhar de constrangimento era quase uma advertência para o meu comportamento. "Está bem," eu disse, dando de ombros. "Então tem como vocês mandarem alguma mensagem para ele pedindo para que venha me ver?"Lila saiu do banheiro e se juntou à Nik. "Claro, senhorita," ela me respondeu, sem quase nenhuma confiança no que ela mesmo dizia."E a Nina," eu acrescentei por desespero. "Tem como vocês a chamarem?"Nik abriu um sorriso, talvez finalmente feliz por poder fazer algum pedido meu. Eu tomei meu banho com calma, não porque não estava ansiosa, mas porque queria fazer de tudo que eu podia para que Charles se lembrasse de que eu gostava dele. Eu precisava estar cheirando maravilhosamente bem, precisava estar maravilhosa. Aí, mesmo que ele ainda me odiasse, ele podia gostar do que visse.Eu pensava nisso olhando no espelho, com a toalha enrolada em volta de mim e uma outra no meu cabelo. Eu queria poder ser bonita o suficiente para ele esquecer o quanto eu tinha sido ingrata. Talvez se eu fosse, ele poderia se apaixonar por mim e nós poderíamos começar do zero. Só um garoto e uma garota, sem coroa, sem sequestros, sem trinta e cinco outras.
Nik e Lila me vestiram com calma — com calma demais para o meu gosto! Eu já estava ficando impaciente! Nik fez escova no meu cabelo, passando por cada mecha umas vinte vezes. Quando eu perguntei, ela me garantiu que só queria ter certeza de que estava perfeito, que eu tinha que arrasar no evento. Evento, ela disse, cuidadosamente evitando a palavra casamento.Quando eu finalmente estava pronta para sair do quarto, já era quase hora do almoço. Elas me deixaram e eu, sem pensar duas vezes, contei até dez e tentei sair do quarto."Desculpa, senhorita, mas as selecionadas foram instruídas a permanecerem em seu quarto até o evento," um guarda disse, se colocando na minha frente e não me deixando passar."Ah, desculpa, não sabia," eu menti. "Eu só precisava falar com outra selecionada. Lady Nina?"O guarda abriu um sorriso. "Pode deixar que eu vou chamá-la."Eu assenti com a cabeça e fechei a porta. Contei de novo até dez, depois contei mais dez. E então eu abri a porta, esperando que ele estivesse longe. Mas lá estava ele, que só me olhou e sorriu.E então Nina apareceu entre nós. "Mandaram me chamar?" Ela perguntou, já entrando no meu quarto."Eu mandei," eu falei, fechando a porta atrás de nós. "Mas eu preciso de uma ajuda!" Ela se virou para mim, se sentando na minha cama. Ela ainda parecia bastante abatida, mal conseguia respirar.E lá estava eu, pronta para pedir favores."Qualquer coisa," ela disse, me forjando um sorriso fraco.Droga, pensei. Eu realmente era muito egoísta e ingrata.Mas eu realmente precisava daquela ajuda. E ela era a única que eu sabia que faria o que fosse por mim."Eu precisava falar com o Charles," eu disse, indo me sentar do seu lado. "Eu não falo com ele desde antes de ontem, eu preciso me desculpar.""O que você fez?" Ela perguntou, ainda desanimada. Ela nem parecia que queria saber, mas perguntava porque era o que devia fazer."Eu falei que não queria o ver nunca mais," eu disse, fazendo-a praticamente acender de surpresa. "Não era verdade, eu quero vê-lo! Eu nunca, nunca quis não o ver! É tudo completamente idiota!" Eu suspirei, frustrada. "Eu só não sabia o que fazer, eu não sabia o que falar! Eu precisava que ele entendesse o que eu estava falando! Eu precisava fazê-lo me ouvir! E funcionou, essa é a pior parte! Agora eu só preciso falar para ele que eu realmente quero estar com ele, que era só uma ameaça tonta e infundada.""E o que você quer que eu faça?" Ela perguntou."Tem como você encontrá-lo? Fala para ele que eu preciso falar com ele, que eu o estou esperando aqui!" Eu pedi, talvez um pouco desesperada demais."Eu posso tanto sair andando por aí quanto você," ela disse, dando de ombros."Mas eles não te impediriam se você falasse que precisa ir atrás dele, não depois de tudo-" Eu mesma me cortei. Eu não queria dizer o que eu estava pensando. Nina era boa demais para merecer uma amiga como eu.Mas eu estava pensando que ela já tinha sofrido tanto, que ninguém falaria não para ela. E eu estava me atrevendo a querer tomar carona nessa liberdade que ela estava recebendo. Eu era realmente uma péssima amiga."Está bem," ela disse finalmente, apesar de eu estar mordendo meu lábio de medo de ela me odiar. "Eu vou ver se consigo falar com ele."Naquela hora, Nik e Lila apareceram com outro carrinho de comida, trazendo nosso almoço."Depois," eu falei, como se aquilo fosse algo incrivelmente generoso da minha parte de estar oferecendo à Nina. "Vamos comer primeiro."Ela concordou com a cabeça, se levantando e praticamente se arrastando até a mesa, onde eu me sentei na frente dela. Nós não trocamos uma palavra enquanto Nik e Lila nos servíamos e depois almoçamos falando sobre coisas normais. Eu não queria insistir no assunto de Charles, porque não queria abusar de sua boa vontade. E eu realmente não queria falar de Amélie. Eu não sabia porque ela ainda estava ali, eu não sabia como ela planejava aguentar ver tudo acontecer. Mas no meu egoísmo profundo, eu não queria vê-la indo embora. Ela era a única ali em quem eu podia contar.Egoísta. Completamente egoísta. Não era de se admirar que Charles estava fazendo o impossível para se manter longe de mim.Depois do almoço, Nina foi atrás dele. Eu fiquei no meu quarto sozinha, andando de um lado para o outro, esperando que ele aparecesse. Eu me sentei na cama, depois me levantei. Fui até a varanda, depois voltei para a cama. Eu não sabia onde eu devia ficar, eu ainda estava tentando saber o que dizer. E a cada segundo que passava, meu coração batia mais rápido, o frio na minha barriga aumentava. A qualquer momento ele apareceria ali, pronto para me odiar, provavelmente já não querendo olhar para mim.Eu precisava saber o que falar. Eu precisava fazê-lo entender que eu tinha agido por compaixão, não por amor. Que amor era o que eu sentia por ele.Na hora que a porta se abriu, eu estava pronta para me jogar nele, mas foi Nina que entrou. Sozinha."O que aconteceu?" Eu perguntei, indo até ela.Ela demorou demais para me responder, ainda desanimada como estava. Se fosse qualquer outra pessoa, eu já a tinha chacoalhado para conseguir uma resposta."Ele disse que estava ocupado," ela falou, segurando um caderno contra si mesma."Ocupado?" Eu repeti, cambaleando para trás.Ele me odiava. Ele realmente me odiava. Era até mais cruel do que eu pensava, ele tinha me dado o que eu tinha implorado para me dar. Mas me tirado aquilo que era mais importante para mim. Eu devia ter pensado melhor! Eu não devia ter falado aquilo, agora ele achava que eu só me importava com o Gregor! E nem me dava uma chance de falar com ele!"Senhorita," ouvi a voz de Nik, mas eu estava de costas para a porta e não a via. "Nós precisamos começar a te vestir."Eu concordei com a cabeça, apesar de não ter ouvido direito o que ela tinha dito. Ele realmente tinha acreditado que eu preferia Gregor? Por que eu tinha que ser tão idiota de não conseguir demonstrar o que eu sentia por ele?Nik e Lila começaram a me arrumar, tirando um vestido do armário e me vestindo. Depois me sentaram na frente da minha penteadeira. Eu não sei quando Nina foi embora, mas quando eu me encarei no espelho, ela não estava atrás de mim. Eu só conseguia pensar sobre como eu tinha sido idiota! Eu tinha agido no desespero e tinha jogado fora tudo aquilo que tinha batalhado tanto para conseguir! Uma Seleção inteira, só para eu desistir de tudo que eu queria sem nem pensar direito!"Pronto," a voz de Lila me trouxe de volta ao meu quarto. "Você está linda," ela disse, chegando seu rosto perto do meu e me olhando pelo reflexo no espelho.Eu sorri para ela, agradecida por ela ter caprichado tanto. Mas assim que ela me soltou e as duas começaram a arrumar tudo, eu voltei aos meus pensamentos.Eu não merecia ficar bonita, eu tinha estragado tudo. Eu merecia ir embora. Não que eu quisesse. Droga, será que eu não conseguia nem pensar direito? Se Charles lesse meus pensamentos, ele ia achar que eu não o quero. Por que eu não consigo me expressar direito?"Nós voltaremos para te chamar quando der a hora," uma delas falou logo antes de fechar a porta. Eu nem poderia dizer qual das duas, não quando eu ainda estava mirando meus próprios olhos no espelho, ordenando para que nem se atrevessem a chorar.Mas era difícil de controlar. Eu sentia vergonha de mim mesma, raiva! Eu tinha tudo, eu tinha quem eu mais queria. E eu fui idiota o suficiente para perdê-lo! Eu não queria nem respirar, eu queria me bater. Eu não tinha ideia do que estava fazendo!Antes que as primeiras lágrimas caíssem, eu me virei e me levantei. Queria me jogar na cama, mas assim que cheguei perto, vi o caderno que Nina tinha com ela em cima do meu travesseiro. Eu achei esquisito, mas mal pensei naquilo. Simplesmente o peguei e o joguei um pouco mais para o lado, só para me dar espaço de deitar.Mas quando fiz isso, ele se virou e eu não pude evitar de ler a capa."Porque Eu Te Amo", estava escrito com letra garrafais e pintado com lápis. Eu sabia que era para a Nina, ela que tinha trazido esse caderno pra cá. E na hora que eu vi a capa, eu fiquei muito curiosa para ler o que tinha lá dentro! Achava que era ela que tinha escrito, que ela estava fazendo aquilo como uma carta para Sebastian.Sabendo que eu estava fazendo algo que não devia, eu fui até a minha porta e a tranquei. Se eu ia mesmo ler aquilo, eu precisava ter certeza de que não seria pega em flagrante.Me sentei confortavelmente na cama e trouxe o caderno para o meu colo. Passei alguns segundos olhando para a capa, admirando a dedicação que ela tinha tido para escrever e pintar com o lápis, mesmo que sem intenção de deixar tão bonito.
Depois eu abri a primeira página."Esse caderno é para meu uso pessoal. Então se você não for eu, feche-o agora. Você não tem o mínimo direito de se intrometer na minha vida.""Outch," eu falei alto. Parecia que ela sabia que eu estava me intrometendo. Mas é claro que aquilo não ia me parar. Pelo contrário, eu só tinha ficado ainda mais curiosa!Então eu continuei lendo."Aqui eu vou escrever tudo de que eu goste em Gabrielle-"Espera, eu tinha lido direito?!"Aqui eu vou escrever tudo de que eu goste em Gabrielle, para ter certeza de que não estou enlouquecendo. Vou listar coisa por coisa e aí eu vou saber, eu vou ter certeza de que é ela."Eu corri meus olhos para o final da página, o nome de Charles assinado correndo com a mesma caneta.Não era um caderno da Nina sobre Sebastian. Era de Charles. Sobre mim?!Eu fechei o caderno e olhei para a capa. "Porque eu te amo," eu li alto, sentindo já um sorriso crescendo no meu rosto.Eu já não conseguia respirar quando voltei a abri-lo. Embaixo daquilo, ele continuou escrevendo com outra caneta. Marcado a data 05/11, ele escreveu:"Gabrielle, eu espero algum dia ter a oportunidade de te mostrar esse caderno. Se alguma coisa tiver acontecido e eu não estiver com você, eu quero que saiba o que eu estava pensando toda vez que você sorria para mim."Só isso. E a sua assinatura de volta em preto. Eu tive que respirar fundo para voltar a oxigenar meu cérebro antes de passar a página."Eu conheci Gabrielle hoje. Ou devo dizer ontem? Ela foi até meu quarto, fingindo ser uma criada. Na hora em que a vi pela primeira vez, ela me olhou como se eu fosse a coisa mais interessante do mundo, com uma mistura de curiosidade e humildade que eu nunca vi igual.Eu gosto que ela tem interesse em conhecer as pessoas em volta dela. Ela gosta de saber como é estar no lugar deles, ela realmente se coloca em sua posição."Meus olhos passaram para a página ao lado."Ela parece se encantar com tudo. Ela vê beleza em tudo, como se qualquer coisa fosse servir de inspiração para ela. Ela realmente gosta do mundo, gosta de viver. Dá para ver pelo jeito que ela anda, pelo jeito que ela fala com as pessoas."Essas duas páginas eram escritas normalmente, ocupando só poucas linhas da folha. Eu continuei passando para as próximas."Tá, vou admitir. Eu adoro seu sotaque. É incrível, não é como o de Amélie. É mais leve, mais sutil. Mais interessante, quase misterioso.Pronto, falei. Agora vamos continuar.Eu gosto de como ela pronuncia meu nome, quase com medo de falar alto. E o jeito que ela torce o nariz quando eu estou falando com outra pessoa perto dela.Gosto do seu rosto. Ou melhor, das suas maçãs do rosto. Isso é normal de se falar? É engraçado, eu nunca tinha notado isso em alguém. Mas é impossível não perceber nela.Ainda mais com seus olhos aredondados e esperançosos em cima delas, me mirando como se guardassem um segredo divertido que ela está louca para me contar.E a cor dos olhos dela. Castanhos como amêndoas, como madeira recém cortada.Já falei do jeito que ela olha para mim?"Eu ri comigo mesma, me sentindo um pouco envergonhada com aquilo e ao mesmo tempo, bastante admirada. Eu já me sentia mais bonita, só de estar ali, praticamente abraçando aquele caderno.Passei a página outra vez e as próximas tinham letras maiores, animadas quase como se gritassem."COMO ELA CONSEGUE ME FAZER RIR — DE NERVOSO NA MAIOR PARTE DAS VEZES.Como ela deslizou seu braço pelo meu.Seu perfume.Ela jogando o cabelo para trás, como uma mania comum e encantadora.O jeito que ela ENLOUQUECEU quando eu falei que tinha uma versão especial de Casablanca.O fato de ela amar tanto aquele filme.O jeito que ela fica impressionada com tudo. Eu já falei isso? Mas é que é realmente incrível. Eu poderia apostar que ela conseguiria viver durante anos no castelo sem se acostumar com a sua beleza.Do mesmo jeito que eu não conseguiria me acostumar com a sua."Eu já estava praticamente agarrada ao caderno, a cada palavra, minhas mãos se fechavam mais contra ele. Eu não sabia que ele pensava assim, eu não podia imaginar que ele se importava assim.Eu continuei lendo as próximas páginas."O jeito que ela comeu a pipoca. Tá, isso realmente é esquisito. Mas ninguém nunca vai ler isso daqui, então vou aproveitar para falar!Não sei se estou sendo louco. Mas ela é tão natural do meu lado, ela não parece se intimidar com a minha presença. Ela comeu a sua pipoca como se estivesse em casa. Não sei, parece que ela não tem que me provar nada, que ela consegue ser ela mesma comigo.Ela consegue me desafiar. Ela se impõe, ela me faz falar, me pergunta coisas. Ela não me deixa ficar no meu casulo, me escondendo de ter que me abrir com alguém.Só o jeito de ela ter achado um absurdo eu preferir Blois a Amboise já diz muita coisa sobre ela. Ela tem as suas opiniões sem ter que colocar os outros para baixo. Ela sabe a diferença entre ser alguém forte e alguém mal. E isso é incrível.E ela me faz rir. Rir desse jeito dela. Espero que ela não tenha pensado que eu estava rindo dela. Era legal ver ela se importando tanto, gostei de vê-la brigando comigo."Eu passei a página e as letras voltaram a ficar enormes. Só tinha uma frase na página da esquerda que ocupava ela inteira."COMO ELA CONSEGUE ME FAZER RIR MESMO QUANDO EU FAÇO A MAIOR BESTEIRA DO MUNDO.Eu não acredito que fiz isso. Eu praticamente a apalpei no nosso primeiro encontro!Eu quero me enterrar só de pensar. Mas tenho que dizer aqui que eu amo o jeito que ela consegue me fazer me sentir leve apesar de estar também morrendo de vergonha.Ela realmente consegue me quebrar.É isso. Ela consegue me quebrar. Eu não estou enlouquecendo, não estou gostando dela só porque ela foi a primeira que eu vi. Nenhuma das outras consegue chegar perto. Eu posso até gostar de algumas, mas não é assim. É mais como se eu estivesse indo atrás delas. Gabrielle parece me encontrar no meio do caminho."Eu pensei naquilo por dois segundos. Eu não sabia que estava fazendo isso, mas gostava que ele tinha visto desse jeito. Poderia ter passado mais algumas horas pensando naquilo, mas eu queria continuar lendo!O sol começou a se pôr e, antes de virar a próxima página, eu dei uma olhada no relógio da minha cabeceira. Era quase cinco horas da tarde. Como eu tinha conseguido a proeza de demorar tanto em poucas páginas?"Mas e se for bem por isso? E se eu estiver com algum tipo de preconceito contra todas as outras selecionadas só porque eu a vi primeiro?Espera, isso daqui não é um diário."A próxima página estava em branco, e eu senti um peso, pensando que talvez ele tivesse desistido ali. Mas quando eu passei para a próxima, ele tinha voltado a escrever."ELA TEM CIÚMES DE MIM!" Ocupava a página inteira."Espera, eu devo usar isso como uma razão para gostar dela?Depois de tudo que aconteceu, é nisso que eu fiquei pensando? Nela gritando para mim que tinha ciúmes das outras meninas? Espero que ela nunca veja isso, senão vai ter que adicionar isso no seu caderno de razões pelas quais ela me odeia.Eu gosto da vontade que eu sinto de abraçá-la toda vez que ela está na minha frente.Mesmo quando está gritando comigo.Eu gosto de olhar para ela e ter que me controlar para não beijá-la.Principalmente quando ela está gritando comigo.Posso falar que eu amei quando ela ficou brava comigo por falar que eu mandava nela? Você sabe que uma menina nasceu para ser rainha quando ela não aceita esse tipo de coisa. Quando ela se sente realmente ofendida de perder a sua voz.Não que eu esteja muito feliz de ter falado aquilo. Ela entendeu tudo errado."Eu quase protestei para mim mesma, mas achei melhor só continuar lendo. E até aquela mínima raiva que eu sentia, até a vontade de falar que eu NÃO tinha entendido errado era boa. Até isso me fazia sorrir.Na próxima página, as letras também tomavam a página inteira. E cada palavra era de uma cor."EU JÁ FALEI QUE ELA É TEIMOSA? PORQUE ELA É. E MUITO.E TALVEZ EU AME ISSO.Se ela não fosse tão teimosa, talvez não tivesse ficado tão adorável tentando carregar sua mala escada abaixo. Ainda mais quando ela ainda queria ficar brava comigo. Era quase engraçado.Tá, é engraçado agora. Na hora, eu estava em pânico.Já disse que isso não é um diário, não é?Eu gostei de como ela não lutou contra mim quando eu a abracei. Mesmo com raiva de mim, ela ainda encostou a cabeça no meu ombro e me deixou tentar confortá-la.Não que tenha funcionado muito bem, mas mesmo assim.O jeito dela de rir, mesmo depois de chorar tanto. Como me olhou como se fosse louca, meio chorando, meio rindo de desespero.Eu até gosto desse jeito louco dela, de agir no calor do momento.Contanto que eu consiga controlá-la."Virei mais uma página."JÁ FALEI QUE EU GOSTO DE COMO ELA SE INCOMODA COM AS OUTRAS SELECIONADAS?Tá, eu preciso parar com isso. Eu preciso ir atrás das outras. Não dá, eu estou me focando muito nela. Eu preciso ter certeza da minha escolha."A próxima página também estava vazia. Eu não entendia porque ele fazia isso! Ele queria me matar do coração?"Eu AMO como Gabrielle NÃO se apaixonou pelo meu irmão.Tá, eu sei que isso nem é grande coisa. Não em uma Seleção normal. Mas eu realmente fiquei com medo de que ela tivesse se consolado com ele e que tudo tivesse virado de ponta cabeça.Então, Gabrielle, muito obrigado por não ser a Nina!"Eu ri comigo mesma, me perguntando quando ele tinha escrito aquilo. Fazia quanto tempo que ele sabia da Nina e do Sebastian?"Posso falar também que eu não to conseguindo não comparar a Gabrielle com todas as outras? Eu não devia fazer isso, eu realmente preciso me esquecer um pouco dela.Legal que eu escrevo isso em um caderno FEITO para falar sobre do que eu gosto nela."A próxima página estava desenhada, não escrita. Era eu, assim, eu podia jurar. Era uma menina de costas, de vestido e olhando por uma janela. Era simples, mas ele tinha pintado de qualquer jeito. E embaixo, estava escrito, "Tá, desisto. Vou precisar de mais algumas aulas com Melody para conseguir melhorar isso."Eu quis rasgar aquela página, para guardá-la comigo. Mas eu queria o caderno inteiro também! Não queria deixar nenhuma para trás! Num impuso, eu abracei o caderno contra mim. Era idiota, estar abraçando um amontoado de papel. Mas eu já sentia tanto carinho por ele, tanto amor pelas palavras escritas ali! Eu precisava guardar cada uma daquelas páginas comigo, para o resto da minha vida.Depois de alguns minutos de amor pelo caderno, eu voltei a apoiá-lo no meu colo, e virei a página."Eu sei que esse caderno é para falar sobre o que eu GOSTO na Gabrielle, mas posso falar de uma coisa que eu odeio?Ah, claro que posso. O que estou dizendo? Esse caderno é meu. Eu posso fazer o que quiser com ele. Ainda mais depois de já ter estragado-o completamente com aquele desenho.Eu ODEIO como a Gabrielle está fugindo de mim! Ela nem parece querer me ver! Eu odeio como ela ri alto e feliz perto das outras selecionadas, como se fosse a pessoa mais alegre do mundo. Aí é só eu chegar perto, que ela perde o sorriso e fica toda rígida.O que eu fiz de errado?Tá, melhor nem tentar responder essa pergunta."Eu passei a página, me lembrando bem de como eu me senti nos dias depois da festa de aniversário de Sebastian. Parecia que tudo tinha acontecido mil anos atrás, era como se eu já fosse uma pessoa completamente diferente."HÁ!" Ele escreveu BEM grande na próxima página, tanto que teve que usar a outra para explicar o que ele queria dizer."NÓS TIVEMOS O ENCONTRO PERFEITO. PERFEITO.Amo como ela consegue transformar uma coisa ruim em boa. Em ótima! Eu tinha planejado tudo certinho, só tinha me esquecido de procurar a previsão do tempo. Parabéns, Charles. Parabéns.Mas mesmo quando choveu, mesmo quando nós tivemos que nos esconder da chuva, ainda foi perfeito. Ela fez ficar perfeito.Já falei que ela é perfeita?Eu AMO como ela ficou encantada com a vista. Amo o jeito que ela comeu seu croissant, como não se fez de delicada de novo, se soltando perto de mim.Amo que ela gosta tanto de escuro. E pelas luzes.Eu amo o jeito que ela vê o mundo. É como se tudo fosse importante, tudo tivesse sua beleza. Eu quero ver o mundo assim. Ela me faz querer ser melhor, querer olhar para os lados e apreciar o que eu tenho. Não só como príncipe, mas como humano."Eu tive que enxugar uma lágrima que escorreu pela minha bochecha. Eu sempre quis que alguém me visse daquele jeito, eu sempre quis ser entendida assim.
"Eu amo como ela é grata. Isso existe do jeito que eu estou pensando? Ela é humilde e tudo para ela já é uma vantagem. Ela não é pretensiosa, não é gananciosa. Ela sabe da benção de ser quem ela é e ela é grata por isso.Espera, eu estou enlouquecendo aqui? Sou só eu que vejo isso? Será que é o vinho falando por mim?"Eu passei a página, rindo daquilo em meio às lágrimas que insistiam em cair."Eu amo o jeito que ela fala da irmã dela. O carinho e a admiração que ela tem por ela é incrível. Eu já consigo imaginá-la olhando assim para os nossos filhos.Droga, olha eu já pensando em filhos. Esse caderno era para me ajudar a questionar se eu realmente estou apaixonado por ela. Não pra entregar o ouro assim.Eu gosto do jeito que ela reage a fofoca. Ela nem tem vergonha, nem tenta esconder! Ela ficou inconformada quando falei de Nina e Sebastian. E de um jeito muito legal. Não dá para explicar, mas a energia dela é contagiante. Ela me relaxa, sei lá. Eu gosto muito de ficar do lado dela.O jeito que ela gargalhou quando eu fingi me esfaquear no estômago. Aquela é uma brincadeira que eu nunca faço com ninguém além de Sebastian. E ela achou a coisa mais engraçada do mundo.Foda. Completamente foda. O jeito que ela me faz sorrir só de escrever isso. Foda.Já falei que eu amei quando ela jurou não se importar com a chuva estragando nosso encontro?"Eu voltei a abraçar o caderno, me lembrando daquele dia. Tinha sido perfeito. Simplesmente perfeito. Talvez exatamente por não ter sido perfeito, que era. Eu não mudaria um segundo daquele dia."O jeito que ela olha para mim a cada dois segundos durante o jantar. E como ela sempre ria, mesmo que eu fizesse alguma careta retardada.Como toda vez que eu penso em alguma ideia de encontro legal para qualquer outra selecionada, eu sempre quero guardar para ela."A próxima página estava em branco. Achei esquisito de novo, mas dessa vez nem parei para me perguntar muito o porque.Até que eu cheguei na próxima."Eu podia jurar que tudo estava bem. Eu não sei porque ela faz isso comigo. Em um segundo eu acho que está tudo bem, que ela realmente gosta de mim. No outro ela simplesmente se recusa a sair comigo. Eu esperava mais dela.Eu odeio esse jeito dela de eu nunca conseguir saber o que ela está pensando. Eu não sei se ela se importa comigo, se eu estou me arriscando aqui."Eu não tinha a MENOR ideia do que ele estava falando. E então eu me lembrei do dia em que ele tinha me deixado esperando por ele na floresta sozinha. Mas não fazia o menor sentido! Por que ele pensava que eu o tinha recusado? Será que eu tinha falado alguma coisa sem querer e ele tinha pensado que eu o estava recusando? Será que era por isso que eu tinha ficado sozinha lá? Eu tinha dado a impressão de recusá-lo e depois eu fui mesmo assim?Quando eu passei a página de novo, minhas lágrimas tímidas já não eram de felicidade, mas de apreensão. Eu já estava com medo do que ele poderia dizer. Eu não gostava de o ler falando que me odiava nem de brincadeira."GRAÇAS A DEUS. Ela não quer ir embora. Eu preciso dizer que gosto muito disso nela.E de como ela me surpreende sempre. Ela é bem mais madura do que eu esperava. Bem mais do que eu mereço. Ela nem sabe o quanto ela é perfeita.Eu gosto que ela é sincera comigo. E que ela quer que eu fale com ela quando eu tiver algum problema (não sei porque eu teria, mas mesmo assim). Ela é honesta, ela não faz joguinhos. Ela deixou claro que quer estar comigo. E eu gosto muito, muito disso.Eu gosto do jeito que ela me beija. Posso falar isso? Gosto de como me abraçava, como parece que nunca quer me largar.E eu gosto também de beijá-la! Se eu pudesse, eu passaria todos os dias do resto da minha vida a beijando. Não existe nada no mundo que se compare, não existe nada que valha meu tempo. Não depois de eu já a ter tido comigo. Não dá nem para eu fingir que eu quero outra pessoa. Eu só quero ela.Eu gosto de como ela me tira o sono. Eu podia me irritar de não conseguir dormir, de sentir falta depois de todas as horas que passei em claro. Mas eu não me importo de ter que batalhar contra o sono durante o dia. Não quando eu posso pensar nela a noite inteira.Eu gosto de como ela me faz sentir. É como se eu fosse invencível. Eu tenho vontade de sair por aí, fazendo o que der na telha. Ela me faz querer ser impulsivo, espontâneo. Ela me faz querer viver.Ela me faz querer ser eu mesmo. Eu posso parar para pensar sobre trocar de lugar com outra pessoa, alguma com uma vida mais fácil, quem sabe com menos privilégios, talvez até poderes mágicos. Mas eu nem consigo sonhar com outra coisa. Quando eu a tenho aqui do meu lado, eu não consigo querer mais nada. Eu só quero ela."E foi com esse cara, que estava ali do meu lado, que me queria desse jeito, que eu gritei falando que preferia nem olhar de novo para a sua cara! A culpa daquilo voltou a me assombrar e eu ficava cada vez com mais medo daquele caderno não ter um final feliz. De eu chegar à última página só para ler que ele já tinha desistido de mim.Eu quase fui até a última página para ver se era isso mesmo que me esperava. Mas eu me segurei. Eu precisava ler conforme ele tinha escrito. Então eu virei mais uma página.Essa me assustou mais ainda. Estava riscada, quase inteira. Não de propósito, mais como por tédio. Depois eu passei mais uma. A letra de Charles estava pequena e difícil de ler."Tudo. Quer saber por que eu a amo? Por tudo. Tudo que ela faz, tudo que ela é. Esse caderno é inútil. Eu não preciso de razões, não preciso listar nada. Eu sei que a amo, eu sei que eu preciso dela. Não preciso me convencer, preciso aceitar. Eu sei disso, eu sei no fundo do meu peito que eu a amo. Eu preciso que ela sabia disso também.Eu preciso vê-la de novo. Preciso falar com ela, preciso que ela esteja bem.Mas se ela não estiver-Eu preciso que ela saiba o quanto ela é importante para mim. Preciso que entenda que eu a amo, que eu não quero passar mais nenhum dia longe dela. Eu não conseguiria sobreviver sem ela. Eu não saberia respirar. Eu sentiria tanta falta de cada coisa que ela faz, do jeito que ela faz tudo, eu perderia tanta coisa que eu não sei mais viver sem. Eu não sobreviveria. Eu preciso dela. Ela tem que estar bem! Ela tem que voltar para mim!Será que ela sabe que eu estou morrendo aqui? Que ser tão inútil está acabando comigo? Será que ela sabe que eu não consigo ficar sem ela? Que eu nunca vou conseguir me perdoar se alguma coisa acontecer com ela? Será que ela entende o quanto eu a amo? Por que eu não disse antes? Por que eu sou tão idiota?! Eu devia ter dito, eu devia ter acabado com toda a Seleção na hora em que eu a vi. Eu nem teria começado direito, pelo menos faria história com a minha Seleção.Eu devia ter acreditado em mim mesmo, ter confiado em como eu me sentia. Eu devia ter eliminado todas as outras. Se eu pelo menos tivesse me deixado levar, se eu tivesse pelo menos mostrado o quanto eu me importo com ela! E agora deus sabe onde ela está! Eu nem sei se ela entende, se ela sabe o quanto isso está acabando comigo. Eu preciso que saiba. Eu tenho que fazer alguma coisa!Eu sinto falta do seu cheiro, da sua risada. Ela não sabe o quanto ela alegra esse castelo gelado só de andar por aí, sorrindo para tudo e todos. Sinto falta até de quando ela me ignorava. Eu tinha um objetivo, conseguir que ela sorrisse para mim. Eu podia ir atrás dela, pensar nela com carinho. Imaginar que ela estava logo abaixo de mim, talvez também rolando pela cama, pensando em mim. Eu sinto falta de poder pensar nela sem sentir como se o mundo estivesse desabando em cima de mim. Eu sinto tanta falta dela!Ela tem que estar bem! Eu me recuso a passar o resto da vida procurando por ela nos olhos de outras. Me recuso ter que me contentar com outra pessoa. Eu prometo, se acontecer alguma coisa com ela, eu prometo que eu nunca mais vou olhar para outra menina. Eu prometo. Eu juro. Eu só preciso que ela fique bem. E se ela ficar, eu juro que eu nunca mais vou deixá-la se esquecer de como ela é especial. Eu juro que eu vou contar para ela todas as vezes em que ela me fizer perder o ar, todos os sonhos que eu tiver com ela, dormindo ou acordado. Eu juro que vou fazer dela a pessoa mais feliz do mundo a cada segundo de cada dia, para o resto da vida dela. Do lado dela, ou não. Como seu marido ou amigo. Eu me contentaria como amigo, não me importo de passar minha vida a observando de longe. Mas eu preciso que ela esteja bem. Ela tem que sobreviver. E bem! Ela tem todo um futuro brilhante que espera por ela. Eu não suportaria ser o culpado de roubar isso dela! Ela tem que ficar bem para eu poder vê-la feliz, seja no meu braço ou no de outro.Eu juro que se ela voltar bem, eu nunca mais vou deixá-la duvidar sobre como eu me sinto. Eu a amo. Eu a amo."Eu tive que parar de ler e soltar o caderno para poder enxugar as minhas lágrimas com as duas mãos. Eu tentava não estragar a minha maquiagem, não sabia quanto tempo eu tinha até o grande evento da Amélie. Mas as lágrimas insistiam em vir sem parar, o que deixava tudo mais difícil ainda.Eu me lembrava bem de quando eu ainda estava no cativeiro. Eu duvidava, eu realmente duvidava que ele se importava tanto comigo. Eu me perguntava, eu não sabia. Se eu pelo menos soubesse, talvez tivesse sido mais forte! Se ele tivesse me contado, eu nunca, NUNCA falaria que preferia não olhar de novo para ele. Não importava o que ele fizesse, depois de ler palavra por palavra, eu percebi que era eu quem sentia aquilo. Eu me coloquei no seu lugar e eu entendi, eu entendi o que ele dizia. Eu também não me importaria de passar o resto da vida o olhando de fora, contando que eu soubesse que ele estava bem. Eu que não conseguiria viver sem ele. Eu que ficaria LOUCA se ele tivesse sido sequestrado.E eu sabia que ele já achava que não era assim. E talvez fosse por isso que ele tinha feito aquilo por Gregor, lhe dado um julgamento. Porque ele entendia que aquele seria o jeito de me fazer feliz, mesmo sem ser do lado dele!Quando eu percebi isso, eu tive um impulso de ir atrás dele. Mas assim que me levantei, eu voltei a me sentar. Ainda tinha páginas para eu ler. Eu precisava saber a história inteira antes de sair de lá. Eu precisava entender tudo que ele tinha pensado antes de ir atrás dele, para tentar me explicar."Sabe o que eu amo?" Ele continuou na próxima página, sua letra bem mais calma agora, menos nervosa. "Eu amo que quando eu fui salvá-la, ela que me salvou.Eu amo que até quando eu estava apagado e lotado de antibiótico, eu só sonhava com ela.Mesmo que alguns sonhos tivessem sido pesadelos, todos eram com ela. Por ela.Eu gosto de como ela dorme, se agarrando ao travesseiro, como se realmente estivesse aproveitando cada segundo de sono.Eu gosto de como ela respira fundo dormindo, viva e bem. Eu gosto de como ela franze as sobrancelhas quando está dormindo. Gosto do mini sorriso que fica em seu rosto, como se o seu sonho a confundisse, mas fosse bom demais para ela não sorrir.Gosto dos seus cabelos cobres jogados pelo travesseiros, cada mecha indo em uma direção. Gosto de vê-la dormindo, gosto de poder me sentar do lado dela e saber que ela está bem."A próxima página estava vazia, e eu a passei rapidamente, curiosa para saber como ele terminaria."Eu gosto de como ela se importa com todo mundo à sua volta. Gosto do jeito que as suas criadas falam dela e de como a minha mãe também parece ver essa bondade nela. Gosto que ela é a combinação perfeita de humildade com honestidade. Que ela sabe do que é capaz e do que não é, mas que isso não a abala. Ela sempre parece disposta a tentar tudo pelo menos uma vez, ela nunca tem medo de errar. Ela sempre quer aprender, ela sempre dá uma chance para todo mundo. Pelo menos uma vez. Eu gosto de como ela afeta todos à sua volta. De como ninguém consegue conhecê-la sem se encantar. Até a Nina, a mais doce das criaturas da terra, fala de Gabrielle como se ela fosse perfeita.E ela é. Perfeita. Eu nunca vou conseguir entender como ela consegue ser tão perfeita. Eu nunca vou conseguir explicar, eu só sei sentir. É uma certeza que eu tenho, certeza absoluta. Eu posso não saber de mais nada, posso não entender de mais nada. Mas disso, eu tenho certeza. Ela é perfeita."Eu estava sorrindo de orelha à orelha até virar a próxima página."Eu ODEIO algumas coisas nela também. Como, por exemplo, ela fica me questionando. Ela não aceita o que eu falo como verdade absoluta, ela me faz pensar sobre aquilo. Ela não me deixa simplesmente mandar o seu SEQUESTRADOR para a cadeia esperar sua pena de morte. Não, ela TEM que me contestar. Ela TEM que ir contra. Tem que gritar comigo e ameaçar nunca mais olhar para mim só por eu não querer deixá-la tentar lutar por aquilo que ela quer.Eu ODEIO que ela me faça mudar de ideia. Eu odeio como ela consegue me fazer admitir que estou errado. Mas eu também amo isso. Eu realmente amo isso.Eu já consigo ver a vida que eu levaria do seu lado, sempre aprendendo alguma coisa. Nós somos parecidos o suficiente para passarmos anos juntos, mas diferentes o suficiente para sempre crescermos juntos.Ela mostra compaixão por quem menos merece. Na hora em que é justificável ser cruel, ela mostra bondade. Eu não sei se algum dia eu vou conseguir ser digno dela. Mas eu sei que eu vou tentar, eu vou me esforçar.Porque eu amo isso nela. Eu amo essa bondade, eu amo esse jeito dela de lutar pelo que acredita, de bater o pé e não deixar ninguém passar por cima da sua cabeça. Por mais que isso signifique ela ficando brava comigo, eu nunca vou conseguir explicar o quanto eu admiro isso nela.Mas eu vou tentar. Se ela me deixar eu vou tentar."Eu passei a próxima página, só para perceber que era a última e que a contra capa do caderno estava logo ali."Se você me deixar, Gabrielle, eu prometo passar o resto da minha vida te mostrando o quanto eu te amo! Você me faz o cara mais feliz do mundo e se você me deixar, eu vou passar o resto dos meus dias tentando te fazer se sentir do mesmo jeito!Se você me der uma chance, se você perdoar por não ter te ouvido, venha me encontrar agora.""Agora?" Eu perguntei em voz alta para ninguém.Aquela era a última coisa que tinha escrito ali. Eu revirei o caderno, procurando mais alguma dica, mas não tinha nada. Como ele sabia quando eu leria tudo?Foi quando eu me lembrei daquela manhã, eu não podia sair, mas a Nina podia. E as minhas criadas fizeram questão de me arrumar.Eu corri para a penteadeira para me maquiar de novo, escondendo todo o estrago das minhas lágrimas. Meu estômago estava embrulhado e minha perna não conseguia parar de balançar. Eu arrumei o que dava, eu queria sair de lá o mais rápido possível! Eu já estava pronta para correr pelos corredores até onde eu achava que ele estava. Eu já ia mirar o seu quartoQuando eu destranquei a porta e saí, o corredor estava todo apagado. Completamente apagado. Escuro, salvo por algumas poucas luzinhas que iluminavam desde a minha porta até a esquina. Eu as segui, sem saber direito o que estava fazendo. Eu me apoiava na parede e ia com cuidado. Alguma coisa me dizia que aquilo era por mim. Que era o seu jeito de me guiar. Eu estava um pouco apreensiva, o que só me deixava ainda mais nervosa, ainda mais enjoada. Ele não precisava ser tão amável! Eu já teria me contentado com o caderno.Mas eu também estava aproveitando tudo aquilo. As luzinhas me guiaram pelo corredor até chegar nas escadas. Não havia mais ninguém em volta, nenhum guarda, nenhuma selecionada, nenhuma criada. Eu desci degrau por degrau já olhando lá de cima aonde elas levavam. Eu podia jurar que ele estaria no seu quarto, mas não me importava de seguir para onde quer que ele me levasse.Meu coração batia forte quando eu cheguei ao próximo corredor e vi que as luzinhas levavam até o Grande Salão. Era como se ele soubesse antes de mim o que ia acontecer, como se ele pudesse ver no futuro, como se já estivesse sorrindo por mim.Eu prendia a minha respiração conforme andava lentamente até a porta do Grande Salão. Eu me peguei imaginando quem estaria ali, o que me esperava. Eu podia jurar que ia desmaiar quando segurei nas maçanetas das portas duplas. Tive que parar um segundo para respirar fundo e me recompor, tentando ficar de pé nas minhas pernas bambas. E então, com meu coração já na minha garganta, eu girei as maçanetas e abri as portas.
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